revista de cultura # 66
fortaleza, são paulo -
novembro/dezembro de 2008

livros da agulha

Imprensa, cultura e imaginário urbano. Exercício de memória sobre os anos 60/70 em Juiz de Fora, de Christina Ferraz Musse1. Imprensa, cultura e imaginário urbano. Exercício de memória sobre os anos 60/70 em Juiz de Fora, de Christina Ferraz Musse. Nankin Editorial: nankin@nankin.com.br. Visite: www.nankin.com.br.

A cidade, sua textura cultural, a densidade e a narratividade de suas articulações é um dos temas de ponta para quem quer discutir a cultura desse momento enigmático que vivemos. Foi esse o tema que Christina Musse escolheu para seu estudo. Não contente, elegeu ainda uma cidade - Juiz de Fora - cujas peculiaridades são fascinantes e zona de risco para o pesquisador. Uma cidade cujos sentidos de fronteira, de periferia, de margem, de cruzamento, são potencializados de forma única.

Outro ponto de análise importante desse estudo é a desconstrução da idéia de mineiridade, um dos grandes mitos regionais brasileiros, que, no caso de Juiz de Fora, sublinha seu aspecto outsider, enquanto vila, cidade, metrópole. Juiz de Fora, ao contrário do sentido de unidade do ethos mineiro, mostra-se como o território de expressão da dialética dentro/fora, do não-pertencimento.

Além do interesse histórico dessas formações narrativas, a opção por uma metodologia que privilegia a historicização, cumpre aqui um papel modelar. Esta é precisamente a base conceitual e teórica dos Estudos Culturais - campo do conhecimento em que a autora se move -: perceber que a construção de metáforas e formações discursivas não são pura criação espontânea. Ao contrário, são demandas concretas de períodos históricos específicos. Esta estratégia, num momento de parcos recursos e modelos teóricos que dêem conta da quebra radical de paradigmas e das questões transdisciplinares que se colocam com velocidade surpreendente, vem mostrando uma eficácia analítica significativa.

A mídia escolhida pela autora para tecer sua reconstrução dessa história não é certamente inocente. Esta mídia é a imprensa, uma mídia complexa, também de alta voltagem simbólica e que, a seu modo, reflete demandas e desejos bastante profundos da esfera pública, constituindo-se mesmo como um expressivo mediador cultural e adquirindo valor emblemático em determinados períodos históricos. Portanto, além de outras fontes consultadas, depoimentos gravados, material artístico e literário consultados, a imprensa ganha um espaço significativo nesse estudo.

Atenção especial foi dada ao período de transformação contracultural dos anos 60/70, momento bastante produtivo e de virada no panorama cultural da cidade, mas ainda praticamente não estudado.

[do Prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda]

 

O Conto do Amor, de Contardo Calligaris2. O Conto do Amor, de Contardo Calligaris. Cia. das Letras. 2008. Visite: www.companhiadasletras.com.br.

Em nosso cotidiano vemos a tentativa de prática de um discurso a respeito do amor onde reinam as possibilidades de transcendência de um sistema de regras diárias a que se está submetido, da forma mais apaixonada: a possibilidade de extrema transformação da realidade em ilusão, onde a grande utopia venha a ser correspondente à realidade. Isto é, as regras de um sistema econômico, prioritariamente, são o estimulante para que casais se prometam amor até o final dos seus tempos – "infinito enquanto dure", na pior das traduções. Uma necessidade um tanto quanto discutível, no que se projeta ao outro, ou reciprocamente, a realização de projetos pessoais. Certamente, estamos em um período de um pouco mais de amadurecimento, a possibilidade de mudança de paradigmas, mas como a idéia está enraizada na cultura, a transformação se dá a longos passos, como sempre é. A rebeldia alimenta o romântico, as loucuras, mas não alimenta rupturas de condições pré-existentes de vida. A paixão se extingue. O amor continua na história individual.

O aspecto econômico vem se apoderando mais "dos amores", no que uma união significa: fortificação da estrutura sócio-econômica, a projeção de curto a longo prazo de uma série de desejos transformados em necessidade através dos consumos de bens que sirvam a um lado "prático, cooperativo e saudável", sem falar na longevidade em que, iniciada uma relação, outros serão os valores agregados ao cotidiano, resignificados às plenas utilidades dos bens materiais, agora indispensáveis ao ser (no consumo "duplicado", em caso de separações – onde vemos a lucrativa indústria do divórcio). Pergunta-se: o que é o amor senão um ideário? Estes questionamentos anteriores são uma reflexão deixada em paralelo, mas com suma importância, no contexto do livro O Conto do Amor, de Contardo Calligaris – italiano, psicanalista, psicoterapeuta e ensaísta, que narra de forma elegante uma história intrigante que possui em seu pai a origem do complexo de revelações surpreendentes, em auto-questionamento do protagonista, pelas quais discorre em seu livro. O título contém uma dubiedade bastante perspicaz, para a colocação do livro em um mercado editorial em que o apelo próximo à fatia bastante lucrativa da auto-ajuda pode induzir a um consumo equivocado de uma necessidade forjada, mas que, na verdade, traz em si as respostas mais sutis e "certas" sobre o "conto do amor": como "conto" é "trapaça", como diz a expressão popular "o conto do vigário"; como "o conto", um inventário completo das condições em que surge o amor; e a brincadeira que o amor faz na vida de qualquer pessoa, rompendo inusitadamente o sistema de valores, aterrissando de forma inusitada sobre os sentidos.

Em vários níveis o amor é abordado. Primeiro, na relação do protagonista com o pai. Óbvia é a nacionalidade italiana de ambos; o protagonista é psicanalista – tal e qual à vida do autor, que se divide entre Brasil, Estados Unidos e Itália. Sua relação afetiva com o pai é vivida de forma sutil, com breves e raras palavras, quando na troca de mais de meia dúzia de palavras, aparece o motivo da trama bem elaborada. No começo da debilitação física, o filho faz a barba do pai que aproveita a situação e conta uma história fantástica que leva o psicanalista a uma grande jornada de pesquisas através da história e da arte. Fora este momento de troca íntima de informações e palavras, o ato deste amor acontece novamente um mês depois, quando acontece a morte do pai, retornando ao ritual de deixá-lo com a barba feita. O amor é vivido e muito pouco falado. O recado que o pai transmite é um desafio: supõe ser a reencarnação de um ajudante de um pintor renascentista, Sodoma. Doze anos após, através da impertinência da repetição do que lhe contou o pai, outra faceta do amor é mostrada: um ambiente bucólico, a Itália renascentista, os mitos contidos na história da arte, a empatia com rebeldes religiosos, a própria arte como história e motivo romântico, a curiosidade e desejo pintados em claustros de vilarejos italianos de difícil acesso. O senso da curiosidade onde se requer a descoberta  – um dos motivos do amor – é o ambiente romântico e repleto de suas nuances, o cenário onde o protagonista deverá se jogar à larga pesquisa que lhe promete revelações e questionamentos maiores do que promete o "enredo inicial" enunciado pelo pai. No entanto, não é o amor romântico que é visitado, pelo contrário, é um amor como fato da vida, elemento inerente, imanente, mas não decisivo para mudanças bruscas de rota.

Dos dias atuais à renascença, pela história da arte, pela arquitetura, pelos costumes das épocas, pelos personagens bem delineados na narrativa, o amor ganha seu conto da forma mais elegante:  intensamente vivido e admirado pelos que vivem e os que observam, trazendo à tona um gosto de "quero mais", próprio do romantismo, mas que se conclui a insuspeição das impossibilidades de serem vividos ou mantidos, além de seus próprios movimentos de vida. Viver o amor na vida e não a vida no amor parece ser a grande questão colocada em todos os níveis de crenças e práticas na existência. Os impulsos rebeldes não são suficientemente fortes para transformar um amor vivido em condição estável de relação, mas em possibilidade vivencial. É neste posicionamento que entra uma colocação não explícita, senão na exposição de motivos para que não exista o mais pleno exercício do amor, contínuo, com possibilidades de longevidade. O confronto impõe suas regras morais e éticas. E os personagens continuam suas vidas: repletos de suas histórias vividas, as que marcam a existência da mais sutil e doce matiz do amor.

[Erico Baymma]

 

Exilados, aliados, rebeldes. O movimento indianista, a política indigenista e o Estado-nação imperial, de David Treece3. Exilados, aliados, rebeldes. O movimento indianista, a política indigenista e o Estado-nação imperial, de David Treece. Nankin Editorial: nankin@nankin.com.br. Visite: www.nankin.com.br.

Este livro excepcional representa uma contribuição decisiva ao estudo de nosso indianismo oitocentista, sem desconsiderar os antecedentes do tema na literatura colonial.

A crítica, em geral, não viu mais do que exotismo e evasão na imagem romântica do índio, talhada conforme o figurino cortês do cavaleiro medieval, muito embora se tratasse de forjar um mito pátrio, de inventar uma tradição para o país recém-independente. David Treece sustenta o contrário: longe de ser uma representação divorciada de seu contexto histórico mais imediato, o indianismo constituiu uma reflexão problemática e persistente sobre a formação simbólica e sociopolítica do Estado nacional.

Mais do que a reposição tediosa de um mesmo modelo, a literatura do período produziu distintas figurações do índio, em consonância não só com o papel a ele conferido no processo da colonização, mas também em sintonia com o jogo político e social do próprio século XIX.

Assim, grosso modo, entre 1835 e 1850, o índio surgia como vítima das conseqüências militares e sociais da Conquista, numa atitude de franca condenação do processo colonizador. Atitude alimentada, talvez, pelo antilusitanismo que animou as violentas revoltas provinciais da Regência, pleiteando a descentralização do poder, as reformas liberais e as promessas de mudança contra a contínua dominação étnica e de classe.

Já entre 1850 e 1870, o índio passava a figurar como aliado, muitas vezes à custa do sacrifício de sua própria vida ou de toda sua comunidade, em benefício do conquistador e da criação de uma civilização nos trópicos. Segundo o crítico inglês, tal aliança parece reverberar muito da política de conciliação do Segundo Reinado, buscando acomodar novos e velhos interesses, liberais e conservadores, num momento de esforço concentrado para se alcançar a centralização do Império e a unidade nacional, depois da instabilidade e das tendências separatistas das décadas anteriores.

Por fim, de 1870 a 1888, o índio como rebelde, representado em registro mais verista ou simplesmente rebaixado, vinha pôr em xeque o modelo idealizado até então (e já bastante desgastado), prenunciando, desse modo, a chegada de novos ideais estéticos, políticos e sociais (realismo, republicanismo, abolicionismo).

Se a articulação entre o indianismo e a dinâmica histórico-política do século XIX já foi sugerida por alguma interpretação mais recente, jamais se chegou a uma abordagem desta envergadura, mobilizando tamanho corpus de análise, examinado de forma sistemática e aprofundada, com uma ancoragem tão segura nas disciplinas vizinhas (história, sociologia, antropologia). Para além das representações canônicas do indianismo romântico (Gonçalves Dias, Alencar, Magalhães...), Treece traz à cena todo um elenco de autores e obras menos celebrados (ou mesmo ignorados) pela historiografia oficial, que redimensiona por completo a visão dessa vertente literária e o alcance do debate político-ideológico a ela associado.

[Vagner Camilo]

 

 Era uma vez o amor mas tive que matá-lo, de Efraim Medina Reyes4. Era uma vez o amor mas tive que matá-lo, de Efraim Medina Reyes. Editora Planeta. Brasil, 2006. Visite: www.editoraplaneta.com.br.

Apresentado como um escritor experimental, Efraim Medina Reyes, que nasceu em Cartagena, Colômbia, em 1967, revela uma escrita, segundo ele, anti-Márquez. O escritor segue a frente do movimento colombiano denominado “Realismo Urbano”, que apresenta como características uma crítica social à temáticas contemporâneas como violência, narcotráfico, cultura de massa, música pop, confrontando-se ao “Realismo Mágico” de Gabriel Garcia Márquez e Mario Vargas Llosa. O escritor afirma ter como cânone a música pop. Entre hotéis baratos e amores mais baratos ainda, como afirmou em uma entrevista, escreveu a tragicomédia Érase una vez el amor pero tuve que matarlo, como terapia contra a horrível sensação de fracasso e abandono. A estrutura do livro é uma desordem que apresenta um emaranhado de frustrações e (im)potências - é necessário costurar constantemente os retalhos para não se perder na história. O narrador é um machista confesso que conta entre outros a história de um amor que golpeia mais forte que Tayson. Os fatos possuem uma ordem cronológica, porém são apresentados desordenadamente em oito capítulos subdivididos, quase todos datados e ambientados entre Cartagena (Cidade Imóvel) e Bogotá.

O livro é permeado pela frustrada história de amor entre Rep e uma cierta chica, apresenta uma crônica dos membros da empresa Fracaso Ltda, mostra o desenlace fatídico do assaltante de bancos John Dillinger e das estrelas de rock, Sid Vicious y Kurt Cobain, líderes dos grupos Sex Pistols y Nirvana, além de ser permeado por entrevistas e tentativas cinematográficas (o roteiro dos filmes é inserido entre os capítulos).

Vencedor do Prêmio Nacional de Novela do Ministério de Cultura na Colômbia, em 1997, o livro foi publicado na América Latina, Itália, Espanha, França e Alemanha. No Brasil, o livro foi traduzido e lançado pela Editora Planeta em 2006. Contando com uma narrativa visceral e crua, o autor subverte valores morais e sociais e também personagens reais. Em pequenos fatos picotados, o leitor é conduzido primeiramente a organizar as seqüências simultaneamente narradas, para então tentar desterritorializar cada fragmento reportando-se ao quebra-cabeça maior. O humor negro e as palavras sem medidas permeiam Era uma vez o amor, mas tive que matá-lo que, como orienta o autor, deve ser lido acompanhado por Sex Pistols e Nirvana.

No primeiro capítulo deste romance escrito em 2003, tomamos conhecimento da existência de Rep (diminutivo de réptil, assim conhecido desde criança). Procurei agrupar algumas das mais sutis características de Rep para que o leitor tome conhecimento desse narrador antes de montar o quebra-cabeça de histórias de Sid, Nancy, Mônica, Toba, Betty e outros. Rep, como mesmo afirma, não é um ejaculador precoce, mede seis pés e pesa oitenta quilos, possui uma boca sensual e corta as unhas até sangrar. Odeia mulher feia. Sua pele possui um fascinante odor, em contrapartida, possui acne no rosto e em outras partes do corpo. Segundo ele, é o tipo indicado aos sonhos das mulheres. Bebe, não canta, nem dança. É heterossexual. Pendurado nas paredes negras de seu quarto descansa uma foto de Uma Thurman. Diverte-se escrevendo telefones na poeira da persiana. Possui uma máquina de escrever, uma gravadora e um cinzeiro para visitas. É obcecado por seios grandes e traseiros.

O narrador - Rep - apresenta o cantor Sid Vicious e sua esposa Nancy Spungen. Num jogo de características entre ele/ela a trama desse amor é tecida em meio aos shows de Sid, às leituras de filosofia de Nancy e às seringas compartilhadas. Nancy lia muito, Sid sentia ciúmes e, às vezes, queimava os livros, ela perdia a fome e se drogava. Sid tinha ciúme dos livros e perguntava por que ela lia. Me gusta, respondia Nancy. Entendes pelo menos o que diz? Não, respondia ela. Então? - Me gusta. Nancy ouvia Wagner. Sid não queria vê-la feliz, pois pessoas felizes não são confiáveis. Às vezes ele batia a cabeça na parede até sangrar, ela chorava, cuidava dos ferimentos e esgotada ia se drogar sozinha. A multidão adorava Sid, mas ele (lembro Salomé) queria a cabeça de Nancy e seus amantes numa bandeja de prata. Sid pensava em matar Nancy e Bob, o baterista da banda, que não havia feito amor com Nancy como pensava Sid, mas ele achava que isso podia acontecer. Em meio a descrição destes personagens, Rep nos apresenta Tânia, professora de idiomas.

No segundo capítulo nos é apresentado Produções Fracasso LTDA. Com um slogan convidativo (donde se necessite um fracasso allí estaremos) a produtora começa a rodar o filme com uma sony 3000, que devia ser devolvida em três dias. O roteiro do filme é inserido diretamente no terceiro capítulo, porém com outra letra. Neste entremeio, Rep dá uma entrevista para a revista Perro Muerto, revista de pouca circulação, com repórteres amadores e uma yashica velha. As perguntas são sobre fama, guerra, mulheres infiéis, mulheres de talento (Creio que cozinham bem), arte, poesia, cinema (não se pode pensar em cinema sem pensar em dinheiro), amor, filosofia, infância, música.

O quarto capítulo apresenta a sequência datada: verão/83, inverno/77; inverno/86; verão/93; abril/94; maio/94). Ainda nos meandros da entrevista surge a pergunta: “Porque uma pessoa começa a escrever?”. Rep nos dá várias alternativas: porque pensa que tem algo para dizer, porque uma menina linda o deixou, porque o faz se sentir superior, porque é um cawboy sem oeste, porque tem dentes torcidos e não pode sorrir como queria, porque a mulher do vizinho é um bombom, porque ama uma mulher e ela é noiva e chega a um denominador comum: escribo porque para todo lo demás existe mastercard.

Já o sexto capítulo é permeado por músicas e frases sem datas num linguajar peculiar, narrando cenas sexuais, falando de literatura, bares, poemas, mulheres fantasmas (quando tens um fantasma o único que desejas é falar dela a todas as mulheres que seduzes). No sétimo capítulo o narrador fala das peripécias sexuais com Mônica (tradutora e professora de lingüística da UJC). No capítulo oito, Sonho de uma cenoura congelada, temos primeiramente uma seqüência sem data, logo a seguir fev/92, marzo/91, dez /92 e o encerramento do livro com a pergunta Quanto tempo o cupim leva para devorar o bosque?.

Autor de "Técnicas de Masturbação Entre Batman e Robin", “Sexualidade da Pantera Cor de Rosa” e dos poemas de “Pistoleiros/Putas e Dementes”, Reyes credita ao pop, às novelas trash, sua formação literária. Os livros apresentam uma certa semelhança com inclusões de roteiros de cinema, manuais de auto-ajuda, entrevistas, fragmentação, narrativas desconexas, personagens neuróticos que narram histórias num ritmo anacrônico e sexual repleto de (im)potências de escrita. Os corpos em Reyes não são inocentes, a escrita não apresenta metáforas, o corpo e as palavras são despidos, sem pudores. O corpo objeto vira linguagem abjeta. Esse corpo não metaforizado de Reyes, feito de carne e osso é tratado em sua literatura e na capa de seus livros (normalmente posa nu para a capa de seus livros) como um objeto de resposta, de exposição de suas críticas e conceitos – o próprio corpo como instrumento de crítica. Reyes não usa sinônimos para amenizar a escrita e neste contexto poderíamos pensar na abjeção no seu sentido primeiro, o de “lançar para fora”, porém a literatura, ao desdobrar-se como escrita, segundo Kristeva, apresenta-se no espaço da perversão. O escritor perverte a linguagem e torna-se ao mesmo tempo sujeito e vítima da abjeção que provoca. Para Kristeva, a abjeção é um estado de crise, não somente como repulsão física, mas como o que perturba, algo que fascina e repele. Entre o fascínio dos jovens e o repúdio de alguns críticos, Reyes continua a perturbar leitores.

[Daniela Bunn]

 

Meu mestre de história sobrenatural, de Luiz Roberto Guedes5. Meu mestre de história sobrenatural, de Luiz Roberto Guedes. Nankin Editorial: nankin@nankin.com.br. Visite: www.nankin.com.br.

Não parece nada provável que um leitor juvenil, em formação, se aventure na literatura pela "prateleira de cima", onde se alinham os grandes clássicos, de Homero a Guimarães Rosa. Normalmente, o acesso ao livro por parte de um ávido leitor de quadrinhos se dá via literatura de entretenimento, universo onde pululam, hoje, os Harry Potters, ao lado de Conans, magos, vampiros, alienígenas, viajantes do tempo e outros avantesmas. Ou seja, a leitura é uma aventura continuada. Não nos esqueçamos de que A Ilha do Tesouro, de Stevenson, hoje uma jóia da literatura universal, era "entretenimento" no século 19.

Este circunlóquio serve para abordar a aventura empreendida por Luiz Roberto Guedes em Meu Mestre de História Sobrenatural, destinado ao público juvenil, mas não somente. Qualquer um que tenha sido encantado pelos seriados Além da Imaginação e, mais recentemente, Arquivo X, reconhecerá esse universo literário "alternativo" nessa novela composta de histórias avulsas, que mescla o fantástico, o sobrenatural e a ficção científica. Um jovem narrador recorda uma figura de sua infância, o livreiro Alpheu Gotardo Rangel, dono do "sebo" Bazar Bizarro, que se torna o mestre de cerimônias de um autêntico rito de iniciação literária. Esse "Tio Bizarro" é o mítico narrador de histórias fantásticas, que encantam uma turma de jovens, atraindo-os para o convívio com as letras. O livro coleciona alguns temas emblemáticos das weird tales, como o contato com alienígenas, a humana engravidada por um extraterrestre, a mansão assombrada pelo fantasma de um escravo supliciado ou a "maldição do cacique Calavera", um extinto chefe indígena, do norte da Argentina, que teve seu túmulo profanado. Nesse bazar bizarro, destaca-se o conto "Torneio Cósmico de Xadrez", em que o primeiro encontro entre terráqueos e alienígenas, no século 24, é mediado pelo escritor Antoine de Saint-Exupéry, devolvido pelos aliens depois de ter sido abduzido, em 1944. O livreiro Alpheu protagoniza duas histórias, "O Livro Negro de Necronus", e, em especial, "A Última Viagem do Capitão Jonas", um possível manuscrito inédito de ninguém menos que Machado de Assis, cujo fantasma trata de entrar em ação para manter esse conto perdido para sempre.

Ao fim e ao cabo, o próprio autor parece empenhado em "reencantar-se" com histórias que pagam tributo a uma literatura dita menor, e a pioneiros da ficção científica no Brasil, como Orígenes Lessa, Jerônymo Monteiro, André Carneiro e Rubens T. Scavone, entre outros. Incursionando no território do fantástico, Guedes já havia publicado Treze Noites de Terror (Editora do Brasil), cujos treze contos abordam esses gêneros pouco estimados por uma crítica mais aferrada a juízos de valor. Com esse novo vôo de imaginação, Guedes parece alinhar-se, sem preconceitos, com o poeta e tradutor José Paulo Paes, que em seu ensaio "Por uma literatura de entretenimento", deu um piparote nos pruridos hierarquizantes de ficcionistas nativos que querem ser James Joyce, mas jamais Agatha Christie. Para o poeta Rodrigo Petronio, que assina a apresentação do livro, a matéria-prima de Meu Mestre de História Sobrenatural é a própria literatura, com seu poder de encantamento, pois cada história leva o leitor a experimentar o pleno prazer da narrativa.

[Gil Pinheiro]

 

Nietzsche I, de Martin Heidegger   Nietzsche II, de Martin Heidegger6. Nietzsche I e II, de Martin Heidegger (trad. Marco Antônio Casanova). Forense Universitária.  Rio de Janeiro, 2007.

Bom saber que, seguindo uma tradição que provém dos primeiros tradutores da obra heideggeriana no Brasil, especialmente, Ernildo Stein (no Rio Grande do Sul) e Emmanuel Carneiro Leão (no Rio de Janeiro), pesquisadores como Marco A. Casanova busquem aliar estudo e interpretação da obra com a tradução da mesma. O tradutor da obra aqui em análise não é marinheiro de primeira viagem. De Heidegger já traduziu: Nietzsche: metafísica e niilismo (Relume Dumará, 2000) e Os conceitos fundamentais da metafísica: mundo, finitude, solidão (Forense Universitária, 2003). Bom saber também que esteja havendo uma colaboração entre brasileiros e portugueses na tradução das obras do pensador da Floresta Negra, projeto em que Casanova participa. João Guimarães Rosa, cuja obra foi traduzida para muitos países, numa das cartas de 1962 ao tradutor alemão Curt Meyer-Clason escreveu: “Traduzir é conviver”.

Inicialmente, é importante termos uma noção mais precisa da posição ocupada pelo vol. 6.1/6.2 da Gesamtausgabe, palavra alemã composta que pode ser traduzida por “edição integral”, “edição reunida” ou simplesmente por “obra completa”. Como veremos a seguir, embora os primeiros estudos reunidos nesta obra sejam da década de 30, Heidegger mesmo as organizou e publicou em 1961, já em dois volumes, pela Günther Neske, de Pfullingen. Na verdade, a tradução da Forense Universitária tomou esta mesma edição por base.

Ao que nos propomos nesta apreciação, é oportuno visualizar a estrutura da obra completa de Heidegger para, em seguida, fazer uma avaliação da proeminência dos estudos da obra nietzschiana realizados pelo pensador de Messkirch. A Gesamtausgabe, planejada pelo próprio autor, começou a ser editada no ano de 1972, pela editora Vittorio Klostermann, de Frankfurt, envolvendo especialistas de vários países e que, até o momento, ainda não está concluída. A edição integral encontra-se dividida em quatro seções, como segue: I. Escritos publicados de 1910-1976 (vol. 1-16); II. Preleções de 1919-1944 (vol. 17-63), sendo: A) Preleções de Marburgo de 1923-1928 (vol. 17-26), B) Preleções de Friburgo de 1928-1944 (vol. 27-55) e C) Primeira preleções de Friburgo de 1919-1923 (vol. 56-63); III. Tratados inéditos (vol. 64-81); IV. Apontamento e notas (vol. 82-102).

Além de Nietzsche I e II (vol. 6.1/6.2) e Metafísica e niilismo: 1. A superação da metafísica (1938/39) e 2. A essência do niilismo (1946-1948) (vol. 67), no plano da edição integral estão previstos diversos volumes sobre Nietzsche, como segue: vol. 43. Nietzsche: a vontade de poder como arte (semestre de inverno de 1936/37; cf. versão corrigida em Nietzsche I); vol. 44. A posição metafísica fundamental de Nietzsche dentro do pensamento ocidental. O eterno retorno do mesmo (semestre de verão de 1937; cf. versão corrigida em Nietzsche I); vol. 46. A segunda consideração intempestiva de Nietzsche (semestre de inverno de 1938/39); vol. 47. A doutrina nietzschiana da vontade de poder no conhecimento (semestre de verão de 1939; cf. versão corrigida em Nietzsche I); vol. 48. Nietzsche: o niilismo europeu (segundo trimestre de 1940; cf. versão corrigida em Nietzsche II); vol. 50. A metafísica de Nietzsche (cf. em Nietzsche II, preleção anunciada para o semestre de inverno de 1941/42, mais não proferida) e Introdução à filosofia – pensar e poetizar (semestre de inverno de 1944/45); vol. 87. Seminário: Nietzsche (exercícios do semestre de verão de 1937; A fundamentação nietzschiana da metafísica. Ser e aparência, 1937). Há ainda textos menores sobre Nietzsche mais conhecidos e que foram publicados em outros volumes da edição integral: vol. 5. Caminhos de floresta: A frase de Nietzsche “Deus morreu” (1943); vol. 7. Ensaios e conferências: A superação da metafísica (1936-1946) e Quem é o Zaratustra de Nietzsche? (1953); vol. 8. O que significa pensar? (de 1951 e 1952; várias das preleções reunidas neste volume abordam igualmente o pensamento nietzschiano).

Dentro deste enorme panorama em que a preocupação interpretativa de Heidegger em relação a Nietzsche é inequívoca, podemos visualizar agora o conteúdo da obra analisada: Nietzsche I (de 1936-1939), contém: I. A vontade de poder como arte (p. 5s), II. O eterno retorno do mesmo (p. 197s) e III. A vontade de poder como conhecimento (p. 369s); Nietzsche II (de 1939-1946), reúne: IV. O eterno retorno do mesmo e a vontade de poder (p. 1s), V. O niilismo europeu (p. 21s), VI. A metafísica de Nietzsche (p. 195s), VII. A determinação histórico-ontológica do niilismo (p. 255s), VIII. A metafísica como história do ser (p. 307s), IX. Esboços para a história do ser enquanto metafísica (p. 353s), X. A lembrança da metafísica (371s). Naturalmente, muitos outros detalhes quanto à origem dos textos e sua respectiva edição podem ser encontrados em três partes pré e pós-textuais: Apresentação [à tradução brasileira] (vol. I, p. v-xvii), Prefácio (vol. I, p. 3-4) e Posfácio (vol. II, p. 381-384). Além disso, o tradutor aplicou-se com esmero e precisão na criação de notas de rodapé, onde opções de tradução e informações bibliográficas foram reunidas de modo a instruir os leitores menos afeitos às obras de Heidegger e Nietzsche.

Heidegger consolidou-se como especial colaborador de Husserl em Marburgo, cujos primeiros exercícios fenomenológicos resultaram em três textos reunidos no vol. 60 da edição integral: Fenomenologia da vida religiosa: 1. Introdução à fenomenologia da religião [preleções do semestre de inverno de 1920/21]; 2. Agostinho e o neoplatonismo [preleção dada em Friburgo no semestre de verão de 1921]; 3. Os fundamentos filosóficos da mística medieval [preleção anunciada para o semestre de inverno de 1919/20, mas que não chegou a ser proferida]). Em seguida, revelou-se como exímio professor em Friburgo, que culminou na elaboração e publicação de Ser e tempo (1927), obra em que procura desenvolver a questão pelo sentido do ser e, a partir dali, acaba realizando a original analítica da existência humana. Como o próprio pensador reconhecerá em 1962, na década de 1930 passa por uma viragem (Kehre). Nesse novo cenário, após rápida passagem pelo reitorado universitário, volta-se para os gregos e para a interpretação da poesia hölderliana. Contudo, sua preocupação pela elucidação dos conceitos fundamentais de Nietzsche como vontade de poder, niilismo, eterno retorno do mesmo, além do homem, transvaloração de todos os valores, superação da metafísica, que constituem o cerne da filosofia nietzschiana, representa por si só um diálogo primoroso e inestimável entre dois dos maiores pensadores de nossa época. Com efeito, os estudos reunidos em Nietzsche I e II ultrapassam decerto o interesse meramente erudito de Heidegger em recauchutar as idéias fundamentais da obra de Nietzsche. Pelo contrário, o que mobiliza Heidegger é a agudeza de combate e esclarecimento perspicaz dos conceitos fundamentais de Nietzsche. Por essa razão, esta obra é imprescindível para a compreensão dos desafios que nossa época dia a dia nos impõe.

Ao final da Apresentação os editores brasileiros escrevem: “Desse modo, é preciso dizer que o que está em questão nas preleções agora acessíveis pela primeira vez aos leitores da língua portuguesa depois de 46 anos de sua publicação original é mais do que uma compreensão das obras de dois filósofos em particular chamados Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger. O que temos aqui é um pedaço de história da filosofia no melhor sentido do termo. E isso não apenas porque Heidegger articula incessantemente o pensamento nietzschiano com a tradição e reconstrói por meio daí contextos teóricos mais amplos, mas também e essencialmente porque ele se insere de fato em uma confrontação histórica, ou seja, em uma confrontação na qual se decidem as possibilidades de liberação do futuro no instante. Para uma tal confrontação, o próprio Nietzsche cunhou certa vez a expressão ‘história a serviço da vida’” (vol. I, p. xvii).

Esta tradução chega realmente em boa hora, pois neste ano foram publicadas traduções importantes das obras de Nietzsche como Der Wille zur Macht (A vontade de poder, Contraponto, 2008), Morgenröte (Aurora. Reflexões sobre os preconceitos morais, Vozes, 2008) e Der Antichrist. Fluch auf das Christenthum (O Anticristo. Ensaio de uma crítica do cristianismo, L&PM, 2008). De fato, as interpretações de Heidegger sobre Nietzsche são decisivas tanto para a compreensão do pensamento nietzschiano como também para a compreensão da própria obra de Heidegger.

Nietzsche, grande pensador cuja obra foi exaustivamente lida e interpretada por Heidegger, escreveu certa vez: “São os tempos de grande perigo em que aparecem os filósofos. Então, quando a roda rola com sempre mais rapidez, eles e a arte tomam o lugar dos mitos em extinção. Mas projetam-se muito à frente, pois só muito devagar a atenção dos contemporâneos para eles se volta. Um povo consciente de seus perigos gera um gênio”.

[Renato Kirchner]

 

Melhores poemas, de Walmir Ayala 7. Melhores poemas, de Walmir Ayala (org. Marco Lucchesi) . Global Editora. 2008.

Vendo o programa Provocações da TV Cultura, o Antônio Abujamra pergunta ao artista plástico contemporâneo Nuno Ramos se conhece Walmir Ayala, no que o outro diz que não conhece. Tudo bem. Nuno não tem obrigação de conhecer ninguém, nem mesmo um crítico de arte e escritor como foi Ayala.

A Global acaba de lançar Melhores Poemas de Walmir Ayla com seleção de Marco Lucchesi. O livro traz um apanhado de vários livros de poesia do autor.

A seleção de Lucchesi apresenta poemas de 11 livros, do mais recente ao mais antigo. Os reinos e as vestes (de 1986, o último publicado) apresenta uma unidade, não apenas pela numeração gradual do poema, que perpassa todo o livro. O livro é um grande e só poema.

A posição crítica mais acertada, o selecionador também pensa assim, sobre a poesia de Ayla parece ser a do poeta e crítico literário piauiense Mário Faustino, que diz da noção precoce do espaço poético e da segurança e valor do adjetivo, usado como estrutura e não apenas como enfeite.

Muito se pode falar sobre a variedade, e toda a força obsessiva e contraditória, da obra de Walmir Ayala. Vale notar que era amigo de Lúcio Cardoso e fascinado por Crônica da casa assassinada, de onde vem obsessão e contradição.

É do livro Águas como espadas (1983), o poema Tatuagem:

Eu não sou um veículo eletrônico,

eu sou uma golfada de sangue,

sou um assomo de ciúme,

uma explosão de ira.

Eu não sou uma película transmissora,

nem um écran, um zoom de aproximação,

nem sequer um microscópio.

Eu sou um sono tumultuado,

sou um sonho que me tatua.

A pele da minha alma tem árvores fantásticas

e saudades maternas, e monstros inconclusos,

abismos, ligações mais estabelecidas,

terrores que perfumam a máscara encoberta.

 

Eu não sou um instrumento.

Sou a mão que age e o gesto

que consuma.

Estado de choque (1980) traz poemas de cunho social, alguns que remetem a pintura (como dito antes o autor era atuante crítico de arte) e uma bela homenagem a Cecília Meireles, com o poema Entrevista.

O mais curioso dos livros é Questionário (1967). Os títulos dos poemas são questões onde os poemas se desenvolvem:

(DEFINA EM TRÊS PALAVRAS A COR VERMELHA)

                        Rosa em delírio.

 (DEFINA EM TRÊS PALAVRAS A COR AZUL)

                        Espectro da lâmina.

Há muito a se saber sobre Walmir Ayala.

[Cláudio Portella]


parceiros da agulha nesta seção

      

 

 

Livros para Agulha deverão ser enviados aos editores, nos endereços a seguir:
Floriano Martins - Caixa Postal 52874 Ag. Aldeota - Fortaleza CE 60150-970 Brasil
Claudio Willer - Rua Peixoto Gomide 326/124 - São Paulo SP 01409-000

 AGULHA # 66 ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA