revista de cultura # 65
fortaleza, são paulo -
setembro/outubro de 2008






 

Horacio Kleinman: o centro do labirinto

Jacob Klintowitz

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Horacio KleinmanEu não sei se Horacio Kleinman é um criador de galáxias e se ele refaz o mito primeiro, o da invenção do universo. O que percebo é que a sua escultura nos apresenta um mundo desconhecido e fascinante. Inventado ou revelado, talvez não importe tanto, pois a própria criação humana sempre parte do existente. Por cerca de três séculos a língua portuguesa utilizou uma distinção entre creação e criação, a primeira para designar a manifestação divina a partir do nada e a segunda para qualificar o ato humano. Hoje nos dizem que era uma distinção arbitrária e sem sentido e os dicionários atuais registram apenas “criação”, o que está de acordo com a etimologia do termo. A minha confiança na sabedoria de Antonio Houaiss é quase ilimitada, mas não posso deixar de assinalar o quanto me agradava a arbitrariedade que perdurou por 300 anos e a suspeita de que esta atitude voluntariosa tinha uma funda significação. De qualquer maneira, a nossa imaginação não fica totalmente desamparada já que a ciência acredita na mônada primeva que se desdobrou e deu origem ao universo conhecido. Que ponto será este, capaz de conter tudo o que podemos conceber como existente?

Horacio Kleinman

Há exatos 11 anos a escultura de Horacio Kleinman que, em suas volutas, curvas e cavernas, continha cenas humanas, me intrigou e mergulhei na sua simbologia, o que resultou num livro, “O homem no labirinto”. Agora o escultor descobriu novos materiais de trabalho e o seu recorte encantado da realidade floresceu com a aquisição de elementos pictóricos. O artista reencontrou a sua juventude de pintor e este acréscimo tornou a sua escultura um ser com novo fulgor. A memória do artista quando se torna presente dota a obra de inesperadas luzes.

Horacio Kleinman

Em que materiais inovadores podem ajudar o artista ? Mais do que simples suporte da arte, seguidamente os artistas buscam novos materiais como instrumentos para expressar idéias novas. A intuição vem antes da matéria. No caso de Kleinman, além do bronze e do mármore, técnicas nas quais já demonstrara o seu domínio, agora temos esculturas feitas em Grancrete, um novo material inventado nos Estados Unidos que tem características únicas de resistência, impermeabilidade e duração mínima de 100 anos. É um material único, utilizado até agora para situações extremas, imerso na água ou na terra e com tempo de endurecimento não acima de 20 minutos. Haverá melhor material para uma escultura exposta ao tempo?

Horacio Kleinman

O mundo kleinmiano é feito de surpresas, ocultas personagens, cenas estáticas que nos esperam desde sempre, cenários dentro de cenários, comentários a partir de uma estrutura e, atualmente, nos parece, que nestas esculturas se repete o fenômeno deslumbrante que já encontramos na história da pintura, o de uma janela que dá para o exterior. A pintura de interior continha uma paisagem externa. O mundo se abria infinitamente na nova era da Renascença. Em Kleinman, na sua obra, numa estrutura feita, em boa parte, para o exterior, a janela se abre para uma cena interiorizada. Nesta escultura, tão apropriada para estar ao ar livre, o homem olha para dentro e se investiga infinitamente.

Horacio Kleinman

Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Atualmente dirige o MuBE – Museu Brasileiro de Escultura. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Horacio Kleinman (Brasil).

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