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WANDERSON LIMA |
O túnel e o
subsolo: presença de Dostoievski em Ernesto Sabato

I
| Num ensaio sobre Shakespeare, o filósofo Julían Marías
refere-se a uma estirpe de escritores, cujo prócer seria o Bardo
inglês, que tem a qualidade da página. “Quando um
escritor com qualidade da página escreve algo”, diz Marías, “o
faz a partir de si mesmo, não a partir de um repertório
impessoal de fórmulas, e simplesmente pondo a mão sobre as
linhas impressas de seus escritos podemos sentir o pulsar de seu
coração”. Assim era Ernesto Sabato: de cada página sua emanava
uma luz própria, intensa e urgente, carregada de uma vida cheia
de experiências e crises, e também de muita leitura. Seu gênio
intenso casava-se com o aforismo, com a escrita fragmentária à
maneira de Pascal e Nietzsche e sua profundidade só era
equiparável com sua frase reta, límpida. Toda e qualquer página
de Sabato o contém em sua inteireza. Como Borges, Sabato tinha o
dom de elaborar ideias desconcertantes em uma linguagem
humilhantemente clara. Mas ao contrário do irônico e lateral
Borges, seu gênio se revestia de uma gravidade típica de quem
assume responsabilidades hercúleas e sua palavra ganhava ares
proféticos e salvacionistas: era palavra proferida às vésperas
de um Apocalipse.
Homem de
guinadas e rupturas, Sabato saltou da militância comunista à
ciência (chegou a trabalhar no Laboratório Curie em Paris e no
Massachusetts Institute of Technology – MIT, nos EUA) e desta à
literatura. Ainda que tenha morrido quase aos 100 anos, em 30 de
março de 2011, só escreveu três obras de ficção – o restante de
seu trabalho se constituindo de ensaios e textos autobiográficos
de grande lucidez e forte engajamento humanitário. Sua estreia
na ficção deu-se com um pequeno romance, intitulado El túnel
(1948), que discutirei neste texto. O túnel é uma
narrativa de tom sombrio centrado num caso passional pleno de
conflito e mistério, envolvendo Juan Pablo Castel e María
Iribarne. Denso e simbólico, embora linear em seu enredo, O
túnel já foi lido em diversas pautas, algumas convergentes,
outras quase opostas: como típico romance existencialista (no
que é aproximado especialmente de Camus); como romance
metafísico de atmosfera trágico-cristã; como encenação de
obsessões psicopatológicas e até como narrativa policial. Os
apontamentos que faço a seguir aqui aproximam esse romance de
estreia à imagem do “homem do subsolo” de Dostoievski, imagem
consagrada nesta obra-prima que é Memórias do subsolo
(título da louvada tradução de Boris Schnaiderman, mas que
também foi vertido como Memórias do subterrâneo).
II
| Sabato sempre se pronunciou favoravelmente à novelística russa
e a Dostoievski em particular. Entre as inúmeras menções ao
romancista russo presentes nos ensaios de Sabato, destaco uma
passagem de Homens e engrenagens por nela está
sintetizado o sentindo da obra de Dostoievski na evolução do
romance:
A
literatura hoje não propõe a beleza como fim – que além disso a
alcance é outra coisa. É mais uma intenção de aprofundar o
sentido da existência, uma encarniçada tentativa de chegar até o
fundo do problema. Esse desejo de autenticidade, que em alguns
homens como Antonin Artaud chegou até a ferocidade e a loucura,
é o que põe abaixo o sentimentalismo convencional e falso que
poluía a literatura anterior a Dostoievski, essa literatura em
que os homens eram bons ou maus, heróis ou covardes, nobres ou
vilões. A partir de Dostoievski, fomos nos acostumando à
contradição e à impureza que caracterizam a condição humana: já
sabemos que por trás das mais nobres aparências podem ocultar-se
as paixões mais vis, que o herói e o covarde são muitas vezes a
mesma pessoa, como também o santo e o pecador. Pela primeira
vez, as crianças podem ter maus instintos e sentimentos
perversos. Como está longe Dimitri Karamazov do bandido ou do
herói de um filme do distante Oeste! E como está longe, também,
de Monsieur Teste, essa espécie de autômato cartesiano.
Tomando,
pois, Dostoievski como paradigma, Sabato concebe o romance como
gênero eminentemente metafísico, instrumento de uma investigação
total do ser humano. A matéria dos romances, para o argentino, é
o destino humano, com todos os seus problemas e
mistérios. No seu livro de ensaio mais famoso, El escritor e
sus fantasmas, Sabato distingue cinco fatores que modelaram
a vocação metafísica do romance moderno – isto é, aquele romance
que se constituiu, na leitura sabatiana, no arco que vai de
Dostoievski a Camus. São esses os cinco fatores:
- O
racionalismo, que, ao relegar as forças irracionais e
inconscientes do homem, fê-las explodir no domínio da fantasia;
- O
cristianismo, que, ao romper a harmonia do homem pagão com o
cosmos, criou uma consciência intranquila (veja-se Pascal,
Kierkegaard e tantos outros);
- A
tecnocracia, que, ao coisificar o homem, provocou nele a
necessidade de buscar formas de comunicação autênticas por meio
de obras de ficção;
- A
instabilidade social, que, ao produzir um sistema fluido de
classes sociais, acentua o angustiante sentimento de
transitoriedade no homem;
- A
mecanização da palavra, que, ao substituir o relato oral pelo
livro lido solitariamente, estimulou o surgimento de um espírito
introspectivo, analítico, desconfiado, espírito esse típico da
cultura científica moderna.
O Túnel
é um romance que corrobora a contento a ideia deste gênero como
espaço de debate de uma crise da condição humana em larga
escala, uma crise que não é apenas econômica e social, mas que
abala mesmo os fundamentais estruturais do ser humano, incluindo
aí sua relação com o divino. Umas das fontes deste romance de
Sabato é, sem dúvida, o já citado Memórias do subsolo, de
Dostoievski. Esta obra dostoievskiana fixou, nos quadros da
literatura universal, a imagem do chamado “homem do subsolo”,
este ser sem nome, irritadiço, de humor oscilante, vaidoso de
sua capacidade intelectual, anacoreta aniquilado por um rigor
hipercrítico, consigo e com os outros, que o impede de agir.
No
excelente Crítica e profecia: a filosofia da religião em
Dostoievski (2003), Luiz Felipe Pondé realiza uma leitura de
Memórias do subsolo que se baseia na oposição entre o
“homem do subterrâneo” (Pondé prefere o termo subterrâneo a
subsolo) e o “homem de ação”. Para Pondé, o revoltado sem nome
das Memórias, juntamente com Raskolnikov (de Crime e
castigo) e Ivan Karamazov (Os irmãos Karamazov),
formam a trilogia dos agoniados: “agoniados por conta do
exercício da razão levado ao paroxismo” (Pondé). A raiz dessa
agonia é de natureza religiosa – para Dostoievski, o homem só
pode ser entendido em sua economia com o divino. Daí que Pondé
rechace a leitura da metáfora do “subsolo” como visão precursora
da ideia de inconsciente: não que o escritor russo visse com
maus olhos a psicologia, mas, homem fundamentalmente religioso,
para quem o problema do mal era urgente e grave, o que o
escritor russo fazia, segundo Pondé, era antes “pneumatologia”
(do grego “pneuma”, espírito, sopro divino) do que “psicologia”.
Os agoniados de Dostoievski são revoltados metafísicos,
inconformados com a ambição científica, em sua época, que também
não deixa de ser ainda a nossa, de mapear o homem, reduzir-lhe a
uma cadeia de causas e efeitos. Para Pondé,
o homem
do subterrâneo é aquele que sabe que está perdido no infinito,
que, quando olha para dentro de si mesmo, não encontra nada a
não ser um eterno deslizar de significado sobre significado, mas
que, na realidade não é nada: ele é o que descreve e, ao mesmo
tempo, não é. Subterrâneo implica a ideia de mal infinito,
infinito como tormento. O homem de ação é o homem moderno,
aquele que acredita em si mesmo, que toma como causa primeira
causas segundas do seu comportamento; isto é, confunde causas a
que tem acesso e as interpreta como causa daquilo que ele é,
como causa primeira eficiente, quando se trata, na realidade, de
causas segundas. […] A base do homem de ação é o utilitarismo
inglês.
Segundo
ainda Luiz Felipe Pondé, não é que esse “homem do subterrâneo” –
ou do subsolo, como prefiro chamar – seja antimoderno. Ele sem
dúvida está preso aos instrumentos e modos de refletir modernos,
porém sua ruína demonstra que a compreensão moderna do ser
humano, bem como o típico homem de ação que ela engendrou, não
satisfaz, é falaciosa. Eis o que diz a personagem dostoievskiana:
“[…] Vou vivendo os meus dias em meu canto,
incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada
serve – de que um homem inteligente do século dezenove precisa e
está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem
caráter; e uma pessoa de caráter, de ação, deve ser sobretudo
limitada” (in: Memórias do subsolo, trad. de Boris
Schenaiderman). O homem do subsolo, com orgulho e dignidade,
opta heroicamente por ser um derrotado, um pária jogado nos
subterrâneos da vida, a fim de não se juntar aos que ele
considera os medíocres, isto é, os homens de ação.
III
| Essa meteórica discussão sobre o “homem do subsolo” permitirá,
agora, entender melhor o personagem Juan Pablo Castel,
protagonista de O túnel. Castel, como o protagonista das
Memórias e como Raskolnikov, leva seus raciocínios e
críticas às últimas consequências, descobrindo um túnel que o
separa dos demais. Assim, isolado, ele se encontra sempre acima
ou abaixo da escala humana, dependendo do humor, e pode tanto
falar da humanidade como se dela não fizesse parte como pode
defender como normais posições que repugnam ao grosso da
humanidade. Logo no primeiro capítulo, por exemplo, Castel
defende que os criminosos são mais limpos e inofensivos que os
cidadãos comuns e lamenta-se de estar preso por matar apenas uma
pessoa, quando deveria de matado pelo menos umas seis ou sete.
Castel é
artista, é pintor, mas sua arte, em vez de lhe permitir
comunicar o inefável, o não passível de verbalização, serve
apenas para ele comprovar a mediocridade do gênero humano.
Talvez ele não se considere gênio, e, portanto, não pense que
não lhe entendem por se encontrar à frente de seu tempo. Na
verdade, as pessoas não lhe entendem porque simplesmente, na sua
visão, todos nós vivemos num túnel, translúcido e hermético,
através do qual vemos o próximo, mas não lhe podemos falar e
ouvi-lo. Nem todos, porém, vivem nessa prisão-túnel: fora dele
estão justamente o que em Dostoievski eram os “homens de ação”,
esses seres mergulhados na inautenticidade, no medo e no
cinismo. O túnel é, assim, signo de uma vitória trágica, de uma
vitória na derrota: ele condena, mas afasta o condenado do
rebanho. Dentre os que vivem uma existência inautêntica fora do
túnel, especial asco é destilado aos críticos de arte, que
Castel considera como nada menos que a escória da humanidade. E
por quê? Supostamente porque são pessoas que querem comunicar o
que não entendem, em vez de se calarem. São seres que evitam a
dura verdade da incomunicabilidade se amparado em clichês de
notória ineficácia.
Quanto
María Iribarne Hunter (atente-se ao sobrenome inglês!)
compreende o enigmático quadro de Castel, o racionalismo deste,
com suas teses negativas sobre os homens e a capacidade de
comunicação entre eles, entra em crise. Este fato poderia levar
Castel, não fosse ele um derrotado por escolha, a reconsiderar
suas ideias: afinal, a situação grita que, se não é possível uma
autêntica comunicação com todos, ao menos com uma pessoa, quem
sabe com o ser amado, isso é possível. Mas ele não aceita que o
amor (sua identificação intensa com María) ou a arte (o quadro
que os aproxima, porque só os dois entendem o simbolismo
profundo da cena pintada) possam transcender nossas limitações,
estabelecendo uma ponte segura entre mim e o outro. Esta
possibilidade de transcendência o assusta, o encontro com o
outro lhe parece menos uma espécie de milagre que uma
conspurcação. Daí sua estranha reação: “Existió una persona que
podría entenderme.
Pero fue, precisamente, la persona que maté”
(El túnel, grifos do autor)
Neste
sentido, Castel, como também o inominado homem do subsolo de
Dostoievski, podem ser considerados heróis trágicos incompletos,
se endossarmos a seguinte observação do filósofo Karl Jaspers em
O trágico:
A visão
trágica é um modo pelo qual vemos ancorada metafisicamente a
aflição humana. Sem fundamento metafísico há apenas miséria,
lamento, infelicidade, ruindade e fracasso; o trágico só se
mostra ao saber transcendente.
Castel não
ancora sua aflição em nenhuma instância transcendental: vive
aquém do trágico e aquém, portanto, de uma redenção. Reage
movido pela desconfiança e pelo ressentimento, sabendo que a
razão não o libertará, mas ainda assim se apoiando nela e
levando-a às últimas consequências. É claro que, se Castel
tivesse admitido a comunicação ser um ato possível, isso não lhe
ia garantir que María, essa mulher misteriosa, pudesse
trazer-lhe felicidade – porém, ela já seria a testemunha viva
que de que a incomunicabilidade não é um dado irrevogável,
definitivo.
Se María,
porém, foi a única pessoa que o entendeu, por que Castel a
matou? Se nossa resposta é que foi por ciúme, temos que dar a
este sentimento uma dimensão bem mais ampla do que aquela que
damos em nosso cotidiano (tal como acontece com outro grande
romancista admirado por Sabato, Marcel Proust). O “ciúme” de
Castel não era apenas do corpo de María Iribarne; ela
usurpou-lhe algo mais sutil e profundo. Ela minou uma certeza
metafísica – a radical solidão do homem, e sua incapacidade de
comunicar – que sustentava seu orgulho perante os outros. Que
lhe dava a pedante e, em certo sentido, ingênua condição de
homem mais lúcido que a maioria: o que os outros buscavam – a
utopia da comunicação plena – ela já abdicara. Por trauma, por
infantilidade, certamente por orgulho, Castel não queria sair de
seu túnel, de seu ventre. Nunca é demais insistir: assim como o
homem do subsolo de Dostoievski poderia ter encontrado sua
redenção na prostituta Liza, Castel poderia obter o mesmo com
María (embora, dada a personalidade desta, isso seria mais
difícil). Mas ambos preferem marchar resolutos rumo ao abismo.
As imagens quase ao final de O túnel, de pungente beleza,
revelam a tragédia que é a condição do homem vivente no túnel:
[…] había un solo túnel, oscuro y solitario: el mío, el
túnel en que había transcurrido mi infancia, mi juventud, toda
mi vida. Y en uno de esos trozos transparentes del muro de
piedra yo había visto a esta muchacha y había creído
ingenuamente que venía por otro túnel paralelo al mío, cuando en
realidad pertenecía al ancho mundo, al mundo sin límites de los
que no viven en túneles” (El túnel, grifos do autor).
Castel –
como outros homens e mulheres do subsolo que pululam por aí em
Graciliano, em Camus, em Lispector e em outros mais – construiu
conscientemente sua prisão metafísica, e sua única válvula de
escape consistia no orgulho de não ser um medíocre, de não ter
recuado de seu túnel. O desfecho tinha, assim, de chegar àquela
melancólica constatação: María era só mais um sujeito de ação,
nunca viveu no túnel: tinha de morrer, portanto. A lógica é
implacável com o coração: Castel chora, mas se vê obrigado a
cravar a faca no peito de María: “Entonces, llorando, le clavé
el cuchillo en el pecho” (El Túnel). Viver no túnel ou no
subsolo é, pois, assumir uma luta de antemão perdida, cujo
dilema é reconhecer a falibilidade e a fatuidade das utopias que
construíram o homem moderno, talvez mesmo o homem de todas as
épocas, sem poder transcender a esta condição. A arte ou eros
poderiam ser essa forma de transcendência tão clamada, mesmo que
implicitamente; mas o “homem do túnel” de Sabato, assim como o
“homem do subsolo” de Dostoievski, preferem ser arautos do
fracasso e revelarem, com a dor do próprio corpo, os paradoxos
da razão moderna e a desventura mal disfarçada que é a vida dos
“homens de ação”.
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Wanderson
Lima (Brasil, 1975). Poeta e ensaísta, escreve sobre
cinema e literatura. Edita a revista de
cultura e literatura dEsEnrEdoS (www.desenredos.com.br).
Contato:
wandersontorres@hotmail.com.
Página ilustrada com obras de Luciano Bonuccelli
(Itália), artista convidado desta edição de ARC.
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