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revista de cultura # 66 |
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A música e a perna do Saci Flávio Paiva
Em 1909, o dueto Saci-Pererê de Chiquinha Gonzaga é gravado pela dupla Os Geraldos. No ano de 1913, a polca Saci, de J.B. Nascimento, chega ao disco de cera pelo Sexteto da Casa. Na década de 20, Gastão Formenti grava uma toada (1918) e uma canção (1929) com o mesmo título Saci-Pererê, mas de autorias de Joubert de Carvalho e de J. Aimberê/Bide. Os anos 30 contam com a canção Teu olhar é um Saci, de Cipó Jurandi e Décio Abramo, na interpretação de Arnaldo Pescuma (1930) e com o batuque Saci-Pererê, de J.B. Carvalho, com o Conjunto Tupy (1932). O título Saci-Pererê se faz presente na década de 40, na polca de Mário Genari Filho (1948), e no arrastapé de Ivani, gravado pela dupla Zé Pagão & Nhô Rosa (1949).
A década de 70 torna-se fértil em composições sacizísticas. Os Secos & Molhados cantam “Bailam corujas e pirilampos / entre os sacis e as fadas”, na música O Vira, de João Ricardo e Luli (1973). Os Almôndegas entoam “Quando a meia-noite me encontrar junto a você / algo diferente vou sentir / vou precisar me esconder / Na sombra da lua cheia / nesse medo de ser um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê”, na Canção da meia-noite, de Kleiton e Kledir (1975). Guto Graça Mello compõe Saci, instrumental para o disco do Sítio do Picapau Amarelo (1977), e Saci-Pererê é título de música da Banda Terreno Baldio (1977) e de Guilerme Lamounier (1978). Nas duas últimas décadas do século XX a sacizisse continua com Saci, de Paulo Jobim e Ronaldo Bastos, em vinil do grupo Boca Livre (1980), Sacirerê, de Ruy Maurity e Zé Jorge, com Ruy Maurity (1984), Sasaci Pererê, de Jorge Bem Jor (1986) e Saci-Pererê, de Gilberto Gil (1980). De Niterói, Bia Bedran canta a infância para despertar o Brasil, “Brincar no quintal / Pra renascer a criança / Moleque levado / Saci-Pererê”, na sua emblemática Quintal (1992). Villani-Cortês lança a peça para flauta A terceira folha do diário do Saci (1994), o violonista Carlinhos Antunes, compõe Saci-Pererê (1996) e a cantora Mônica Salmaso grava Saci, de Guinga e Paulo César Pinheiro (1998).
De nota em nota, o Saci pula de século, impulsionado pela música. Itamar Assumpção faz um alerta ambiental, “Eu fui a Cuiabá pra no Pantanal olhar a bicharada / eu fui pra ver não vi, que decepção senti / Vi quase nada / Eu não vi o quati, não vi anta nem sagüi, onça pintada / Eu não vi o saci, não vi o grilo cri-cri / Vi quase nada” e canta Adeus Pantanal com Tetê Espíndola (2000). A música Saci de Guto Graça Mello, permanece no Sítio da Dona Benta, mas muda o título para Pererê Peralta, em versão com Carlinhos Brown, “Pula, pula, some e dança / como uma criança segue seu destino / se esconde na floresta / nunca perde festa / quer se divertir” (2001). Gal Costa grava Grande Final, de Moraes Moreira para dizer que “Viver da pé, dá pé viver / Pé de saci / Pererê, pererê, pererê” (2004). O grupo A Cor do Som balança em cd com Dança, Saci, de Mu Carvalho, (2006). Entro nessa ciranda de saciedade e componho, em parceria com Orlângelo Leal, da Banda Dona Zefinha, a música A Festa do Saci, “Estou aqui meu Saci / estou aqui chamei você / Pererê chamei você / Pode chegar, me abraçar / o vento é bom de assobiar / Sou Boitatá, sou Caipora / Me apavora, eu vou gostar” (2007). Em homenagem a Francisco Mignone, a pianista Clélia Iruzun grava Saci (2008). O Quarteto Pererê, que já tinha feito Saci Armorial e Suíte Sacizística, junta as pontas do passado e do presente em uma só roda musical, com a Polka do Saci, adaptação da polca Sacy-Pererê, de Sebastião Nogueira de Lima (1917), e a canção Liberdade Pererê, de Dinho Nascimento, ambas gravadas no cd Balaio, que ainda está para sair da fábrica (2008).
A gravação da polca Sacy-Pererê cumpre, um século depois de sua criação, o desejo de um dos participantes da pesquisa que o escritor Monteiro Lobato fez em parceria com o jornal O Estado de São Paulo, em 1917. Mesmo se considerando “com poucos recursos artísticos”, Sebastião Nogueira de Lima deixou a partitura dessa composição que fez para o Saci, inspirada no canto de chamada de um passarinho, “habitante de brejos e margens de rios”, que “quase fala – sacy-pererê”. Ao fazer sua escrita musical, o autor dessa polca para piano declarou literalmente a intenção de contribuir “para que os novos compositores musicaes se inspirem, concorrendo, assim, para a glorificação do Sacy-Pererê”. E, como felizmente podemos testemunhar, seu esforço não foi em vão.
O folclore foi uma invenção do império britânico, disseminada a partir da metade do século XIX para promover o isolamento da cultura popular das suas lendas, crenças, canções, ritos e mitos. Assim, ao atravessar gerações ressignificando os sons das matas que inspiraram o nascimento desse mito brasileiro, o cancioneiro sacizístico torna evidente a existência dos rastros da perna invisível da cultura. Depois que li o livro “Com uma perna só”, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 2003), no qual o autor atribui à música a chave para o retorno do seu membro alienado, foi que me dei conta de que no meu livro/cd “A Festa do Saci” (Cortez Editora, 2007) a libertação dos seres imaginários fora feita por meio da música. Foi tec-taqueando em uma velha máquina de escrever que encontrei, inclusive, a mistura de ritmos que libertou o Saci. |
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Flávio Paiva (Brasil). Jornalista, colunista semanal do Diário do Nordeste (Ceará). Para crianças escreveu e compôs, dentre outros: Flor de Maravilha – 20 histórias e 20 músicas, com interpretação de Olga Ribeiro e ilustrações de Dim e Nice Firmeza; Benedito Bacurau – o pássaro que não nasceu de um ovo, com narração e ilustrações musicais feitas por Antônio Nóbrega, aquarelas de Estrigas e prefácio de Rubem Alves; e A Festa do Saci, com 13 músicas na voz de Giana Viscardi, Orlângelo Leal, Suzana Salles e Marcelo Preto, ilustrações de Glair Arruda e com apresentação de Márcia Camargos e Ana Lúcia Villela. Contato: flaviopaiva@fortalnet.com.br. Página ilustrada com obras do artista Franklin Fernández (Venezuela). |
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