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editorial
DE
VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS E SEUS APOCALIPSES DIGITAIS
Esse tema, supostos apocalipses digitais, tem sido
tratado desde a primeira edição da Agulha, dez anos atrás. E não
sem motivo. Avaliações e opiniões preconceituosas relativas ao meio
digital retornam. Têm sido acolhidas e transformadas em tema de ampla
circulação. Uma das amostras mais recentes, o livro de Andrew Keen, O
Culto do Amador, que trata de “como blogs, MySpace,
YouTube e a pirataria estão destruindo nossa economia, cultura e
valores”; e as resenhas e artigos na imprensa elogiando essa obra.
Culto do amador? Como assim? Nós, editores da Agulha,
não somos amadores, porém profissionais da cultura; temos currículo,
obra, bibliografia crítica. E o meio digital ampliou enormemente a
veiculação do que produzimos e temos a dizer. A experiência da Agulha
contesta frontalmente e factualmente os juízos mais apocalípticos sobre
as conseqüências da difusão pelo meio digital: sua qualidade é evidente,
reconhecida, e a conseqüência é que temos audiência, estamos situados
entre páginas bem visitadas na Internet. É, portanto, falsa a premissa
da mediocridade universal e vulgaridade obrigatória.
Imaginemos que o livro impresso se tornasse muito, muito
acessível, que sua produção e preço de venda passassem a custar uma
fração dos valores atuais. Alguma dúvida de que quantitativamente, em
volume de títulos oferecidos, predominariam bobagens, mediocridades,
entretenimento vulgar, subliteratura, achismos, manifestações
idiossincráticas, picaretagens? Na lógica de Andrew Keen e demais
apocalípticos da Internet, tal hipotética ampliação da circulação de
livros justificaria, então, severo controle do seu conteúdo e restrições
à sua circulação.
O diagnóstico catastrofista dos efeitos da Internet
desvia o foco do debate realmente importante, examinando aquilo que
efetivamente promove formação cultural: ensino e políticas culturais
públicas. Além disso, deixa de lado a crítica às mídias tradicionais,
impressas inclusive – como se estas fossem inocentes, como se a
mediocridade fosse uma prerrogativa do meio digital. Por trás do
discurso de alguns desses críticos, subjacente, nas entrelinhas, uma
defesa da censura. A implantação de uma espécie de obrigatório Pravda
digital, a tutela, em nome da defesa de direitos autorais, da cultura,
da economia, e, é claro, da ideologia “justa” e da moral e bons
costumes, daquilo a que teríamos o direito de acessar.
Por vezes, legisladores apresentam projetos de policiamento
do meio digital. Felizmente, não prosperam, não só pela rejeição por
parte do público em países democráticos, mas pela inviabilidade técnica.
A Internet é incontrolável, para o mal e para o bem – felizmente. O
controle é nosso, de cada um de nós, e, esperamos, continuará sendo
assim.
A falência da mídia impressa, tomando por base a
justificativa recente do The New York Times no que diz respeito à
perda de anunciantes para a mídia virtual, não se distancia, em termos
principais, do velho temor de que a Internet roube audiência em zonas de
produção de livros e discos. Igualmente a indústria cinematográfica tem
manifestado seus temores, como no caso mais recente envolvendo o filme
X-Men
Origins: Wolverine.
Multiplicação de pirataria virtual, antes de ser
classificada como atividade criminal, deve ser percebida como reação a
uma má política de preços do objeto final e o correspondente tratamento
dado ao pagamento de direitos autorais. A contravenção, qualquer que
seja, quando em larga escala, não pode ser entendida sem seu
correspondente estímulo em um ambiente social mal definido. O ladrão
ocasional é fruto da oportunidade. O ladrão sistêmico é uma instituição
amparada pela má salvaguarda institucional do patrimônio, material ou
imaterial, de uma nação.
Uma infestação de "lacerdinhas", um mosquito fascinado pelo
globo ocular humano cujo ataque provocava uma profunda irritação nos
olhos, levou, nos anos 60 do século passado, o prefeito de uma cidade
brasileira – especificamente, Fortaleza, a capital do Ceará – a
extinguir o fícus benjamin, árvore predileta do mosquito e majoritária
em sua cidade, como única solução que imaginou possível de
erradicação do problema.
A velha confusão entre o todo e a parte, exemplificada no
tratamento, por exemplo, entre o público e o privado, é que encontramos
aqui, uma vez mais, no empenho por legislar sobre a Internet, em caráter
genérico, como se a eletrificação dos instrumentos musicais fosse a
responsável principal da má qualidade de músicos que a essa tecnologia
recorreram como válvulas de escape – ou como curiosos, ansiosos,
megalomaníacos, inocentes de toda ordem. É irresponsável, portanto, não
medir a inestimável fonte de consulta em que se converteu a Internet na
área de apoio aos estudos das ciências médicas. Há hoje sítios Web em
que se pode escutar o distinto comportamento pulsante dos pulmões de
acordo com cada enfermidade.
Agulha
é uma universidade, considerando a amplidão de seus registros e a forma
como tem sido visitada por especialistas, estudantes e curiosos de toda
ordem, pelo interesse não somente em pesquisar como também em divulgar
seus textos. Se relacionarmos duas áreas imediatas em que a Internet tem
já podido dar provas de valiosa atenção, como arte e educação, mesmo
considerando a presença indesejável de farsantes de toda ordem, é quando
menos curioso notar que a rejeição ao mundo virtual vem do fato de que
seu antípoda declarado não descobriu ainda como lidar tecnicamente com
este novo ambiente de circulação de idéias.
Em face disto, se utiliza de um recurso banal, cuja matriz
é a velha hipocrisia que tem movido a espécie humana ao longo dos
tempos. Tática fugaz em que um Andrew Keen não é mais do que um
oportunista que busca atenção comercial falseando uma moral em um
ambiente que permanece indefinido por sua jovem aplicação. Na medida em
que se utiliza de má fé para questionar o lixo que correspondente, em
percentuais os mais agravantes em todos os casos, à manifestação do
humano, não importa o instrumento, não pode deixar de ser visto como
alguém de péssimo caráter e pouco desejável em um momento tão delicado
quanto o que atravessamos.
Os editores |