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revista de cultura # 66 |
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Epístola de Judas aos Lusíadas: das Cartas aos romances de António Lobo Antunes Norberto do Vale Cardoso
Para compreendermos a produção romanesca de António Lobo Antunes, muito em particular a abordagem da guerra, temos de, necessariamente, nos socorrer de D’ Este Viver Aqui Neste Papel Descripto, pois este proto-romance tem um importante papel na produção posterior. Nesse conjunto de cartas, o seu autor tece comentários vários sobre os seus projectos literários, comentando o que escreve durante a guerra e o que já havia escrito antes dela, chegando, inclusive, a solicitar que a sua esposa elimine o que havia escrito antes da partida para Angola. Nas Cartas da Guerra, Lobo Antunes refere-se obsessivamente ao tempo que dedica à escrita, às sucessivas correcções a que procede e aos seus conceitos de escrita e de romance, citando autores e livros que vai lendo. Como sabemos, as Cartas passavam por um apertado controlo, o que levava o seu emissor a uma auto-censura, prévia à censura externa. A censura existia, aliás, quer nas cartas, quer nas emissões de testemunhos dos soldados ao canal público de televisão, quer na chegada de mensagens por rádio. Numa crónica (in Visão, 05.07.2007, p. 18), Lobo Antunes refere-se a essa chegada de mensagens aquando do nascimento da sua primeira filha: “estou em África e um soldado vem chamar-me à barraca do rádio. O cripto entrega-me um papel Rapariga” [01] Como referimos, a obrigatoriedade de de-codificação das mensagens gerou um conjunto de cifras e decifrações várias. Nesse exemplo vemos que tem de haver também uma desencriptação da mensagem, mas, pela distância, nada parece real, como vemos ao parecer ainda incrédulo tantos anos após esse acontecimento, recordado na crónica. D’ Este Viver Aqui Neste Papel Descripto é uma encriptação da guerra, tornando-se, pois, interessante observar a forma como as Cartas irrompem no processo de escrita dos romances de Lobo Antunes. Sabemos que nos três primeiros romances existem pedaços de cartas, que se ligam, aliás, à sua construção autobiográfica. Todavia, essa intrusão de pedaços de cartas no texto dos romances tem ligação com os processos de criação literária, ali em embrião. Recordamos esses exemplos, já retirados dos dois primeiros romances:
Exemplo 1: GTS disse-lhe sem falar sentado à secretária do hospital, recuperando o morse através do qual comunicavam sem serem entendidos de mais ninguém, GTS até ao fim do mundo, meu amor, agora que somos já Pedro e Inês nas criptas de Alcobaça à espera do milagre que há-de vir. (ME. 59)
Sublinhe-se que a expressão de despedida mais usada por Lobo Antunes nas Cartas, também presente neste extracto da Memória de Elefante, é a inscrição tumular de Inês de Castro, cujo túmulo se situa em Alcobaça: “Até a[o] fim do mundo” [02]. Mas por que razão estará esta carta (agora integrada no romance) novamente cifrada? Apenas para reconstruir um tempo e procurar recolocar a carta como era escrita então? A resposta não é alheia ao processo de construção da escrita antuniana, pois como veremos, há uma relação íntima entre o proto-romance e os primeiros romances. De facto, se, nas Cartas, António e Maria José se comparam a Pedro e Inês, tal facto deve-se à separação forçada dos dois amantes por um regime ditatorial que é, afinal, um Pai ideal que a tudo se impõe. Assim, temos, nas Cartas e no romance posterior, a denúncia de que o Estado era, naquele tempo, como o “fraco Rei”, que “faz fraca a forte gente” d’ Os Lusíadas (III-139). A proibição do amor, anterior à revolução, terá tido repercussões no tempo posterior, pois os amantes, separados pela guerra, não mais conseguem reconstruir a vida interrompida, ficando cada um encerrado no seu túmulo. Ao fazer re-emergir (pela carta integrada no romance) a declaração de amor e a denúncia do autoritarismo anterior, Lobo Antunes leva-nos a inferir que esse tempo não pode ser esquecido e que o milagre esperado nas Cartas nunca chegou a acontecer no tempo dos romances. Então, o tempo posterior leva a uma reconstrução do anterior, denunciando que essa guerra foi o algoz de toda uma geração [03] e que é necessário compreender o salazarismo em vez de o recalcar. O Estado Novo, como Pai ideal, foi menos humano que a loba que criou “os irmãos que Roma edificaram” (Os Lusíadas, III-126). Assim como a morte de Inês de Castro atentara ao código cavaleiresco (Pais, 1994:102), pois os carniceiros pretendiam ser cavaleiros, também a guerra, com a censura, atentara ao código da comunicação, exigindo os silêncios, as omissões e as auto-censuras.
Segundo os Evangelhos, Judas vende-se por trinta dinheiros e beija Jesus, acabando por se suicidar. O Judas do segundo romance de Lobo Antunes não está, afinal, de nenhum dos lados da guerra, pois, por um lado, é um soldado português, mas não concorda com aquela guerra nem se revê na força colonizadora, traindo-a, e, por outro, apesar de estar do lado do colonizado, que tem a razão moral para a guerra, tem de o combater, acabando também, por o trair. Como Judas, este Judas beija o Outro, pois, como médico, trata as suas feridas e, como humano, apaixona-se por ele (note-se o amor nostálgico por África, a razão atribuída à causa africana e a relação com Sofia e a Tia Teresa em Judas ou no Segundo Livro de Crónicas). De igual modo, trai os seus, pois se ama e representa a sua Pátria, é ali, na guerra, que cria uma “patriofobia” que o leva a investir de forma “biliosa contra a totalidade portuguesa […] em toada de alergia contra tudo o que é nacional, […]contra a Guerra Colonial e o sistema político e económico que a produziu e ainda contra o Portugal pós-revolucionário […]” (Teixeira, 1998:302). Ao vir, agora, proceder a um ajuste de contas, vemos que Os Cus de Judas não são apenas o lugar onde esteve na guerra, mas uma expressão que os africanos interpretavam como ligada à traição. As Cartas da Guerra são uma espécie de epístolas de Judas a’Os Lusíadas, ligando a sua violência posterior à guerra à personagem de D. Pedro retratada n’ Os Lusíadas. Mas, como Judas, que sentira o peso da culpa e se suicida, também essa vingança se volta contra si (processo de construção autobiográfica).
Exemplo 2: […] Meu amor querido eis-me outra vez no Chiúme depois de uma viagem sem problemas e isto sabes como é continua na mesma um pouco isolado mas tranquilo no fundo é idêntico a morar dois anos em Vila Real ou em Espinho ou num monte do Alentejo com a vantagem de poder contar à nossa filha que conversei com zebras e elefantes em zebrês e elefantês, todas as tardes escrevia ridículas mentiras joviais para uma mulher sem corpo […] (CJ. 128, 129). A cifração prossegue então nas cartas incluídas n’ Os Cus de Judas. Paradoxalmente, os romances (e, sobretudo, Judas) são a abertura, violenta, das criptas da guerra, mas as cartas, rescritas ou reinventadas, são novamente codificadas. O falar dos animais e-fabula a guerra. Ora, se este romance é commumente ligado à exposição da guerra, como pode o próprio romance efabular-se a si mesmo? A escrita da guerra será, por esse motivo, sempre efabulação, ficcionalização. O falar “zebrês e elefantês” é a declaração do texto como código, linguajar inapreensível pelos novos censores. Aliás, o romance de “A a Z” que é Judas é, todo ele, um falar codificado, porque a guerra e a escrita são sempre indecifráveis no seu verdadeiro sentido. O facto de, no romance, recordar a carta e afirmar que, então, escrevia para uma “mulher sem corpo” é, além da figura da carta como substituto do corpo, ou a assunção da ausência física que motiva a carta, a visão da carta como um corpo/ texto. Assim como Os Lusíadas “são efectivamente o criptotexto sobre o qual se fez […] o mais belo texto pessoano” (Pais, 1994:114), as Cartas da Guerra são o criptotexto de Judas. Atente-se que o título “Os Cus de Judas” poderia muito bem ser substituído por um outro equivalente: [06] “Até-ao-fim-do-mundo”, inscrição tumular de Inês de Castro, despedida recorrente nas Cartas da Guerra e um outro modo de definir o lugar onde Lobo Antunes fez a guerra. Ora, é neste novo “corpo” textual, intitulado Os Cus de Judas, que cria um novo código de escrita. Segundo Edward Vargo (2004:46), Judas é, declaradamente, um “heterosexual ‘erotic code’”, que liga o amor bi-racial e as políticas imperialistas entre Portugal e África, o que prova que esse código existente nas Cartas é representado de um outro modo após a experiência colonial. Note-se um outro exemplo:
Exemplo 3: Queridos pais aqui no Chiúme as coisas correm o melhor possível dentro do melhor possível que é possível não há motivo nenhum para se preocuparem comigo até engordei um quilo desde que cheguei e principio a assemelhar-me fisicamente a um missionário irlandês […] (CJ. 130). A ironia presente neste excerto ganha corpo, acima de tudo, na palavra “missionário”, que pode ser entendida de um outro modo, pois esta guerra não era, certamente, uma missão, mas uma obrigação. Ora, é no tempo posterior à morte dos amantes e à traição nos cus-de-judas que o ex-combatente ganha uma nova missão: denunciar que o novo tempo instituído também encerra os que fizeram a guerra dentro das criptas, isto é, ser uma espécie de “epístola de Judas”. António Lobo Antunes começa a transformar-se num “emissário de um rei desconhecido”, que cumpre “informes instruções de além” (cf. ALA, in JL, 05.10.2006:17), [07] o que se liga profundamente ao processo de construção literária. Vejamos:
Exemplo 4: […] os generais no ar condicionado de Luanda inventavam a guerra de que nós morríamos e eles viviam […], e eu escrevia para casa Tudo vai bem, na esperança de que compreendessem a cruel inutilidade do sofrimento, do sadismo, da separação, das palavras de ternura e da saudade, que compreendessem o que não podia dizer por detrás do que eu dizia e que era o Caralho caralho caralho caralho […] (CJ. 164) A invenção da guerra pelos que não a vivem é reinventada após o conflito. Dissertando a propósito do “papel criativo da violência guerreira”, Rui Bebiano (2000:20) refere que a visão da guerra, no século XV, era tão acrítica e insensível, que chegou a ser vista como “‘conspiração de silêncio’ humanista”. Esta tendência para as “formas de imaginação da história” (Bebiano, 2000:20), adensada no século XVI, parece perdurar em Portugal ainda no final do século XX. Mas se antes a visão excessiva do fenómeno guerreiro engrandecia a monarquia, no tempo da guerra, bem como no período pós-Abril, a Guerra Colonial é eliminada dos discursos. Se durante o salazarismo só “por detrás” (de forma codificada) se poderia falar a verdade, o mesmo parece suceder depois, levando à imaginação da guerra e à impossibilidade de a narrar. Este paradoxo, entre a abertura e a re-edificação das criptas da guerra, está igualmente presente no discurso de Lobo Antunes, que se nega a falar da guerra ou que nega ter escrito algum romance sobre ela.
NOTAS *] Abreviaturas utilizadas (por ordem alfabética): CG. Cartas da Guerra | CJ. Os Cus de Judas | ME. Memória de Elefante | SLC. Segundo Livro de Crónicas 01. Numa crónica (SLC. 175) refere-se ao homem que “trabalhava com o rádio e” lhe anunciou o nascimento da filha. 02. A epígrafe dos túmulos de Pedro e Inês é: «A:E AFIN DO MUNDO». Segundo Maria de Lourdes Soares (2006), essa epígrafe pode de facto significar “Até ao fim do mundo”, e justificar um dos cognomes de D. Pedro. 03. N’ Os Lusíadas os algozes de Inês são “carniceiros” (III-130), “feros” (III-130), “horríficos” (III-124), “brutas feras” (III-126), “brutos matadores” (III-132). 04. Não é aqui alheia relação entre a guerra e a figura do lobo, pois a importância dos filhos da loba na fundação de Roma é simbolicamente representada por Marte, que é considerado o pai (Grimal, 1992:292). 05. Devemos notar que a obra de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, se inicia também com a leitura dos versos que, n’ Os Lusíadas, retratam os amores proibidos de Pedro e Inês, sendo que a peça de Garrett trata do regresso de um veterano da batalha de Alcácer Quibir. Ora, na Memória de Elefante (p. 99), o psiquiatra refere-se a si mesmo como sendo um “Fr. Luís de Sousa de blaser”, provando que a sua existência dita normal/ civil é interrompida e condena-o à clausura, como sucedeu com Luís de Sousa. 06. É de salientar que, inicialmente, o primeiro romance era para se chamar D’ Este Viver Aqui Neste Papel Descripto, passando a ter o título do segundo romance, Memória de Elefante. Só mais tarde é que as cartas escritas da guerra recuperam esse título inicial, que fôra o proto-título da Memória. 07. Segundo António Lobo Antunes, terá sido Eduardo Lourenço a afirmar, baseado no poema de Fernando Pessoa, que o autor de Os Cus de Judas é hoje “Emissário de um rei desconhecido/ eu cumpro informes instruções de além.” |
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Norberto do Vale Cardoso (Portugal). Poeta e ensaísta. Autor de Alfaiate das palavras (2000), Fogo fátuo (2006) e Arbor (2008). Contato: norvale@iol.pt. Página ilustrada com obras do artista Franklin Fernández (Venezuela). |
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