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editorial
cultura e mercado: um lugar estratégico das
feiras de livro
Um
dos editores da Agulha é o curador da 8ª Bienal Internacional do
Livro do Ceará, um dos mais importantes eventos literários do país. A
oportunidade reflete um interesse do Governo do Estado do Ceará, em
particular do Secretário da Cultura, Francisco Auto Filho, em uma ação
pioneira cuja consistência permita ao próprio país avançar em sua
inserção real (e não retórica) em um ambiente cultural latino-americano.
É bastante significativo que se tenha redirecionado um conceito já
relativamente gasto das feiras de livro, que tendem cada vez mais a
atender as razões de mercado do que propriamente as razões de cultura.
Busca-se agora um equilíbrio ágil entre as duas vertentes, e para tanto
a própria definição da programação contempla não a lista de mais
vendidos ou de autores mais freqüentes em eventos similares, e sim uma
dupla comunidade lingüística –portuguesa e espanhola – que em quatro
continentes totaliza 30 países e representa, no entendimento da
curadoria, uma inadiável perspectiva de conhecimento e reconhecimento de
raízes culturais, ao mesmo tempo em que propicia a constituição de um
novo modelo de mercado editorial que permita um maior alcance de
diversidade estética e conseqüente ampliação de uma visão de mundo para
leitores, editores, autores, imprensa, universidade, público em geral
etc.
Exige-se, para tanto, a consciência dos obstáculos a serem
enfrentados, ao mesmo tempo em que se impõe uma verdade cristalina: a de
que tal cenário já de muito necessitava de um puro ato de ousadia.
Literatura e reflexão sobre a mesma, no Brasil, como que estancou, a
julgar pelo panteão reiteradamente evocado pela comunidade jornalística,
a igual que a acadêmica. Sofremos um desfalque estético reforçado por
outra perda não menos fundamental: a visão crítica não comprometida com
subjetivismos e outros pecados capitais. Este panorama precário não se
restringe à literatura. Toda e qualquer manifestação artística hoje, a
julgar pelo que nos anunciam as vitrines, sobrevive ao custo de favores
e subornos. Há, no entanto, um rio subterrâneo, uma resistência que
teima contra o tempo – como cabe a toda arte – e não se deixa contaminar
pelos excessos atuais de retórica e arranjos florais. Será plenamente
possível enumerá-los e uma visita ao índice geral da Agulha o
constata com facilidade, porém se faz indispensável uma concentração
dessas estratégias, sua difusão ampla e constante, seu reconhecimento de
público.
Não se trata de dizer que uma mudança de rota neste
panorama demasiado fútil que nos toca viver dependa de ações
institucionais. Não se trata de uma dependência. Há que compreender o
papel que desempenhamos cada um de nós em uma comunidade. E constituir a
si mesmo como força motriz de uma nova configuração do Estado.
Lamenta-se, em muitos casos, que produtores culturais e, sobretudo,
criadores, ajam de forma tanto dispersa quanto – aspecto lamentavelmente
majoritário – a tratarem-se entre si como concorrentes. Há que entender
que cabe a todos ofertar soluções, desafiar o Estado a aceitá-las. Cabe
também aos artistas entenderem finalmente que não são semi-deuses, e sim
cidadãos. Talvez esta síndrome do estrelato seja o que mais afasta um
artista, no Brasil, de sua comunidade. Ao ceder a essas fantasiosas
vantagens do palco instantâneo, da glória fácil, de uma cultura
eternamente emergente, nos tornamos alvos fáceis de uma promoção de
futilidades. Assim é que nos distanciamos de nossas raízes culturais e
nos tornamos em uma massa de consumidores – os próprios artistas
criadores, intelectuais, críticos – e verdadeiramente desaparecemos como
agentes culturais.
Ao apontar na direção contrária a tudo isto, como o faz em
seu projeto apresentado a público a 8ª Bienal Internacional do Livro do
Ceará, entende-se que cabe uma melhor atenção a esta sua maneira de
pensar, sua maneira de propor uma nova visão de mundo no que diz
respeito ao modelo gasto das feiras de livro em nosso país. O espaço
proposto é justamente o lugar estratégico para a cultura cearense
expressar-se em sua diversidade, afirmando sua legítima abertura ao
diálogo com outras culturas. O apoio da Agulha será integral, e
desde já começamos a incluir em nossa pauta matérias de/com alguns dos
convidados da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará.
Os editores |