Franklin Fernández Franklin Fernández
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revista de cultura # 66
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2008

editorial

os derivativos, os subprime, e a biblioteca de irati

Não fomos nós.

Ninguém, aqui em agulha, é financista, especulador, empresário que investiu em derivativos, ou qualquer outra espécie de gente diretamente envolvida na presente crise. Sequer somos comentaristas econômicos; tampouco, profetas do apocalipse.

Mas não vivemos em um universo paralelo. Por isso, o que está acontecendo com a economia mundial receberá alguns mínimos e indispensáveis comentários. Em primeiro lugar, observando que os trilhões de dólares colocados à disposição de organizações financeiras e outras empresas, na tentativa de evitar uma bancarrota, uma depressão mundial, poderiam ter tido uma utilização melhor. Certamente, reduziriam significativamente a fome, o déficit alimentar, em escala mundial. Poderiam servir para reverter o aquecimento global, eliminando o risco à vida no planeta. Também poderiam, complementarmente, apenas com os trocados das cifras agora em jogo, universalizar o acesso á educação, e ampliar significativamente a produção e circulação do conhecimento.

A hipocrisia universal. Os planos para reduzir a emissão planetária de gazes, mesmo com a timidez daqueles do Protocolo de Kyoto, foram rejeitados, em especial pelo governo norte-americano, sob alegação de que seu custo era excessivo. Fazem de conta que o dinheiro gasto em preservação do ambiente, educação e cultura são despesa, a fundo perdido, e não investimento, cujo retorno consistiria em um mundo melhor, e economicamente mais estável.

Sabe-se que, no Brasil, há uma perda de 40% no transporte de grãos. E há perdas da mesma ordem, de 40%, na transmissão de energia e também na distribuição de água. O quanto nossa economia seria mais sólida, por conseguinte mais resistente a essas crises, se houvéssemos implantado bons programas de combate ao desperdício, de conservação da energia, de redução da poluição, de reciclagem do lixo, inclusive convertendo-o em matriz energética?

Quem vai sofrer com essa crise? Quem receberá seus impactos mais fortes? Os financistas, os grandes empresários. os dirigentes públicos, os mandatários que deixaram a economia mundial rolar para o abismo? Não – esses sempre têm como safar-se. Os prejudicados serão os de sempre, os mais pobres. Os trabalhadores. E, dentre esses, com muita probabilidade, aqueles que trabalham como agentes culturais. Nós. De qual setor, invariavelmente, quando há crise, são cortadas verbas, reduzidas ao mínimo, ao apenas suficiente para o custeio? Da administração cultural pública.

Em uma espécie de hiper-causalidade, semelhante àquela segundo a qual o bater de asas da borboleta no Índico tem relação com o ciclone no Caribe (ou vice-versa, a borboleta no Caribe, o tufão no Índico, tanto faz), calotes em hipotecas e financiamentos imobiliários nos Estados Unidos acabam por dificultar a compra de livros por uma biblioteca pública em Irati (se é que em Irati há verba para compra de livros pela biblioteca municipal…)

* * *

A circulação desta edição de agulha coincidirá com a já anunciada abertura da Bienal do Livro do Ceará, com expressiva programação de mostras, debates, palestras, lançamentos e apresentações de autores. Tem como foco a mestiçagem, o hibridismo em literatura, o multiculturalismo, contando com um grande número de convidados, brasileiros e de outros países de língua portuguesa e do continente americano. Dará especial atenção aos vários suportes da difusão da literatura, impressos e no meio digital.

No mesmo período, temos outro evento literário importante, a já tradicional Feira do Livro de Porto Alegre. Precedendo-os, mais uma edição do Fórum de Letras de Ouro Preto; e da Fliporto, a feira literária de Porto das Galinhas, Pernambuco. Isso, paralelamente à programação literária constante das metrópoles e grandes centros brasileiros.

No presente contexto, todas essas manifestações adquirem caráter de cultura de resistência. Tornam-se eventos solidários. É a literatura de qualidade em confronto com a especulação, a ganância, a irresponsabilidade. A principal reivindicação a ser apresentada é sua própria continuidade: a manutenção e ampliação da difusão da cultura, como instrumento para a redução da barbárie e a defesa de uma vida melhor neste planeta.

* * *

Nesta mesma agulha, em sua recente edição 64, foi publicado um editorial intitulado Censura, por todos os lados. Somos obrigados a retornar ao assunto, através do ensaio de um dos editores, Em defesa das biografias. Diante da repetição desses episódios, fica registrada, aqui, a sugestão de um fórum permanente em defesa da liberdade de expressão.

Isso já foi feito, e com êxito, durante o regime militar. Quem diria, a iniciativa precisar ser retomada, passado mais de um quarto de século…

 

Os editores

sumário

1 "amamo-nos como papoula e memória" - a correspondência de ingeborg bachmann e paul celan. viviane de santana paulo
2 analogia, ocultismo e ludus surrealista. carlos m. luis
3 em defesa das biografias (e dos biógrafos). claudio willer

4
epístola de judas aos lusíadas: das cartas aos romances de antónio lobo antunes. norberto do vale cardoso
5
juan gelman: en la presencia ausente de lo amado (entrevista). josé ángel leyva
6
las narrativas chamánicas del ayahuasca y la producción de la literatura neo-indigenista. steven f. white
7
luis lópez nieves: la historia no existe (entrevista). julio bolívar
8
madrasas de áfrica: la visión de un artista. luis lópez "gabú"
9
a música e a perna do saci. flávio paiva 
10
o acordo ortográfico. teresa ferrer passos
11
surrealismo & estados unidos. floriano martins
12
vicente aleixandre: luz en la boca. luis bravo
 

artista convidado franklin fernández [objetos, texto de carlos yusti]
resenhas livros da agulha
Christina Ferraz Musse [por Heloisa Buarque de Hollanda] Contardo Calligaris [por Erico Baymma] David Treece [por Vagner Camilo] Efraim Medina Reyes [por Daniela Bunn] Luiz Roberto Guedes [por Gil Pinheiro] Martin Heidegger [por Renato Kirchner] Walmir Ayala [por Cláudio Portella]
música
discos da agulha
Aline de Lima [por Fabrício Brandão] Cartola [por Fabrício Brandão] Iara Rennó [por Fabrício Brandão] Mônica Salmaso [por Erico Baymma] Vetusta Morla [por Fabrício Brandão]
serviço
40 anos de monte ávila editores
poesia
banda hispânica
cumplicidade 1 galeria de revistas  
cumplicidade 2
galeria de manifestos  
cumplicidade 3
galeria de arte

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
todos os colaboradores

artista plástico convidado (objetos)
franklin fernández

apoio cultural
jornal de poesia

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éclair antonio almeida filho [inglês, francês
ð português]
marta spagnuolo [português ð espanhol]
floriano martins [espanhol
ð português]

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