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editorial
o brasil faz parte deste planeta
Um
dos editores da Agulha foi, outro dia, convidado a responder à
seguinte pergunta: “Você acredita no Brasil?”, para uma enquête,
promovida por um magazine. A resposta começou pela observação de que o
Brasil é aqui. Não está em outra galáxia, ou em um universo paralelo.
Portanto, está sujeito ao aquecimento global, com seus desequilíbrios
climáticos e demais conseqüências. E, nesse quesito, não há como deixar
de ser pessimista.
O aquecimento global deve acelerar-se, correspondendo às
piores previsões. Isso, pela interação de efeitos: o derretimento polar
libera gases da decomposição de matéria orgânica, carbônico e metano,
que por sua vez, provocam mais aquecimento; os grandes incêndios
florestais, como estes recentes, devastadores, da Austrália e
Califórnia, produzem gás carbônico, calor, e, obviamente, aquecimento; a
mudança de temperatura dos mares, associada a alterações de sua
composição química, acarreta a extinção de algas e microorganismos que
produziam oxigênio, que minorava o efeito estufa. Etc.
Jornais noticiaram que uma cidade à beira-mar em Portugal
agora é suprida de energia elétrica pelo movimento das marés e ondas,
acionando pás. Em Roma, tem início um projeto de utilização do lençol
freático, de águas subterrâneas, mais quentes que as da superfície.
Fontes de energia como essa, além de limpas, são baratas.
Mas esses são exemplos isolados. Apontam caminhos, mas não
alteram o todo. Estamos atrasados em décadas na geração de energia
limpa. Obviamente, por projetos como esses contrariarem interesses
econômicos. É melhor negócio, para alguns grandes conglomerados,
continuar explorando e comercializando petróleo, queimando seus
derivados – ou, pior ainda, como na China, queimando carvão, o mais
poluidor dos combustíveis. Ou então, beneficiar-se de novos
investimentos em colossais usinas hidroelétricas, nos moldes de Itaipu,
ou térmicas, ou termonucleares.
Vender condicionadores de ar, aí está um belo negócio: o
aumento de escala os barateou e aperfeiçoou, tornando-os acessíveis à
classe média, que usufrui da separação de frio, em seus cômodos, e
calor, lançado à atmosfera.
O Brasil, em especial, é um campeão do desperdício:
conforme já observado em editorial anterior, aqui há uma perda de 40% de
energia durante sua transmissão; idem, uma perda de 40% da água entre o
manancial e o usuário final, que, por sua vez, majoritariamente, não
está nem aí, e vai desperdiçando no consumo. Isso, além dos 40% de
desperdício no transporte de grãos, bem como de alimentos perecíveis.
Mais dano ambiental: mais terra para a agricultura em grande escala,
menos para reservas naturais.
As políticas ambientais brasileiras são um faz de conta. Os
devastadores são multados, porém as multas nunca são cobradas: outro dia
jornais noticiaram que a AGU, Advocacia Geral da União, promoverá um
mutirão, para ativar processos parados faz anos, e tornar efetivas ao
menos algumas dessas punições.
E não se trata apenas da expansão de clareiras na Amazônia.
Em São Paulo, agora, imprensa e autoridades estaduais deram-se conta da
devastação da Serra da Cantareira, aqui, na cara de todo mundo... Basta
sobrevoar, tomar qualquer vôo comercial que saia do aeroporto de
Guarulhos, para ver que essa reserva estabilizadora do clima em São
Paulo foi inteiramente invadida por loteamentos, com a plena conivência
de administradores de municípios da região metropolitana e
sub-prefeituras da própria capital.
Desse jeito, não há otimismo que resista. Jornais, revistas
e noticiários na TV têm dado conta, de modo talvez intermitente, desse
descalabro. Mas falta a correspondente resposta da sociedade, exercendo
a cidadania, e fazendo que governantes cumpram suas obrigações.
***
No editorial passado, da Agulha 67, havíamos
alertado para essa relação meio mágica, de uma causalidade subterrânea,
entre a quebra de financeiras e a conseqüente crise econômica, e as
compras de livros na biblioteca de Iraty. De Iraty? Continuamos sem
saber o que se passa nesse município paranaense. Já em outro município,
bem maior, o de São Paulo, tivemos um contingenciamento de 33% dos
recursos orçamentários da Secretaria Municipal de Cultura. Uma redução
pesadíssima, adiando programas importantes, e gerando justificadas
manifestações de protesto. Na área estadual, também houve cortes
significativos em programas culturais. E, para o governo federal não
ficar atrás, acaba de ser noticiada a retenção de nada menos que 78% dos
recursos do MinC, Ministério da Cultura.
Há um contra-senso, nesse descaso pela cultura. Liberam
recursos para manter ativos a produção industrial, a construção civil, o
crédito – e parecem ignorar que um filme ou encenação teatral podem
gerar mais empregos, por real investido, que a fabricação de automóveis;
que essas atividades, subvencionadas, trazem mão de obra da
informalidade para o mercado formal; que os programas ligados à
literatura estimulam a leitura, além de contribuírem para a elevação do
nível do ensino.
Quase vinte anos atrás, durante o governo Collor, a redução
do apoio público à cultura foi recebida por uma vigorosa reação de
artistas, intelectuais e suas entidades. Hora disso repetir-se, e a
sociedade civil despertar da presente letargia. Que a relação de
governantes com a cultura deixe de resumir-se a mandarem cortar
“despesas”.
Os editores |