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revista de cultura # 63 |
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Lembranças do carnaval de Pernambuco ou uma breve história do frevo Weydson Barros Leal
A memória prévia
A primeira vez em que estive perto do Galo da Madrugada foi no carnaval de 1981. Ainda era um bloco pequeno, ou mais uma curiosa agremiação que alegrava o carnaval de Pernambuco. Fundado, em 1978, como clube de frevo para reviver os antigos carnavais de rua, logo ficou famoso e recebeu, em 1995, o título de maior bloco de carnaval do mundo, no Guinness Book. No entanto, desde o começo, a minha participação no Galo da Madrugada se resumia a algumas horas de cortejo ou no que se convencionou chamar de “concentração”, nos arredores do Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José. Até hoje, nos sábados de Zé Pereira, o encontro de fantasias, trios elétricos e uma multidão de pernambucanos e turistas que se reúnem no Forte transformam a “concentração” num carnaval em si, e todo mundo se sente parte do Galo. Participar de um desfile do Galo da Madrugada, acompanhando a multidão no chão, ao lado dos enormes caminhões das bandas que animam a folia, é uma experiência indescritível. É preciso estar lá. É preciso ir para saber. Naquele carnaval de 1988, o desfile do Galo foi para mim mais do que uma experiência de carnaval, ou mais do que participar na íntegra do que eu ainda não vivera. Desde os jardins do Forte, passando pela avenida Dantas Barreto e entrando na rua da Concórdia – nome perfeito para uma rua que é só festa neste dia, o grupo de amigos não parava de crescer, e aos poucos eu tinha a sensação de que toda a turba era uma grande confraria. Claro que, passados 20 anos, ou mesmo nos próximos 20, aquela confraria será sempre abstrata e incalculável – ou não caberá sequer num livro de recordes –, mas para quem já esteve no Galo da Madrugada, a sensação permanecerá viva. Hoje, terminado o desfile de 2007, e outra vez tendo feito todo o percurso, mas agora observando tudo de cima de um dos enormes trios elétricos que fazem ferver a multidão, posso afirmar que aquela confraria continua lá, ungida com suor e cerveja, a ecoar a mesma alegria. Relembro algo curioso em relação ao bloco que inaugura o carnaval de Pernambuco. Desde as primeiras horas da manhã do sábado, e depois, ao longo de todo o cortejo, não se sabe dizer “onde é” ou até aonde vai o Galo: a festa está em todo lugar, o bloco é toda a cidade. A escultura do galinho imponente que nos primeiros desfiles era sua única e referente imagem em cima de um pequeno caminhão, mesmo ampliada no animal gigante e colorido que hoje olha para a Avenida Guararapes, se dissolveu num único e igualitário espírito de festa, e o Galo passou a ser a manifestação de uma cidade inteira em torno de um imenso carnaval.
Outros carnavais O Galo da Madrugada é o grande símbolo do carnaval do Recife. Representa a cidade e o Estado na memória afetiva da população e nos noticiários internacionais quando o assunto é a festa pernambucana. No entanto, o carnaval de Pernambuco, notadamente aquele marcado e embalado pela música do frevo, se espalha por todo o interior, pelos bairros da capital e cidades da região metropolitana, e forma um tecido cultural que é sua identidade. E o frevo, que não é só uma música popular no sentido das grandes multidões, mas uma construção sofisticada de letra e música, tendo entre seus autores maestros e poetas, abrange um público tão heterogêneo quanto pronto para a animação. Isso também explica um amor generalizado pelas suas mais diferentes formas, como o frevo-de-rua, o frevo-canção, o frevo-de-bloco, e suas variantes que há um século animam o carnaval de todas as classes sociais. Da periferia aos casarões, do Sertão às praias, todo pernambucano sabe cantarolar, desde muito pequeno, alguma melodia de sua música oficial. Mas, antes do frevo, peço licença para falar sobre outra manifestação do carnaval de Pernambuco. Refiro-me ao maracatu. O texto deste livro não pretende ser um estudo de história ou de sociologia do carnaval. Tampouco um comentário exclusivo sobre os 100 anos do Frevo, embora seja este o motivo de sua publicação. Por isso, e por ser o carnaval uma festa tão abrangente em sua multiplicidade de ritmos e expressões, permito-me citar esta que considero uma manifestação de primeira grandeza do carnaval pernambucano. Há alguns anos visitei o município de Nazaré da Mata, a 65 km do Recife, para conhecer in loco a apresentação de alguns dos mais importantes maracatus rurais do Estado. Acompanhei, durante todo um domingo, um dos caboclos do mais antigo grupo local, o Cambinda Brasileira, desde o rito da vestimenta até a sua apresentação, num quadrado de terra batida, como um salão de festas, no meio do canavial. Era como um grande ensaio, pois na segunda e na terça-feira de carnaval, 11 maracatus rurais, além de grupos de cavalo-marinho e coco-de-roda se encontram na praça principal da cidade para a festa. Chamo de rito o vestir a roupa e os pesados adereços do maracatu rural, porque isto envolve uma preparação quase religiosa, onde rezas e benzeduras muito sérias, feitas dentro da casa do caboclo, me fizeram lembrar passagens de Gilberto Freyre. É emocionante e belo, de uma beleza só equiparável à apresentação em si. Existem dois tipos de maracatus em Pernambuco. O maracatu rural e o maracatu nação. Os maracatus rurais são conhecidos como maracatus de baque solto. Surgiram na Zona da Mata canavieira, no século 19. O termo cambinda, como a maioria deles se denomina, significa uma brincadeira típica do carnaval, em que homens se vestem de mulher, o que ocorre com alguns membros que acompanham o cortejo. A diferença principal entre os dois maracatus é que o nação, ou de baque virado, se caracteriza pela apresentação de um cortejo real, com rei, rainha, damas e outros 30 ou 40 membros vestidos a caráter. Já a indumentária do maracatu rural, bem mais colorida e exótica, chega a pesar até 25 kg, entre cabeleira, gola, chocalho e lança – com a qual seus membros representam a figura de Ogum, o guerreiro. O misticismo africano, aqui, é fortíssimo. Nas apresentações mais completas, uma pequena orquestra acompanha as evoluções do grupo de lanceiros. A banda é formada por taróis, surdos, cuícas, gonguês e ganzás. No meio do grupo vai o estandarte, rodeado por damas com buquês de flores. Os caboclos, entre saltos e rodopios, abrem espaço com suas lanças, numa coreografia pessoal e instintiva. O elaborado colorido de suas roupas e adereços parece meticulosamente relacionado com o ritmo contagiante do maracatu rural. Quando vestidos e paramentados com a enorme cabeleira de papel celofane e a gola bordada durante todo o ano para a festa, dançando com suas lanças cheias de fitas, ao som dos chocalhos que carregam no surrão colado ao corpo, com os rostos pintados de urucum e uma flor entre os dentes, estes trabalhadores dos canaviais transformam-se em entidades míticas de uma festa que é alegria e mistério. Creio que, das expressões populares do carnaval de Pernambuco, nenhuma é tão impactante em seu sentido plástico e rítmico quanto o maracatu rural. Independentemente da riqueza de cada um, seja no interior do Estado ou numa rua do Recife ou de Olinda, a apresentação de um maracatu de baque solto é um espetáculo único. No entanto, os mais antigos maracatus de Pernambuco são os de baque virado ou maracatus nação. Suas origens remontam às tradições do rei do Congo, trazidas para o Brasil no século 18 pelos escravos vindos da África. Seus integrantes recriam uma corte luxuosa e colorida, devidamente vestida e paramentada. Coincidência ou não, o primeiro registro de um desses maracatus em Pernambuco data de 1711, exatamente em Olinda, quando a antiga vila, então cidade, ainda era capital do Estado. Isto talvez explique uma sonoridade ancestral quando escutamos esses grupos nas ruas e ladeiras da Cidade Alta ou no pátio do Mercado da Ribeira, fazendo suas evoluções nos dias de carnaval. Enfim, sejam os maracatus rurais ou suas versões urbanas, a emoção específica causada por cada um deles permanecerá viva nos sentidos de quem os veja. Assim como os maracatus, outras expressões da cultura popular, como os caboclinhos, os ursos e os papangus – estes com mais força no interior do Estado –, devem ser lembrados num livro sobre carnaval. Principalmente por sua beleza plástica e antropológica. Os grupos de caboclinhos da cidade de Goiana são um bom exemplo disso. Da mesma forma, lembro uma das mais belas manifestações da cultura negra inserida no carnaval do Recife – a Noite dos Tambores Silenciosos –, que acontece no Pátio do Terço, na terça-feira que antecede o fim da festa. No entanto, os caboclinhos, ursos e papangus prescindem de uma musicalidade que no frevo se aproxima de uma arte erudita. Os puristas de um e de outro lado talvez se levantem contra afirmações como essa, mas é assim que vejo a maioria das músicas de frevo. Mesmo como expressão popular, suas partituras tendem a permanecer como memória da cultura e da tradição.
Uma vez Olinda, sempre carnaval... Naquele sábado de Zé Pereira não choveu. Ou, se choveu, ninguém que estava no Galo da Madrugada de 1988 poderá lembrar. No fim da tarde, como de costume, o desfile se dispersava na avenida Guararapes, centro do Recife, e a apoteose dava lugar ao que já era saudade de mais um desfile do Galo. Há um fenômeno no carnaval. Quem dele participa, ao contrário das festas comuns, costuma deixar o cansaço ou qualquer sinal de esgotamento físico para depois da quarta-feira de cinzas. É estranho isso, mas no carnaval de Pernambuco, o mais popular e participativo do Brasil, o fenômeno se dá ainda mais forte. A Avenida Guararapes é o grande salão de festas do Recife. Lá está o umbigo do carnaval da cidade, como o de uma odalisca que emanasse beleza e alegria para todos os lados. E é lá que surge uma idéia comum para os mais animados foliões: terminado o Galo, ir direto para o carnaval de Olinda. O caminho é curto. Quase sempre à beira d’água. Desde a Ponte Duarte Coelho, onde ficou a enorme escultura do Galo, passando pelos manguezais que pontuam a divisa das duas cidades, uma paisagem fluvial e oceânica revigora quem segue viagem. Logo, Olinda está à vista, alta e imponente, e então outra curiosidade pode ser notada: sua proximidade – menos de 10 km do Recife – ou mesmo a idéia de um carnaval com seu nome dá a quem chega uma alegria diferente daquela vivida no carnaval do Recife, ou mais precisamente no Galo da Madrugada. Olinda tem um ar de poesia, uma coisa de história e eternidade que se mistura na própria idéia de uma cidade Patrimônio da Humanidade. É mais ou menos o que sentimos ao chegarmos numa casa cuja atmosfera – que aqui é temperada pela maresia e pela brisa de um mar tão próximo – nos dá a certeza de que algo maior está para acontecer. É como visitar um amigo ou voltar, depois de anos de guerra para uma Ítaca festiva, uma cidade da infância onde a glória de um país inteiro parece estar sendo comemorada com um carnaval. Olinda pode ser dividida entre a Cidade Alta – parte antiga e historicamente mais conhecida – e a área moderna do município, a Cidade Baixa, que se espalha ao nível do mar. O carnaval, como conhecemos hoje, embora seja um fenômeno recente, está em toda parte. No entanto, é nas ruas e becos da Cidade Alta, a partir do centro aglutinador no qual se tornou a sede da Prefeitura, que a festa acontece com mais força. São dezenas de agremiações oficiais e outras dezenas ou centenas de pequenas troças e blocos informais, inventados às vezes durante o próprio carnaval, que transformam Olinda num espaço democrático e popular de diversão. Não há restrições a quem quer seguir este ou aquele bloco, ou a quem queira estar durante horas por ruas e ladeiras ao lado de uma banda a cantar hinos e frevos memoriais. A tradição, e como toda tradição imorredoura e incansável, é repetir as marchinhas e seus refrões à exaustão, a toda hora, nos quatro dias de festa. E, em Olinda, os quatro dias também se comemoram antes e depois das datas oficiais.
Depois do Homem da Meia-Noite e da Mulher do Dia, a partir da década de 1970 surgiram dezenas de bonecos que até hoje fazem parte do repertório e do imaginário popular do carnaval de Olinda. Em sua maioria, esses brinquedos gigantes relembram tipos populares conhecidos ou idealizados, mas também homenageiam figuras famosas, políticos, cantores e outros artistas. Entre os bonecos mais lembrados estão o Lorde, o Tarado da Sé, o Carteiro, Maria Bonita, o Menino e a Menina da Tarde. O principal construtor de bonecos da cidade, Silvio Botelho, já perdeu as contas de quantos criou, mas o enorme elenco desses personagens enriquece uma tradição que está perto dos 100 anos. Capitaneada pela alegria dos bonecos, a mais importante característica do carnaval de Olinda é a participação de seus brincantes e foliões como fazedores da festa. Membros ou não de blocos, troças, clubes, ursos e outras agremiações carnavalescas, visitantes e moradores de Olinda participam da folia sendo parte dela, nunca como expectadores passivos em arquibancadas de passarelas. Quero deixar claro que não há, aqui, uma crítica comparativa em relação a outros carnavais do Brasil onde o desfile de bandas, afoxés ou escolas de samba, tendo seus expectadores em arquibancadas, são a razão de tudo. Ocorre que, em Olinda, a festa é idealizada e realizada pelo povo, acontece no meio do povo, e cada uma das pessoas que dela participa sente-se rei ou rainha da grande corte popular. No caso do Recife e de Olinda – o que também ocorre em municípios do interior, como Bezerros, Pesqueira, Triunfo, Goiana e outros – o poder público apenas atua como patrocinador ou organizando espaços onde a festa é realizada. Não se tem o número exato de troças, blocos, maracatus e outras agremiações carnavalescas que desfilam no carnaval de Olinda. Nem todas se registram de maneira formal, muitas nunca foram fundados e outras duram apenas quatro dias. No entanto, é comum afirmar que as mais velhas são o Maracatu Leão Coroado, de 8/12/1863 (embora tendo sido fundado no Bairro de São José, no Recife), e o Clube Misto de Lenhadores, de 1907, quase tão antigo quanto o Vassourinhas, seu principal rival no carnaval olindense, mais conhecido pelo frevo de mesmo nome e fundado em 1912. Na lista das mais tradicionais, não poderá faltar a Troça Carnavalesca Mista Cariri, uma das mais antigas, fundada em 1921. Embora formado por freqüentadores da orla e fazendo seu desfile em ruas e avenidas da Cidade Baixa, o Bloco Carnavalesco Virgens do Bairro Novo, fundado em 1953, tem história no carnaval de Olinda. O Bloco desfila no domingo que antecede o carnaval, com milhares de homens fantasiados ou caricaturados de mulher. Este é um desfile interessante, em que há premiações para categorias como a mais charmosa, a mais sapeca, a mais dengosa e a mais velha. No entanto, em anos recentes, o carnaval de Olinda tem criado novas possibilidades para o povo da própria cidade, com os chamados Pólos de Folia nos bairros. O bairro de Guadalupe é o principal deles, onde foi instalado o Pólo Cultura Viva, com apresentações de coco, afoxé, maracatu, ciranda e outras danças e ritmos, principalmente da cultura afro-brasileira. Guadalupe é considerado um “quilombo urbano”, e para lá vão algumas das mais de quinhentas agremiações que hoje fazem a festa de Olinda. Voltando para as ruas e ladeiras da Cidade Alta, entre uma infinidade de grupos, que até hoje fazem história no carnaval de Olinda, estão a Troça Ceroula de Olinda e o Grupo Carnavalesco Misto Os Patuscos, criados em 1962; A Porca, de 1969; A Burra, de 1974; Segura a Coisa, de 1975; os já tradicionais Siri na Lata, A Zebra, Flor da Lira e Eu Acho é Pouco, todos de 1976; o Grupo Folclórico Carnavalesco Maracafrevo e a Escola de Samba Preto Velho, ambos de 1974 – vale registrar que a divertida Troça A Jaula derivou-se dessa Escola de Samba; o Maracatu Rural Piaba de Ouro, de 1977; o Afoxé Araodé e o Clube Carnavalesco Marim dos Caetés, de 1982, este último surgido como dissidência da Pitombeira dos Quatro Cantos; a divertida Troça Carnavalesca Tarados da Sé, fundada em 1987 por músicos e artistas de Olinda; o Afoxé Alafin Oyó, de 1986; o Grupo Afro Axé da Lua, de 1988; o Maracatu Nação Pernambuco, de 1989; o Afoxé Irmandade dos Orixás, o maracatu Maracatudo e o Afoxé Oduduá, todos de 1990; o Bloco Misto Cantolinda, de 1992; o Bloco Batutas de Olinda, de 1993 e o Maracatu Estrela de Ouro, um dos mais jovens da cidade, fundado em 1996. Entre os maracatus, o Nação Pernambuco também pode ser visto como uma entidade importante na área da pesquisa do carnaval, uma vez que realiza estudos, registra e põe em prática novos ritmos e variações de batidas, reinventando a própria cultura do maracatu . Por fim, há o bloco fundado em 1965 pelo garçom de apelido “Batata”, que idealizou uma agremiação na qual desfilariam, no último dia de carnaval, garçons e outros profissionais que trabalharam nos quatro dias da festa. Por isso, há mais de 40 anos, nas primeiras horas da manhã da quarta-feira de cinzas, em frente à Sé de Olinda, uma multidão resistente e insone se reúne para homenagear e seguir o último bloco oficial do carnaval olindense: o Bacalhau do Batata. Os nomes de blocos e outras agremiações do carnaval olindense dariam um capítulo à parte num livro que buscasse a minúcia ou a etimologia de seus estandartes. Para cada um teríamos histórias que se multiplicam em divertidas explicações. Cito um deles: a Troça Carnavalesca Mista Mulher na Vara, fundada em 1993. Um de seus criadores, o animadíssimo diretor Carlinhos Porciúncula, explica assim o nome do grupo: “A troça surgiu de uma brincadeira entre amigos no carnaval de 93. Durante o desfile do bloco Pé Inchado, a foliã conhecida por Pintinho torceu o tornozelo e foi carregada em uma vara de goiabeira improvisada. Foi quando alguém, ao ver a cena, gritou: ‘Olha lá! Lá vem a mulher na vara!’ Desde o nosso primeiro desfile, a troça coloca cerca de 70 mulheres, uma por vez, é claro, em cima de uma vara com cinco metros de comprimento. No alto, as mulheres se equilibram como podem, numa dança regida com muita animação por uma orquestra de frevo. Cada uma se sente a estrela da vez e é endeusada em seus dois minutos de fama”. Quero registrar aqui a existência de alguns poucos, mas importantes blocos infantis no carnaval de Olinda, como o Eu Acho é Pouquinho e o Ceroulinha, derivados do Eu Acho é Pouco e do Ceroulas. Esses blocos, normalmente desfilando nas manhãs de carnaval, levam às ruas pais e mães conduzindo seus pequenos foliões, alguns ainda de colo, mas sempre cuidadosamente fantasiados. Acompanhando bandas de metais tão boas quanto as dos blocos que lhes deram origem, os adultos transmitem às novas gerações a alegria e a continuidade do carnaval de Olinda. Sejam troças, blocos, clubes de frevo, de bonecos, grupos afros, maracatus, escolas de samba, afoxés, ursos, caboclinhos ou a multidão de pedestres e passistas que segue pelas ruas de Olinda, tudo neste lugar compõe o quadro mais rico e original do carnaval brasileiro. Deste quadro se faz sua memória moderna. E a cidade continua a sua história.
Elefante, Pitombeira e os grandes frevos pernambucanos Ao lado do Homem da Meia-Noite e da Troça Carnavalesca Mista Marim dos Caetés, fundada em 1982, as agremiações mais importantes do carnaval de Olinda são o Clube Carnavalesco Misto Elefante, de 1952, e a Troça Carnavalesca Mista Pitombeira dos Quatro Cantos, fundada cinco anos antes, em 1947. São delas os hinos mais conhecidos do carnaval pernambucano. Não consigo lembrar um carnaval em que não tenha me emocionado com o hino do Elefante. Este é possivelmente o mais belo hino de louvação não só a um bloco carnavalesco, mas a toda uma cidade. Está para Olinda assim como a marcha “Cidade Maravilhosa”, de André Filho, está para o Rio de Janeiro. Poderiam ser seus hinos oficiais. Cantado em uníssono numa ladeira da Cidade Alta ou mesmo nas ruas do Recife, o “Hino do Elefante” tem a energia do Vassourinhas – certamente a música mais emblemática do carnaval pernambucano. Polêmicas à parte, assim diz a canção:
Ao som dos clarins
de Momo,
Olinda, este meu
canto
Olinda, quero
cantar a ti esta canção, As histórias de fundação ou nascimento de clubes e troças carnavalescas sempre diferem em algum detalhe, dependendo da fonte ou do contador. Mas há uma versão quase oficial para cada uma, ainda que aqui e ali haja divergências de anos ou até de dias. O Clube Elefante, segundo se conta, surgiu em 1952, durante um carnaval em Olinda. Uma turma de amigos visitava parentes pelas ruas e ladeiras da Cidade Alta. Ao saírem de uma das casas, na Rua do Bonfim, levaram com eles um pequeno elefante de louça ou porcelana, não se sabe ao certo. O certo é que o enfeite foi pendurado numa vara, à maneira de um estandarte, e o gesto incrementou o cortejo que se transformou em homenagem ao pequeno objeto. A coisa não foi esquecida, e no ano seguinte, lá estava “a turma do elefante” outra vez a entronizar o bicho, que logo passou a simbolizar o novo bloco. Na época, seus membros eram amigos da classe-média alta de Olinda, uma pequena elite intelectual da cidade. Isto também explica o capricho no aparato de comidas e bebidas que eram levadas pelos rapazes, abastecidas com vinhos, bolinhos de goma e muito rum. A cerveja, bebida tão popular hoje em dia, não era a mais indicada para ser levada, assim, nos anos cinqüenta. Não havia, como hoje, lugares onde se pudesse manter ou comprar bebida a qualquer hora, e nem era esse o motivo da festa. Um detalhe curioso na história do Elefante: durante muitos anos, a troça só permitia a participação de homens entre seus integrantes, depois, passou a ser mista, e nos últimos anos adotou a quase exclusiva participação de mulheres. Até 1953, quando o Elefante começou realmente a sua tradição, a única troça que já desfilava anualmente no carnaval de Olinda era a Pitombeira dos Quatro Cantos. Outros pequenos grupos faziam desfiles pontuais, mas na maior parte dos casos duravam apenas um dia ou um único carnaval. Com a chegada e a consolidação do Elefante como festa anual, surgiu então a rivalidade, principalmente com a Pitombeira. Até pouco tempo, essa rivalidade equivalia à rixa entre torcidas de futebol, com registros de brigas e desafetos antológicos. Hoje, segundo afirmações de ambos os lados, isso não existe mais, é coisa do século passado. Em 1956, o Elefante desfilava entoando frevos famosos, marchas e canções de outros carnavais. Foi nesse ano que o poeta Clóvis Vieira da Cunha escreveu, na mesa de um bar do cruzamento conhecido como Quatro Cantos, em Olinda, a letra-poema do hino que se tornaria famoso. A música foi composta logo em seguida por Clídio Nigro, a pedido do presidente da troça na época. Em 1983, o Elefante passou à categoria de clube. O acaso ou a contingência de um fato curioso sempre ajudaram a batizar os blocos de carnaval. O senso de humor e a criatividade de seus membros também. O nome da Troça Carnavalesca Mista Pitombeira dos Quatro Cantos, por exemplo, surgiu em janeiro de 1947, quando jovens foliões saíram pelas ruas da Cidade Alta empunhando galhos da árvore enquanto dançavam e cantavam. Um mês depois, a troça já estava organizada para o carnaval, adotando, a partir daí, o dia 17 de fevereiro de 1947 como data de sua fundação. Durante dois anos, seus membros e fundadores – a maior parte morando na Rua do Amparo e nos Quatro Cantos – não usaram fantasia ou qualquer adereço, chegando a desfilar sem camisa, o que era uma ousadia para a época. Só em 1950 foi adotada uma fantasia para o grupo, que saiu vestido de palhaço, mas sem pintar o rosto. O estandarte oficial foi criado em 1953 e traz um losango que retrata a rua Prudente de Morais, nos Quatro Cantos, e dois cachos de pitombas nas laterais. Como principal concorrente do Elefante, a Pitombeira ultrapassa o rival em história e tradição. Mais antiga e talvez com um maior número de simpatizantes, a troça é dona de um hino que também é um dos clássicos do carnaval pernambucano. Há quem afirme que esta é a canção mais executada durante todo o carnaval. A marcha de Alex Caldas faz homenagem ao fruto típico do Norte e do Nordeste brasileiro, cuja árvore é símbolo da agremiação:
Nós somos da
Pitombeira,
A turma da
Pitombeira
Pitombeira só tem
dez letras
A turma da
Pitombeira
Bate-bate com
doce,
Os antigos carnavais – um pouco de história e os 100 anos do Frevo Minhas primeiras lembranças de histórias de carnaval vêm do final dos anos 1960 e da década seguinte, quando os mais velhos já falavam da festa com alguma nostalgia. Lembro relatos sobre o antigo corso, com seus confetes e perfumes que se atiravam inocentemente entre carros abertos, no centro do Recife. Ainda não se usava, como depois, o lança-perfume como entorpecente, embora me fosse dito que, no auge do corso, havia quem o fizesse. As bisnagas e tubos perfumados, junto com confetes e serpentinas, eram munição imprescindível para a guerra de risos e olhares que geralmente antecediam algum galanteio. Muitos anos depois, quando o lirismo dos confetes já se transformara no mela-mela, descobri em conversas e leituras que o corso sucedera outra festa, o entrudo, e que chegou a ser chamado de “entrudo civilizado”. As lembranças, assim como os textos escritos, alternam a emoção dependendo de quem lê ou lembra. Se este texto fosse falado, se isto fosse uma palestra, algumas pessoas poderiam se emocionar com as melodias das músicas citadas ou até com a vibração de minha voz em momentos de recordação ou de excitação, de melancolia ou saudade. Seria a experiência da emoção revivida, e não apenas recebida através da leitura. Mas como isto não é possível, tenho de recorrer ao poder único e insuperável da palavra – o poder da escrita como literatura – que vez ou outra se permite emocionar pela poesia. Ao observar e vivenciar a passagem de um bloco de carnaval numa ladeira de Olinda, ponho em prática todas as minhas capacidades de percepção e decodificação através da poesia, da crítica de arte e do teatro. As três experiências estão juntas o tempo todo. Os mínimos gestos das pessoas que passam por mim, que dançam e riem, que mexem seus corpos em rebolados e trejeitos, são gestos de um enorme teatro ao ar livre, cujo palco é toda a rua. Sei que os cenários e as fantasias são confeccionados, em sua maioria, por artistas anônimos, tendo a música da fanfarra como trilha e a imensa multidão como elenco e platéia. Eles não precisam de um palco ou de um enredo conhecido, assim como cada alegoria ou cada rosto pintado é uma nova e instigante obra de arte. As falas e movimentos prescindem de textos ou marcações ensaiadas. O instante é o espetáculo. Cada momento e cada pessoa são os sentidos da peça. Esse teatro ou exposição de alegria pernambucana é também o maior espetáculo do mundo não só porque possibilita os improvisos e imprevistos de uma obra coletiva, mas porque exercita um enredo comum – ainda que com milhares de temas – para o qual as cortinas se abrem no Galo da Madrugada, no Recife, e se fecham no Bacalhau do Batata, em Olinda. Como em todo teatro ou galeria, há aqui os atores principais e os figurantes, os verdadeiros artistas e os que apenas se divertem. Mas a festa é antiga. Na Europa, de onde sempre vieram nossas primeiras influências, há tempos vive o carnaval. Entre nós, desde a colônia, passando pelo império e chegando à república, foram os salões que inauguraram a folia. Tudo uma prévia do que, no século 20, foram os carnavais de clube da alta sociedade. A partir de meados do século 19, ruas, praças e pátios tornaram-se os salões do povo, mesmo sofrendo, até o começo do século seguinte, um forte preconceito por parte das classes dominantes. Danças e batuques africanos incomodavam a burguesia. Até as sofisticadas máscaras que a elite usava em seus salões, bem à maneira nos carnavais europeus, tinham similares nas ruas e becos, com uma mascarada chula, mas muito bem-humorada. Os chamados jogos de entrudo, como festa de carnaval, eram uma marca da colonização portuguesa. Foram banidos oficialmente após a Independência, em 1822, mas continuaram existindo à revelia do poder público. Isto também foi estímulo para a elite da época buscar um carnaval particular, tendo como pretexto um patriotismo que, na verdade, era um nacionalismo excludente até para os da terra. Assim, o preconceito dava lugar a outro preconceito. Pobres e analfabetos não estavam convidados. Uma ironia: os que propunham uma festa autêntica e “ordeira” – sem os “jogos indecentes e grosseiros” dos nossos colonizadores –, copiavam outros carnavais europeus, como o de Veneza e o de Paris, que por trás de suas máscaras escondiam picardias e uma sensualidade provocante. Pouco adiantou. No fim, o desejo da elite em transformar o entrudo (ou o que passava a ser um carnaval de rua, realizado pelas camadas populares, incluindo aí os escravos ou seus descendentes) em uma festa “civilizada e moralizadora” esbarrou na incontrolável força do povo. Desde os anos de 1880, as ruas do Recife viam desfiles de carros alegóricos da chamada elite burguesa, em que personagens mascarados ou caricatos faziam críticas políticas e sociais. Para a classe dominante, o carnaval deveria ser uma festa para poucos, onde o povo – ou os não integrantes de sua casta – apenas serviria para aplaudir a passagem dos cortejos. O grande exemplo desse sectarismo foi a fundação da Sociedade Carnavalesca Os Filomonos, em 1892, cujo pensamento era deixar de fora as “pessoas de baixos costumes, sem educação nem espírito”. E caso esses pobres diabos tentassem se aproximar, fugindo de seu papel de coadjuvantes passivos, a polícia era chamada. No início do século 20 as coisas começaram a mudar. Entretanto, os bailes de máscaras nos salões dos clubes sociais, assim como o corso, no centro do Recife, permaneciam como referências de um carnaval apartado do contraste ou do embate popular. Ali estavam as serpentinas, os confetes e os lança-perfumes da burguesia, embora, aos poucos, começassem a tomar as ruas. Pode-se dizer que os clubes de alegoria e crítica – como eram conhecidos os carnavais da elite – deixaram de ser a grande referência do carnaval pernambucano a partir de 1910, ainda que em 1904, o Jornal Pequeno, um importante periódico da época, já fizesse alusão aos carnavais de rua do Recife. Em 1910, o mesmo jornal relatou, com espaço semelhante ao da “festa oficial”, a farra das camadas pobres e de cor. Negros e mestiços ilustravam a novidade, assim como os pierrôs e colombinas faziam do outro lado. Durante algum tempo ainda houve o desejo de se criar um carnaval independente, mas nada deu certo. Até um carnaval particular, tentado em outra data, foi engolido pela “chusma”. Os tempos mudavam. A polícia já não era uma força de repressão, mas de proteção de uma manifestação popular que crescia como uma avalanche. E entidades oficiais do poder público, como o I Congresso Carnavalesco em Pernambuco, instalado no mesmo ano, começavam a pregar uma nova convivência entre as classes, raças e etnias. Na década seguinte, grupos e movimentos culturais também começavam a adotar a moderna ideologia. O que para alguns era uma incômoda tolerância, para a maioria era um caminho sem volta. O Movimento Regionalista, consolidado no I Congresso Regionalista realizado nas Américas, organizado por Gilberto Freyre, em 1926, se inspirou nas idéias multirraciais do mestre pernambucano para pregar a nova ordem. A partir daí, o entendimento da cultura como um tecido transparente e permeável a misturas raciais começou a evoluir e ter fortes defensores entre artistas e intelectuais: ouso dizer que desde o I Congresso Afro-brasileiro, em 1934, também capitaneado por Freyre, passando, em 1960, pelo Movimento de Cultura Popular – idealizado por Abelardo da Hora, Ariano Suassuna e o educador Paulo Freire – até o Movimento Armorial, de Ariano Suassuna, na década de 1970, toda compreensão da cultura brasileira como resultado de sua diversidade étnica e racial reflete os embates ideológicos de nossos primeiros carnavais. É claro que a história desses carnavais começa muito antes da história do frevo. E mesmo sendo fruto ou conseqüência de inúmeros componentes sociais e antropológicos que se cruzaram ao longo de nossa colonização, não é seguro afirmar, em relação ao frevo, quem veio primeiro: sua dança ou sua música. Mais certo é que tenham nascido juntos. Isto porque os germens dessa dança e dessa música surgiram à revelia de uma consciência criadora de algo novo, pois como toda evolução decorrente da simbiose de ritmos ou da miscigenação desses ritmos com gestos específicos, nem um nem outro, no começo, se assemelhavam ao que são hoje. Mas novas sementes surgiram e frutificaram.
Há quem veja na dança do frevo semelhanças com as czardas russas ou com as antigas quadrilhas européias. A associação não é infundada, mas talvez seja apenas uma semelhança e nada mais. Independentemente de proximidades gestuais, prefiro atribuir ao frevo pernambucano – assim como ao samba baiano e carioca – a força e a criatividade do negro brasileiro para sua conformação. Numa equação bem freyriana, o frevo é o resultado de uma luta negra (africana) e uma música branca (européia) que se reproduziam no Brasil. A partir dessa mistura, criou-se uma dança e um ritmo autenticamente brasileiros.
Bloco, clube ou troça? Também conhecidos como “clubes pedestres” e tendo como exemplo o mais antigo deles, Caiadores, de 1886, os primeiros clubes pernambucanos eram organizados por classes de operários, costureiras e comerciantes do Recife. Era quando se aproveitava para fazer críticas e gozações aos poderes e entidades oficiais. Também por isso, os “clubes pedestres” adotaram nomes relacionados ao trabalho ou seus utensílios, como Lenhadores, Carpinteiros, Quitandeiras de São José, Parteiras de São José, Malhadores em Greve, Talhadores em Greve, Vassourinhas e Pás Douradas de 1888, o mais antigo em atividade. O que difere o “clube pedestre” do bloco de carnaval é que, independente de tamanho, o segundo tem origem em reuniões de amigos e famílias tanto de bairros tradicionais, como Santo Antônio, São José e Boa Vista, como de povoações que posteriormente se tornaram bairros, como Afogados, Encruzilhada, Madalena, Rosarinho, Torre e Tejipió. Como se sabe, o carnaval tem sua gênese religiosa, mais precisamente católica. Segundo a tradição, a própria etimologia da palavra remete à carne, a uma festa do corpo anterior à sua purificação através do jejum da Quaresma. Com a pregação católica pela Europa ibérica, o conceito e a festa chegaram ao Brasil com a colonização portuguesa. E o que seria uma festa “européia”, da elite branca, com o tempo estendeu-se a todas as raças e camadas sociais. O conceito de uma catarse religiosa sucedendo o carnaval significaria renovação e limpeza após um ano de trabalho assim como dos pecados da festa. Isto também justifica, numa explicação bastante restrita ao carnaval de Pernambuco, nomes de agremiações como Vassourinhas, Pás e Espanadores. Com muito humor e inteligência, a faxina e a festa se fariam de uma só vez. As denominações de blocos, clubes e troças referem-se, entre outras coisas, ao número de integrantes das agremiações. Os blocos e clubes carnavalescos mistos, por serem maiores, desfilam organizados em alas e cordões. Mostram fantasias luxuosas e suas orquestras executam frevos de rua. Suas apresentações são abertas por trinados de clarins que trazem a diretoria do clube. A seguir, o porta-estandarte se apresenta vestido à Luis XV. Vêm as damas de frente, as damas de honra, fantasias em destaque e os passistas que acompanham o desfile. A troça carnavalesca mista é geralmente menor em relação aos clubes e blocos, embora se apresentem com uma disposição parecida, também trazendo a diretoria, o porta-estandarte, figuras de frente, fantasias e passistas, além da orquestra que os acompanha pelas ruas. Talvez por serem menores, as troças praticamente se misturam à multidão por onde passam, e o povo dança e canta junto com o grupo oficial, fazendo um mesmo coro em torno da agremiação. Desde o começo, as principais características das troças – à maneira das críticas políticas e sociais do século 19 – são o humor e a irreverência.
O tempo e os nomes O poeta paulista Mário de Andrade, em seu Dicionário Musical Brasileiro, conceituou o frevo como uma “marcha de andamento rapidíssimo”. A definição se faz perfeita, principalmente em relação aos frevos de rua. Mas o que no começo era apenas uma “marcha pernambucana”, com o tempo criou variações e fez-se o frevo-de-bloco, o frevo-canção, o frevo-rasgado, o frevo-de-salão, além de nomes e formas mais raras, como o frevo-coqueiro, o frevo-ventania, o frevo-de-abafo e o frevo-de-encontro. Na prática, poucos passistas se arriscam em tantas modalidades. Desde 1939, quando veio para o Recife, a maior referência popular como conhecedor e divulgador do frevo, o dançarino Nascimento do Passo, sempre foi um dos deles. Ao seu lado, de forma mais erudita, mas sem perder a alegria e o calor das ruas, o multiartista pernambucano Antonio Nóbrega, nascido no Recife em 1952, é um mestre da música e da dança. Seja em espetáculos teatrais ou em apresentações em palcos públicos, o seu arsenal de conhecimentos sobre a dança e a música pernambucanas renovam a própria cultura. A comemoração do Centenário do Frevo em 2007 se deve à descoberta, pelo pesquisador Evandro Rabello, em 1990, da primeira citação do termo “frevo” num jornal de Pernambuco. O fato se deu no sempre atuante Jornal Pequeno, de 9 de fevereiro de 1907, um sábado de carnaval, em que o articulista Oswaldo Oliveira informava sobre o ensaio do Clube Empalhadores do Feitosa e citava o repertório de músicas, entre elas uma chamada “O Frevo”. A partir daí, nos anos seguintes, a palavra passou a fazer parte das colunas jornalísticas de carnaval. Mas bem antes de chegar aos jornais, o frevo como dança, música e palavra já era conhecido pelos pernambucanos. Tornara-se um termo popular, com corruptelas como “frever” e “frevedouro”. A palavra “frevo”, provavelmente derivada de ferver, frigir ou frege, passou a designar a efervescência e agitação que desde a segunda metade do século 19 cresciam em torno dos blocos de carnaval do Recife. O enorme universo da música, da dança e dos termos ligados ao frevo poderia ser dividido assim: como música (resumindo diversas classificações), o frevo-de-rua, o frevo-canção e o frevo-de-bloco. Como dança (entre os mais de 120 passos e seus derivados), a dobradiça, o ferrolho, a tesoura, o parafuso e a locomotiva. O frevo-de-rua, que os puristas consideram clássico ou autêntico, é apenas instrumental. Dele se originam o “frevo-de-abafo” (com ênfase nos trombones, para abafar a música das orquestras rivais com as quais cruza nas ruas); o “frevo-coqueiro” (que é uma variação do “abafo”, com notas altas, andamento muito rápido e ênfase nos trompetes) e o “frevo-ventania”, que tem arranjo e melodia mais elaborados, ainda que bem rápido. O antigo “frevo-de-salão”, executado em clubes, reúne características dos frevos-de-rua, de bloco e canção. Finalmente, uma categoria nova, o frevo-de-palco, criada pelo jovem músico Inaldo Cavalcanti, conhecido nacionalmente como maestro Spok, que, pela liberdade de improvisação e o virtuosismo nos metais, desenvolveu uma música-espetáculo inspirada nas grandes bandas de jazz. A chegada do maestro Spok e sua Orquestra ao universo do frevo foi o grande impulso qualitativo que renovou a música pernambucana nos últimos anos. Mas a vida do frevo, desde o início, nunca foi fácil. O que no início era o preconceito em relação às camadas sociais que pervertiam o entrudo, com o tempo, principalmente nas últimas décadas do século 20, passou a intimidar o próprio gênero musical. Essa intimidação, que diminuiu radicalmente a safra de novas músicas, cerceou de tal forma a sua execução em rádios do Recife que o gênero transformou-se num gueto de resistentes. Um dos mais notáveis exemplos dessa resistência, na primeira metade do século 20, é o de João Vitor do Rego Valença e Raul do Rego Valença, que ficaram conhecidos como os Irmãos Valença, e lançaram mais de 30 músicas, além de terem deixado várias inéditas. Sua primeira marcha carnavalesca foi “Mulata”, de 1930, aquela que anos depois o grande Lamartine Babo, modificando a letra, transformou em “O teu cabelo não nega”, tornando-se parceiro na composição.
Os mestres do frevo O frevo-canção, derivado da ária, é para ser cantado. Os maiores compositores do gênero foram Capiba e Nelson Ferreira. No caso de Capiba, este se tornou mestre em todas as categorias para as quais compôs. Calcula-se que a obra de Capiba tenha mais de 400 composições, tendo criado sucessos em todos os gêneros. O seu primeiro sucesso nacional não foi um frevo, mas a canção romântica “Maria Betânia”, gravada e imortalizada por Nelson Gonçalves em 1945. No começo, o frevo-canção sofreu grande influência das marchinhas carnavalescas cariocas, mas logo assumiu a identidade pernambucana. O primeiro frevo gravado foi “Borboleta não é ave”, um frevo-canção de Nelson Ferreira e J. Borges Diniz, em 1923. O frevo-canção tem a introdução da orquestra, sempre melódica, depois da qual o cantor conduz seu andamento. Já o frevo-de-bloco, tocado por orquestras de pau e corda, é também conhecido como “marcha-de-bloco”. Geralmente é o preferido por clubes e blocos carnavalescos mistos do Recife e de Olinda, que saem pelas ruas nos dias de carnaval. Em relação à poesia e ao lirismo dos velhos carnavais, a marcha “Evocação”, de Nelson Ferreira, é uma obra-prima, e ainda uma aula de história. Logo ficou conhecida como Evocação nº1, após a composição da segunda, que comporia uma lista de sete grandes homenagens às festas do passado. Nenhuma das outras, porém, obteve o sucesso da primeira. As três primeiras décadas do século 20 testemunharam o surgimento de alguns dos mais famosos blocos de todos os tempos em Pernambuco. (A data de fundação dessas agremiações, mais uma vez, difere conforme as fontes, gerando controvérsias quanto a quem foi o primeiro. Mas considerando-se a importância de todos eles, isto não vem ao caso. O próprio Bloco das Flores, que reivindica o primado, inicialmente se chamava Flores Brancas, mudando o nome a partir do seu segundo carnaval.) Na lista dos principais estariam o Batutas da Boa Vista , de 1920; o Bloco das Flores, de 1921; o Madeiras do Rosarinho e o Inocentes do Rosarinho, de 1926; e ainda o Batutas de São José (originado a partir do Batutas da Boa Vista), de 1932. Entretanto, talvez o mais importante de sua época, e por isso imortalizado na marcha/frevo-de-bloco de Nelson Ferreira, foi o “Apôis Fum” (grafia original). Surgido onde é hoje o bairro da Torre, em 1925, o bloco foi fundado por Felinto de Morais, com a ajuda de outro famoso folião, Fenelon Moreira de Albuquerque. O próprio Nelson Ferreira, em depoimento no Museu da Imagem e do Som de Pernambuco e reproduzido no álbum duplo gravado pela Fábrica de Discos Rozenblit, do Recife, conta a gênese da música e sua homenagem: “Felinto de Morais e Fenelon Moreira eram do Apôis Fum. Pedro Salgado era presidente do Bloco das Flores. Guilherme de Araújo era a figura de proa do Andaluzas em Folia e do Pirilampos de Tejipió. O velho Raul Moraes era compositor, pianista e ensaiador do Bloco das Flores, para o qual escreveu várias marchas, inclusive a Marcha Regresso. Dela usei os versos ‘Adeus, adeus, minha gente/ Que já cantamos bastante’. Fiz Evocação nº1 numa noite, de uma vez só”. O disco, gravado em 1956 para o carnaval do ano seguinte, foi o primeiro grande sucesso de carnaval gravado no Recife, na Fábrica de Discos Rozenblit, do bairro de Afogados, e cantado em todo Brasil. Fundada havia menos de cinco anos pelo empresário José Rozenblit, a empresa contava com estúdio, fábrica de discos e um parque gráfico, que por um bom tempo foi o melhor da região. “Evocação nº1” foi lançado em 78 rpm, e era interpretado pelo coral feminino do bloco Batutas de São José. O disco, com a música de Nelson Ferreira no Lado A, tinha Capiba no Lado B, com o maracatu “Nação Nagô”. “Evocação nº1” teve êxito nacional, e foi uma das primeiras composições pernambucanas a tocar nos carnavais de todo o país ao lado das marchinhas cariocas.
EVOCAÇÃO nº1 [Nelson Ferreira]
Felinto, Pedro
Salgado, Guilherme, Fenelon,
Na alta madrugada
Adeus, adeus,
minha gente,
A próxima certeza Assim como dos grandes compositores, músicos, maestros e intérpretes do frevo, a história da música pernambucana será sempre devedora daqueles estudiosos e pesquisadores que dão vida à sua narrativa. Nomes como Leonardo Dantas Silva, José Teles, Claudia M. de Assis Rocha Lima e Rita de Cássia Barbosa de Araújo, com estudos minuciosos em artigos, teses e livros, são fontes inesgotáveis para um entendimento aprofundado do frevo e da cultura musical de Pernambuco. Gostaria que este livro fosse um estímulo para que o leitor, principalmente o mais jovem, buscasse fontes como essas, que foram começo e inspiração para mim. O meu texto é apenas um exercício de homenagem àqueles autores, esperando que lhes traga novos e melhores leitores. Também instituições como a Fundação Joaquim Nabuco e todos os seus pesquisadores constroem acervos de informações e discussões que consolidam e revigoram o tema, transformando-o num fértil horizonte de futuros trabalhos. Outros estudos e estudiosos – e então novos compositores e intérpretes como Silvério Pessoa, André Rio e Nonô Germano – irão compor os próximos capítulos de uma história que não acaba nunca, como se cantassem um frevo interminável. Enquanto isso, em Olinda, no alto da Ladeira da Sé, numa manhã ensolarada de quarta-feira de cinzas, a festa já terá recomeçado, arrastando o cortejo que ensaia o refrão do próximo carnaval. |
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Weydson Barros Leal (Recife, 1963). Poeta e ensaísta. Autor de uma biografia do artista Francisco Brennand (1997), publicou ainda O vôo da imaginação (sobre a obra de Gilvan Samico) (2005), e Corbiniano Lins – Um olhar sobre sua arte (2006). Contato: weydson2@terra.com.br. página ilustrada com obras da artista Mayte Bayon (Espanha). |
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