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revista de cultura # 63 |
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O alvorecer da consciência em Yukio Suzuki Jacob Klintowitz
O velho pintor Yukio Suzuki está imóvel, sentado numa cadeira, de frente para a janela de seu atelier. Talvez haja um som delicado, mas ninguém o escuta. A luz do sol, filtrada pela janela, pousa assimetricamente no assoalho. É possível que a música, o raio solar e o pintor, como bons amigos, se encontrem todos os dias, mas é também provável que não existam diferenças entre a música, a luz e Yukio Suzuki e eles sejam um só ser. Yukio Suzuki está diante de si mesmo, envolto em ritmos e reflexos dourados. É um pintor que não observa com os olhos, mas com um sentido interior que percebe nuanças de oculto significado. É a imagem aproximada, a memória destes símbolos, que o seu trabalho nos mostra.
O assunto, entendido como descrição, não é importante, mas sim o tema, a face de uma realidade intuída. Yukio Suzuki é um artista que registra o ser. O ser da árvore, da paisagem, da percepção. As imagens, conjuntos de objetos e atmosferas, verificam a unicidade. É o que o artista apresentou na história de sua vida. A crônica de um encontro. Claude Monet e Yukio Suzuki fizeram obras com o mesmo intuito, mostrar que o objeto é um objeto de luz e se modifica a cada momento do dia. No caso de Yukio, além desta visão do mundo fluídico, existe a ambivalência de vários pontos de vista e, principalmente, de realidades superpostas, uma constante no seu trabalho. Igualmente foi constante o esboço de si mesmo, o contorno de um homem. Eu me lembro de uma tarde, clara luz, e de 948 desenhos de Yukio Suzuki. O artista havia desenhado os mesmos objetos, do mesmo ângulo, em pequenos cartões. Havia começado no dia 2 de outubro de 1981 e o último desenho era de 1º de outubro de 1982. As diferenças entre eles eram alterações cromáticas, pois haviam sido realizados em horas diferentes do dia. Os matizes da incidência. Eu observava o percurso da luz na sensibilidade do artista e a sua total entrega à sensação cotidiana, a sua integração às variações da natureza. As alterações da vida. A exata colocação dos elementos plásticos sempre conferiu à obra de Suzuki uma extraordinária clareza. Nada é vago ou tópico. Ao contrário, todas as coisas são únicas, idênticas a si mesmo e afirmam que não poderiam ser de outra maneira. Yukio Suzuki foi unicamente pintor e o seu trabalho resultava na criação de uma pintura. A sua arte foi a projeção da sua existência e o exercício da pintura e do desenho uma maneira de aprimorar o seu ser. Perceber a si mesmo a cada vez, e expressar este sentir através do gesto. O registro de um momento da existência. A arte fez aflorar o espírito, a disciplina essencial do ser.
Suzuki elabora no silêncio, no vazio, no espaço criado e magnetizado na relação do homem com o mundo. O alvorecer da consciência. Agora, a promessa é de um dia de primícias. Os primeiros frutos. Suzuki mostrava os seus desenhos no mesmo ambiente onde foram realizados, na sua casa-atelier. Desenhos de qualidade extrema, manifestação da descoberta permanente deste artista do sutil, do gesto exato, do movimento anímico, da ação sensível. Suzuki é um artista raro, produtor do único, do insubstituível, daquilo que só ele pode fazer e do que é feito uma única vez. O homem e a intuição da natureza do mundo. A exata colocação dos elementos plásticos sempre conferiu à obra de Suzuki uma extraordinária clareza. Nada é vago ou tópico. Ao contrário, todas as coisas são únicas, idênticas a si mesmo e afirmam que não poderiam ser de outra maneira. Esta arte de extrema precisão é significativa do pensamento e da emoção do artista. De que natureza são feitas esta clareza e esta precisão? Aqui estamos longe da aplicação de princípios matemáticos, combinações, permutações. E nem mesmo a impecabilidade do traço ou o rigor delimitativo das áreas cromáticas. O que confere a justeza plástica é a intuição certeira dos alvos emocionais.
O processo criativo de Yukio Suzuki não esta submetido às circunstâncias do nosso tempo ou ao circuito de arte. No seu caso, o ofício é um exercício do ser, uma aproximação com o existente. Desta identificação de alguma coisa que está dentro do artista, não definível verbalmente, com alguma coisa que está fora dele, também indefinível, nasce uma obra que só poderia ser como ela é. A imagem de um momento da existência. Certamente essas imagens de Suzuki poderiam ser multiplicadas. Não se trata disto. Elas são únicas por serem produtos da reflexão de um homem diante de uma percepção interior. Yukio Suzuki está diante de si mesmo, voltado para a escuta de algo, atento a este delicado som, aberto e em comunicação consigo mesmo. É um pintor que não observa com os olhos, mas com um sentido interior que percebe nuanças delicadas de oculto significado. É a imagem aproximada destes símbolos que o seu trabalho mostra. O assunto, entendido como descrição, não é importante, mas sim o tema, a visão do mundo, a face de uma realidade intuída, a sensação do universo. Yukio Suzuki é um artista que registra o ser. O ser da árvore, o ser paisagem, o ser da percepção. As imagens, inserções de objetos e atmosferas, verificam a unicidade do ser. É o que o artista apresentou na sua vida. A crônica de um encontro. |
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Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Atualmente dirige o MuBE – Museu Brasileiro de Escultura. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Yukio Suzuki (Brasil). |
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