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revista de cultura # 67 |
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8ª bienal internacional do livro do ceará | encarte especial |
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Vozes subentendidas em Sagração do Alfabeto Leonor Scliar-Cabral
Deve-se esclarecer que alguns sistemas hieroglíficos e ideográficos incorporaram signos fonográficos com a finalidade de distinguir a mesma representação quando tinha diferentes significados. Um mesmo sistema de escrita pode utilizar fontes ou scripts diferentes, como nos alfabetos grego, cirílico, latino, gótico, hebraico ou árabe. Tais alfabetos, pois, podem ser aplicados a línguas diferentes. O que condiciona os valores das letras de um dado alfabeto numa língua determinada são as convenções ortográficas. Na verdade, os precursores da escrita se encontram na Mesopotâmia e no Egito. No primeiro caso, trata-se de pedrinhas ou pequenos blocos de barro, com registros, em geral, para contabilizar e coincidem com os pictogramas sumérios. Enquanto a escrita cuneiforme foi utilizada no início primordialmente para o registro de nomes e quantidades, necessário para as transações comerciais, a egípcia está vinculada às inscrições nos templos, com caráter sagrado. Os signos fonográficos no sistema egípcio, que serão reutilizados pelos judeus no Monte Sinai, são consonantais. Procurei, nesta série de 22 sonetos, homenagear o elo perdido entre os hieróglifos e o alfabeto fenício, isto é, a escrita proto-sinaítica, cujo documento mais antigo, em torno de 1.400 a.C., é uma pequena esfinge de arenito dedicada à deusa Hathor (pesquisas recentes revelaram a existência de exemplos mais antigos de escrita semelhante, encontrada no Egito Central, datada ao redor de 1800 a.C). A esfinge foi descoberta pelo arqueólogo F. W. M. Petrie em 1905, no planalto de Serabit-el-Khadem, no Monte Sinai, e decifrada em 1916 por A. H. Gardiner: ele constatou que a escrita era acronímica, servindo cada hieróglifo para o registro do primeiro som da palavra. Cada hieróglifo correspondia a uma palavra iniciada por aquele som que ele passou a representar. Assim, o som correspondente a [b] era representado pelo hieróglifo de casa à bayit, do qual deriva o nome da letra beit. A escrita acronímica é registrada no primeiro soneto “Alef”:
Ao som inaugural
de uma palavra
Cravaram a navalha
e suprimiram Na fixação dos traços abstratos, observa-se uma tensão entre retas e curvas, ora predominando umas, ora as outras, como no soneto “Beit”:
Braços em rotação,
lento processo Por outro lado, assinalo a característica dos sistemas alfabéticos em que as letras representam as consoantes e, com a contribuição dos gregos, passam a representar também as vogais. O poder que a mesma letra tem de representar vários sons vem expresso nos quatro versos do soneto “Shin”, de onde sai a letra “S”: Os silvos todos une o traço parco
e sobre o
pergaminho grava o marco, Um exemplo da representação das vogais pelos gregos se encontra no soneto “Beit”: Abóbada celeste, em seu colo,
em íntimo
convívio, às consoantes, Metáfora continuada da contribuição dos gregos é o contraste entre a cosmovisão judaica monoteísta, voltada a um D’us que não pode ser mencionado:
só o que a pupila
vê, o inacessível (soneto “Zayin”) e a cosmovisão helênica, pagã e terrena, como no soneto “He”: que selam o registro umbilical
da voz em solo
grego: consoantes A disseminação do alfabeto realizada pelos fenícios, a partir de Biblos, particularmente em suas navegações pelo Mar Mediterrâneo, é um dos leit-motivs, como em “Guimel”:
Inconformada ou em Záyin”:
Durante sete luas
pelo obscuro vai semeando com os dedos espalmados: Mas, acima de tudo, estão subjacentes as diferenças entre o oral e o escrito, e o ditado latino verba volant, scripta manent (a fala voa, o escrito permanece) costura o texto, como no soneto “Caf”:
libélulas tremulam
e semeiam
Milagre contra o
tempo, contra o alado onde jazem no limbo do segredo.
ALEF
Com ímpeto os
chifres rompem ígneos
Carregarás na
areia teus desígnios
Ao som inaugural
de uma palavra
as frases e a
história com que narras
Leonor Scliar-Cabral [do livro Sagração do Alfabeto]
ALEF
Con
ímpetu los cuernos rompen ígneos
Cargarás en la arena tus designios
Al
son inaugural de una palabra
Las
frases y la historia con que narras
[Trad.: Walter Costa]
ALEPH
Rompent
ignées les cornes impétueux,
Sur le
sable tu emmèneras ton destin pieux
Au son
inaugural de l’écriture,
Polit’histoire et phrases que tu narres
[Trad.: Marie-Hélène Torres]
ALEF
Horns
rise up with force, igneous, aglow,
You’ll carry through the sands your great design
Each
word’s initial sound will henceforth be
turns
into sentences and tales which now depict
[Trad.: Alexis Levitin]
סוֹנֶטוֹת מֵאֵת לֵאֹנוֹר סְקְלִיר-קַבְּרָל
אָלֶף
[Trad.: Naama Silverman Forner] |
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LEONOR
SCLIAR-CABRAL
(Brasil, 1929). Doutora em Lingüística pela Universidade de São Paulo,
Professora Emerita e titular concursada aposentada pela
Universidade Federal de Santa Catarina. Pós-doutorada pela Universidade
de Montréal. Foi eleita em julho de 1991 em Congresso realizado na Univ.
de Toronto, Presidente da International Society of Applied
Psycholinguistics, ISAPL, reeleita para mais um mandato na
Universidade de Bolonha/Cessena e é atualmente Presidente de Honra. Foi
presidente da União Brasileira de Escritores em Santa Catarina
(1995-1997) e presidiu a Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN),
no biênio 1997-1999. Ultimamente vem se dedicando à prevenção ao
analfabetismo funcional, com a proposta do método: Alfabetização:
aprendizagem neuronial para as práticas sociais de leitura e escrita.
Contato:
lsc@th.com.br. |
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