revista de cultura # 63
fortaleza, são paulo - ma
io/junho de 2008






 

A poesia de Fernando Echevarría

Maria João Reynaud

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Fernando Echevarría1. O seu livro de estreia, Entre dois Anjos, [1] foi publicado em 1956, abrindo o longo caminho poético que conduziria a Epifanias, obra editada em 2006 e que assinala os seus 50 anos de vida literária. [2] Segue-se Obra Inacabada, um volume de 845 páginas, em papel Bíblia, onde o poeta reúne os livros editados entre 1956 e 2006, acrescentando-lhes um inédito. Ambos os livros foram distinguidos pela crítica: ao primeiro coube o Prémio D. Dinis, enquanto o Prémio Sophia de Mello Bryner Andresen, em primeira edição, veio contemplar a totalidade desta vasta obra, que retirou força e prestígio do quase silêncio em que foi crescendo.  

Tréguas para o Amor, o segundo livro de Fernando Echevarría, (1958), veio confirmar uma vocação poética sem paralelo, que começa por se evidenciar na estrutura rigorosa dos versos, sendo o último livro publicado antes da sua partida para Paris, no final de 1961. O seu terceiro título, Sobre as Horas, só sairá em fins de 1963, quando o poeta já se encontra a residir em Argel, comprovando as qualidades anteriormente reveladas e marcando um momento alto da poesia portuguesa nos inícios da década de sessenta.

A prolongada situação de exílio a que o poeta esteve sujeito distanciou‑o dos circuitos editoriais portugueses da época. Durante esse período, publicou Ritmo Real (1971), escrevendo livros que só foram posteriormente editados. É o caso de A Base e o Timbre, editado em Fevereiro de 1974. Depois do 25 de Abril, Fernando Echevarría continuou a trabalhar e a viver em Paris, dando início a um novo e fecun­do ciclo de produção literária, Nos anos que se seguiram, publica Media Vita (1979); Introdução à Filosofia (1981); Fenomenologia (1984); e Figuras (1987).  

 

Mayte Bayon2. Fernando Echevarría sempre recusou as opções estéticas que lhe poderiam trazer um êxito imediato. Preferiu construir a sua obra num sereno isolamento, assumindo a vocação poética como a procura de uma essência interior que só se atinge através de uma ascese intelectual contínua; articulando a intuição e a reflexão num movimento de alcance metafísico. Na sua concepção, a poesia não é apenas técnica, ofício, mas um modo superior de aperfeiçoamento espiritual que se conjuga com um sentido permanente do mistério do ser. Por isso, não fez concessões a modas, pondo o trabalho acima da inspiração. No entanto, poucos poetas da sua geração terão sabido conjugar de um modo tão perfeito a intuição criadora e o apuro formal dos versos.

Os seus livros, de uma respiração invulgarmente ampla, ostentam títulos embaraçosos para o leitor comum. Alguns, por demasiado escrúpulo, foram mesmo conviver com compêndios de filosofia nas estantes de algumas livrarias. Mas tudo isto abona, ao fim e ao cabo, em seu favor. Precisamente, porque a grandeza da arte é proporcional à capacidade de o criador se subtrair às pressões exteriores e às estratégias que conduzem a uma visibilidade imediata, que é frequentemente confundida com o talento.

 

3. Descobri a poesia de Fernando Echevarría na década de 80, com alguma perturbação e perplexidade. Era uma voz desencontrada das vozes familiares dos meus poetas preferidos. Situava‑o na linha descendente de Fernando Pessoa, ou, mais amplamente, na da poesia intelectual moderna, apesar da singular ressonância do seu timbre poético. Além disso, havia nele uma austeridade que me lembrava alguma poesia de Vitorino Nemésio. Contudo, o que mais me surpreendia era o desenho barroco dos seus versos, cujo apuro se evidenciava nas contorções sintácticas e no modo abrupto de estancar o ritmo. E a arte de diferir o sentido na arquitectura vertiginosa das estrofes: a ideia que se insinuara através de uma palavra, de uma frase, ou de uma imagem acabava por desvanecer‑se no labirinto do poema, que se fechava musicalmente sobre si mesmo, deixando a pairar uma luminosidade difusa. Este barroquismo remanescente, que lhe caldeava o estilo, fazia adivinhar o seu fascínio pelas elipses obscuras de Gôngora e pelas “analogias truncadas” de Mallarmé. A busca de um lirismo abstracto e essencial aproximava-o dos poetas espanhóis da Geração 98 (António Machado e Juan Ramón Jiménez) e da Geração de 27 (Jorge Guillén e Pedro Salinas).

Depois, livro a livro, foi‑se­me revelando a magnitude de uma poesia de vocação ontológica, onde as imagens mais elementares alternam com a pura abstracção. Uma tal vocação não significa porém qualquer subordinação da poesia à filosofia, uma vez que se verifica uma anulação do significado conceptual no espaço rodopiante de uma imaginação que, com base num léxico concentrado, age de modo a fundar uma ordem poética que se configura como uma disposição meditativa onde se espelha o mistério do ser.

A vivência da poesia como um êxtase temporal, ou como uma recusa da negatividade da finitude, leva a que se estabeleça uma continuidade natural entre o finito e o infinito. Muitos poemas configuram‑se como meditações sobre o ofício poético; ou como experiências de criação in vivo, que supõem uma consciência desdobrada, fazendo surgir uma terceira pessoa (delocutiva) que representa o grau máximo de distanciamento e de objectivação do sujeito lírico.

 

Mayte Bayon4. Já foi sublinha­da a importância que o olhar adquire nesta poesia. O poema torna‑se no espaço fluido onde se opera uma continuidade entre o “ver” e o “dizer”, inscrita na própria etimologia do verbo dicere, que tem a mesma raiz de deiknumi (mostrar, fazer ver, fazer aparecer, etc.). Ver é um acto enunciativo que opera a fusão entre o mundo interior da consciência e o mundo exterior a que ela se abre. E, simultaneamente, uma forma de pensamento poético, em que o espírito e a matéria se acham inextrin­cavel­mente unidos. A recusa da clivagem idealista entre o sensível e o inteligível deve ser porém inter­preta­da como a primei­ra fase de um vasto movimento de “abertura ao Ser”. Numa segunda fase, o olhar alarga‑se para lá dos limites do visí­vel, acedendo a uma não‑visibilidade essencial, onde se oculta o seu mistério. Este processo torna-se patente no mais ecfrástico dos seus livros: Uso de Penumbra (1995), onde a arte aparece como dimensão essencial do ser.

A importância da herança simbolista nos poetas da década de 50 é realçada pelo próprio poeta [3] numa entrevista publicada n’A Phala Um Século de Poesia (1888-1988). No que se refere à sua poesia, ela traduz‑se não apenas no aprofundamento da experiência poética, mas numa firme consciência formal que convive harmoniosamente com um conjunto de traços que permitem definir um estilo forte, numa sintaxe feita de irrupções, culminâncias, reincidências. Entre eles, destaca‑se a memó­ria arcaica de uma língua rural que tonaliza a vertente telúrica do seu decantado lirismo. Este aspecto, que ganha uma particular acuidade em Sobre os Mortos (1991), adquire uma importância fulcral nas Geórgicas (1998), livro onde a condição telúrica do homem é celebrada na sua dimensão de abertura ao Sagrado, através da linguagem reunificadora da poesia. Depois destes, outros grandes livros se seguiram. Em Introdução à Poesia (2001), o exílio impõe-se como tema maior, convocado nas duas epígrafes retiradas das Tristia, escritas por Ovídio durante o seu desterro no Ponto. A melancolia do exílio, que domina o livro, transforma a saudosa língua de luz da pátria amada numa língua de pranto “onde um recolhimento marejado / sofre marés. Que ainda mais exilam / a obra [...]”.

Não é, pois, de ânimo leve que se enfre­nta a complexidade da obra de Fernando Echevarría nem a espessura pouco comum da maior parte dos livros publicados. A admirável transparência dos seus versos convoca‑nos para um universo poético de uma pureza ímpar, resultante de uma longa gestação espiritual. O tempo, a morte, o amor são os temas universais de uma poesia que brota da raiz mais funda da vida e se dá a ler como “uma lavoura de luz interior” fecunda e íntegra (Geórgicas, 1998).

Em Epifanias (2006), um dos seus livros mais recentes, a palavra traz consigo o estigma da Culpa e a nostalgia do Uno, consignados na incolmatável “cesura” que é um dos leitmotiv não só deste livro mas de toda a obra até hoje publicada. A “cesura” corresponde ao “transe” poético em que o sujeito transita, através de fronteiras amovíveis, de um aquém delimitado para um “além” inconfinável, onde se prefigura uma nova ordem, que é contudo enigmática:

“Chamou-lhe silêncio. E era apenas / um lúcido lugar. Mas que assentava, / deixando em cima a vácua transparência / de uma cesura. E mais nada. / Vinha-lhe o nome desse lapso. Dessa / rapidez elíptica de pausa / que o anjo deixaria, se na festa / o súbito rapto da algazarra / entrasse em atenção. E na evidência / de fronteiras que desabam / para nula ficar, embora aberta, porta nenhuma.” (Obra Inacabada, Epifanias, p. 772).

Mayte BayonÉ nesse “lúcido lugar” que ocorre a epifania poética, restituindo instantaneamente à palavra o poder de nomeação que permite “fundar o que permanece”. Tal como Hölderlin no poema “Regresso”, o poeta é tocado pelo fogo celeste, ou pela divina dádiva, ficando “exposto ao ser” e a padecê-lo. A criação poética é, pois, um acto espiritual gratuito, sopro sagrado que se confunde com o sopro vital e que torna possível a manifestação do que estava oculto: “epifanias” são actos de nomeação impostos pela súbita presença de coisas que, na sua absoluta imponderabilidade, se tornam imagens delas mesmas. De facto, como escreve Bachelard, mais do que imagens propriamente ditas “os versos concentram possibilidades de imagens”. Quem os lê é que transforma tais possibilidades em imagens dinâmicas, através de “um jogo infinito de associações que é semelhante ao sonho”. [4]

Na poesia de Fernando Echevarría, a linguagem é um instrumento de mediação entre o mundo natural e o mundo espiritual que tem de ser em si mesmo aperfeiçoado, de modo a adquirir a virtude que, como escreve Nietzsche, permite ao signo ascender à condição de imagem. Podemos então falar, à maneira de André Breton, de signos ascendentes, os quais se tornam “imagens em ascensão”, libertas da lei da gravidade que afecta a realidade natural de que provêm e que neutralizam a oposição entre o alto e o baixo; a superfície e a profundidade, a exterioridade e a interioridade. Mas esse movimento ascensional é simultaneamente uma ascese, que exige desafectação e concentração no essencial. Repare-se que o poema de abertura do livro, que tem por título “Oração para antes do estudo”, nos diz isto mesmo. A palavra “estudo”, também presente noutros poemas, abre um movimento auto-reflexivo que aponta para uma teorização não apenas da “epifania”, mas do próprio acto poético:

“Dai-nos senhor um coração humilde./A inteligência de aceitar agora / que só a si o estudo se ilumine/ e nele se esqueça o estudante. A cópia / do que estudarmos em nós viva, a fim de / que apenas o estudado seja porta.” (Obra Inacabada, Epifanias, p. 753).

O apagamento da figura do poeta face ao carácter sagrado da tarefa é a própria condição do exercício da poesia enquanto via iluminativa e unitiva. E sendo o destinatário do poema Aquele que se identifica com um horizonte infinitamente aberto, só podemos concluir que a verdade poética se plasma “nesse tempo vivo / que tem a eternidade no seu luto / palpitante, translúcida. De ritmo / a transferir-se para além do estudo” (Obra Inacabada, Epifanias, p. 754).

Em Epifanias, reencontramos os temas maiores de Fernando Echevarría – o amor, a solidão, o envelhecimento, a morte, articulados por um léxico da intuição (e intueor significa, em latim, “olhar atentamente”, mas também “ver”, “avistar”); e por “uma imaginação do movimento” [5] que se traduz no uso frequente do infinitivo e, sobretudo, do gerúndio em formas perifrásticas que assinalam o valor aspectual durativo, uma das marcas estilísticas que dá à sua voz uma feição peculiar:

“Foram entrando. Povoaram essa / cintilação escura de hemisfério / de onde surdia a saudosa festa / de nos olharem por além do tempo.[...]” (Obra Inacabada, Epifanias, p. 763)

Mayte BayonO sentimento de plenitude que o leitor volta a experimentar ao ler estes poemas resulta, sem  dúvida, do esplendor de uma língua poética que recupera a plasticidade da sintaxe latina e incorpora a memória de uma língua rural, por vezes próxima da vernaculidade de Bernardes e Vieira. Rigorosamente escandido, o verso não deixa por isso de se impor na sua especular leveza, assegurando a transparência do enunciado. Próxima de “um dizer angélico” – metáfora que uso para designar uma poesia onde o acontecimento é, desde sempre a palavra, na sua condição alada  em ascensão para a luz:

“Tudo sobe a palavra. / É nela que aparece / a sua onda dada / à luz. Ou a semente / desdobra a lomba magna / da intimidade. Expende / o em si e a abundância / de estar-se dando sempre / àquela outra entranha / que a dá quando recebe.”

 

NOTAS

1. Livro com cuja primeira versão, ainda inédita, concorrera, em 1954, ao Prémio Almeida Garrett, do Ateneu Comercial do Porto.

2. Fernando Echevarría nos 50 Anos de Vida Literária, actas do Colóquio Poesia e Transcendência, 21 e 22 de março de 2007, Universidade Católica Portuguesa/Centro Regional do Porto- Fundação Dr. Luís Araújo, Porto, Edições Afrontamento, 2007.

Obra Inacabada, Porto, Campo das Letras, 2006;

3. Cf. A Phala ‑ Um Século de Poesia (1888‑1988), “A Phala dos Poetas”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1989, p. 178.

4. Cf. Gaston Bachelard, L’Air et les songes, Paris, Librairie José Corti, 2001.

5. Cf. id., ibid., p. 7.

Maria João Reynaud (Portugal, ). Ensaísta e crítica literária. Autora de livros como Metamorfoses da Escrita – Húmus de Raul Brandão (2000), Fernando Echevarría: Enigma e Transparência (2001), e Sentido Literal – Ensaios de Literatura Portuguesa (2004). Contato: mjreynaud@netcabo.pt. Página ilustrada com obras da artista Mayte Bayon (Espanha).

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