Agulha - Revista de Cultura
 
   

revista de cultura # 67
fortaleza, são paulo - janeiro/fevereiro
de 2009

8ª bienal internacional do livro do ceará | encarte especial







 

Vozes subentendidas em Sagração do Alfabeto

Leonor Scliar-Cabral

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Leonor Scliar-CabralEm Sagração do alfabeto quis prestar meu tributo a um dos maiores feitos do homem na construção do saber: a invenção do alfabeto. A trajetória para o registro escrito da experiência desenvolve um lento percurso desde a fase predominantemente pictográfica (a tradução mimética da realidade do mundo), ou seja, a escrita das coisas, passando pela predominância dos ideogramas, caracterizados pelas metáforas e metonímias, até chegar à escrita fonográfica quando uma ou mais letras representam uma sílaba ou um fonema.

Deve-se esclarecer que alguns sistemas hieroglíficos e ideográficos incorporaram signos fonográficos com a finalidade de distinguir a mesma representação quando tinha diferentes significados.

Um mesmo sistema de escrita pode utilizar fontes ou scripts diferentes, como nos alfabetos grego, cirílico, latino, gótico, hebraico ou árabe. Tais alfabetos, pois, podem ser aplicados a línguas diferentes. O que condiciona os valores das letras de um dado alfabeto numa língua determinada são as convenções ortográficas.

Na verdade, os precursores da escrita se encontram na Mesopotâmia e no Egito. No primeiro caso, trata-se de pedrinhas ou pequenos blocos de barro, com registros, em geral, para contabilizar e coincidem com os pictogramas sumérios. Enquanto a escrita cuneiforme foi utilizada no início primordialmente para o registro de nomes e quantidades, necessário para as transações comerciais, a egípcia está vinculada às inscrições nos templos, com caráter sagrado. Os signos fonográficos no sistema egípcio, que serão reutilizados pelos judeus no Monte Sinai, são consonantais.

Procurei, nesta série de 22 sonetos, homenagear o elo perdido entre os hieróglifos e o alfabeto fenício, isto é,  a escrita proto-sinaítica, cujo documento mais antigo, em torno de 1.400 a.C.,  é uma pequena esfinge de arenito dedicada à deusa Hathor (pesquisas recentes revelaram a existência de exemplos mais antigos de escrita semelhante, encontrada no Egito Central, datada ao redor de 1800 a.C). A esfinge foi descoberta pelo arqueólogo F. W. M. Petrie em 1905, no planalto de Serabit-el-Khadem, no Monte Sinai, e decifrada em 1916 por A. H. Gardiner: ele constatou que a escrita era acronímica, servindo cada hieróglifo para o registro do primeiro som da palavra. Cada hieróglifo correspondia a uma palavra iniciada por aquele som que ele passou a representar. Assim, o som correspondente a [b] era representado pelo hieróglifo de casa à bayit, do qual deriva o nome da letra beit. A escrita acronímica é registrada no primeiro soneto “Alef”:

Ao som inaugural de uma palavra
imprimirás a letra como um selo.

William BlakeNos 22 sonetos trabalho com vários aspectos da evolução do alfabeto. Ressalto, inúmeras vezes, o processo metonímico, que consiste em tomar a parte pelo todo do hieróglifo, até se chegar a poucos traços abstratos que se articulam entre si, às vezes, a uma só linha, como são exemplo os quatro versos do soneto “He”, no qual o hieróglifo do homem rezando se reduz a três linha paralelas contra uma vertical (E), depois de eliminadas a cabeça e o corpo:

Cravaram a navalha e suprimiram
a cabeça e o corpo ajoelhado.

O vertical agora é horizontal,
três traços paralelos numa haste

Na fixação dos traços abstratos, observa-se uma tensão entre retas e curvas, ora predominando umas, ora as outras, como no soneto “Beit”:

Braços em rotação, lento processo
das retas na procura de outras vias
até se recurvarem, seios guias,
abrigo de outros símbolos impressos,

Por outro lado, assinalo a característica dos sistemas alfabéticos em que as letras representam as consoantes e, com a contribuição dos gregos, passam a representar também as vogais. O poder que a mesma letra tem de representar vários sons vem expresso nos quatro versos do soneto “Shin”, de onde sai a letra “S”:

Os silvos todos une o traço parco

e sobre o pergaminho grava o marco,
resumo dos zumbidos estridentes
ou dos surdos sussurros sós, silentes.

Um exemplo da representação das vogais pelos gregos se encontra no soneto “Beit”:

Abóbada celeste, em seu colo,

em íntimo convívio, às consoantes,
eternizando as falas em aninho,
reúnem-se as vozes dominantes.

Metáfora continuada da contribuição dos gregos é o contraste entre a cosmovisão judaica monoteísta, voltada a um D’us que não pode ser mencionado:

só o que a pupila vê, o inacessível
e sua infinita tela descartados.

(soneto “Zayin”)

e a cosmovisão helênica, pagã e terrena, como no soneto “He”:

que selam o registro umbilical

da voz em solo grego: consoantes
e vogais costuradas em contraste
nas cirandas infindas das bacantes.

A disseminação do alfabeto realizada pelos fenícios, a partir de Biblos, particularmente em suas navegações pelo Mar Mediterrâneo, é um dos leit-motivs, como em “Guimel”:

Inconformada
ou perseguida, irrompes transformada,
cruzando o Mare Nostrum,

ou em Záyin”:

Durante sete luas pelo obscuro
mar, a quilha fenícia o reversível
traçado vacilante e inseguro

vai semeando com os dedos espalmados:

Mas, acima de tudo, estão subjacentes as diferenças entre o oral e o escrito, e o ditado latino verba volant, scripta manent (a fala voa, o escrito permanece) costura o texto, como no soneto “Caf”:

William BlakeMatriz multiplicada em tênues veias,

libélulas tremulam e semeiam
o pólen das canções, o som dos bardos
para impedir que morram deslembrados
e para sempre tecem sua teia.

Milagre contra o tempo, contra o alado
murmúrio ou bramido, versos ditos
que o vento leva ao túmulo calado

onde jazem no limbo do segredo.

 

 

 

ALEF

Com ímpeto os chifres rompem ígneos
os enigmas do tempo enquanto o escriba
sobre o papiro virgem reaviva
do fundo da memória os vaticínios:

Carregarás na areia teus desígnios
para que a voz divina sobreviva
além do mar rompido à deriva,
cravando a ferro e fogo teus domínios.

Ao som inaugural de uma palavra
imprimirás a letra como um selo.
A parte evoca o todo e o elo lavra

as frases e a história com que narras
como D’us te exortou em seu apelo
de fixares eternas as amarras.

 

Leonor Scliar-Cabral [do livro Sagração do Alfabeto]

 

 William Blake

ALEF

 

Con ímpetu los cuernos rompen ígneos
Los enigmas del tiempo que el escriba
Sobre el papiro virgen reaviva
De honda memoria los vaticinios:

Cargarás en la arena tus designios
Con que la voz divina sobreviva
Más allá del mar roto a la deriva
Clavando a hierro y fuego los dominios.

Al son inaugural de una palabra
Imprimirás la letra como un sello.
La parte evoca al todo, anillos labran

Las frases y la historia con que narras
Como Dios te exhortó en su llamado
De fijar para siempre las amarras.

 

[Trad.: Walter Costa]

 

 

ALEPH

 

Rompent ignées les cornes impétueux,
Les grands secrets du temps et le scribe
Sur le papyrus vierge réavive
Du fonds de la mémoire desseins et voeux.

Sur le sable tu emmèneras ton destin pieux
Pour que la voix divine survive
Au-delà de la mer à la dérive
Enfonçant tes domaines par fers et feux

Au son inaugural de l’écriture,
Tu imprimeras la lettre, celui qui scelles.
La partie evoque le tout et en culpture

Polit’histoire et phrases que tu narres
Comme Japhet t’exorta en son appel
De fixer d’éternelles ammarres.

 

[Trad.: Marie-Hélène Torres]

 William Blake

 

ALEF

 

Horns rise up with force, igneous, aglow,
to burst apart the mysteries of time,
while a scribe revives prophecies divine 
on pure papyrus, salvaged long ago.

You’ll carry through the sands your great design
so that the holy voice will always be
alive, beyond the wild sundered sea,
as you your realm with sword and flame define.

Each word’s initial sound will henceforth be
inscribed by you, a letter like a seal.
The part calls forth the whole and so the script

turns into sentences and tales which now depict
how G-d called out, encouraging your zeal
to fix your ties for all eternity.

 

[Trad.: Alexis Levitin]

 

 

סוֹנֶטוֹת

מֵאֵת לֵאֹנוֹר סְקְלִיר-קַבְּרָל

  

אָלֶף



בְּלַהַט אֵשׁ הַקַרְנָיִם בּוֹקְעוֹת
דֶּרֶךְ חִידוֹת הַזְּמָן, בְּעוֹד הַסּוֹפֵר
עַל פְּנֵי פַּפִּירוּס בְּתוּלִי מְעוֹרֵר
מִמַּעֲמַקֵּי זִכְרוֹנוֹ נְבוּאוֹת:

נְשׂוֹא בִּישִׁימוֹן הַחוֹל מִפְעָלֶיךָ
כְּדֵי שֶׁעוֹד יִשְׁרוֹד קוֹל הַאֵלוֹהַ
גַּם מֵעֵבֶר לַיָּם הַבָּקוּעַ,
לְבַסֵּס בְּאֵשׁ וּבַרְזֶל מַמְלָכְתֶּךָ.

לְקוֹל צְלִילֵי רֵאשִׁיתָן שֶׁל מִילִים
הטְבַּע אֶת זֹאת הָאוֹת כְּמוֹ חוֹתָם.
הַחֵלֶק וְהַשָּׁלֵם יַחְדָּיו רוֹקְמִים

הַמִּשְׁפָּטִים וְהָעֵדוּת עִם מְחַבְּרָם
כְּפִי שֶׁיָעַצְךָ הָאֵל עֵת קְרָאָתוּ
עַל הַחוּקִים לָנֶצַח בַּל יִנָּתֵקוּ.

 

[Trad.: Naama Silverman Forner]

LEONOR SCLIAR-CABRAL (Brasil, 1929). Doutora em Lingüística pela Universidade de São Paulo, Professora Emerita e titular concursada aposentada pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pós-doutorada pela Universidade de Montréal. Foi eleita em julho de 1991 em Congresso realizado na Univ. de Toronto, Presidente da International Society of Applied Psycholinguistics, ISAPL, reeleita para mais um mandato na Universidade de Bolonha/Cessena e é atualmente Presidente de Honra. Foi presidente da União Brasileira de Escritores em Santa Catarina (1995-1997) e presidiu a Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN), no biênio 1997-1999. Ultimamente vem se dedicando à prevenção ao analfabetismo funcional, com a proposta do método: Alfabetização: aprendizagem neuronial para as práticas sociais de leitura e escrita. Contato: lsc@th.com.br.
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Texto apresentado no debate "Tradução: mercado editorial e perspectiva acadêmica"
Sala Herman Lima - 15 de novembro de 2008
Mesa composta por
Andityas Soares de Moura (Brasil) | Leonor Scliar-Cabral (Brasil) | Marco Lucchesi (Brasil) | Mediação: Camilo Prado (Brasil)

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