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revista de cultura # 70 |
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Permanência de Vicente Huidobro Afonso Henriques neto
Publica seus primeiros poemas em Paris (o pintor Juan Gris, grande amigo, ajudará o poeta na tradução dos versos para o francês) na revista Nord-Sud, que, no dizer do ensaísta Federico Schopf, “aspirava representar a tendência cubista em literatura e que reconhecia em Apollinaire o poeta que nesse momento havia traçado novas rotas, aberto novos horizontes”. É deste período a proposição, por Huidobro, do Criacionismo, forma de poesia radicalmente nova que pensava a criação de um mundo poético paralelo e independente do mundo real. Poder-se-ia falar, assim, do Criacionismo ser um paroxismo criativo, uma obcecada procura do novo, conforme a boa tradição do modernismo. Ao longo dos anos o poeta vai amadurecer essas idéias: ainda segundo Schopf, “o sujeito da poesia criacionista desenrola suas imagens em um estado de ‘delírio poético’ em que convergem a mais inusitada imaginação e uma extrema consciência. O poeta deve ser ativo: não se deve entregar passivamente à inspiração nem reduzir-se a mero veículo da exteriorização do inconsciente (que é a crítica que Huidobro faz ao Surrealismo). O poeta criacionista há de controlar sua escritura e dominar as técnicas que o permitam realizar suas intenções estéticas”. Huidobro vai dizer em conferência em 1916 que com o Criacionismo ele imagina construir um universo autônomo de signos, com sua “fauna e flora próprias”. Em 1918 publicará quatro livros: Poemas árticos, Equatorial, Torre Eiffel e Hallali. A genealogia estética de Huidobro pode ser identificada com clareza: em um primeiro momento se influencia fortemente pelo Romantismo europeu; a seguir, cultiva o Simbolismo, antes de se alistar na linha de frente das vanguardas estéticas das primeiras décadas do século 20, passando a trabalhar com toda sorte de experimentação da linguagem. O poema “Arte poética” é quase um manifesto do ‘criacionismo’ huidobriano. Ouçamos o poeta:
Inventa mundos
novos e cuida de tua palavra;
Estamos no ciclo
dos nervos.
Por que cantais a
rosa, oh Poetas? O Poeta é um pequeno Deus. A poesia criacionista foi um dos principais fermentos para a elaboração do Ultraísmo e serviu de inspiração também para muitos aspectos das obras de importantes poetas da geração de 1927 na Espanha, entre eles Rafael Alberti, Jorge Guillém, Vicente Aleixandre, Dámaso Alonso e Federico García Lorca. Em 1918 Huidobro participa do movimento dadaísta, colaborando em publicações sob o comando de Tristan Tzara. Em 1927 instala-se em Nova York; conhece então Charles Chaplin, Douglas Fairbanks e Gloria Swanson, e colabora na revista Vanity Fair. Em 1931 publica Tremor de céu e Altazor ou a viagem em paraquedas, longo poema-livro em sete cantos e um prefácio, obra-prima de Huidobro. Neste mesmo ano, assiste ao recital Poeta em Nova York, de Federico García Lorca. Após regressar ao Chile, o poeta passa a militar no Partido Comunista em 1933. Em 1935 mantém acirrada polêmica política com o conterrâneo Pablo Neruda. Em 1936 retorna à Espanha para lutar contra o regime do general Franco (neste ano o regime franquista irá prender e fuzilar García Lorca). As diferenças políticas entre Huidobro e Neruda vão alcançar a Europa: de Paris a Associação Internacional dos Escritores pela Defesa da Cultura envia carta aos dois grandes poetas chilenos convidando-os a deixar de lado as diferenças pessoais em benefício da causa comum, o triunfo moral e material sobre o fascismo (assinavam a carta, entre outros, Tristan Tzara, César Vallejo, Alejo Carpentier e Juan Larrea). Em 1940 rompe com o Partido Comunista, em decorrência do pacto germano-soviético. Em 1941 publica Ver e apalpar e O cidadão do esquecimento. Alista-se nas tropas aliadas, entrando com elas em Berlim; na ocasião, transmite crônicas de guerra para A Voz da América. É ferido duas vezes e recebe baixa. Em Londres conhece Raquel Señoret, jovem chilena com quem regressa ao seu país. Por pura fanfarronice de teor futurista afirmava que, durante a invasão de Berlim, conseguiu para si o aparelho telefônico particular do próprio Hitler, levando tal troféu para o Chile como despojo de guerra. Instala-se em Cartagena em 1946, onde falece em 1948, aos 55 anos de idade. A pouca divulgação da obra de Huidobro no Brasil, assim como da maior parte de outros importantes poetas hispano-americanos da mesma época, se deveu a variados motivos. De modo sumário podemos lembrar, em primeiro lugar, da pouca circulação da nossa própria poesia simbolista no início do século 20. Os nossos simbolistas, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens à frente, estavam mergulhados em quase completo esquecimento naquele período. Os modernistas foram os responsáveis pelo início do resgate da estética simbolista entre nós. A obra completa de Alphonsus de Guimaraens, por exemplo, só foi publicada pela primeira vez em 1938, 17 anos após a sua morte, pela mão de Manuel Bandeira. De outra parte, a poesia de extração surrealista também foi praticamente ignorada no Brasil de então. Apenas dois poetas modernistas, Murilo Mendes e Jorge de Lima, se deixaram influenciar por formulações do surrealismo. Não podemos ainda deixar de lembrar que o rompimento de Huidobro com o Partido Comunista em 1940 também ajudou em muito na projeção de uma extensa área de silêncio em torno de seu nome, inclusive com a emergência de uma crítica de caráter ideológico em relação ao Criacionismo defendido pelo poeta, que passa a ser considerado como de concepção ‘aristocrática’ (certamente aqui se localiza o preconceito em relação às origens do poeta, filho de família aristocrática e rica no Chile). Octavio Paz vai dizer que na década de 1940 a poesia hispano-americana se dividia “em duas academias: a do ‘realismo socialista’ e a dos vanguardistas arrependidos”, o que fechava muitos espaços para a divulgação da poesia livre/libertária, de cunho futurista de Huidobro (mas, é bom que se diga, um ‘futurismo’ em que aviões, paraquedas e telescópios — o novo — dialogavam dialeticamente com árvores, rosas e rouxinóis — o tradicional). Podemos ainda assinalar que, no Brasil, além do fator político, de um lado, e de não ter encontrado solo propício em meio às tendências estéticas da década de 1940, de outro, o silêncio sobre Huidobro se deveu, por último, à ojeriza das vanguardas formalistas/racionalistas das décadas de 1950 e 1960 (Concretismo e Práxis à frente) no que diz respeito à ‘extensão’ textual e à lírica ‘delirante’ de qualquer espécie. Neste caso, por óbvio, obras informadas pelas proposições dadaístas, futuristas e surrealistas eram tidas como habitantes do ‘dinossáurico’ universo da compulsão retórica. Como defender, desse modo, a vigorosa poesia de largo fôlego de Huidobro?
Vejam vocês: ao falar de “significação mágica” da linguagem, de imersão profunda em uma “atmosfera encantada” e coisas semelhantes, percebemos Huidobro muito mais próximo dos caminhos visionários de um William Blake ou de um Arthur Rimbaud do que propriamente da maior parte dos poetas das vanguardas do início do século 20. E prossegue Huidobro: “O poeta cria, fora do mundo que existe, o que deveria existir. Eu tenho direito a querer ver uma flor que anda ou um rebanho de ovelhas atravessando o arco-íris, e quem quiser me negar esse direito ou limitar o campo de minhas visões deve ser considerado um simples inepto. O valor da linguagem da poesia está na razão direta de seu afastamento da linguagem que se fala. Isto é o que o vulgo não pode compreender, porque não quer aceitar que o poeta trate de exprimir apenas o inexprimível”. E continua o poeta, dando mais uma vez voz às suas ideias ‘criacionistas’: “O poeta faz mudar de vida as coisas da Natureza, recolhe com sua rede tudo aquilo que se move no caos do inominado, estende fios elétricos entre as palavras e ilumina subitamente rincões desconhecidos, e todo esse mundo estoura em fantasmas inesperados”. Para se ver como Huidobro coloca tais ideias em prática, nada melhor que lermos alguns trechos do longo poema-livro Altazor, este desconcertante, lírico/retórico, integrador/desintegrador, racional/surreal, experimental/tradicional, louco/lógico, trágico/mágico e, essencialmente, belo poema de tom épico, na verdade um dos mais belos poemas escritos no século passado. Altazor é uma palavra-valise nos moldes de Lewis Carroll (ou seja, fusão de palavras para produzir outros sentidos): em um dos versos do poema se lê “Aqui jaz Altazor, açor fulminado pela altura” (como se sabe, ‘açor’ é uma ave de rapina semelhante ao gavião, e menor que a águia, que vive na América do Norte, Europa e Ásia). Alto açor. Mas vamos aos versos de Huidobro, por mim traduzidos e constantes de Fogo alto (Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca e Ginsberg), livro que acabo de editar pela Azougue Editorial do Rio de Janeiro:
Os veleiros que
partem para distribuir minha alma pelo mundo […]
[…]
Os lobos fazem
milagres […] Abre-se a tumba e ao fundo se vê um desfile de tímpanos de gelo […]
Abre-se a tumba e
sai um soluço de planetas […]
E nasce a selva
mágica […]
E eis que agora me
diluo em múltiplas coisas […]
[…]
Sou rosa de trovão
e soo meus pigarros Por fim é fundamental marcar a importância de Huidobro para o aparecimento dos movimentos de vanguarda, de maneira mais ampla, na América Latina. Federico Schopf vai escrever que “sua imaginação aérea, que instala o homem no espaço celeste, e sua legitimação do jogo no âmbito das artes são contribuições decisivas para a poesia atual. Sua representação — ou expressão — do fragmentário da experiência, a amplificação da habitação humana ao hiperespaço, a relativização da realidade, a experiência da transformação e a transformação da experiência em um mundo mediado pela técnica, são algumas das dimensões de sua obra que atualizam de maneira fascinante sua leitura. Como diz Nicanor Parra, agora mais que nunca
O poeta se faz
vidente |
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Afonso Henriques Neto (Brasil, 1944). Poeta, ensaísta e tradutor. Autor de livros como Tudo nenhum (1985), Abismo de violinos (1995), e Cidade vertigem (2005). Há uma entrevista com ele na Agulha # 48. O texto que aqui publicamos é uma versão ampliada do que se encontra em seu mais recente livro, Fogo alto (2009), seleção de traduções de poetas como William Blake, Vicente Huidobro, García Lorca e Allen Ginsberg. Contato: afonso.ntg@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Aline Daka (Brasil). |
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