revista de cultura # 63
fortaleza, são paulo - ma
io/junho de 2008






 

Cidade, segunda natureza

Luís Estrela de Matos

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Ninguém sabe melhor do que vós, sábio Kublai, que não se
deve nunca confundir a cidade com o discurso que a descreve.

Italo Calvino, As cidades invisíveis

Luís Estrela de MatosFalar da cidade, tentar descrever qualquer de seus elementos em constante mutação, é experiência-fragmento. Um objeto que não mais corresponde como tal, algo que explode os limites da escrita (fazer literatura). Toda descrição é insuficiente. Sons, imagens, cores, cheiros, registros, enfim, signos de toda natureza se entrecruzam, se confundem, dando a sensação de impossibilidade, de cansaço e abandono. Analisar a cidade é ser por ela analisado, pois seu melhor narrador está sempre inscrito no corpo dela.

A cidade é um mega-evento, onde todos e tudo estão interligados. A cidade é um acelerador de partículas da sincronicidade junguiana. A experiência de simultaneidade não é meramente externa, sensível. Ela modificou nossa maneira de captar as coisas; a percepção acontece em vários níveis. Não há escolha, pois a cidade nos abre à força, somos dela participantes, queiramos ou não. Não é um convite, mas sim uma vontade invisível que se impõe a nossa cambiável e irrequieta sensibilidade.

A cidade onde tudo acontece e que atrai para si todas as redes possíveis e imaginárias é uma aventura dolorosa e interminável. O flâneur pós-baudelariano está exausto, não mais consegue recapitular as imagens que o alimentavam. Ele não tem mais forças para evitar esse adensamento citadino que o invade por todos os poros de sua existência. Centenas, ou talvez, milhares de estímulos o derrubam por inteiro. Nas megalópoles ele não é mais sequer um anti-herói par excellence. É uma figura como outra qualquer, aprisionado na complexa engrenagem da vida urbana. O anonimato socializado como válvula de escape? A automatização do viver nas cidades atuais fez dele um personagem romântico, uma peça de antiquário dos tempos áureos da modernidade efusiva. Ou então, pós-modernamente passivo.

Mayte BayonMas esse espaço que é a cidade – espaço como totalidade, absoluto – se expressa como um conglomerado: coisas, homens, artefatos, idéias. Discernir, separar, tornam-se verbos obsoletos, quase extintos. Aristóteles pelos bueiros. Mais do que isso, valorar transforma-se em palavra morta. Tudo se apresenta ao mesmo tempo, todas as coisas estão à disposição, inclusive como furto, expressando assim a idéia de um mercado total. Globalizar coisificando, ou, como se inventa dizer, mundializar coisificando. Desde que tudo vire coisa, of course!

As coisas como valor de troca, a cidade como sistema ininterrupto, desde seu imaginário centro até um não menos imaginário limite. Onde termina São Paulo? Início e fim comunicam-se – rodovias, rádios, infovias, canais, redes, tragédias etc. Periferia e centro não mais se excluem. A divisão em classes tende a perder a relevância frente ao papel esmagador e unificador do evento urbano. Começo e fim conectando-se, estabelecendo o infinito das experiências. A favelização das metrópoles via verticalização da vida social.

Como um grande espetáculo, a cidade transforma cada elemento de seu corpo em parte essencial. Ela funciona como uma disputa, uma prova. Só lhe interessa o que for a todo vapor. Metamorfoses dão-se numa velocidade anteriormente desconhecida pelos humanos. E no caso terceiro-mundista, onde o mito da modernidade cristalizou-se de forma quase imbatível, as metamorfoses urbanas fizeram-se sentir de maneira explicitamente dolorosa. Aqui cabem as palavras de um grande paisagista brasileiro, Burle Marx: “Mas é necessário esclarecer o exagero que se operou no Brasil, a ponto de se demolir o nosso acervo artístico e histórico, incluindo obra religiosa e palácios antigos, tudo em nome de um capricho de novos-ricos e de uma ânsia de civilização”.

Valendo-me do paradigma São Paulo, é bom que se lembre que no espaço de duas gerações existe a possibilidade efetiva de perder-se quaisquer referências do ambiente de infância ou mesmo do lugar de nascimento. Na era da clonealidade quem vai se importar com esses pequenos detalhes tipicamente freudianos ou meramente românticos. Que se seja um parafuso e está tudo certo. Daí as cidades virtuais e sua proliferação epidêmica. O desenraizamento não é acidental, esporádico. O espaço mínimo de referencialidade (uma rua, uma praça, uma casa) é destruído pela voragem imobiliária. Mas outro viés pode nos ser útil aqui. É que a cidade para crescer alimenta-se de seus próprios detritos. Não é à-toa que a arte vem bebendo dessa fonte já há um bom tempo (linhas da pop art, arte povera italiana, segmentos do pós-modernismo ou mesmo da arte contemporânea). Reciclar o inutilizável, repensar o excesso.

Mayte BayonDaí o estranhamento constante, a perda da memória (memória essa bastante deficiente diante do bombardeio da parafernália midiática das megalópoles), o embotamento de um desejo mais livre, mais autônomo. Não esquecer que mesmo os nova-iorquinos (logo, primeiro-mundo em termos high-tech) perceberam a explosão do WTC de maneira ficcionalizada.

É como se fora da cidade nada mais existisse. A natureza, tão bem domesticada pelas conquistas científicas, não funciona como um contraponto, como bandeira de uma subjetividade estilhaçada. O discurso dos verdes fica no distrito dos discursos. A experiência do vagabundo-filósofo Rousseau já pertence a outro mundo. A cidade é a realização de uma segunda natureza. Natureza como artifício, como simulacro. Vida pós-moderna. Adeus a pólis.

Numa perspectiva mais clássica a cidade tinha sido imaginada como símbolo maior da civilização. Voltaire acreditava que a cidade era o lugar privilegiado das atividades humanas, onde a mobilidade social permitiria o progresso (entenda-se aqui como projeto do Esclarecimento). Ilusão iluminista? A vida citadina, mais palaciana do que urbana, possibilitaria que o Império das Luzes se estabelecesse em definitivo, destruindo, o mais rápido possível, as forças retrógradas dos ainda vigentes privilégios feudais. Dessa maneira, a cidade promoveria a expansão do viver urbano. Cidade e civilização: sinônimos.

Porém, essa imagem feliz e esperançosa não iria durar muito tempo, pois com o século XIX, principalmente a partir de sua segunda metade, a transformação das paisagens urbanas irá produzir uma visão bem menos otimista e confortadora. Oliver Twist que o diga.

Voltando ao fio deste texto dizíamos que a experiência da cidade é absoluta, nada lhe escapa. Todos os experimentos somam, acrescentam algo a esse gigantesco corpo que é a cidade. Esquecendo, por hora, a possibilidade de sua desarticulação total (guerras ou pestes – e mesmo estas podem parcialmente conviver com a experiência de um acréscimo) a cidade é um acontecimento único e incontornável. Ou seja, trata-se do coroamento de um processo, o auge de uma irreversibilidade temporal de um outro tempo, pois que há muito não é mais cronológico, medidor de distâncias. Tempo pulsional, alguns teóricos diriam. A digitalização da vida. Vários registros de tempo. Ou ainda, a cidade destrói a noção de tempo. O que temos hoje é a experiência crescente do ritmo, do movimento. Tudo agindo no sempre, o instante como metáfora da megalópole. Eterno presente. Condenação.

Mayte BayonA cidade transformou-se em obra, aliás, em gigantesca obra-de-arte. Hitler e Speer são peixinhos perto do que nos acontece hoje. Ela é o próprio objeto que se autoglorifica para deleite de todos e de ninguém. A cidade foi estetizada às últimas conseqüências. Edifícios contorcionistas que se exibem numa verdadeira fogueira planetária de vaidades. É a tirania da forma exercendo sua força em todos os recantos da urbe. A cidade como um estilo em transformação. A metamorfose elevada a juízo estético indiscutível. Natureza sempre cambiante. É mais do que um clone, pois clone somos nós, seus melhores súditos. Ela é o irrepetível, o singular ad infinitum, pois precisa dissolver qualquer coisa que ameace a idéia fixa da mutabilidade sem fim. Nesse culto à fragmentação, ao efêmero, a cidade consegue dissolver qualquer tentativa de permanência. O efêmero eterno, tão paradigmático em Baudelaire, não mais visualiza a problemática das megalópoles. A cidade como um grande circo.

Pensar a cidade como um modelo, sempre em teste, com chances de sobrecarga, expansão constante – como a memória dos computadores de última geração. Um imenso Vale do silício.

Toda megalópole funciona como uma megalópole coletiva, coleção interminável de experiências passadas, presentes e futuras. Um grande museu intercambiável, sempre em forma de fluxo. A cidade tiraniza o futuro. Somos seus apostadores num jogo que não entendemos claramente. Sendo apostadores qualquer resultado é bem-vindo, poderá ajudá-la na mais nova mutação possível. Somos impelidos ao futuro, sempre. É uma aposta na mudança infinita das relações, das coisas e dos homens. Expansão é a palavra de ordem. Talvez gozemos com isso. Seu crescimento, a cidade, não é apenas físico. A cidade registra seus elementos em nossas mentes. Todo esforço do homem das megalópoles é tentar absorver, ao máximo, todas as informações que ela emite ininterruptamente. Trabalho de Sísifo, mas ainda se prefere a esquizofrenia à morte. E como sobreviver é tudo, o homem aceita esse jogo mortal.

As forças de armazenamento multiplicam-se (bibliotecas inteiras em placas de silício dentro de paredes residenciais). Enfim, o progresso (aqui apenas no sentido quantitativo) confundiu-se com a idéia de cidade. Cidade é o que acumula. Dois conceitos reuniram-se, transformando em coisa real o lado mais sombrio do projeto-modernidade…

Mayte BayonAs grandes cidades descortinam difíceis futuros. Rumam à grande cidade, que talvez venha a ser a cristalização máxima de todos os demais sistemas urbanos. O nível e as formas de comunicação evoluem a cada instante. Os decodificadores culturais se complexificam na mesma proporção. É como se a experiência humana, experiência de cada homem, de cada ser, tornasse-se universal. Provavelmente não temos a devida consciência do prejuízo às especificidades culturais e ao próprio homo sapiens. Nossos eficientes tecnocratas têm pouco tempo para essas mazelas da espécie. Deus, a Arte, no meio, o Homem, a História agora há pouco tempo… falar em consciência é realmente um escorregão diacrônico.

Parece mesmo que a tecnicização da vida, em todas as formas, tornou-se o próprio fim. O ápice é não ter ápice. As cidades não mais funcionam sem esse ininterrupto aperfeiçoamento das máquinas. O poder encarnou-se. Biopoder. Cidade e técnica misturam-se na grande celebração da vida planificada. Solução? Talvez saber ver, pois lembrando Marco Polo quando se dirigia ao grande Khan, quem sabe ver sabe narrar. E as meta-narrativas da contemporaneidade estão todas aí, exigindo novas cartografias. Arrisquemo-nos.

 

Não se separavam bem as pessoas e as cousas: o que se via era aquele ajuntamento, aquela aglomeração, que lá do alto parecia ser uma existência, uma vida feita de muitas vidas e muitas existências. Não era o palacete ou cortiço, não era o patrão ou o criado, não o teatro ou o cemitério, não era o capitalista ou o mendigo: era a cidade, a grande cidade, a soma de trabalho, de riqueza, de miséria, de dores, de crimes de quase quatro séculos contados.

Lima Barreto, Numa e a Ninfa

Luis Estrela de Matos (Portugal, 1964). Poeta, ensaísta e doutorando na área de Literatura Comparada (UFF). Autor de Alguns Contistas Contemporâneos (2000). Contato: estreladematos@terra.com.br. Página ilustrada com obras de Mayte Bayon (Espanha).

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