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revista de cultura # 67 |
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Participação da antropologia na obra de Herberto Helder Maria Estela Guedes
Distribua-se
o peixe do mar,
Textos alienígenas Desde os seus mais antigos livros, Herberto Helder manifesta interesse pelos discursos étnicos. É o caso de O bebedor nocturno, com primeira edição em 1968, constituído por vinte e dois blocos de poemas oriundos das culturas mais distintas - haikus, poemas esquimós, indonésios, dos peles-vermelhas, do Antigo Egipto, etc.. Salientam-se neste livro alguns textos de proveniência semita, como o “Apocalipse”. Tanto quanto sei, os únicos textos alienígenas de Herberto Helder até agora estudados com alguma extensão foram os de origem bíblica. Vasco António Gonçalves ocupou-se deles na sua tese de mestrado. Sobram centenas de outros a merecerem atenção, concentrados em especial nos livros As Magias, Ouolof e Poemas ameríndios, além de n’ O bebedor nocturno. Os contributos de culturas étnicas não são constituídos só por poemas. Podem ser costumes ou provérbios, como o expresso no título A faca não corta o fogo. Neste livro, figura um poema que não é uma tradução, relativo ao método dos anzadis para solucionarem a impotência ocasional dos homens. A força da mãe é notável nele. Como tive oportunidade já de referir, em "Herberto Helder, obra ao rubro", a presença do pai é quase nula na obra, a das irmãs tem alguma importância, e a figura da mãe é avassaladora, em intensidade, profusão de aparições e máscaras semânticas que assume. Em Herberto Helder, a mãe é toda a força passível de exaltar, por isso tem expressão maior na mulher amada, e na poesia, na língua-mater. Daí que o poema inspirado no costume dos anzadis de recorrerem aos dedos maternos, com o fim de os livrarem da impotência, seja especialmente perturbador. Antes da publicação deste penúltimo livro, com uma parte substancial de inéditos, Herberto Helder passou muitos anos sem nada de novo dar a lume, sofrendo um dos seus episódicos períodos de impotência poética. Embora Herberto Helder seja usualmente apresentado como poeta e tradutor, ele chama versões aos resultados da tradução. A precisão nos termos é necessária, porque, se geralmente traduzir é trair, no caso da poesia tribal levantam-se ainda mais problemas. Os Poemas ameríndios, principal corpus da minha comunicação a este Seminário, não parecem muito antigos. Um deles, relativo aos toltecas, e à vinda de Quetzalcoátl ao mundo, traz a data de 843 d.C.. A generalidade, porém, deve ser posterior à colonização portuguesa, espanhola e inglesa. Os temas envolvidos são numerosos: cerimónias religiosas como a antropofagia ritual, e, pelo contrário, condenação dos sacrifícios humanos, oferta da criança ao Sol, a dança, o namoro, a caça, a doença, o recurso aos feiticeiros. Num dos textos sugere-se a relação incestuosa entre irmãos. Outros refletem os elementos da vida quotidiana e são ricos na enumeração das espécies da flora e da fauna. Se bem que menos abundantes, as espécies da geologia também estão representadas, pelo menos com o ouro e com a obsidiana.
Alguns poemas são híbridos, cruzam-se neles elementos culturais de partes distintas do mundo, não só porque são poetas europeus os que traduzem os textos de tribos asiáticas, americanas e africanas, mas também por dificuldades de traduzir nomes de coisas que não existem na cultura da língua tradutora. Os poetas ficam mais atentos ao ritmo e à musicalidade, à poética das relações, do que à fidelidade no transporte de um estrato cultural de uma etnia para outra etnia. No caso da flora e da fauna, acontece então por vezes que ficamos face a algo que funciona mais como jardim botânico ou jardim zoológico do que como um corte do território em que surgiu primariamente o poema, com os seus animais e plantas indígenas. Estranhamos um canto asteca em que o Veado refere o faisão magnífico e se autodesigna como Dois-Coelho, Coelho Ensanguentado (Poemas ameríndios, pág. 42). Numa canção quechua, ainda mais estranho é o verso em que se pede que o "o leão e o lobo/ venham devorar-me". Na flora detectamos espécies como as rosas e os cravos, entre os animais domésticos aparecem, ao lado do lama e do búfalo, a ovelha e o porco; entre os selvagens, as pombas brancas podem coabitar com o quetzal. Algures, surge até uma “pega azul”, que é decerto um representante da família Corvidae, mas não da Cyanopica cyanus. Como bem sabemos, habitantes que quase todos fomos do Museu Bocage, e leitores dos trabalhos ornitológicos do Prof. Sacarrão, a pega azul, além da China, só ocupa uma pequena zona mestiça na Europa, metade portuguesa e metade espanhola. É na região de Vila Nova de Foz-Côa que vive a pega azul, onde, para aborrecimento dos indígenas, constitui uma praga. Levantam-se aqui problemas vários, e não só de biogeografia, donde a importância da datação dos textos. É difícil averiguá-la. Se os jesuítas introduziram o gado na América, já os poetas não foram responsáveis pela introdução das outras espécies exóticas no Mundo Novo. Estou certa de que elas apenas foram introduzidas no discurso poético. Lama, tatu e quetzal são nomes conhecidos de animais. Mas nos poemas originais pululam muitas outras espécies, cujos nomes não se conhecem ou não existem nas línguas europeias, e por isso causam embaraço aos tradutores. Daí que talvez existam na América literária mais sabugueiros, loureiros, pegas azuis e raposas do que se esperaria. Bem me recordo dos que buscavam na biblioteca do Museu Bocage os nomes certos para as suas traduções. Foi para resolver problemas tão árduos como estes que Lineu criou o sistema da natureza, com a identificação das espécies fundada no binómio latino. Esclarecendo o que venho a dizer de forma implícita: Herberto Helder não verte directamente os textos incas ou pigmeus para português. Ele trabalha com traduções em línguas europeias familiares. Uma vez que raramente identifica as suas fontes, vamos partir do princípio de que verte do castelhano, do francês e do inglês. Não será ele então o maior responsável pelos fantasiosos ecossistemas criados pela poesia, se bem que estejam no seu temperamento a interculturalidade e a mestiçagem.
A língua mestiça Ao verter ou ao traduzir verifica-se uma apropriação da cultura transportada no texto étnico, e seguidamente uma recriação de tais elementos na língua mãe. Quer isto dizer que o resultado é sempre um texto mestiço. Que uma das tendências da poesia herbertiana é a hibridação, já o assinalei por várias vezes, em especial no ensaio “Estes são outros híbridos”. Aliás o próprio autor o reconhece, quando afirma que se cruza com o mundo, no poema de A faca não corta o fogo, em que usa português de Portugal cruzado com português do Brasil. No final deste mesmo livro, no poema “o fogo arrebata-se do gás até à cara, e lavra-a”, Herberto Helder identifica a língua com o sangue para declarar: “sangue denso/ dessa língua mestiça em que tudo está escrito”. O elemento mestiçador é sempre a língua, claro, mas a língua é também um órgão sexual. Vejamos um fragmento do poema acima referido, em que se hibrida a fala do Brasil com a de Portugal, para retratar o relacionamento sexual com uma prostituta brasileira:
por i, de gente em gente ¿que é isso: puta? pequena, se fôr às raízes latinas, mas tudo cresceu tamanho, grão de cobre esparzido pelas capitais do corpo: púbis, cabeça, porque você é tão cerrada em sua vida própria, trigo na noite, excessiva beleza terrestre bruxuleando um pouco adentro, que bèsteira de lhe chamar de puta, de pequena, ou mesmo se lhe chame de grande puta, se der o fora ٳ ai dolor! se sabedes novas da minha amiga, socôrro de minha baixa biografia, ai Deus e u é? [...] A mestiçagem linguística, além de luso-brasileira, com penetração no corpo do latim, num termo da sociologia sexual que se situa aliás no cerne da mestiçagem analisável pela Antropologia Biológica, abrange acentuação, pontuação, morfologia e sintaxe, e retoma o português medieval das cantigas de escárnio, de amigo e de amor. A transgressão expõe na mesa uma árvore genealógica. Ela é bastante clara: escritores que subvertam o corpo linguístico, que usem a língua híbrida, que se apropriem de culturas a que outrora se chamava primitivas, que as misturem com o que houver de mais erudito, que não hierarquizem, pelo contrário, que ponham os produtos das culturas alienígenas em pé de igualdade com a indígena, esses escritores costumam ser os das vanguardas europeias do século XX. São aqueles que o Surrealismo, por exemplo, toma para a sua genealogia. Dessa linhagem fazem parte obras excessivas, como Gargântua e Pantagruel, os poemas herméticos e cabalísticos, certa arte étnica, e também a novelística sexualmente transgressora, como a do Marquês de Sade. O elemento mais cru desta genealogia é a transgressão, provavelmente por ter sido traçada por artistas cuja juventude decorreu em contacto directo, nas colónias, com a hierarquização, o racismo, a repressão e a censura próprios do sistema colonial. E o elemento mais cozido, isto para usar os termos consagrados por Lévi-Strauss, será a inocência do artista étnico, aquele traço de infância que está mesmo na base de uma técnica, a do naïf.
Com a mestiçagem, além de reagirmos à discriminação, fomentamos o diálogo intercultural, susceptível de abrir caminho a novas leituras, quer do poeta, quer dos seus leitores. O poeta, mediante a tradução, participa directamente na cultura a que pertence o poema tribal, apropriando-se dela. Esta apropriação tem consequências intelectuais e estéticas. O contrário foi, durante séculos, a colonização. O povo colonizado era forçado a converter-se à religião e cultura europeia. No momento em que o poeta assimila o elemento exótico, hibridando-o com o endótico, está a contrariar a tendência colonialista e simultaneamente a criar algo de novo, no plano artístico. Tal como na mestiçagem biológica, o produto cultural da hibridação exibe sempre caracteres de grande novidade. Parte dos textos tribais foram vertidos de poemas publicados por escritores que viveram nas colónias, caso de Henri Michaux. O título Ouolof provém de uma citação de “Télégramme de Dakar”, poema deste poeta familiar do Surrealismo, como também Herberto Helder. O Surrealismo, como ensinou Alexandrian, fez larga apropriação dos veios sagrados dos textos tribais. No horizonte do interesse pelo texto étnico está acima de tudo a sua dimensão mágica. Isso mesmo documentam os títulos As magias e Ouolof, de Herberto Helder. O termo “Ouolof” designa a língua falada pelos Wollofs, ou jalofos, como escreviam os nossos antigos cronistas: On parle à des décapités les décapités répondent en "ouolof " [Henri Michaux, "Télégramme de Dakar"] Os decapitados falam em jalofo, eis a questão. A questão, está bem de ver, situa-se num plano de sentido muito amplo. No entanto, não existindo debate teológico nem filosófico em Herberto Helder, nem textos do povo Wollof, e nem sequer referências à cultura afro-islâmica, é forçoso perguntar qual a razão deste título. Só a epígrafe com aqueles versos de Michaux alude aos jalofos. Ouolof é um livro constituído por versões de poemas maias e dos poetas Emílio Villa, Jean Cocteau, Marina Tsvetaieva e Malcolm Lowry. O título entende-se como desafio: se quem fala jalofo são os decapitados, então o livro de Herberto Helder é mais um Livro dos Mortos, e com isto respondemos de novo à pergunta: o que há no discurso tribal que interessa aos artistas? Entre elementos menores, repito que interessa a questão do sagrado.
a conversar com Deus: palavra, música, martelo uma equação: conversa de ida e volta. Que natureza assume o sujeito lírico para conversar com Deus? Será ele um dos serafins? Um apóstolo? Um feiticeiro? Nem por isso. O poeta afirmara, linhas antes de se sentar para a dita conversa: “eu falo o idioma demoníaco”. |
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Maria Estela Guedes (Portugal, 1947). Escritora, investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa. Dirige o TriploV [http://triplov.org]. Autora de livros como Herberto Helder, Poeta Obscuro (1979), Lápis de Carvão (2005) e Ofício das Trevas (2006). Comunicação apresentada ao Seminário “Antropologia Biológica e a Interacção com outras Áreas da Antropologia”. FCUL. Sociedade de Geografia de Lisboa. 12 de Dezembro de 2008. Contacto: estela@triplov.com. Página ilustrada com obras do artista William Blake (Inglaterra). |
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