revista de cultura # 64
fortaleza, são paulo - julho/agosto
de 2008






 

Vitor Ramil: o artista tranquilo
[
entrevista]

Dellano Rios

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Vitor RamilNão é difícil compreender a razão de Vitor Ramil considerar-se “um só”, apesar de um vida artística dupla - como músico e escritor. Satolep, segunda obra de ficção de Ramil, recém-editada pela Cosac Naify, mantém uma relação estreita com a produção musical do gaúcho. Esta aproximação se dá, em nível imediato, no próprio título e cenário do romance (de tão estranho, é preciso tomar cuidado com esta definição). Satolep é a Pelotas mítica criada por Ramil, em que os tempos históricos se sobrepõem e assistimos a um inusitado encontro de personagens de épocas diversas. É ainda quase fantasmagórica, com sua permanente névoa e o frio que acompanha - mais do que importuna - quem ali vive. Vale lembrar que o disco premiado com o Tim de Música chama-se “Satolep Sambatown”, gravado com Marcos Suzano. Outra ligação, que consiste no grande trunfo literário da obra, é a forma de narrar de Vitor Ramil. Habilidoso na construção de frases, na combinação de palavras e, por conseqüência, na criação de imagens, Ramil desafio o leitor a acompanhar o que se conta. Não resta dúvidas que o texto é bonito e que a sensação da leitura é prazerosa. No entanto, é por vezes tentador abandonar a pretensão de compreender a história. Fixa-se no momento da leitura e se passa de página a página, fruindo mais do que entendendo. Não é essa a sensação que se experimenta ao se ouvir música? Trata-se de uma literatura da permanência. A tentativa de vencer o tempo, de “vencer a morte” (como dizia José Alcides Pinto). Ora são as memórias que o escritor procura conceder uma sobrevida; ora o próprio momento da criação, da escrita. Tudo isto a partir da história de um homem que retorna a sua cidade natal para descobrir o que esqueceu nela - sua própria alma. [DR]

 

DR A ação em Satolep é desencadeada a partir do retorno do narrador a cidades com este mesmo nome. Seu regresso à cidade, após uma temporada no Sudeste, foi a experiência base para esta descrição, marcada pelo ambíguo choque de estranhamento e reconhecimento?

Iván TovarVR Em parte, sim. Voltei para Pelotas quando estava finalizando meu primeiro livro (Pequod, de 1995). Aconteceu numa época em que só havia rock na música brasileira - e não era isso que eu queria. Neste tempo, ou você se mobilizava pra entra na mídia de massa ou tava excluído. Não havia muita expectativa para quem queria produzir outros tipos de música. O (cantor pernambucano) Lenine, por exemplo, passou todo aquele período do rock meio escondido, fazendo outras coisas, como umas trilhas para Os Trapalhões. Quando apareceu a Internet, o CD, a diversidade do que estava sendo produzido veio um pouco mais a tona. Claro que meu caso não é exatamente igual ao dele, mas comigo houve uma coisa semelhante. Achava inútil estar no Rio de Janeiro, em meio aquela coisa vertiginosa que é típica dos grandes centros urbanos. Isto vai lhe afastando de sua música, de sua essência. Ouvi coisas absurdas do pessoal das gravadoras. Teve quem me dissesse “seu trabalho é muito difícil” ou “seu trabalho é bom demais e, pra gente, só interessa quem é mediano”. Então achei que talvez fosse melhor me isolar. Quando voltei para Pelotas, foi como se o tempo tivesse parado. Claro que ele não parou. Lá fora, o tempo tava passando. Aqui me voltei para as coisas essenciais. Na época me questionei se tinha feito a coisa certa, quando se esperava que, já que estava lá, eu “vencesse” com minha música. Hoje, vejo diferente. O que ganhei, o que consegui avançar, não teria conseguido se tivesse ficado lá.

DR A inversão do nome de sua cidade natal, de Pelotas para Satolep, é bastante recorrente em sua obra, tanto na música como na literatura. Qual a razões por trás desta transformação?

VR É engraçado por que a razão é bem simples. Quase boba, na verdade. Coisa da minha adolescência, quando tinha uns 19 anos e estava fazendo uma canção, que viria a se chamar “Satolep” (do disco “A paixão de V segundo ele próprio”, de 1984). Estava escrevendo um verso, só que a palavra Pelotas não ficava boa e, não sei direito porque, decidi inverter. E, com Satolep, o verso funcionou bem melhor. Depois ela foi se transformando para mim e passou a ter significado. Passou a ser uma entrada diferente e começou a caracterizar algo que não é exatamente Pelotas. Satolep é uma espécie de mitificação de Pelotas. Não a Pelotas dos dias de hoje, mas uma cidade do começo do século XX. Ela também apareceu na versão que fiz de “Joey”, do Bob Dylan (“Joaquim“ do disco “Tango”, de 1987). Depois, quando escrevi meu primeiro romance Pequod, também nomeei Satolep a cidade em que as coisas se passam. No Satolep, lido com figuras reais, como o João Simões (Lopes Neto, escritor) e o Lobo da Costa (poeta), mas de uma forma livre, sem nenhuma preocupação com rigores históricos. Algo que seria bem mais difícil se trabalhasse com Pelotas.

Iván TovarDR Em 2003, você proferiu um conferência em Genebra que virou livro - A estética do frio. Nela, você chama a atenção para a necessidade de se pensar este “Brasil estrangeiro” que é o Rio Grande do Sul. Satolep é uma contribuição literária à estética do frio?

VR Você viu como o livro começa? O personagem está no Norte, no calor, e lembra do frio. Esta história meio que aparece em A Estética do Frio, quando falo do dia que estava no Rio e vi uma notícia no jornal sobre um carnaval fora de época no Nordeste. A partir desta imagem, eu lembrei do Sul, quis estar lá. A estética do frio vai sendo meio sugerida ao longo do livro, sem ser nomeada. O romance vem a aprofundar pontos dela, a exemplificar o que tá naquele textinho.

DR Neste texto, da estética do frio, você frisa as diferenças entre a região Sul e o resto do país. Internamente, no estado do Rio Grande do Sul, há diferenças entre sub-regiões e cidades. Quais os traços característicos da “estética do frio” de Pelotas?

VR A cidade tem coisas muito próprias. Por exemplo, Pelotas, durante muitos anos, foi o lugar da cultura no estado. Era uma cidade com grandes prédios, passavam por lá as grandes óperas. Mas não era uma cidade feita só pela cultura branca, do europeu. Em certo momento da história, há mais negros que brancos na cidade. As escolas de samba do estado nasceram em Pelotas. Nosso carnaval de rua era maravilhoso. No livro, o personagem fala disso “é a cidade mais brasileira desse Sul branco”. Em A Estética do Frio, não cito Pelotas porque não queria particularizar. Mas a verdade é que, a rigor, toda sugestão formal do meu trabalho vem daqui.

DR E em Satolep, como esta influência se faz presente?

Iván TovarVR Em quase tudo, mesmo nessa coisa do personagem estar com trinta anos, que é quando você é jovem, mas também é maduro. Associo isso com nuvem e pedra, que é um pouco a marca da cidade, cheia de paralelepípedos, bonita, mas que numa noite de neblina você não enxerga um palmo na sua frente. Ao mesmo tempo, queria que o texto como que escapasse do leitor, fosse meio fluído, diluído. A certa altura, uso imagem de Heráclito (pensador grego cuja máxima é “tudo flui”). Quero que o leitor vivencie o que tô contando. Não sou contador de histórias, por isso, o que me interessa é criar uma textura que você vai ver. No meu livro anterior, Pequod, queria que ele tivesse essa forma da memória, em que há coisas que você acredita que viveu coisas que não viveu, essa imprecisão. O que peço, neste dois livros, é que leitor se entregue. Como minha imaginação é visual, tento situar a visualidade de quem lê. Espero que ele seja lido como quem vai olhando uma exposição, sem parar em cada quadro e tentar destrinchar o sentido dele. Satolep é pra ser lido mais de uma vez. E ele tem que ser bom o suficiente pro cara querer voltar.

DR Para você, música e literatura estão ligadas?

VR Me sinto uma pessoa só. O que tenho feito na minha vida toda é não acelerar demais a música, nem correr demais com a literatura. Produzo mais facilmente canções que textos, dai ter gravado mais discos do que escrito livros. Mas estou muito feliz com este momento, com o “Satolep Sambatown”, em estar lançando o livro. Queria chegar destas duas maneiras. Afinal, meu dia a dia, desde meus 11 anos, é escrever e compor. Tento fazer algo em alto padrão, não lanço livro só por vaidade, nem quero fazer música para tocar em novela.

Iván TovarDR Foi uma surpresa ganhar o Prêmio Tim numa categoria como a de “Voto popular”, que, como cantora, premiou Ivete Sangalo, uma artista bem diferente de você?

VR Temos que pensar neste “voto popular” não como algo viciado, em um sentido contaminado. Significa que as pessoas votam, não um corpo de jurados. O que está em jogo não é quem é o artista mais popular. Disputando comigo tinham o Caetano e Lulu Santos que, certamente, são populares. A diferença é que o prêmio possibilitava que as pessoas votassem pela Internet. O público que se mobilizou se sente cúmplice do meu trabalho, da minha postura. E ele se mobilizou de verdade. Depois que ganhei é fiquei sabendo da quantidade de gente que pedia votos, nessas correntes. Hoje, as pessoas vem falar comigo não como se eu tivesse ganhado sozinho, mas como se fosse uma vitória coletiva. Com relação a Ivete, não sei quem eram as outras concorrentes, mas ela tem uma coisa particular que, apesar de ser de fato muito popular, tem fã-clube fanático e com certeza se mobilizou para ela ter uma votação muito mais expressiva que as outras. Acho isso interessante porque traz a tona um público que não tem voz, que a mídia tende a menosprezar. Quem não ouve rádio, não vê novela. Tem outro mundo que a gente não tá vendo. Acho que esse público, talvez anos atrás, não existisse pra mim. Venho construindo dessa forma há muitos anos. Tem um personagem em Satolep que diz que “nascer leva tempo”. Nunca investi na minha fama. Sempre achei que o que me dá prazer é a longevidade, é a coisa sólida. 

Dellano Rios (Brasil, 1982). Jornalista e repórter do Caderno 3, do Diário do Nordeste (Ceará). Entrevista originalmente publicada no Diário do Nordeste em 20 de junho de 2006. Contato: dellano@gmail.com. Página ilustrada com obras do artista Iván Tovar (República Dominicana).

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