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revista de cultura # 63 |
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Dois amores de Stendhal Joana Ruas
1. A Amante Judia
Tocar o
sítio onde o ébano Stendhal
Seguindo o exemplo de Milan (nome com que no seu Diário se refere a Bonaparte), Beyle cedo manifestou o mesmo apaixonado interesse pelo teatro, buscando ali “uma espécie de instrução para quem quer viver e vencer em sociedade, devido á pintura dos caracteres própria das comédias e á pintura das paixões própria das tragédias”. O Diário de Stendhal está repleto de dissertações e de apreciações sobre as peças de teatro, os seus autores e, sobretudo, sobre o trabalho dos actores, e nele está registado que era tal o gosto do jovem Napoleão pelo teatro que constava que nele entrava grátis pela mão de Talma, actor de tragédias. O gosto pelo teatro triunfou sempre no escritor sobre todos os outros divertimentos nobres talvez porque lhe trazia à lembrança as lições de declamação que recebeu de vários mestres entre os quais Bernadille, pseudónimo dado pelo escritor ao famoso Dugazon (Jean-Baptiste-Henri Gourgaud), comediante e professor de arte dramática e também porque foi nos cursos dados por este actor que Stendhal conheceu Mélanie Guilbert. Mélanie, que se tornaria mais tarde, em 1810, senhora Barkov com domicílio em Moscovo, era conhecida, como actriz, por Louason e também por Saint-Albe. A complexa personalidade desta actriz viria a inspirar-lhe um conto, Lamiel, em que numa progressão temporal, moral e psicológica, nos dá a versão realista de uma personalidade vacilante nos seus contornos e em contraponto com outras ainda moldadas por comportamentos sociais naturalistas. De Louason, da sua vida aventurosa de rapariga pobre que por necessidade de sobrevivência se repartia entre os casamentos e o teatro, num momento de excesso de saudade, deixou escrito que tinha querido estar próximo do seu coração, o que poderia querer significar que Mélanie Guilbert - tal como Lamiel, a personagem do conto com esse título -, se havia proibido o amor, apostada como estava em dominar uma situação crítica ou adquirir uma posição social. Foi a terna compaixão pela condição social desta amiga que tornou Stendhal próximo de seres humanos que como ela viviam domados pela dureza com que o infortúnio os fustigava e tentando, tenazmente, e por todos os meios, vencê-lo. Tratava-se, neste caso, de vencer o infortúnio e a precariedade e não de tentar, a todo o custo, escapar-lhes. Henri-Marie vivia por essa altura no arriscado país dos comediantes, como Paul Arbelet, seu biógrafo, chamou a este período da vida do então candidato a romancista. Em Outubro de 1810, já separado da actriz, para Beyle, “a felicidade consistia em amar e ser amado, pelo que se sentia quase feliz pois tinha roupas distintas, dinheiro, Angéline e o mal de ser… “ verme nato a divenir angelica farfalla” [Dante, A Divina Comédia - Purgatório]. Angéline cantava para ele, para que ele as aprendesse, árias de Mozart e de Cimarosa. Nessa época dos seus amores, ele anotava no seu Diário que “enfim, quanto ao amor, estou perfeitamente contente. Ela escreve como um anjo”. Beyle não havia no entanto logrado, no refúgio do amor de Angéline, a exaltada paixão de amar. Sendo amado por Angéline, Beyle acreditava que não a amava a ela, antes pensava que amava a dama do Val-de-Grâce, Alexandrine-Thérèse Nardot, mãe de cinco encantadoras crianças e esposa de seu primo Pierre Daru, conde do Império e par de França. Alexandrine Daru, no entanto, não correspondia à sua paixão pois Stendhal deixou escrito que ela “manifestava-lhe uma doce amizade mas os encontros que tinham a sós eram sempre frios”. Castigado pela amável frieza com que Alexandrine o tratava, Beyle depreciava o seu sentimento para com Angéline, anotando no seu Diário: “Já quase não tenho sensibilidade para a ópera buffa e para a amável rapariga com a qual me deito todas as noites”. Angéline Bereyter, mantinha-o a seu lado satisfeito com o amor que recebia mas despreocupado em relação a ela a cujo amor não correspondia. Ela era pertença sua sem que ele, no entanto, lhe pertencesse, pois em 1813 , anotava que tinha sob observação quatro mulheres, acrescentando “não falo da minha Angéline”.Em 1813, o seu envolvimento com Angéline sofreu outro obscurecimento pois reacendeu-se nele a sua antiga paixão pela condessa Ângela Pietragrua que conhecera em 1801, quando permanecera em Itália como alferes de cavalaria afecto ao 6º regimento de dragões. Stendhal, que anos volvidos ainda a recordava com exaltada ansiedade, não tirou destes amores com que enfeitar a sua vaidade embora tivesse suplantado os anteriores amantes da caprichosa Ângela beneficiando de mais quatro meses de intimidade. Ao referir-se aos acidentes sentimentais ocorridos nesta relação amorosa que acabou em 1816, o escritor, frustrado e amargurado, ousa gabar-se, ainda que discretamente, de ter cometido com Ângela uma proeza física. Foi este estado de satisfação despreocupada que Angéline lhe proporcionou sem que ele se desse bem conta, que a eclipsou no seu coração e por muitos anos, obscurecendo igualmente a avaliação da real importância dela na sua vida. Numa dessas ocasiões em que o escritor, possuído pela vivacidade do sentimento evocado, elevava a mulher que o suscitara acima da real importância que tivera na sua vida e, sem que interviesse o sentimento de justiça na avaliação dos factos e das pessoas (para o romancista, a mulher que o favorecera com uma emoção mais intensa ou por ele ainda não experimentada, prevalecia nesse momento sobre todas as outras), referindo-se a Angéline, que o amara exclusivamente a ele e com um amor terno, com uma sinceridade cruel, confessou-nos que nunca a amara. Angéline havia cometido um erro que se revelou fatal para a sua pretensão: o de não haver excitado a imaginação do escritor, preocupada que estava em construir a felicidade do homem que amava. Empenhada em construir a sua própria felicidade também estava Mélanie que incansavelmente, mas em vão, tentava conciliar o seu papel de mãe com a sua carreira artística e com a sua vida amorosa. Muitos anos depois, quando se voltaram a encontrar, analisando os respectivos insucessos, apenas restava a Mélanie e a Stendhal, uma peculiar e rara forma de felicidade: a de num objectivo haverem perseguido uma forma de perfeição que ele genialmente viria a sintetizar nestas palavras: “tornarmo-nos nós próprios é uma longa paciência!”. Stendhal, que nasceu em 1783, teve uma carreira agitada: foi dragão de cavalaria em 1800, estudante de 1803 a 1806 (em 1805 esteve em Marselha com Melanie), em 1806 foi adjunto aos comissários das guerras e intendente em Brunswick; em 1809 cumpriu missões ao longo do Danúbio, Linz e Passau e resgatou os feridos em Essling e em Wagram onde morreu um dos raros homens que admirou, o general Lasalle (1775-1809), de quem falou na sua obra De L’Amour. Lasalle, quando entrou com as suas tropas em Toledo, acorreu às masmorras da Inquisição para libertar os prisioneiros. O escritor americano, Edgar Poe (1813-1849) presta-lhe a sua homenagem no conto O Poço e o Pêndulo. Em 2008, registo o meu testemunho neste texto sobre Stendhal para que a sua memória, tão cara a estes dois escritores, se perpetue na posteridade. Voltando a Stendhal, em 1810, com a ajuda de Alexandrine Daru, foi nomeado auditor ao Conselho de Estado. Em Vie de Henry Brulard, escreveu: “Tombei com Napoleão em abril de 1814”, acrescentando: “Depois da abdicação de Napoleão fiz viagens, tive amores terríveis e consolei-me escrevendo livros de 1814 a 1830”. De facto, Henri-Marie trabalhou afincadamente, perseguindo “a felicidade da paixão da glória” que ele pensava vir a alcançar através das suas obras e, quando as suas finanças o permitiam, entregando-se a um prazer que lhe era particularmente caro: deleitar-se no esquecimento de si mesmo com o que aprendia numa viagem. Tendo amado loucamente a liberdade e a alegria concluiu, já no fim da sua vida, que os seus únicos gostos duráveis haviam sido, Saint-Simon, os espinafres, além de outro que sem jamais o conseguir realizar, sempre almejara: o de poder viver em Paris com cem luíses de rendimento e fazendo livros e comédias. Mas já em 1804 se dava conta que “a felicidade da paixão da glória defende-nos da solidão, mas todas as outras paixões se perdem nela, de modo que a felicidade desta paixão torna-se bem mais difícil.” Para tornar viável essa paixão pela glória, na época da sua relação amorosa com Angéline, Beyle, desgostoso da canalha, fechava-se em casa e nem queria mesmo ouvir tocar a campainha. Nesta fase da sua vida de escritor, o que o ligava a ela era a necessidade de uma protecção contra a solidão e, simultaneamente, contra o mundo exterior. Angéline pairava na sua vida como uma sombra maternal e, caso raro na vida de Stendhal, exprimira-lhe o seu amor oferecendo-lhe um relógio em que mandara gravar a frase: “amo-te em todos os momentos”. Ele, apesar de se entregar ao prazer das novidades, manteve-se durante bastante tempo fiel à adoração dela. Não a tendo amado com paixão, confessou que tinha gostado dela o suficiente para se afastar de outras mulheres mais novas que ela, sobretudo porque temia o aborrecimento que poderia vir a sentir junto delas. Embora Henri Beyle preterisse sempre a mulher que o amava à mulher que ele requestava, Angéline foi, como ele próprio disse, uma fonte para a sua sede. Angéline, que o queria ver feliz, apressava-se em mitigá-la. Stendhal escreve no seu Diário que essa sede depressa se saciava. Tendo sido cantora, Stendhal, que elogiara outras cantoras, nomeadamente a cantora portuguesa Lourença Correa, em Março de 1811, sobre Angéline, escreveu: “ela é doce, atraente, mas fria na sua arte”. Sugerindo que ela tinha pouca consideração pelo talento que possuía, Beyle não lamentava o que o talento lhe poderia trazer em vantagem social ou económica mas, pelo contrário, lamentava que ela não fizesse mais pelo talento que possuía estimulando-o a progredir, como fizera Mélanie, menos dotada do que ela. Mais dada ao amor que à ambição, Angéline desvalorizou-se aos olhos do seu amado que apreciava a ambição como uma forma de energia capaz de dinamizar a sociedade dotando-a de valores necessários ao seu engrandecimento. Para este liberal, a noção de valor tinha implícita a de virtude política que, segundo Del Litto, em linguagem stendhaliana, quer dizer, “a coragem de permanecer fiel ao sentimento de independência, o único capaz de salvaguardar o indivíduo de toda a tentativa de manipulação exterior”. Stendhal viria a admirar esta virtude em Matilde pois Angéline era uma mulher terna que, vivendo de forma obscura todos os sacrifícios impostos por um amor violento que subsistia sem ser correspondido, parecia ter colocado a sua Arte abaixo do seu amor por ele. Para Angéline, o Amor talvez fosse a suprema finalidade do ser humano e que por esse facto deveria ser vivido como uma Arte, a mesma Arte do belo de que o canto constituía uma das formas de expressão, mas não a realidade do mesmo Amor. No entanto, ó ironia, pelo Diário de Stendhal se constata que ela poderia ter conquistado o seu coração se tivesse crescido na sua Arte, mesmo que a ela sacrificasse a sua paixão por ele. Angéline proporcionava-lhe uma tão grande serenidade que lhe permitia, quando se não viam, encontrar distracção no trabalho. Com Matilde, pelo contrário, só as mulheres o podiam distrair e não o trabalho! A ausência de perigo em perdê-la foi um grande inconveniente para o amor comovido de Angéline. Não há no mundo nada mais difícil do que o juízo sobre o que convém à felicidade dos outros. Seria Angéline feliz se o não amasse no seu modo honesto e puro? Tentar conquistá-lo através de outras aparências não teria como consequência inevitável a destruição violenta do seu amor-próprio? É uma natureza pacífica a que verte tais lágrimas ao despedir-se dele. São lágrimas demasiado copiosas e silenciosamente dramáticas para não significarem apenas a mágoa imensa de uma despedida que ela pressentia como definitiva pois Angéline parece despedir-se ali, igualmente, das suas legítimas ambições em relação a ele, e, pior ainda, da mais vasta das ambições: a da sua entrega total ao amor que nela nascera e que tão emocionadamente a arrastava para fora de si mesma.
Reclamemos para nós a qualidade que o escritor considerava própria dos autores e dos poetas - “a comprehensive soul” -, para relançarmos um breve olhar sobre a infeliz infância de Henri-Marie, uma das causas da sua prolífica vida sentimental. Os seus amores nasciam e cresciam lado a lado, apoiados uns nos outros, misturados como árvores que não tendo horizonte se agregam formando uma floresta inextricável. Ao lermos nas suas Oeuvres Intimes as impressões da sua infância, sobretudo a da fase que se seguiu à morte da sua adorada mãe, quase sufocamos ao darmo-nos conta que, sob essa catedral imensa de folhagem sempre renovada e florescente, uma criança busca incessantemente um eco, um simples eco já que a única voz de amor que lhe fora dado conhecer se lhe havia tornado inaudível – a voz da senhora Henriette Gagnon, sua encantadora e muito amada mãe e leitora assídua e entusiasta de Dante, como nunca se esquece de assinalar. Stendhal afirma que com a morte dela, na flor da juventude e da beleza, começou para ele a sua vida moral. Em Vie de Henry Brulard escreve que “ao amá-la aos seis anos, eu tinha absolutamente o mesmo carácter que em 1828 ao amar furiosamente Alberthe de Rubempré”. Esta confissão revela-nos que embora outros amores se tivessem enxertado nas primeiras forças amantes, jamais destruíram a prioridade histórica do seu primeiro sentimento amoroso. O escritor define essa fase da sua vida como a da caça à felicidade. Stendhal inspirou-se em Madame Azur (Alberthe era prima de Delacroix e vivia na rue Bleue) para o personagem de Matilde de la Mole no Vermelho e Negro. A relação amorosa que se estabelecera entre os dois durou apenas seis meses mas Sanscrit, outro dos nomes dados por Stendhal a Alberthe devido ao gosto desta pelas ciências ocultas, foi adorada por ele apenas durante um único mês. Numa época em que lhe era tão necessária uma caminhada rumo à felicidade, sem que ela se tenha dado conta, a vida, que o privara da mãe em tenra idade, serviu-se de Sanscrit - que posteriormente o viria a trocar por Merimée e depois pelo seu conterrâneo Mareste -, para lhe oferecer uma emoção rara e tão intensa como a que ele havia sentido outrora ao beijar o rosto fresco e de uma perfeita serenidade de sua mãe a quem amou mais que tudo no mundo. 2. E Matilde Dembowski
For who, to dumb Thomas GrayDepois da queda do Império, Stendhal decidiu fixar residência em Milão. Em 1819, o escritor, num daqueles momentos de aborrecimento que tanto detestava, tirou do pó da estante um caderno do seu Diário de 1806 e acrescentou, em nota de rodapé, que estava “mad by love”, ele que até então apenas havia sido um amante do amor. O escritor pensava em Matilde Dembowski a quem amou apaixonadamente sem ser correspondido. Matilde Dembowski (1790-1825), cujo apelido de solteira era Viscontini, quando em 1818 conheceu Stendhal na Piazza delle Galline em Milão, através do advogado e grande amigo do escritor, Giuseppe Vismara, estava separada de seu marido, o oficial Jean Dembowski, nascido em 1770 em Gora, na Polónia, mas servindo nas tropas italianas do reino da Itália desde 1806. Matilde, segundo nos conta o escritor, acusava-o de ter um carácter brutal. Esta faceta do marido e a má reputação que ela tinha na sociedade - Stendhal considerava que essa má reputação se devia à inveja suscitada pela sua superioridade intelectual -, tiveram sobre ela um poder inibidor. A má reputação de Matilde devia-se à suspeita que sobre ela recaía de pertencer à Carbonária. O Carbonarismo expandiu-se como sociedade política em França e, na Itália, sobretudo a partir de 1816 e, tendo contribuído para a queda temporal do Papa e de alguns principados e ducados, o Papa, a 13 de Setembro de 1821, lançou a sua excomunhão sobre os Carbonários e também sobre todas as sociedades congéneres.
Para Mosca, também se justificavam todos os artifícios para conquistar o coração da mulher amada, daquela que o despertou para o amor deslumbrando-o com a sua beleza. Stendhal, numa carta a sua irmã Pauline, revela-lhe ter sido o retrato que fez da Sanseverina copiado do efeito produzido na sua alma pela pintura de Corregio. Contudo, mais do que a beleza física da duquesa, o que sobretudo apaixonou Mosca foi o ardor e a audácia com que ela arriscava a vida e comprometia a sua posição social por amor do jovem Fabrice, enamorado de Clélia. Fabrice, devido ao sono mágico do amor que lhe não permite ainda compreender a grandeza do amor dela nem os milagres de que este amor é capaz para o proteger ou salvar, achava-se, no seu contacto com a sociedade, fragilizado pela sua paixão por Clélia. Mosca presta assim uma homenagem sincera a alguém que como ele, na juventude, dissipa a sua fortuna e a sua posição na sociedade por um ideal social e de realização humana que não existia ainda mas que podia em qualquer momento passar a existir e achar uma concretização no plano das consciências, das instituições e da sociedade. Dos três grandes desesperos de Stendhal, o deste seu amor não correspondido, foi o mais fecundo de todos quantos ocorreram na sua vida íntima pois tornou-se num manancial de inspiração, dando desde logo origem a “De L’Amour”, uma obra constituída por anotações extraídas do seu Diário e referentes à sua relação com Matilde. Por amor de Matilde “recusou ser amante da mais amável das mulheres que até aí conhecera, e tudo isto para merecer, aos olhos de Deus, que ela o amasse”. Em Novembro de 1835, Stendhal inicia a redacção da sua obra Vie de Henry Brulard, com uma vista panorâmica sobre Roma. É do alto de uma posição privilegiada, metáfora do ponto de vista a partir do qual se desenrola esta obra, que o escritor nos vai assinalando a posição de igrejas e de outros monumentos da capital do mundo cristão que, tal como escreveu, não lhe oferecia nada para além das suas ruínas e túmulos. Nesta obra, há como que uma vista de conjunto lançada sobre as pessoas que povoaram com significado a sua vida. A escolha deste panorama de uma cidade a partir da sua arquitectura, é como se Stendhal estivesse colocando o leitor diante de um cemitério grandioso para, perante ele, estabelecer a sua cronologia do coração, recordando familiares, as mulheres amadas e alguns dos seus amigos, como se cada uma dessas recordações presentes à sua memória tivesse uma alma. Esta introdução a uma obra intimista deve-se ao seu conhecimento da evolução da pintura italiana desde os seus primórdios. Nesta obra que causa a perplexidade de quantos a abordam, há um diálogo constante com o leitor, sempre presente, e não hesitando o escritor em interpelá-lo. O escritor sente como que o nada do seu futuro, e, perante essa circunstância, cria o personagem de Henry Brulard, um ser no Tempo e ocupante de um espaço na vida que é a sua própria vida e vida de um escritor. Vie d’ Henry Brulard é uma obra que , tendo partido de uma visão de conjunto , passa para uma narrativa em que à imagem visual se alia o realismo da intimidade, arte introduzida por Giotto (266-1336), que, aliando, nas suas obras, as sensações visuais às recordações tácteis, exalta os valores tácteis dados às impressões retinianas. Em Vie d’Henry Brulard, ao recordar os seus queridos mortos, o seu coração ainda estremece de saudade e amor: “Quem se lembra de Lambert, hoje, a não ser o coração deste seu amigo! Irei mais longe, quem se recorda de Alexandrine, morta em Janeiro de 1815, há vinte anos? Quem se recorda de Matilde, morta em 1825? Não me pertencem elas mais a mim que as amo, mais a mim do que a todos os outros, a mim que penso apaixonadamente nelas dez vezes por semana e muitas vezes duas horas de seguida?”. Este Lambert tão emocionadamente recordado é Vincent Lamberton que morreu em 1793. Moço de sobrancelhas espessas e negras, era criado de quarto do avô de Henry Beyle e seu particular amigo e único confidente. Stendhal recorda a dor que sentiu em criança pela morte de Lambert: “A dor pela morte de Lambert foi uma dor como jamais senti outra igual em toda a minha vida, foi uma dor reflectida, seca, sem lágrimas nem consolação.” Desesperado com a morte que, arrebatando-lhe Matilde lhe rouba também a possibilidade de reverter a seu favor o estado sentimental em que quedara essa relação amorosa, incapacitando-o de alcançar o seu coração que a morte tinha tornado inacessível, Stendhal, num acesso de ciúme, não deixou de registar que, apesar de tudo, a amava mais morta que infiel. Acrescenta ainda, no seu Diário, que só depois de arranjar uma amante é que a recordação de Matilde deixou de lhe ser dilacerante, tendo-se ela tornado para ele num fantasma terno e profundamente triste que, quando lhe aparecia, o dispunha às ideias boas, ternas, justas e indulgentes. Foi Clémentine Curial quem mitigou os efeitos desastrosos da sua paixão por Matilde. Contudo, para se curar do afastamento de Clémentine, o escritor deitou mãos ao trabalho compondo Armance, um romance de um humor sombrio que reflecte não só uma perda de ordem sentimental como de ordem política uma vez que em acto parlamentar havia sido debatida e depois votada a lei de indemnização a pagar aos emigrados.
Na sua obra Souvenir d’Égotisme cuja escrita iniciou em 1832 e que destinou a ser publicada pelo menos dez anos depois da sua morte por delicadeza para com as pessoas ali mencionadas, recorda Matilde nestes termos: “Esta alma angélica escondida num tão belo corpo, deixou a vida em 1825”. Depois, recordando a sua partida de Milão, em 1821, devido à prisão dos Carbonários acusados de republicanismo, sobre a sua acidentada viagem em que ficou sujeito às grosserias dos postilhões com quem conversava para se distrair do sofrimento que a separação de Matilde lhe causava, escreve:”Uma doce melancolia sucedeu pela primeira vez a um desespero seco, eis pois no que se tornam as belas coisas aos olhos dos homens grosseiros, tal és tu, Matilde, no meio do salão da senhora Traversi”. O escritor confessa ainda que nessa ocasião resistiu com dificuldade à tentação de dar um tiro na cabeça, no que foi impedido pela curiosidade política pois em Milão, a Áustria condenava severamente as pessoas acusadas de conjura ou sedição, o mesmo acontecendo com o novo regime instalado em França. Quando, em 1827 regressa a Milão, foi na fronteira impedido pela polícia de entrar em Itália tendo-lhe sido ordenado que abandonasse sem demora os Estados Austríacos. Nesta etapa da sua vida em que se sente desadaptado não só em relação ao seu país natal como a Milão, o escritor confessa que cada vez que escrevia uma cena de amor da Cartuxa pensava automaticamente em Matilde, acrescentando: “A pior das infelicidades seria que estes homens tão secos, meus amigos, no meio dos quais vou ter de viver, adivinhasse a minha paixão por uma mulher que nem sequer possuí”. Como acontecia com os personagens das suas obras, a Matilde sonhada vivia na sua carne como um fogo.
A recordação de Matilde trouxe à memória do escritor a 22ª estrofe da Elegia do poeta inglês Thomas Gray (1716-1771), escrita num cemitério campestre. Stendhal anotou-a em sua intenção, embora ligeiramente alterada: “Para aquela que se tornou prisioneira do esquecimento silencioso”. Depois, interrogou a amada morta se não lhe seria agradável ver o seu nome pronunciado, ao fim de tantos anos, por uma boca amiga. Esta pergunta a uma morta prova o quanto a sua saudade a trouxe viva para o seu presente. Seria interessante estudar o sentimento que Stendhal guarda daqueles que amou e continua a amar intensamente mesmo depois de mortos. Milagre de amor, talvez o escritor sentisse a presença viva da amada observando-o por detrás do seu ombro, lendo a pergunta que o escritor lhe dirigia através da escrita , a ela, prisioneira do esquecimento silencioso, se não lhe seria agradável VER o seu nome pronunciado, ao fim de tantos anos, por uma boca amiga. Anotemos que Stendhal não escreve Ouvir o seu nome pronunciado mas Ver, como se os seus mortos se comunicassem a ele enquanto escrevia. Este passo dá à arte da escrita um carácter transcendente pois torna-a num veículo de comunicação total entre os vivos e entre estes e os mortos. O escritor permanece uma Voz através dos tempos e essa voz, que está enterrada nos seus livros, espera pelos leitores para se fazer ouvir de novo. O escritor, mesmo depois de morto, é imortal porque permanece entre nós como uma Voz enquanto os mortos, apresentando-se à sua memória, o assistem quando são evocados. Stendhal dá-nos uma imagem completamente dinamizada da relação oculta do escritor com os fantasmas da sua criação assim como com os fantasmas dos seus entes queridos já mortos. O nome de Matilde estaria proibido de ser pronunciado, mesmo para os filhos, devido ao estigma que a marcara em vida? Não o evocaria certamente o marido de quem estava separada mas não divorciada, o que pressupunha que seria uma presa dele, empurrada para fora da vida e votada ao esquecimento e ao silêncio. Também a não evocaria o único amante que as más línguas lhe atribuíram, Ugo Foscolo (1778-1827), poeta italiano que inspirando-se em Werther redige um romance epistolar intitulado Ultime Lettere di Jacopo Ortis mas que se celebrizou, sobretudo, com o poema I Sepolcri, obra cimeira do lirismo sepulcral em que o poeta evoca o monumento funerário de Maquiavel na Igreja Santa Croce em Florença. Stendhal admirava-o, tendo-o citado duas vezes na edição de 1826 de Rome, Naples et Florence. Segundo o informou Matilde , Ugo Foscolo estaria loucamente apaixonado não por ela mas por Madalena Marliani, esposa do banqueiro Paolo Bignami. Esta mulher isolada não teria tido, de facto, outro amante que a recordasse de forma amigável. Stendhal, que muito a amou e por ela sofreu a ponto de não poder nem trabalhar na sua obra nem mesmo ler, prestou, através da sua obra “De L’Amour” e através do que deixou escrito sobre ela, um grande tributo à memória de Matilde que havia sido em vida tal como o era depois de morta, vítima de alguém que queria que ela permanecesse para sempre prisioneira do esquecimento através do silenciamento da sua memória. A Matilde também se deve a primeira tentativa romanesca de Stendhal: em 1819 escreveu o Roman de Métilde, obra que chegou até nós como um fragmento que Samuel de Sacy que organizou, prefaciou e apresentou a obra completa do escritor nas Éditions du Seuil, integrou em Romans et Nouvelles. Samuel de Sacy afirma que Stendhal o teria deixado em estado de fragmento, com um único capítulo, na medida em que não podia transpor para o plano romanesco um devaneio autobiográfico uma vez que as recordações evocadas de maneira tão directa e numa data tão próxima da sua experiência só poderiam levar o escritor a um impasse: a realidade não comportava ainda um seguimento, o que o teria obrigado a saltar da realidade para a invenção, técnica que ele ignorava nessa altura. Entre os personagens desta obra figuram a condessa Bianca que é Matilde, Poloski que é o próprio Stendhal e a duquesa de Empoli que representa a senhora Traversi. Roman de Métilde começa quando em casa da condessa Bianca acaba o serão com um baile. Stendhal descreve admiravelmente o estado de paixão violenta em que se encontrava naquela reunião social: “ele estava diante dela (Bianca) num estado violento: mergulhado em silêncio; e, no entanto, parecia-lhe que todos os olhos liam o seu amor nos seus; ou, se queria falar, o fogo que o devorava passava para as suas palavras dando-lhes quase os caracteres da loucura. Era, de todos os caracteres, aquele que podia chocar mais a condessa. Apenas chegada à flor da idade, uma série de desgraças tinham dado a esta bela criatura todas as aparências da melancolia mais nobre, mais profunda e por vezes a mais terna. Creio que nesta época ela desesperava da sociedade e quase da natureza humana; ela tinha renunciado a encontrar na sociedade e na natureza humana o que o seu coração necessitava”. Quanto à duquesa de Empoli, descreve-a como estando dominada por duas necessidades: a de amar e a de dominar. “A duquesa, mulher de espírito que podia ainda inspirar sentimentos, não conheceu, no entanto, o amor. Ela estava em sociedade como a senhora de Genlis nos seus escritos, como inimiga do amor”. Poloski, tendo perguntado ao seu amigo, o barão Zanca, se a Empoli lhe perdoaria o seu amor pela condessa Bianca, este aconselhou-o: “Deixai de amar uma mulher que não pode amar, que é unicamente amor-próprio, que com as ideias de um amor constante que tem, jamais amará um estrangeiro que hoje está em Bolonha, amanhã em Nápoles, e depois de amanhã em Varsóvia e dentro de oito dias, sabe Deus onde estará”. O capítulo termina com considerações sobre Poloski que “ainda que lançado cedo na vida social, possuía um carácter quimérico, sonhador e poético, afeito a sentir profundamente a infelicidade do amor. Fora um apaixonado de Napoleão e, como Napoleão, não amava senão os sucessos de ambição”.Stendhal julgava que o Roman de Métilde iria ter um epílogo diferente pois segundo o plano traçado pelo escritor, Poloski , resignado e considerando que a Empoli (Traversi) era uma amiga apaixonada e Bianca, uma mulher bela, terna mas indiferente, dirige-se à duquesa nestes termos: “-Fizestes-me todo o mal que podestes, mas eu estou feliz com a simples amizade de Bianca (Matilde), pois no meu coração não há lugar para o ódio e, já que sois sua amiga, eu amo-vos ternamente”. A belíssima estrofe de Thomas Gray que ele recorda a propósito de Matilde soa-nos como uma prece sublime à memória de uma mulher que tinha no coração do escritor a sua morada. Entre Alexandrine e Matilde, Stendhal não recordou Angéline que morrera em 1841.Não lhe tendo até então feito justiça, em setembro de 1835, Stendhal, para fugir do calor e da aria cattiva de Roma, refugiou-se, como era seu hábito, na cidadezinha de Albano Laziale situada a 40 quilómetros a sul de Roma junto ao lago de Albano. Contemplando as águas paradas e sem voz do lago, a sua memória, renovada por correntes subterrâneas oriundas de um universo submerso, tendo reencontrado os seus mortos, devolve-a ao seu coração, deixando escrito: “No outro dia, sonhando com a vida no solitário caminho acima do lago de Albano eu, sentado no banco situado atrás das estações do Calvário dos Minori Osservanti, construído por Barberini, irmão de Urbano VIII, e junto de duas belas árvores cercadas por um baixo muro redondo, como Astarté, achei que a minha vida podia ser resumida através destes nomes cujas iniciais escrevi no pó com a minha bengala ‘V…, M…, A…, Anjo, M…, C…’. Victorine Mounier, Mélanie Guilbert, Angela Pietragrua, Angéline Bereyter, Matilde Dembowski, Clémentine Curial”. Em 21 de Março de 1842, na véspera de um ataque de apoplexia, o escritor deixou esboçado um plano para uma novela intitulada La Juive. Stendhal, que conhecia agora a dureza do seu confronto com um coração obstinado, sentia não só como fora amado mas também como fora maravilhosa a expressividade do sentimento que despertara em Angéline. Viva ou morta, todos os momentos dela lhe pertenciam pelo que só no coração do Anjo a sua memória encontraria sombra e frescura. |
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Joana Ruas (Portugal, 1945). Jornalista cultural e tradutora no jornal da República da Guiné-Bissau e na Radiodifusão Portuguesa. Trabalha na escrita de uma obra em três volumes sobre cem anos de Resistência Timorense. Contacto: joanaruas@sapo.pt. Página ilustrada com obras da artista Mayte Bayon (Espanha). |
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