revista de cultura # 63
fortaleza, são paulo - ma
io/junho de 2008






 

O alvorecer da consciência em Yukio Suzuki

Jacob Klintowitz

.

Yukio SuzukiYukio Suzuki é o autor de uma das mais famosas praias do mundo, Copacabana. Ali está a sua foto, em Copacabana, comprovando este dado histórico pouco conhecido. Até então, tudo levava a crer, Deus era o autor de Copacabana. Na foto, Suzuki está junto de uma pedra que tem a sua assinatura artística e onde o artista coloca a sua assinatura, marca individual, é a sua obra. É a partir desta premissa que boa parte da auto-intitulada vanguarda estabeleceu as suas fronteiras, apontando o dado mercadológico e as convenções do circuito artístico. A diferença entre Suzuki e a, hoje, já tradicional vanguarda, consiste em dois elementos fundamentais. O primeiro, é que para Suzuki atitudes como esta: a de assumir a autoria de Copacabana é um dado solitário. Ele não divulgou, ele não convocou a mídia para uma entrevista coletiva, ele não documentou o seu feito em dezenas de fotos e áudio-visual, e o colocou a sua documentação numa bem estruturada sala em salão de arte, galeria ou evento periódico, como a Bienal de São Paulo. O seu foi um gesto espiritual e suficiente em si mesmo. O segundo elemento diferenciador é que o gesto de Yukio Suzuki remete à uma ação artística ancestral da cultura japonesa, a construção do Jardim. Também na arte do jardim, quando o artista encontra uma pedra e a leva para o jardim e, após um longo convívio, cujo tempo de duração não é cronológico, podendo durar um dia ou anos, ele encontra o seu lugar no jardim, o seu único lugar no jardim, a pedra faz parte da sua autoria. A semelhança do gesto de Suzuki com a construção do jardim japonês é evidente e fisicamente similar. Ao ser extremamente revolucionário, Yukio Suzuki se encontra com uma das mais complexas e antigas tradições culturais de seu país de origem.

Yukio SuzukiEm Yukio Suzuki a realidade é um complexo sistema de aparências, reflexos da aparência, e percepção de sombras. O homem que contempla a imagem do homem projetada num espaço sem registro e parâmetros. Espaço no qual está ausente a gravidade. Um espaço na Terra que não pertence a Terra. Nem a gravidade da atração dos corpos, nem a gravidade de comportamento do homem que sabe o que seja a realidade. Suzuki não sabe de realidade nenhuma que não seja a de imagens existentes em dois planos, o físico e o pressentido, em três planos, o físico, o psíquico e o fora do imaginário, o de uma sensação intuída. E é esta intuição, além de uma categorização, aquém e além da nomeação, o que se impõe no seu trabalho. Yukio Suzuki é o artista que registra o sistema do que não está sistematizado, do existente apenas porque sentido por um ser humano. A comprovação da existência magnífica desta intuição, o que lhe dá súbita corporeidade, é ter sido captada por este artista que se submete a ela, que aceita este universo já distante das sombras, o luminoso mundo que se impõe a ele como uma realidade absoluta e ao qual ele se submete e dedica a vida. Sentir é o objetivo do artista e delicadamente, com uma delicadeza infinita apesar de humana, ele assinala este sentimento do mistério. É uma arte do inefável e ele, modestamente, de uma modéstia infinita apesar de humana, esta a serviço do inefável e é o seu sacerdote. Poucas vezes, como neste caso, encontramos um artista tão disponível e que se deseja instrumento de seu sentimento do mistério. Talvez, em algum momento, este artista sorriu diante de seu continente descoberto, do continente imerso e que emerge, mas este sorriso não aflorou aos seus lábios e permaneceu, também ele, como um movimento interior, como o reconhecimento de que ele encontrara a sua verdadeira pátria, o continente dos reflexos da aparência, o continente das sombras, o continente do arco-íris, o do inefável, que parece o ter escolhido como porta-voz.

O velho pintor Yukio Suzuki está imóvel, sentado numa cadeira, de frente para a janela de seu atelier. Talvez haja um som delicado, mas ninguém o escuta. A luz do sol, filtrada pela janela, pousa assimetricamente no assoalho. É possível que a música, o raio solar e o pintor, como bons amigos, se encontrem todos os dias, mas é também provável que não existam diferenças entre a música, a luz e Yukio Suzuki e eles sejam um só ser.

Yukio Suzuki está diante de si mesmo, envolto em ritmos e reflexos dourados. É um pintor que não observa com os olhos, mas com um sentido interior que percebe nuanças de oculto significado. É a imagem aproximada, a memória destes símbolos, que o seu trabalho nos mostra.

Yukio SuzukiSuzuki elabora no silêncio, no vazio, na unidade de sua relação com o mundo. O alvorecer da consciência.

O assunto, entendido como descrição, não é importante, mas sim o tema, a face de uma realidade intuída. Yukio Suzuki é um artista que registra o ser. O ser da árvore, da paisagem, da percepção. As imagens, conjuntos de objetos e atmosferas, verificam a unicidade. É o que o artista apresentou na história de sua vida. A crônica de um encontro.

Claude Monet e Yukio Suzuki fizeram obras com o mesmo intuito, mostrar que o objeto é um objeto de luz e se modifica a cada momento do dia. No caso de Yukio, além desta visão do mundo fluídico, existe a ambivalência de vários pontos de vista e, principalmente, de realidades superpostas, uma constante no seu trabalho. Igualmente foi constante o esboço de si mesmo, o contorno de um homem.

Eu me lembro de uma tarde, clara luz, e de 948 desenhos de Yukio Suzuki. O artista havia desenhado os mesmos objetos, do mesmo ângulo, em pequenos cartões. Havia começado no dia 2 de outubro de 1981 e o último desenho era de 1º de outubro de 1982. As diferenças entre eles eram alterações cromáticas, pois haviam sido realizados em horas diferentes do dia. Os matizes da incidência. Eu observava o percurso da luz na sensibilidade do artista e a sua total entrega à sensação cotidiana, a sua integração às variações da natureza. As alterações da vida.

A exata colocação dos elementos plásticos sempre conferiu à obra de Suzuki uma extraordinária clareza. Nada é vago ou tópico. Ao contrário, todas as coisas são únicas, idênticas a si mesmo e afirmam que não poderiam ser de outra maneira.

Yukio Suzuki foi unicamente pintor e o seu trabalho resultava na criação de uma pintura. A sua arte foi a projeção da sua existência e o exercício da pintura e do desenho uma maneira de aprimorar o seu ser. Perceber a si mesmo a cada vez, e expressar este sentir através do gesto. O registro de um momento da existência. A arte fez aflorar o espírito, a disciplina essencial do ser.

Yukio SuzukiOlhar o mundo. Eu me lembro de uma tarde, clara luz, e de 948 desenhos de Yukio Suzuki. O artista havia desenhado os mesmos objetos, do mesmo ângulo, em pequenos cartões. Havia começado no dia 2 de outubro de 1981 e o último desenho era de 1º de outubro de 1982. A diferença entre eles eram alterações cromáticas, pois haviam sido realizados em horas diferentes do dia. Os matizes da incidência. Encantamento. Eu observava o percurso da luz na sensibilidade do artista e a sua total entrega à sensação cotidiana, a sua integração às variações da natureza. As alterações da vida.

Suzuki elabora no silêncio, no vazio, no espaço criado e magnetizado na relação do homem com o mundo. O alvorecer da consciência.

Agora, a promessa é de um dia de primícias. Os primeiros frutos. Suzuki mostrava os seus desenhos no mesmo ambiente onde foram realizados, na sua casa-atelier. Desenhos de qualidade extrema, manifestação da descoberta permanente deste artista do sutil, do gesto exato, do movimento anímico, da ação sensível. Suzuki é um artista raro, produtor do único, do insubstituível, daquilo que só ele pode fazer e do que é feito uma única vez. O homem e a intuição da natureza do mundo.

A exata colocação dos elementos plásticos sempre conferiu à obra de Suzuki uma extraordinária clareza. Nada é vago ou tópico. Ao contrário, todas as coisas são únicas, idênticas a si mesmo e afirmam que não poderiam ser de outra maneira. Esta arte de extrema precisão é significativa do pensamento e da emoção do artista.

De que natureza são feitas esta clareza e esta precisão? Aqui estamos longe da aplicação de princípios matemáticos, combinações, permutações. E nem mesmo a impecabilidade do traço ou o rigor delimitativo das áreas cromáticas. O que confere a justeza plástica é a intuição certeira dos alvos emocionais.

Yukio SuzukiYukio Suzuki não está unicamente fazendo arte, ainda que o seu trabalho resulte na confecção de uma obra de arte. O seu trabalho é a projeção da sua existência e o exercício da pintura e do desenho uma maneira de aprimorar o seu ser. Perceber a si mesmo, a cada vez, e expressar este sentir através do gesto. A arte faz aflorar o espírito. A disciplina essencial do ser.

O processo criativo de Yukio Suzuki não esta submetido às circunstâncias do nosso tempo ou ao circuito de arte. No seu caso, o ofício é um exercício do ser, uma aproximação com o existente. Desta identificação de alguma coisa que está dentro do artista, não definível verbalmente, com alguma coisa que está fora dele, também indefinível, nasce uma obra que só poderia ser como ela é. A imagem de um momento da existência.

Certamente essas imagens de Suzuki poderiam ser multiplicadas. Não se trata disto. Elas são únicas por serem produtos da reflexão de um homem diante de uma percepção interior. Yukio Suzuki está diante de si mesmo, voltado para a escuta de algo, atento a este delicado som, aberto e em comunicação consigo mesmo. É um pintor que não observa com os olhos, mas com um sentido interior que percebe nuanças delicadas de oculto significado. É a imagem aproximada destes símbolos que o seu trabalho mostra.

O assunto, entendido como descrição, não é importante, mas sim o tema, a visão do mundo, a face de uma realidade intuída, a sensação do universo. Yukio Suzuki é um artista que registra o ser. O ser da árvore, o ser paisagem, o ser da percepção. As imagens, inserções de objetos e atmosferas, verificam a unicidade do ser. É o que o artista apresentou na sua vida. A crônica de um encontro.

Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Atualmente dirige o MuBE – Museu Brasileiro de Escultura. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Yukio Suzuki (Brasil).

RETORNO À CAPA ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA

procurar textos