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MAGIA
E DIGNIDADE NO OLHAR DE SANDRA ELETA
Sandra
Eleta (Panamá, 1942), conhecida em diversos âmbitos a nível
mundial, mantém um selo que lhe é muito próprio. Os
personagens de suas fotografias, literalmente, falam, perguntam, desafiam.
Essa capacidade para refletir a luz interior é o produto de horas
de trabalho de busca e perseguição. Sandra busca a alma
em seus objetivos. Para ela, os seres humanos são uma fonte inesgotável
de expressão única e original. O tema, seu tema: as pessoas.
O desafio maior: deixar que as pessoas mostrem sua alma. "Mesmo em uma
seção para um retrato de uma pessoa te interessa agarrar
a alma dessa pessoa. Isso ocorre ou não ocorre, mas não basta
que tu queiras ou tenhas a vontade de ir buscar a alma dessa pessoa, não
vai acontecer por isso. Não se passa assim. O mais que podes fazer
é estar disponível e que essa pessoa deixe sua alma surgir
e então, de uma sacada para outra, saudar-se mutuamente e esperar
que ocorra o milagre."
Precisamente essa capacidade para esperar
com paciência e tenacidade que o milagre ocorra. Os personagens retratados
por Sandra Eleta não fazem parte da apologia da miséria humana
à qual se filiam muitos fotógrafos desde mediados deste século.
Dotothea Lange ou Diana Arbus, por
exemplo, fixadoras de uma denúncia muito particular da capacidade
dos seres humanos para a crueldade para com seus semelhantes. Arbus (USA,
1934) pôs em evidência a outra face do American way
of life, retratando travestis do bás fond, anões
de circo, homless, moribundos em hospitais de caridade, ladrões
menores nas atestadas avenidas dos bairros de que os formadores da imagem
do pujante bom vizinho no mundo se empenhou em apagar.
Não é essa a tônica
dos retratados de Sandra Eleta. O seu é a busca da magia que pulsa
na vida, na dignidade daqueles que são ignorados pelo establishment
ou dos livros de história.
"O
olhar de Sandra Eleta é vital, positivo, cheio de carinho, solidariedade.
Impulsiona-o um afã por revelar a beleza de sua gente." Resulta
particularmente importante seu trabalho Portobelo (1977). Este lugar
situado na costa Atlântica, antigo assentamento de férias
nos inícios da colônia e povoado por descendentes de escravos,
está nas pupilas da fotógrafa desde a infância, quando
levada por seu pai visitava com recorrência a baía, escutava
os cantos dos congos e se deixava fascinar por algo que ela sabia que lhe
concernia. " Portobelo é o trabalho com que mais me identifico.
Tem muitos significados para mim esse trabalho. Independentemente de que
seja bom ou mal, bonito ou feio, é o que significa. Para mim é
o mais importante. Foram muitos anos os que vivi. Eu não era uma
pessoa que passava mas sim que vivia. Isso te dá raízes e
te conecta com a gente. A gente de Portobelo foi minha família,
e seguirá sendo. As amizades que se renovam. Vivi em outros lugares,
conheci outras pessoas, muitas coisas em minha vida têm mudado, porém
Portobelo segue como uma constância."
Para os que observam pela primeira
vez suas fotografias de Portobelo é evidente sua conexão.
"Sandra Eleta é testemunha do local: nenhuma imagem sua é
prisioneira do dispositivo. Cada uma remete não só a outra,
mas sim ao outro, cuja presença se deixa sentir, não como
anzol da atenção, mas sim como imediação de
uma distância. Por arte do presságio, a fotografia se converte
em um amuleto."
Similar a Portobelo, é seu trabalho
sobre os indígenas em Por los caminos del Chagres, Emberás,
hijos del río (1987), distante das impudicas mostras antropológicas,
ou da pátina turística dos livros de fotografias que mostram
um Panamá multicolor e glamoroso com índios sorridentes ataviados
para o coquetel de boas vindas, Sandra prefere deixar-se levar pela lógica
da sobrevivência em um mundo onde as regras do jogo são outras.
Onde a noite e o rio mandam mais do que a Constituição. Onde
perder o caminho pode significar a morte. Nessa lógica, a lente
de Sandra capta a magnificência daqueles que confiam mais em seu
instinto do que nos políticos de turno, a sabedoria de quem não
possui livros mas que sabem ler os signos do que se move entre as sombras.
Revela em suas fotos uma "lição de conhecimento profundo
de seu país", e o convencimento profundo de que o Panamá
é muito mais e sua riqueza principal está naquilo que não
vemos, a não ser que olhemos bem. "Quando se está criando
há uma conexão muito forte entre o que se é e o que
se faz. É possível criar a partir de um ego, a partir de
uma careta, mas o trabalho sempre é tua marca. Quando estás
conectado com tua essência, teu trabalho tem essa força."
Com
o audiovisual Sirenata en B (1982/83), Sandra Eleta mostra sua capacidade
e afeição por contar histórias. Um conto perfeitamente
narrado, quadro a quadro, em estrita linguagem de imagem com toda a dificuldade
que implica significar o complicado universo polimorfo das culturas e subculturas
urbanas do Panamá. Sirenata en B conta a história
de um motorista de ônibus que anda buscando um decorador que possa
pintar seu ônibus exatamente como ele tem sonhado. Em seus sonhos,
o ônibus voa. "Eu havia fotografado o que queria, mas tinha que fazê-lo
voar e isso para mim era muito difícil, quase impossível".
Sandra trabalhou durante um ano na parte fotográfica sobre a base
de um roteiro previamente escrito por ela mesma a partir do que chama o
"caos original" e logo levou mais um ano na montagem em que ela selecionou
a música e supervisionou a arranjos e seleção final
dos efeitos especiais, juntamente com Toshi Sakai, um técnico da
IBM que a princípio corroborou a impossibilidade do projeto, mas
que, diante da força de convencimento de Sandra, conseguiu finalmente
fazer voar, não somente o ônibus mas seu prestígio
no mundo fotográfico internacional. O esforço quase épica
de contar os sonhos de um motorista de ônibus da Ciudad de Panamá
valeu a Sandra o prêmio Crystal Apple do New York Film Festival
de 1985 para melhor fotografia criativa.
Em
El imperio nos visita novamente (1991), Sandra reafirma sua vocação
para contar histórias, desta vez acrescentando-lhe um argumento.
Em um símil fílmico que relaciona a invasão espanhola
no século XVI com a recente invasão estadunidense no Panamá
(1989), monta seu roteiro baseando-se em textos e crônicas da conquista
com testemunhos atuais dos sobreviventes aos incompreensíveis ataques
estadunidenses a uma população civil indefesa e inofensiva.
A invasão estadunidense foi um fato de magnitude na cadeia história
panamenha, ainda que não tenha sido um fato isolado. Sobre essa
lógica, Sandra transcende a paixão simples do "há
que dizer algo a respeito" ou o "há que denunciar", para situar
o fato em perspectiva e tentar explicações além do
conjuntural. Seu trabalho como diretora e realizadora imprime um selo ao
filme que o salva de abonar a filmografia documental de sensacional sugestão
jornalística ou friamente acadêmico para inclui-lo mais na
tônica do cinema de autor.
Também com Toshi Sakai, outro
audiovisual, AbyaYala (1992), foi amplamente apreciado na sala panamenha
da EXPO Sevilla 92. AbyaYala tenta contar outras facetas do encontro
de dois mundos. Com ternura e uma adorável seleção
de paisagens, modelos e momentos, Sandra explora em minutos a multiplicidade
étnica e cultural amparada por uma diversidade biológica
sem comparação. Longe de cair no lugar comum ao estilo de
agências de viagem, o respeito pelo caráter que convém
e a possibilidade de modificar a errada percepção no olhar
"do outro". Não somos selvagens, não nem melhores ou piores,
simplesmente somos diferentes. Como expressa María Cristina Orive,
"Sandra não inventa a cultura de seu país, a define; vai
cosendo todas as pontas de um tecido revelador".
Profundamente enraizada, sem cair em
localismo ou provincianismo, Sandra Eleta é considerada uma das
fotógrafas mais importantes no âmbito latino-americano. Conta
com o reconhecimento expresso dos centros especializados onde a fotografia
é parte essencial de uma forma de ver e sentir a arte. Ponto de
referência para muitos fotógrafos nacionais, sua arte nos
é absolutamente imprescindível para a compreensão
e defesa do melhor de nós. |