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revista de cultura # 66 |
discos da agulha
Dentre as mais variadas manifestações culturais, sem dúvida alguma, a música é uma das que mais operam a favor da redução das fronteiras deste vasto mundo nosso. Tanto é que algum tempo atrás ousaram inventar o termo World Music para definir toda uma espécie de fusão de ritmos peculiares das partes mais inusitadas possíveis do planeta. Em muitos casos, essa espécie de globalização facilitou o intercâmbio entre artistas de todos os cantos, tornando o terreno um verdadeiro solo comum de expressões onde todos se alimentavam das influências borbulhadas num instigante caldeirão de trocas multiculturais. Um pouco dessa aproximação entre mundos pode ser percebida no trabalho de Aline de Lima, maranhense que impulsionou sua carreira em Paris. Segundo CD da trajetória dessa artista, que carrega a habilidade de saber integrar culturas (leia-se aqui principalmente a brasileira e a francesa), Açaí se traduz numa miscelânea de visões de mundo apreendidas pela cantora, agregando desde sonoridades típicas do Nordeste brasileiro, na faixa O Solar de Catirina, até um baião franco-brasileiro em Renda Minha / Mulher Rendeira. Qualidade e apuro na seleção do repertório existem de sobra no disco. Há beleza e intensidade no equilíbrio entre os apelos percussivos e a letra de Amor com Solidão. Noutro momento, Ladeira da Preguiça (composição de Gilberto Gil) aparece pontuada pela primorosa voz de Aline em meio a um arranjo preciso. Ainda é possível destacar a bossa que contorna a melodia sensível de Razão de Sofrer e as veias poéticas que atravessam os acordes suaves de Adeus Solidão, canção que carrega em si o recitar de Horizontes, poema de Fernando Pessoa. Aline assina a produção do disco juntamente com o músico, arranjador e trompetista Jun Miyake, famoso pela sua representatividade no jazz americano e japonês. Açaí pode ser traduzido também como uma espécie de resgate da cantora na busca de suas raízes nunca esquecidas. E tudo parece flutuar por sobre o canto impregnado de coisas que povoam uma existência. Por certo, as imagens que ficam exalam o teor sublime daquilo que importa aos ouvidos reter. [Fabrício Brandão]
Dos céus caíam sobras de cimento e outras tantas idéias. O moço, oficiando num canteiro de obras, protegia-se com um chapéu-coco. Inevitável se livrar do apelido que o seguiria por todo o sempre. E nem mesmo a lida dura dos dias foi capaz de sabotar o que o talento reservava para Cartola, civilmente conhecido como Angenor de Oliveira. O ano presente coroa o centenário de nascimento daquele que foi o verdadeiro poeta do samba, cujas letras retratavam com maestria sentimentos evocados em torno do amor e das coisas singelas da vida. Cartola, lançado quando o compositor já contava 65 anos de idade, é o primeiro álbum do sambista, disco que desfila com beleza e intensidade letras que contribuíram para firmar o artista como gênio absoluto do gênero. Desde Disfarça e Chora, passando por Sim, Corra e Olhe o Céu, Acontece, até chegar à última faixa, Alegria, o disco agrega uma intensidade lírica que justifica o título nobre de poeta do samba ao compositor. Uma atmosfera de constatações lúcidas sobre os percalços amorosos rege boa parte das canções, construindo uma espécie de romantismo que, apesar das dores do caminho, credita ao sentimento um lugar que não admite mágoas, mas sim perspectivas de um seguir adiante. Prova disso está na memorável faixa O Sol Nascerá, canção que cultua a esperança através do sorrir. Mais à frente, deparamo-nos com o transbordar da belíssima Alvorada, música que congrega todo um morro a celebrar a felicidade de existir. Entre os arranjos, regados a um preciso equilíbrio entre cavaquinho, flauta, violão de 7 cordas, pandeiro, surdo e cuíca, habitam os verbos de Cartola. Para ouvir bem o artista, é necessário certo desprendimento e leveza. Aqui, a receita maior para se atingir o alvo sensível de nossas escutas mora na simplicidade, pureza que em nada se assemelha à mediocridade ou atributos simplistas. Desatando os pesos da alma, resta muito a celebrar. Salve, Cartola! [Fabrício Brandão]
“No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma/ Era preto retinto e filho do medo da noite”. A propósito dessas palavras da faixa Macunaíma, os sentidos começam a percorrer o belíssimo disco da cantora e compositora paulista Iara Rennó, trabalho que chama a atenção pelo esmero em torno da construção de um rico ambiente para as múltiplas caracterizações possíveis do principal personagem do escritor modernista Mário de Andrade. Macunaíma, espécie de anti-herói nacional e modelo de um alguém sem caráter, aqui desfila epopéias possíveis e renovadas, revive através das letras de Iara e, o que é melhor, prova a sua absurda capacidade de se manter ainda como um mito vivo de nossa brasilidade. Definitivamente, estamos diante de um daqueles projetos que mergulham com propriedade na representação precisa das sensações suscitadas pela musicalidade. Some-se a esse trabalho a perspectiva que a própria obra andradiana possibilitou à construção do disco: a de ter em si textos dotados de apelos sonoros, aspecto que impulsionou a composição das canções, todas elas assinadas pela própria Iara. Durante todo o caminho do disco, é possível perceber a presença de gêneros como ciranda, cantigas populares, eletrônica, percussão corporal e até mesmo uma fusão entre o ragga e o hip hop. A intensidade e a beleza fazem morada em faixas como Mandu Sarará, Conversa (participação especial de Tom Zé), Jardineiro, Naipi (canção que encanta pelo elevado lirismo) e Rudá. Os arranjos são outra virtude do disco, pois há neles uma ampla construção dramática dos ambientes e sensações cantados. Trata-se de uma obra que exala apelos teatrais por todos os seus cantos sonoros, tudo muito bem dotado de signos que se complementam e formam um todo harmônico e especial. Inicialmente distribuído em bibliotecas públicas e trazendo em si o objetivo de servir como instrumento de discussões literárias em salas de aula, Macunaíma Ópera Tupi reuniu vários produtores e aproximadamente 70 músicos, todos comprometidos em consolidar não uma miscelânea de elementos musicais e rítmicos, mas sim algo que pudesse se afirmar como um lugar com cara própria. Uma esfera à parte se instala e, capitaneados pela doce voz de Iara Rennó, somos regidos em significado e alma. [Fabrício Brandão]
Quando o terreno é musical, trata-se de areia movediça, movimento das paixões, instância etérea com densidade transcendente a palavras explícitas, em forma de um grande jogo de imagens. Possuímos uma diversidade enorme de música contida no sangue meio negro, índio, português e de todos os povos que vieram aqui habitar esta terra, tal a complexidade do som que encarna cada um de seus componentes, por essência ou contaminação, o que é próprio do ser. A música brasileira tem a tradição da canção: um sistema musical em que há textos sonorizados a conduzir dos arranjos à interpretação do solista ou grupo vocal. Esta é a forma da paixão com que se analisa comumente o teor de uma música, nos tradicionais juízos de valor. No entanto, como essência, há no ser humano mais que o plaino abandonado em que se acometem as loucuras próprias da música que, se não são exploradas, não acontecem "em música". Eis a grande confusão! Fala-se de música como canção – formato industrializado, com refrões pegajosos, para fidelizar e vender – e não como música em si: um terreno fértil em que quanto mais se colhe mais se semeia. Juntar canção e música ainda é um grande desafio a ser enfrentado, por força das tradições imperiosas sobre o público e co-mandado do óbvio de uma indústria que se preocupa em manter a fidelidade e as vendas. Raros são os exemplos da pura exploração musical, no terreno da canção. Instiga-se a paixão do público, este se vicia, as necessidades diminuem, caem os critérios de qualidade e o consumo continua – movimento cíclico que aparenta estar em decadência, pelo menos em termos de "investimento", por conta da pirataria. A cantora, não somente cantora, Mônica Salmaso, com sua voz de intensidade única, vem traçando uma trajetória artística de grande exploração das possibilidades cancionais, sobretudo na adequação dos mais inspirados textos lítero-musicais ao imponente ambiente musical, fazendo música – e não somente canção, sem desmerecer "esta categoria". Há muito "indiciada" como releitora de canções, como se seu trabalho fosse unicamente de escavar o tesouro da história de nossa gente com registros musicais, ou não, Mônica teve sua chegada ao mundo musical brasileiro da maneira imprevisível: com interações sutis, mas precisas, junto a grupos que procuravam na música a textura musical própria para as interpretações de suas canções\músicas. Além de participações em discos de companheiros de sua época, como Eduardo Gudim, Mário Gil, entre outros, ela se uniu à paulista Orquestra Popular de Câmera onde, creio, sedimentou o que seria seu projeto musical. Junto a estes se configurava como mais um instrumento, vocal, obviamente, mas tendo em vista um aprendizado que lhe daria lugar especial em nossa não tradicional musica brasileira popular. Alguns lhe "indiciam", agora, de cantora lírica, "música de câmera" – como se fosse algo inatingível e não relevasse o grande manancial de historias populares, sertanejas, da gente que traduz em graça o espírito possível de ser representado culturalmente como "alma brasileira". Encontrou o veio inexplorado que a canção tanto se ressentia: um sistema musical onde interpreta histórias preciosas em cantos que se inserem no grande da musica. Com três trabalhos independentes (Afro-Sambas, Trampolim e Voadeira) e três pelo selo Biscoito Fino (Iaiá, Noites de Gala, Samba de Rua e Nem 1 Ai), havendo se apresentado por todo Brasil e mundo afora, ela finalmente consegue se fazer decifrar no terreno "proposta artística" como uma exploradora de histórias musicadas, fluindo como um grande vento inspirador e criador de musica. Vale falar que Afro-Sambas, em dueto com Paulo Belinatti é um dos mais primorosos "entranhamentos" sonoros sobre os temas de Baden Powel e Vinicius de Moraes; Trampolim, 2º trabalho, recebeu participações diversas, como Nana Vasconcelos e ainda ganhou prêmio internacional de mixagem (aspecto técnico que nos passaria despercebido não fosse a maestria do trabalho feito); Voadeira é resultante de escolha como melhor intérprete pelo prêmio Visa, na edição de intérpretes – cujo título muito bem enuncia sua proposta grandiosa, já que não se satisfaz "tão-somente" em dar o seu tom para as notas das canções: sopra, voa, vai-se com o próprio vento musical! Iaiá traz primordialmente canções populares, sambas repletos de nuances da "malandragem" de uma alma que transforma em graça o pior dos episódios. Alias, Mônica faz-se também como uma grande contadora de histórias, introduzindo, em shows, o que motivou o compositor à canção. Não se faria outra a também grande intérprete de Chico Buarque, em Noites de Gala, Samba de Rua, em que o espírito do Noel Rosa encarnado dos anos 60 até hoje, o melhor cronista do cotidiano. Uma união de experiências grandiosas em conjunto com o fabuloso grupo Pau-Brasil, composto de parceiros desde o início de sua carreira. No entanto, Mônica Salmaso trazia uma carta na manga que possivelmente foi seu aval para a interpretação de Chico Buarque: Nem 1 Ai foi gravado anteriormente, mas lançado em Agosto de 2008, após o lançamento do tão esperado CD e DVD sobre a obra de Chico. É em Nem 1 Ai que Mônica se revela inteiramente em seu projeto musical, dando-se ao direito de articular comunicações com os diversos instrumentos que fazem o grupo Pau-Brasil, aqui com a participação do fabuloso pianista André Mehmari – que tal qual os outros, Teco Cardoso (seu marido, sopros), Paulo Belinatti (violão), Rodolfo Stroetter (baixo) e Ricardo Mosca (bateria), tem na veia o espírito da grande música. Um disco irretocável, onde músicos conversam em introduções livres dos formatos tradicionais "para tocar no rádio", onde a virtuose e explorada em natura, em canto, em verso, em harmonia, em arranjos, em completude. As canções são recheadas de referências, conversas entre canto e instrumentos, e estes entre si, em valorosíssimos multi-diálogos que não são menos que encantadores. Não é à toa que Mônica Salmaso configura-se ainda como "cantora Cult", muito embora, já seja bastante popular no formato a que se propõe. Pode-se pensar num formato cancional para o futuro, um tempo em que a música em seu ambiente seja mais importante que um solo, uma imagem somente bonita a fazer gestos bonitos. [Erico Baymma]
Cada vez que tentamos captar ou até mesmo entender tudo aquilo que se passa ao redor de nós mesmos, parece ficar aquela sensação permanente de uma multidão de coisas desconhecidas ou despercebidas. Sob uma certa miopia das horas, há um espelho onde buscamos a face perdida de nossos desejos. Inventados ou não, estes últimos são a curiosa garantia de que pouco vale atravessar uma existência sem que se conceda um altar especial para cultuarmos sonhos. E depois são esperas, pessoas, gestos, equívocos, feridas, instintos traidores, insônias, paixões e medos que tecem as escrituras confusas de tudo o que pode conter uma vida a respirar por olhos e sentidos outros. Por ouvir e perceber as melodias dos espanhóis da Vetusta Morla, é possível flagrar os tais lugares onde palavras carregadas de sentimentos representam a matriz de imagens tão íntimas de nossas humanidades. Segundo CD da carreira da banda, Un Día En El Mundo é um trabalho que agrega poesia e sensibilidade ao rock, impregnando as canções com um certo toque existencialista. Além da qualidade das composições, chamam atenção no disco os recursos melódicos que ambientam toda a atmosfera desenhada pelos arranjos. Quiçá seja possível considerar a energia presente nesse belo trabalho como sendo a de um pop rock bem ao estilo lírico de expressão. Lírico, porém isento de pieguices e reflexões vazias tão comuns e que costumam vagar pelos espaços banalizados do mercado fonográfico. À medida que escutamos faixas como Autocrítica, Un Día En El Mundo, Pequeño Desastre Animal , Año Nuevo e Al Respirar podemos perceber os impulsos que tornam o disco algo dotado de sentido e conteúdo. Em alguns momentos, uma certa influência ao modo Radiohead se deixa exalar pelos contornos da musicalidade do Vetusta Morla. Guitarras, teclados e vocais vão delineando o caminho sonoro deles, tudo sem pretensões inovadoras, mas com profundidade. Depois, é como dizem as linhas de Rey Sol: “Descubrimos que al final, las palabras que no existen nos pueden salvar”. [Fabrício Brandão] parceiros da agulha nesta seção |
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