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editorial
1999-2009
Quem diria. Em 1999, nenhum de nós desconfiava que
Agulha iria tão longe, que chegaria a tanto em duração, na
extensão temporal; na quantidade de títulos, na extensão espacial; e
principalmente no alcance, em sua difusão.
Fomos consistentes. Os números iniciais de Agulha
continuam atuais. Dez anos, mantendo o mesmo projeto inicial: uma
revista digital, sítio da web ou conjunto de páginas de Internet, com um
formato e um projeto bem específicos, que não mudaram. A fórmula:
seriedade, mas sem academicismo; rigor, mas sem pedantismo. Do número 1
até hoje, são publicados ensaios, complementados por entrevistas e
artigos; e, em cada número, um artista plástico, cujas obras ilustram a
edição toda. Dez a quinze matérias por edição bimestral. Uma publicação
mais específica, mais especializada que outras com as quais tem
afinidade e mantém intercâmbio. Aberta, porém temática e com propósitos
claros. Alguns parâmetros: não recuar diante da complexidade ou
densidade; preferir o que está fora das pautas do mundanismo cultural,
incluindo os temas “malditos”, a começar pelo sistemático e detalhado
exame do surrealismo; empreender o diálogo com as literaturas e toda a
produção cultural da América Latina e do mundo hispânico; ao mesmo
tempo, entender-se como expressão da lusofonia, da criação em língua
portuguesa.
Agulha
surge ao final de 1999, desde então afinada com um sentido de
aproximação de culturas cujas afinidades são incontestáveis e também com
uma atenção particular para o inadvertido dentro do ambiente de cada
cultura em si. Entendia então que a criação artística circulava com um
fluxo não correspondido por sua reflexão crítica. Não se tratava de
defesa de uma crítica acadêmica, mas antes de evocar a reflexão no
interior da própria criação. Auscultar as veias comunicantes dessa
misteriosa operação, tão divina quanto terrena.
Não há danos causados por uma vertente racionalista que não
possam ser correspondidos pela crença no espontâneo a todo custo.
Agulha sempre quis estabelecer um palco confiável para a
manifestação dessas vertentes. Mesmo considerando uma presença mais
acentuada de temas e colaboradores situados em um ambiente
ibero-americano, não nos fechamos de maneira ortodoxa sequer em um plano
geográfico. O fato de que recebamos um largo número de material crítico
veiculado diretamente a temas ibero-americanos nos gratifica e confirma
um caminho essencial a ser reiterado permanentemente.
Agulha
não surge como um libelo em defesa do Surrealismo ou da condição algo
expatriada da cultura ibero-americana, mas antes como um veículo de
credibilidade onde tais questões podem ser tratadas com a justiça a que
fazem direito. Sem retóricas protecionistas ou rejeições preconceituosas
ou mesmo da ordem de interesses comerciais. Será bastante visitar o
índice geral dos 67 números até aqui publicados.
Em 10 anos de existência da Agulha, os obstáculos
podem até haver mudado de nome, porém se mantêm firmes na mesma
exigência. Em uma década o mercado financeiro se estabeleceu de tal
forma como determinante de toda e qualquer ação e reação que o mundo
empalideceu quando se cobra sentido no âmbito político ou cultural. Uma
das exigências naturais da Agulha é que nada na crítica que
divulgamos e mesmo assinamos ao longo de 10 anos assuma o caráter – se
há caráter nisto – de vítima. Se o mundo cair por terra, somos todos
responsáveis. Os que fizeram algo a favor ou contra e os que nada
fizeram. Tão simples como trocar uma lâmpada na cozinha.
Realizada no Brasil, onde residem seus editores, é natural
que a revista compreenda melhor o que passa por real na cultura deste
país, as identificações de pérolas e porcos a que correspondem os
anseios locais. Confirmamos de maneira quando menos curiosa o pouco caso
dado à cultura hispano-americana dentro do Brasil, sintoma de
provincianismo que nos proíbe dar o salto histórico que somente será
possível ante a aceitação do outro que trazemos em nós mesmos. Nenhuma
cultura americana, por maior ansiedade cosmopolita que a defina, pode
desprezar sua origem índia.
Em 1999, estava-se às vésperas do estouro da primeira bolha
de Internet. O Google começava a ser cotado como a melhor ferramenta de
buscas. Como parecia enorme, e como ainda era incipiente e minoritário o
mundo digital, comparado às suas dimensões atuais: a essa cifra
inimaginável, de nada menos que um trilhão de páginas que podem ser
acessadas através do Google. Conseqüência: leitores de todo lado.
Consultas, a toda hora, de pesquisadores. A evidência de que estamos
fazendo algo em favor da difusão do conhecimento.
Além de romper
barreiras de espaço (nosso leitor pode estar em qualquer lugar do mundo)
e tempo (o texto publicado em 2000 pode ser acessado e lido do mesmo
modo que aquele da última edição – tudo dura, tudo permanece), como a
Internet facilitou a cooperação, como promoveu sinergia. Acrescente-se
ainda condição bilíngüe da Agulha. Outros meios eletrônicos,
devidamente registrados em links nossos, ampliaram seu alcance e
circulação: o pioneiro Jornal de Poesia de Soares Feitosa, o
TriploV de Maria Estela Guedes, mais recentemente Cronópios
de Edson Cruz. E, evidentemente, o efeito sinérgico provocado pelo
próprio Google e demais ferramentas de busca: visitas e consultas
determinam a posição em suas páginas, o ranking, gerando novas visitas e
consultas.
Tal crescimento
evidencia um grau de interferência que nos leva a observar também o
comportamento de outras esferas e a possibilidade de mútua cooperação,
para que assim possam atuar conjuntamente uma revista de cultura de
circulação na Internet e organismos institucionais com declarado
interesse na recuperação e expansão de seu acervo cultural. Editores de
Agulha
têm viajado por vários países e partes do Brasil, participando de
eventos, ao mesmo tempo em que atuando na consultoria, coordenação e/ou
curadoria de outros, o que permite ampliar consistência cultural como
projeto identificado da revista e sua circulação em termos de leitores
de espaços os mais diversos, e não apenas virtuais. Comprova isto o
encarte especial que traz a presente edição, dedicado à recente edição,
a 8ª, da Bienal Internacional do Livro do Ceará.
Internet acelera
sobremaneira todos os componentes que caracterizam as sociedades em
nosso tempo, o que significa dizer que alimenta maniqueísmos de toda
ordem. Como em tudo na vida, gera violência, distorções de poder,
fraudes e um sem número de aspectos danosos que são, quer aceites ou
não, parte da humanidade. Trata-se de um mecanismo que evidencia o
caráter da sociedade que o utiliza. Uma grande janela do espírito
humano. Com todos os seus prós e contras. Os editores da
Agulha
compreendem com rigor o papel que desempenham em tal meio, declaradamente agradecidos pelo carinho com que leitores em toda a parte
do mundo têm recebido – e ampliado através de intensa e generosa
divulgação – nosso trabalho editorial.
Os editores |
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8ª bienal
internacional do livro do ceará | encarte especial
O Centro de
Convenções de Fortaleza (Ceará) recebeu, de 12 a 21 de novembro
de 2008, a
programação da
8ª Bienal Internacional do Livro do
Ceará, que contou ainda com destacado espaço físico da
Universidade de Fortaleza (UNIFOR), ampliando, assim, a agenda desse já
tradicional evento cearense. Esta bienal é uma iniciativa do Governo do
Estado do Ceará, por intermédio da Secretaria da Cultura, Sindlivros e
parceria com a RPS Eventos. A curadoria ficou a cargo de Floriano
Martins, Karine David e Jorge Pieiro.
O tema da 8ª
Bienal Internacional do Livro do Ceará foi
A aventura cultural da mestiçagem,
o qual abrangeu duas comunidades lingüísticas: a portuguesa e a
espanhola e, ainda, suas manifestações artísticas e culturais,
totalizando 30 países situados em quatro continentes: África, América,
Ásia e Europa. A ousadia de tal abrangência deslocou o foco habitual das
programações literárias de outros eventos similares, concentrando-se em
evocar a multiplicidade de culturas e a condição mestiça de suas raízes.
Motivada pelo tema
central, a programação da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará
esteve comprometida com a integração das culturas envolvidas,
reconhecendo seus hábitos, costumes e literatura, e com a democratização
e a mobilização do acesso universal ao livro, à leitura e à produção
literária. Foram realizadas atividades baseadas na promoção e geração de
conhecimentos destinados ao público.
As sessões
literárias incluíram palestras, debates, leituras de poemas, encontros
especiais, lançamentos de livros, tendo sito esta agenda configurada,
por sua vez, a partir do tema central. Os debates contemplaram assuntos
como produção e circulação de revistas e suplementos literários, casas
de cultura, política cultural dos centros de estudos brasileiros na
América Hispânica, movimentos contraculturais, circuito editorial
universitário, encontros internacionais de escritores, dentre outros. Já
as palestras trataram de aspectos ligados aos fundamentos da mestiçagem,
jornalismo cultural e obras literárias, considerando particularidades
regionais e continentais dos países envolvidos.
Houve uma
integração entre segmentos da criação artística, produção cultural e
mídia, envolvendo um conjunto de 9 salas permanentes, assim
distribuídas: Arena Jovem, Arte Postal & Poesia Visual, Artes e Ofícios,
Cordel, Gravuras, Música, Rádio, Revistas e Vídeos. A área de
expositores da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, considerando a
abrangência de seu tema central, contou com um número de expositores
também dos países envolvidos, influenciando assim integração entre as
literaturas de línguas portuguesa e espanhola. Um diferencial nesse caso
foi a criação de um espaço intitulado
Ilha dos Continentes,
cuja área de 234m² destinou-se a receber editoras estrangeiras que, em
geral, não dispõem de condições de participar de eventos internacionais.
O grande
homenageado desta edição de 2008 da 8ª Bienal Internacional do Livro do
Ceará foi o humorista, compositor, dramaturgo, artista plástico, ator e
radialista Chico Anysio (Ceará, 1931). Criador de uma extensa galeria de
tipos (Professor Raimundo, Coalhada, Azambuja, Bento Carneiro, Gastão,
Quem-Quem, Meinha, Zé Tamborim, Justo Veríssimo, Tavares, Pantaleão,
Painho etc.), Chico Anysio atua há quatro décadas em teatro e televisão,
representando hoje um marco exemplar em nossa tradição humorística. Por
ser considerado, também, um notável escritor, a bienal foi palco de
lançamento de um novo título seu: 3 casos de polícia.
A Agulha
destaca aqui seu amplo reconhecimento a este evento, com a criação de um
encarte especial em que disponibiliza vários dos textos
apresentados nas mesas de debates e palestras. Também incluímos – logo
abaixo – um comentário inédito do dramaturgo Oswald Barroso acerca da
Bienal.
Os editores
O
CHEIO E O VAZIO: A PROPÓSITO DA BIENAL DO LIVRO
Oswald
Barroso
Uma
das críticas que a grande mídia fez à VIII Bienal Internacional do Livro
foi a de que ela alternava espaços demasiadamente cheios e espaços
demasiadamente vazios. Falou, inclusive, de atividades que não ocorreram
por falta de público. Em que pese um número previsível de falhas e
críticas outras pertinentes, essa, particularmente, é reveladora da
falta de sintonia de setores hegemônicos da mídia brasileira com
determinados fenômenos da contemporaneidade. No caso, sua miopia frente
às mudanças processadas no campo das comunicações nesse começo de
milênio.
Pra começar, “é
sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”, como diz uma
canção de Gilberto Gil. Em outras palavras, um grande auditório apinhado
de gente atraída, seja por estrelas midiáticas, ou por obrigações
escolares, pode estar mais vazio que uma pequena sala, onde alguns
imensos poetas afro-latino-americanos se encontram pela primeira vez,
entre si, e/ou com seus poucos, mas iluminados leitores. Isto porque,
quase sempre no grande auditório flui algo já vulgarizado, enquanto na
pequena sala, não poucas vezes, está em gestação o inusitado, o novo,
portanto.
Tenho freqüentado
simpósios, encontros, seminários e outros eventos culturais e
acadêmicos, assim como teatros e cinemas, ultimamente, e em quase todos
eles este fenômeno é recorrente: muitas salas, muitos temas, muita gente
espalhada por inúmeros espaços, num mesmo momento ou não, mas sempre,
relativamente, poucas pessoas para cada assunto em pauta. Portanto,
inúmeras minorias ou, se quiserem, grandes maiorias fragmentadas.
Aparentemente, nada de causas comuns, nada de multidões uníssonas, a não
serem aquelas promovidas pela grande mídia, no rastro de mega-shows,
excessivamente mercantilizados.
Apesar do esforço
nunca visto, por parte da grande mídia, de controle da informação em
plano global, nunca foram tantos os emissores, nem tão numerosas as
oportunidades de escolha dadas ao receptor. Perdem audiência as grandes
cadeias de televisão (inclusive as novelas) e perdem leitores os grandes
jornais. Há o Orkut, os blogs, os sites, há os DVDs e a pirataria
incontrolável dos camelôs, há os jornais e revistas eletrônicos,
finamente,há um circuito de comunicação de incontáveis vias não revelado
pela grande mídia e que foge ao seu poder. Com o avanço tecnológico e a
democratização dos multimeios, amplia-se a liberdade de escolha para o
cidadão e aparece a possibilidade de uma sintonia mais fina com o que
realmente lhe interessa.
Foi o que se viu
na Bienal, espaços diferenciados e fluxos de pessoas em direção às suas
escolhas. Programações dirigidas às poucas maiorias e às muitas
minorias. O exercício da liberdade, enfim, com seus riscos, inclusive o
de se ofertar um tema que não encontre audiência. Exceção, porém, porque
na Bienal, o que se viu foi a oportunidade rara de encontro de
literaturas marginalizadas pela grande mídia, mas profundamente
sintonizadas com a vida de seus povos. Encontro que, por certo, gestará
novos diálogos, alimentando um movimento em curso, pouco visível,
aparentemente minoritário, num jogo sempre em andamento, em que a
minoria de hoje, pode ser a maioria de amanhã.
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OSWALD BARROSO
(Brasil). Prêmio Estado do Ceará (1985). Prêmio Estímulo à Dramaturgia (FUNARTE,
1996). Medalha Brasileira Folclorista Emérito, concedida pela Comissão
Nacional do Folclore. Poeta, jornalista, ator, folclorista e teatrólogo.
Tanto na atividade artística (poesia e teatro), quanto na atividade
jornalística (particularmente como repórter do jornal O Povo), e
na atividade acadêmica e de pesquisa, tem trabalhado sobre temas
relacionados à cultura popular cearense, notadamente, aos movimentos
sociais, à religiosidade, ao artesanato, às festas e aos folguedos.
Participou como ator, dramaturgo ou encenador, durante 17 anos, entre
1976 e 1993, do Grupo Independente de Teatro Amador (GRITA) e, de 1996 a
2006, da Companhia Boca Rica de Teatro.
Contato:
oswaldba@ig.com.br. |