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editorial
os derivativos, os subprime, e a
biblioteca de irati
Não fomos nós.
Ninguém, aqui em agulha, é financista, especulador,
empresário que investiu em derivativos, ou qualquer outra espécie de
gente diretamente envolvida na presente crise. Sequer somos
comentaristas econômicos; tampouco, profetas do apocalipse.
Mas não vivemos em um universo paralelo. Por isso, o que
está acontecendo com a economia mundial receberá alguns mínimos e
indispensáveis comentários. Em primeiro lugar, observando que os
trilhões de dólares colocados à disposição de organizações financeiras e
outras empresas, na tentativa de evitar uma bancarrota, uma depressão
mundial, poderiam ter tido uma utilização melhor. Certamente, reduziriam
significativamente a fome, o déficit alimentar, em escala mundial.
Poderiam servir para reverter o aquecimento global, eliminando o risco à
vida no planeta. Também poderiam, complementarmente, apenas com os
trocados das cifras agora em jogo, universalizar o acesso á educação, e
ampliar significativamente a produção e circulação do conhecimento.
A hipocrisia universal. Os planos para reduzir a emissão
planetária de gazes, mesmo com a timidez daqueles do Protocolo de Kyoto,
foram rejeitados, em especial pelo governo norte-americano, sob alegação
de que seu custo era excessivo. Fazem de conta que o dinheiro gasto em
preservação do ambiente, educação e cultura são despesa, a fundo
perdido, e não investimento, cujo retorno consistiria em um mundo
melhor, e economicamente mais estável.
Sabe-se que, no Brasil, há uma perda de 40% no transporte
de grãos. E há perdas da mesma ordem, de 40%, na transmissão de energia
e também na distribuição de água. O quanto nossa economia seria mais
sólida, por conseguinte mais resistente a essas crises, se houvéssemos
implantado bons programas de combate ao desperdício, de conservação da
energia, de redução da poluição, de reciclagem do lixo, inclusive
convertendo-o em matriz energética?
Quem vai sofrer com essa crise? Quem receberá seus impactos
mais fortes? Os financistas, os grandes empresários. os dirigentes
públicos, os mandatários que deixaram a economia mundial rolar para o
abismo? Não – esses sempre têm como safar-se. Os prejudicados serão os
de sempre, os mais pobres. Os trabalhadores. E, dentre esses, com muita
probabilidade, aqueles que trabalham como agentes culturais. Nós. De
qual setor, invariavelmente, quando há crise, são cortadas verbas,
reduzidas ao mínimo, ao apenas suficiente para o custeio? Da
administração cultural pública.
Em uma espécie de hiper-causalidade, semelhante àquela
segundo a qual o bater de asas da borboleta no Índico tem relação com o
ciclone no Caribe (ou vice-versa, a borboleta no Caribe, o tufão no
Índico, tanto faz), calotes em hipotecas e financiamentos imobiliários
nos Estados Unidos acabam por dificultar a compra de livros por uma
biblioteca pública em Irati (se é que em Irati há verba para compra de
livros pela biblioteca municipal…)
* * *
A circulação desta edição de agulha coincidirá com a
já anunciada abertura da Bienal do Livro do Ceará, com expressiva
programação de mostras, debates, palestras, lançamentos e apresentações
de autores. Tem como foco a mestiçagem, o hibridismo em literatura, o
multiculturalismo, contando com um grande número de convidados,
brasileiros e de outros países de língua portuguesa e do continente
americano. Dará especial atenção aos vários suportes da difusão da
literatura, impressos e no meio digital.
No mesmo período, temos outro evento literário importante,
a já tradicional Feira do Livro de Porto Alegre. Precedendo-os, mais uma
edição do Fórum de Letras de Ouro Preto; e da Fliporto, a feira
literária de Porto das Galinhas, Pernambuco. Isso, paralelamente à
programação literária constante das metrópoles e grandes centros
brasileiros.
No presente contexto, todas essas manifestações adquirem
caráter de cultura de resistência. Tornam-se eventos solidários. É a
literatura de qualidade em confronto com a especulação, a ganância, a
irresponsabilidade. A principal reivindicação a ser apresentada é sua
própria continuidade: a manutenção e ampliação da difusão da cultura,
como instrumento para a redução da barbárie e a defesa de uma vida
melhor neste planeta.
* * *
Nesta mesma agulha, em sua recente edição 64, foi
publicado um editorial intitulado Censura, por todos os lados.
Somos obrigados a retornar ao assunto, através do ensaio de um dos
editores, Em defesa das biografias. Diante da repetição desses
episódios, fica registrada, aqui, a sugestão de um fórum permanente em
defesa da liberdade de expressão.
Isso já foi feito, e com êxito, durante o regime militar.
Quem diria, a iniciativa precisar ser retomada, passado mais de um
quarto de século…
Os editores |