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LUIS EUSTÁQUIO SOARES |
O processo
de Franz Kafka e o desprocesso K., o povo

1.1 A
LITERATURA MENOR E O ANTIPROCESSO K.
| O romance O Processo, de Franz Kafka, pode ser
interpretado como exemplar realização ficcional da seguinte
sentença de Walter Benjamin: “Na tradição do oprimido, que é a
que vivemos, o estado de exceção é, na realidade, regra geral”.
Justifico
esse argumento, por ora, através do substantivo que dá título à
narrativa, processo, epicentro de um campo semântico de
exceções que se entrecruzam, em expansão ilimitada, constituindo
a narrativa como máquina de processos de significações
burocráticas, familiares, econômicas, sociais, subjetivas, como
se fora um mosaico estilhaçado de uma incompreensível regra
geral, posto que formado por exceções através de exceções, na
figuração de seus personagens, de seu enredo, de suas
peripécias, de tal sorte que tudo parece se impor como
soberano-transcendental toque de recolher generalizado, contra e
para alteridades.
Defendo,
por outro lado, que, tendo em vista as duas premissas da
sentença benjaminiana (a tradição do oprimido, a primeira; e o
estado de exceção como regra geral, a segunda), O Processo
se constitui estruturalmente como dois romances num só: um que
se inscreve como máquina de produção de sentidos de exceção,
como regra geral, que constitui o processo expiatório montado
para manter a tradição do oprimido; e, um segundo, que é o
desprocesso da regra geral da tradição do oprimido.
Por sua
vez, para que os dois romances se expressem ao mesmo tempo – o
processo contra K. e o desprocesso K. – existem,
sub-repticiamente, na narrativa, dois advogados do diabo: um
primeiro que veste a roupagem do estado de exceção, constituindo
a trama de O Processo, tal como se deixa a ler, como um
romance em que o estado de exceção é regra geral porque geral é
a trama que narra o processo constituído contra o personagem K.;
e um segundo que desfaz o primeiro ao narrar o absurdo mundo de
estado de exceção, que é o que vivemos, o da tradição do
oprimido.
Entretanto, como, no romance, os signos se intercambiam o tempo
todo, um advogado pode ser o outro, como uma legião, pois é
apresentando o estado de exceção como regra geral (e aqui não é
possível saber quem faz essa apresentação, se o advogado do
diabo do processo contra K, se o outro do desprocesso K.; se o
narrador onisciente ou se o protagonista K.) que o estado de
exceção é flagrado, através de um intrincado jogo de
estranhamento, como restrito, particular, de sorte que sua regra
geral constitui uma impostura despótica; uma estratégia para
generalizar o estado de exceção; estratégia que é descosturada
na medida mesma em que é tecida, posto que, ao ser escrita, logo
costurada, a narrativa de processo contra K. é destecida, como
um desprocesso K.
1.2 A
POÉTICA DE FRANZ KAFKA: O HEXAGRAMA DE APORIAS K., O POVO
| A fim de começar a analisar o romance em questão, como
processo e/ou desprocesso judicial-ficcional contra K., o povo,
primeiramente farei uso de um subterfúgio, que é o de apresentar
o conceito de literatura menor, de Gilles Deleuze e Félix
Guattari, o que, embora pudesse indiciar uma fuga do tema,
constituir-se-á estrategicamente em uma maneira de abordá-lo ao
revés, seja porque tal conceito detém a potência de inscrever o
estado de exceção como regra restrita; seja porque a definição
das três características intrínsecas de uma literatura menor
constitui um esboço teórico-tático de superação do estado de
exceção como regra geral; e seja porque, enfim (eis o
subterfúgio) o conceito de literatura menor foi desenvolvido
tendo como referência a literatura de Franz Kafka, razão pela
qual, de uma forma ou de outra, o romance O Processo
continuará, por vias que desviam, sendo o foco da análise.
Dito isto,
apresento de imediato o seguinte fragmento de Kafka, para uma
literatura menor, de Deleuze e Guattari:
As três
características de uma literatura menor são a
desterritorialização da língua, a ligação do individual com o
imediato político, o agenciamento coletivo de enunciação. O
mesmo será dizer que menor já não qualifica certas literaturas,
mas as condições revolucionárias de qualquer literatura no seio
daquela a que se chama grande (ou estabelecida). Até aquele que
por desgraça nascer no país de uma grande literatura tem de
escrever na sua língua, como um judeu checo escreve em alemão,
ou como Usbeque escreve em russo. Escrever como um cão que faz
um buraco, um rato que faz a toca. E, por isso, encontrar o seu
próprio ponto de subdesenvolvimento, o seu patoá, o seu próprio
terceiro mundo, o seu próprio deserto.
Em diálogo
com o fragmento acima, uma literatura menor é aquela que
desterritorializa uma grande língua literária (mas não apenas),
que pode ser a grande língua literária alemã, para um escritor
não alemão, para um judeu checo como Kafka; que pode ser a
grande língua da literatura portuguesa, para um autor mestiço
brasileiro do século XIX, como Machado de Assis; que pode ser um
autor qualquer, que escreve na sua própria língua, na sua
materna língua, mas que “escreve como um cão que faz um buraco,
um rato que faz a toca”, posto que não se adapta às formações
despóticas da gramaticalidade literária de prestígio, num dado
campo de forças estéticos, cujo polo padrão se constitui através
do assujeitamento de uma multidão de variáveis literárias
outras, de epistemologias outras, produzindo hierárquicas
divisões dicotômicas do tipo certo e errado, valor e não valor,
legítimo e ilegítimo, verdadeiro e falso, centro e periferia.
Por outro
lado, assim como não é suficiente ser rebelde para adquirir uma
potência política que transborde o centro narcísico de um MAIOR
eu linguístico, literário, econômico, não basta
desterritorializar uma qualquer grande língua literária para
inscrever-se como literatura menor, motivo pelo qual a
menoridade positivamente deve incorporar o movimento
revolucionário, e paradoxal, de uma autonomia heterônima, de vez
que é ao mesmo tempo de outrem, para outrem, com outrem; de
menoridade para menoridade, na medida mesmo em que assina
autonomamente seu próprio nome.
Assim,
menor:
É a
literatura que se encontra carregada desse papel e dessa função
de enunciação coletiva e mesmo revolucionária: é a literatura
que possui uma solidariedade ativa apesar do ceticismo; e se o
escritor está à margem ou à distância de sua frágil comunidade,
a situação coloca-o mais à medida de exprimir uma outra
comunidade potencial, de forjar os meios de uma outra
consciência e de outra sensibilidade. (…) A máquina literária
reveza uma máquina revolucionária por vir, não por razões
ideológicas, mas porque está determinada a preencher as
condições de uma enunciação coletiva que falta algures nesse
meio: a literatura é assunto do povo. É exatamente nesses termos
que o problema se coloca para Kafka.
Uma
literatura menor, portanto, é assunto de povo, legião de
menoridades, pois incorpora sua algaravia polifônica, a do povo,
momento em que se alcança simultaneamente o segundo e o terceiro
traços de uma literatura menor, a saber: 2) o imediato político,
o caso individual; 3) e o agenciamento coletivo de enunciação.
Menor, por
isso mesmo, é a literatura que não pode deixar de ser e de
fazer-se politicamente, e assim é porque sempre transforma o
caso político individual em agenciamento coletivo de enunciação,
em caso coletivo, tal que a questão étnica, (considerando, por
exemplo, um romance marcado pela potência da singularidade
negra) será tanto mais etnicamente negra quanto mais não for
apenas exclusiva à comunidade negra, posto que se torna
igualmente indígena, mestiça, amarela, potenciando inclusive a
menoridade adstrita ao branco pobre, perfilando, nesse sentido,
a comum dimensão órfã, de qualquer um, como marca de Caim do
devir povo vincando o rosto vulnerável, nu, de ser outro, como
outro de outro, como povo de povo, e não como outro de si.
E para não
se constituir como outro de si, como um povo que é informe força
gregária, logo a expressão da regra geral do estado de exceção,
que é o que o povo tem sido, na tradição do oprimido, é
indispensável que a questão de povo, assim, seja uma questão
política, uma coletividade que não é regra geral, que não é ela
mesma um estado de exceção, de vez que não se inscreve como
gregarismo, como sujeito, pois, ainda com Deleuze e Guattari:
Não há
sujeitos, só há agenciamentos coletivos de enunciação – e a
literatura exprime esses agenciamentos, nas condições em que não
são considerados exteriormente, e onde eles existem apenas como
forças diabólicas por vir ou como forças revolucionárias por
construir.
Dizer,
assim, que a literatura, como questão de povo, faz-se como
“forças diabólicas por vir ou forças revolucionárias por
construir”, relaciona-se, penso, com o argumento de uma
revolução permanente, sem origem e fim, o próprio processo como
desprocesso K., povo sem povo que a si mesmo se revoluciona, sem
cessar, como agenciamento coletivo de enunciação, uma literatura
menor, logo como um não-sujeito, nem individual nem coletivo; um
não-sujeito que se faz o tempo todo como futuro diabólico e
revolucionário; um futuro de criação e autocriação permanentes,
por mais impossível que pareça, de vez que se constitui pela não
necessidade de tradição, sem regra específica ou geral, sem
estado de exceção restrito ou geral; sem exceção; uma
autoinvenção, portanto, sem opressor nem oprimido.
E aqui, na
suposição de que nos afastamos da narrativa de Franz Kafka,
novamente chegamos ao processo de significação de O Processo.
Trata-se de uma narrativa (como de resto o conjunto da
literatura de Kafka) que detém simultaneamente os três traços de
uma literatura menor, a desterritorialização de uma grande
língua, o alemão, para um judeu checo; a individualidade de um
caso, o processo contra o protagonista K., que se torna um
processo – ou um desprocesso, conforme se verá – contra qualquer
um, adquirindo, assim, a potência de um agenciamento coletivo de
enunciação, de vez que constitui um processo geral, contra e/ou
a favor do devir povo.
E a
literatura menor, em O Processo, evidencia-se já na
primeira sentença da narrativa: “Alguém certamente havia
caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito
mal nenhum”, frase marcada por uma sutil aporia, a de nos
apresentar um personagem inocente, Josef K, por não ter feito
mal a ninguém; e ao mesmo tempo detido, culpado, processado por
inscrever-se no coração da aporia, definida, por Aristóteles,
como “uma igualdade de conclusões contraditórias”, tal que o
oposto é seu igual.
O processo
aberto contra Josef K., o próprio romance, constitui-se tal como
a definição aristotélica de aporia, (uma igualdade de conclusões
contraditórias), pois se produz e reproduz, literariamente, no
jogo sem fim dos contrários reversíveis, metamórficos, o de ser
inocente e de ser culpado, como uma palavra única, povo, posto
que K é tanto mais inocente quanto mais culpado e de igual forma
é também tanto mais culpado quanto mais inocente, tal que,
diante desse círculo virtuoso, mais que vicioso, a questão
política emerge como agenciamento coletivo de enunciação: todos,
o povo, são inocentes, porque todos, o povo, são igualmente
culpados.
Dessa
forma, é possível interpretar que o romance O Processo
constitui-se, não sem ambiguidade, como a ficção de um
processo jurídico-burocrático alimentado pela aporia
culpado/inocente, o povo, de tal sorte que o pronome indefinido
“alguém”, sujeito da sentença, “Alguém havia caluniado Josef
K…”, define-se, e vale o paradoxo, como coextensivo ao próprio
romance, como narrativa ficcional de um tribunal de exceção em
que não apenas K é processado, mas K como a marca da literatura
menor, como uma polifônica questão de povo, uma vez que:
A letra
k já não designa um narrador nem uma personagem, mas um
agenciamento muito mais maquínico, um agente muito mais coletivo
porque um indivíduo se lhe encontra ligado na sua solidão (só em
relação a um sujeito é que o individual estaria separado do
coletivo e cuidaria dos seus próprios interesses).
Por outro
lado, a polifônica questão de povo, inscrita na dimensão
político-coletiva da literatura menor, pode perder sua força de
agenciamento coletivo de enunciação, quando,com Deleuze e
Guattari, o sujeito, no sentido egocêntrico, toma para si, e
apenas para si, a questão individual, não permitindo que esta a
si mesma se processe como coletividade revolucionária e
diabólica (porque de alteridades, sem nome próprio), situação
que nos remete, de imediato, à problemática da apropriação
judaico-hermenêutica da literatura e da biografia de Kafka, como
uma questão, no que diz respeito à letra K., não de povo, mas de
um povo escolhido, com nome próprio; um povo cujo sofrimento a
si mesmo se escreve como único, incomparável, transcendental.
É de se
esperar que essa possibilidade receptiva, de destacar o lado
judeu de Franz Kafka, e constituir uma hermenêutica
hebraico-religiosa de sua produção literária, era, até certo
ponto, previsível, tendo em vista o fim do êxodo milenar do povo
judeu, após a Segunda Guerra Mundial, com a definição da
Palestina como o lugar geopolítico, para não dizer
geoestratégico, escolhido para abrigar a nação judia; abrigo que
implicou um esforço enorme para conter, numa fronteira espacial,
uma multiplicidade de personalidades científicas, culturais,
políticas e religiosas judias – e o conjunto de suas realizações
–, com o objetivo de compor um mitológico mosaico estilhaçado de
uma identidade espalhada pelo planeta.
A
literatura de Franz Kafka – e ele mesmo, biograficamente falando
– foi, pelas razões expostas, incorporada ao caudal
cultural-literário da produção, em processo, da identidade
imaginária da nação judia, o que é possível ser evidenciado, por
exemplo, na biografia feita por seu amigo íntimo, Max Brod, que
conviveu com Kafka em seus últimos anos de vida, no período que
tentava se curar da tuberculose, em consequência da qual o autor
de O Castelo morreu em 3 de junho de 1924.
A
propósito, num capítulo intitulado, não por acaso, Evolução
Religiosa, analisando a gênese de K., o personagem comum de
O Processo e O Castelo, Max Brod diz do
protagonista K., tendo em vista a trama deste último, O
Castelo:
Na
longa história dos sofrimentos dos judeus já se ouviu tudo isso.
K. falha de maneira lastimosa e ridícula, embora tivesse
empreendido tudo com tanta seriedade e consciência. Sobre todas
as situações penosas que perpassam neste romance, sobre todas as
imerecidas desgraças, paira esta divisa: “Isto assim não pode
continuar.” Uma maneira nova, muito diferente, de enraizamento
tem de ser procurada.
Se, tendo
em vista o conceito de literatura menor, para alcançar o
agenciamento coletivo de enunciação, a questão individual deve
adquirir a potência de ser e de fazer-se coletivamente, como uma
questão comum ao conjunto das alteridades de classe, de gênero,
étnica, cultural, geográfica, de povos, restringir
hermeneuticamente a literatura de Kafka à questão judia
constitui uma nítida forma de apropriação
sionista-ideológica-religiosa da potência povo inscrita na letra
K., o protagonista de O Processo e de O Castelo;
uma forma de confiná-la num estado de exceção identitário,
transformando-a em uma questão político-narcísica, porque evita
e recusa tornar-se uma questão comum ao conjunto dos povos,
nessa larga história da tradição de oprimidos, que é a que
vivemos, palestinos, judeus, os povos todos.
Isto não
significa, evidentemente, que a literatura de Kafka não toque na
questão do largo exílio e do singular sofrimento dos judeus. Não
é essa a questão, se é judia ou não judia, mas a potência comum,
como agenciamento coletivo de enunciação, inscrita no sofrimento
por que passou o povo judeu, como índice geral do sofrimento de
todos os povos do planeta; e não como um sofrimento excessivo,
de exceção, de um único povo, religiosamente escolhido, razão
pela qual “a longa história do sofrimento dos judeus” constitui
a história de todos os povos, na longa tradição de oprimidos,
como regra geral.
Especificamente em relação ao romance O Castelo, o fato
de que K. não tenha conseguido abrigo, ou sido aceito, nem pelos
camponeses, nem tampouco pelos integrantes do castelo – versão
kafkiana, de nossa casa grande/senzala – não significa que K.
tenha falhado, como afirma o fragmento da biografia de Max Brod,
mas que, diversamente, na tradição do oprimido, ocupar qualquer
polo da aporia, a do inocente ou do culpado, a do opressor ou do
oprimido, como se fora um lugar de identidade, constitui uma
forma de naturalizar tal tradição, processando sem cessar a sua
exceção como regra geral.
Não
é possível compartilhar, desse modo, com a seguinte leitura
sionista-religiosa de Max Brod, de Colônia
Penitenciária:
Desde o
livro bíblico de Job nada foi tão furiosamente discutido com
Deus como N’O
Processo e n’O Castelo ou na Colônia Penitenciária
de Kafka, onde a justiça é representada pela imagem de uma
máquina inventada com crueldade sutil, desumana, quase diabólica
e por um caprichoso adorador desta máquina. De modo muito
similar, Deus no livro de Job faz ao homem o que parece absurdo
e injusto. Mas só ao homem se depara deste modo, e o último
resultado, tanto em Job como em Kafka, é estabelecer que a
medida com a qual se mede não seja aquela com que se mede no
mundo absoluto. Isto é agnosticismo? Não, porque persiste o
sentimento fundamental que, de modo misterioso, apesar de tudo,
o homem está ligado ao reino transcendente de Deus.
Nos três
romances, O Processo, O Castelo e Colônia
Penitenciária, de Franz Kafka, sob o ponto de vista de uma
literatura menor, a interpretação religiosa de um Deus típico do
Antigo Testamento, tecido e entretecido por desígnios
misteriosos, agnosticamente incompreensíveis ao olhar finito,
mortal, humano, não é pertinente, visto que a representação da
justiça como uma máquina de crueldade, no caso de Colônia
Penitenciária, não se distingue do indefinido “alguém”, como
inscrição do tribunal, para O Processo, assim como o
inacessível castelo, para o caso do romance homônimo, tão
inacessível que o K. deste romance, O Castelo, assim como
os demais personagens, não chegam nunca a entrar, concretamente
no castelo, que apenas é descrito à distância e aparece como um
Deus despótico, uma espécie de centro irradiador, nas alturas,
de seu próprio comando abstrato imperial.
Nos três
romances, a transcendência não é divina ou platônica, como quer
Max Brod. Não se trata, assim, de poder – ou correr o risco –
ser identificada com o agnosticismo, a literatura de Kafka. Se o
agnosticismo está relacionado com a incapacidade de o homem
colocar-se a questão da existência ou não de Deus, por ser, o
homem, finito e imanente, e Deus transcendental e infinito, a
literatura de Kafka nada tem a ver com o agnosticismo, porque
nela o transcendente se inscreve no plano de imanência, sendo
este último o lugar do indefinido “alguém” a caluniar K., o
povo.
A relação
entre transcendência e plano imanente, desse modo, constitui uma
aporia onipresente, na literatura de Kafka, uma igualdade de
conclusões contraditórias, assim como a relação
culpado/inocente, razão pela qual o processo de produção de
sentidos, em sua narrativa de ficção, é de permuta, e não de
oposição; permuta entre transcendência e imanência, tal que esta
é tanto mais imanente quanto mais transcendente for, e, por
outro lado, aquela é tanto mais transcendente quanto mais
imanente for.
Não
existe, portanto, maniqueísmo, na literatura de Kafka, mas um
indefinido “alguém” e um indefinido “povo”, e ambos se
apresentam como legião, por não terem um lugar próprio, como
referência de identificação, mas impróprio, razão pela qual,
tendo em vista o romance O Processo – mas não apenas –,
como uma narrativa de literatura menor, sua questão política se
inscreve num agenciamento coletivo de sêxtupla enunciação, que
tanto podem ser interpretadas sob o signo da relação “alguém” e
povo, quanto sob a perspectiva da transcendência e imanência, de
divino e humano.
São elas,
as seis aporias do agenciamento coletivo de enunciação, K., o
povo e/ou a imanência; e o indefinido “alguém”, ou a
transcendência, a saber: 1) Não apenas Josef K. é inocente,
todos, o povo, o somos; 2) Não apenas Josef K. é culpado, todos,
o povo, o somos; 3) Não apenas Josef K. é caluniado por um
indefinido “alguém”, todos, o povo, o somos; 4) O pronome
indefinido “alguém” constitui uma enunciação geral que é
contrária e igual à enunciação geral inscrita no devir povo da
letra literária K.; 5) O personagem K. é igualmente uma
enunciação geral de desprocesso, de e no devir povo, o qual, ao
se desprocessar, no desenrolar da narrativa, igualmente
desprocessa os processos de exceção de um indefinido caluniador
“alguém”; 6) O povo mesmo é o sujeito e o objeto das aporias.,
ao mesmo tempo em que não é nem sujeito e nem objeto, pois é o
único que, não sendo mais povo, de tanto ser e não ser, pode
ultrapassar a aporia, através da imanência povo ou do povo
imanente, sem transcendência alguma.
Assim,
tendo em vista o conjunto da literatura de Kafka, e não apenas
mais O Processo e O Castelo, romances que
apresentam o personagem K. como protagonista de suas respectivas
tramas, logo considerando igualmente A Colônia Penitenciária,
América, A Metamorfose, os contos de A muralha
da China, e assim por diante, arrisco uma hipótese a que
chamarei de a poética de Franz Kafka, que é tecida e entretecida
como um hexagrama e tem a transcendência e a imanência como
eixos ou máquina aporética de base.
Tal
poética de hexagrama aporético assim pode ser descrita: 1) Não
apenas uma imanência qualquer é inocente, mas todas; 2) Não
apenas uma imanência qualquer é culpada, todas são; 3) Não
apenas uma imanência qualquer é caluniada por uma indefinida
transcendência, mas todas são; 4) Qualquer forma de
transcendência constitui uma enunciação geral que é contrária e
igual à enunciação geral inscrita em qualquer imanência; 5)
Qualquer imanência é igualmente uma enunciação geral que é
contrária e igual a qualquer transcendência, sendo que a
alteridade da literatura de Kafka é a de constituir-se como uma
máquina de desprocessar transcendências, ao apresentá-las
imanentemente como agenciamentos coletivos de enunciação; uma
literatura menor em relação às grandes/grades/graves línguas
divinas; 6) Existe um K., o povo, maquinando as aporias da e na
literatura de Kafka; povo que é mais povo que nunca, no sentido
negativo de povo processado por transcendências – cada época
história tem as suas – à medida mesmo em que é assombrado por
sombras de transcendências; e que, por outro lado, deixa de ser
povo apanhado por transcendências, quando seu devir é
revolucionária e ilimitada imanência.
1.3
TITORELLI E A PINTURA DO TRIBUNAL COMO REGRA GERAL
| A propósito, ainda, da aporia culpado/inocente, uma passagem,
digamos, kafkiana de O Processo, constitui o momento, no
capítulo VII, O advogado, o industrial e o pintor, em que
este último faz a pergunta esfíngica a K.
Ei-la:
– O
senhor é inocente? – perguntou.
– Sim –
disse K.
A
resposta a essa pergunta causou-lhe real alegria, principalmente
porque ela ocorria diante de um particular, ou seja, sem
qualquer responsabilidade. Ninguém ainda o tinha indagado tão
abertamente. Para saborear essa alegria ainda acrescentou:
– Sou
completamente inocente.
– Ah,
bom – disse o pintor e baixou a cabeça como se pensasse. De
repente, levantou de novo a cabeça e disse: – Se o senhor é
inocente, então o caso é muito simples.
O olhar
de K. se turvou, aquele suposto homem de confiança do tribunal
falava como uma criança insciente.
A passagem
acima evidencia o que poderíamos chamar de princípio de
suspeição. O processo implica isto: todos são suspeitos até que
se prove o contrário. Como a aporia culpado/inocente
inviabiliza, só por existir, o veredicto absoluto da inocência
(e/ou o da culpa), estamos todos em estado de suspeição, o que
significa dizer que somos todos, de antemão, culpados, de modo
que o princípio jurídico da presunção de inocência, de fato, não
vale para o caluniado K., o povo.
Este é o
motivo pelo qual a pergunta feita pelo pintor Titorelli
confronta K. com o espelho da suspeição. Primeiramente ele, K.,
diz que é inocente. Em seguida diz, com alegria, que é
completamente inocente. Como negar a culpa é a mais evidente
forma de afirmá-la, pois constitui um meio de deixar-se levar
pela trama de outrem, daquele que compartilha com o princípio de
suspeição, K., o povo, é culpado, embora possa se valer do jogo
aporético, o de que o povo é culpado e inocente ao mesmo tempo,
para acreditar não ser culpado, ainda que de fato não o seja, de
tal sorte que a aporia culpado/inocente não passa de uma forma
estratégica, tanto sob o ponto de vista de quem culpa, o
“alguém”, tanto sob a perspectiva de quem está sendo culpado,
K., o povo; uma forma estratégica, bem entendida, de dilatar a
culpa e a inocência, fazendo valer a permanência do princípio de
suspeição.
No
parágrafo seguinte, por sua vez, diante da constatação do pintor
de que, sendo inocente, tudo fica mais fácil, o narrador não
deixa de observar a surpresa de K., porque não esperava que
alguém, por ser da confiança do tribunal, pudesse ser tão
insciente, pois, para o tribunal, é possível deduzir que no
mínimo somos suspeitos. Logo não existe o mais fácil, com a
simples constatação de que somos inocentes.
De
qualquer forma, torna-se relevante analisar o motivo pelo qual o
pintor, logo um artista, é tão insciente, mesmo e além de ser de
confiança do tribunal. Evidentemente, Titorrelli não é um
herdeiro dos pintores e dos poetas, aos quais Platão expulsou da
cidade, em conhecida passagem do livro A República, na
qual os acusava, o pintor e o poeta, de serem perigosos por
produzirem, com suas artes, simulacros, cópias de cópias, que
nada mais são que artifícios produzidos no mundo, materialmente,
concretamente, o que poderia pôr em xeque o mundo sem mundos,
este que constitui o mundo arquetípico, idealizado por Platão.
Titorelli
é o pintor de juízes e funcionários do tribunal e, sendo da
confiança deste último, é, poderíamos dizer, um pintor
platônico, arquetípico, razão pela qual, ao invés de simulacros,
produz as imagens ideais para o tribunal, como a Deusa da
Justiça e a da Vitória, pintadas ao mesmo tempo, por ele,
formando uma figura híbrida, a justiça da vitória ou a vitória
da justiça? Certamente mais uma aporia, dentre outras, cunhada a
pedido do tribunal, ou de sua rede sem fim de funcionários
aporéticos.
A certa
altura, diz K, relativamente a esse quadro de Titorelli, da
Deusa da Justiça e da Vitória combinadas:
– Agora
já a reconheço – disse K. – Aqui está a venda nos olhos e aqui a
balança. Mas com asas nos calcanhares e em plena corrida?
– Sim –
disse o pintor –, tive de pintar assim por encomenda; na verdade
é a Justiça e a deusa da Vitória ao mesmo tempo.
– Não é
uma boa vinculação – disse K. sorrindo. – A justiça precisa
estar em repouso, senão a balança oscila e não é possível um
veredito justo.
– Eu me
submeto ao meu cliente – disse o pintor.
Sem
desconsiderar a possibilidade de interpretar a passagem acima,
tendo em vista antes de tudo a última fala de Titorelli, “Eu me
submeto ao meu cliente”, como uma evidente crítica à submissão
da arte aos ditames do mercado, leitura que constitui um
restrito senso comum, o conjunto do fragmento diz muito sobre o
lugar insciente de Titorelli, logo da arte, no mundo.
Titorelli
é insciente porque este é o lugar social atribuído à arte, ser
insciente, como se fosse possível distanciar-se da aporia
culpado/inocente, em nome da constituição de uma autonomia, a da
obra da arte, com sua imanência autorreflexiva a falar de si
mesma; como se fosse possível driblar e igualmente distanciar-se
da suspeição que nos toca a todos, como questão política, como
agenciamento coletivo de enunciação.
Sua arte,
assim, não se submete apenas ao mercado, mas ao indefinido
pronome “alguém”, o tribunal, como instância suprassensível,
platônica, transcendental. É, pois, uma arte a serviço da
soberania, essa entidade abstrata, tanto mais presente quanto
mais ausente, valendo também um vice-versa aporético tal que é
ausente quanto mais presente.
Pintar o
indefinido “alguém”, o tribunal, corresponde, no meu
entendimento, ao que Luiz Costa Lima, em Limites da
Voz, Kafka (1993) diz sobre a literatura deste
último, e especialmente sobre O Processo, que a arte de
Kafka faz desaparecer as territorialidades estáveis, tal que
tudo que parecia estável se torna caótico.
A
propósito, apresento o mencionado fragmento em que Luiz Costa
Lima se posiciona a respeito:
O
desaparecimento em Kafka de territorialidades estáveis torna o
que parecia firme parte de um jogo caótico, cujas regras ou
inexistem ou se desconhecem. É como se, lançando-se mão de uma
categoria ainda não formulada nos anos de Kafka, os jogos de
linguagem, a que Wittegenstein se referiria nas
Investigações, houvessem de repente se desregulado e que, a
partir de certa manhã, cumprissem trajetos que ainda na véspera
não eram tolerados. Mas não esqueçamos que essa desregulagem
vigora apenas para o Quixote peculiar que é Joseph K.
Por mais,
nesse sentido, que a arte de Titorelli pareça ilustrativa,
fundada na cópia, por pintar rostos de juízes e ícones clássicos
da mitologia, como a Deusa da Vitória e da Justiça combinadas,
com Costa Lima compartilho o argumento de que essas
territorialidades estáveis, marcadas platonicamente pela
cópia de idealidades, deixaram de ser, tendo se tornado cópias
de cópias, vale dizer, simulacros abstratos de um tribunal que
se espalha por todos os lados, destituindo inclusive o lugar da
verdade e da ficção, razão pela qual o mesmo Costa Lima em
seguida aponte, relativamente à literatura de Kafka, à
insubstancialidade da Lei, para concluir que o fato de que
vivemos numa civilização de imagens constitui uma evidência de
que a própria arte se espalhou, deixando, portanto, de ocupar um
ponto no frágil equilíbrio da República platônica, como
coparticipante do verdadeiro filósofo, logo como produtora de
cópias, visto que o simulacro, em Platão, constitui o lugar
tanto do falso pretendente à verdadeira filosofia quanto
da verdadeira arte.
O estatuto
da ficcionalidade de nossa contemporânea civilização icônica, a
que Guy Debord chamou, em livro homônimo, de sociedade do
espetáculo, deixou de inscrever cópias de idealidade e
transcendências, como no tempo da hierarquia entre arte erudita
e popular, para produzir a totalidade social de simulacros de
democracia de ficcionalidades, tal que, no interior da cultura
de massa, somos todos socialistas da ficcionalidade,
independente de nossa posição a priori de classe, pois,
com alguma variação de gênero, a estilização da vida, sob o
signo da plasticidade igualmente totalitária dos direitos civis
– posto que passa a ocupar o lugar dos direitos econômicos e
sociais –, nos envolve a todos, em tempo real, no espetáculo
generalizado, a respeito do qual Guy Debord diz:
O
espetáculo é o discurso que a ordem atual faz a respeito de si
mesma, seu monólogo laudatório. É o autorretrato do poder na
época de sua gestão totalitária das condições de existência. A
aparência fetichista de pura objetividade nas relações
espetaculares esconde o seu caráter de relação entre homens e
entre classes: parece que uma segunda natureza domina, com leis
fatais, o meio em que vivemos. Mas o espetáculo não é o produto
necessário do desenvolvimento técnico, visto como
desenvolvimento natural. Ao contrário, a sociedade do espetáculo
é a forma que escolhe seu próprio conteúdo técnico.
Vê-se,
assim, que o argumento de Costa Lima de que Kafka inscreve, em
sua literatura, a insubstancialidade da Lei, é procedente. O
Processo, sob esse ponto de vista, é a ficção da
insubstancialidade da Lei, logo de um tribunal que não tem
lugar, que é regra geral. Nesse sentido, Tittoreli, é possível
interpretar, é insciente porque a insubstancialidade da Lei deve
ser igualmente insciente, no duplo sentido de ser inconsciente e
ao mesmo tempo a positividade ingênua de uma segunda natureza,
nos termos de Debord, por se apresentar como fatalidade, como
inevitabilidade, uma vez a insubstancialidade da Lei deve ser
produzida a partir de uma aparência fetichista de pura
objetividade nas relações espetaculares (DEBORD, 1997,
p.20), motivo pelo qual, embora em outro contexto, Luiz Costa
Lima diz:
Mas
essa onipresença da ficção-sem-qualificativos não significa que
o ficcional deixou de ser controlado. Foi a hipótese do controle
do imaginário, tal como incidindo sobre seu produto por
excelência, a obra ficcional, que de início nos atraíra para o
estudo de Kafka. No curso deste percebemos sua ligação com a
problemática kantiana. Ao analisá-la, verificamos não só a
possibilidade de historicizar a questão de Kafka, relacionando-a
com os Frühromantiker, como, ademais, no interior da Terceira
crítica, de levantar a presença de uma ambiguidade de que até
então não suspeitávamos, a ambiguidade entre estetização e
criticidade. A estetização notada e seu desenvolvimento servirão
de respaldo para o contemporâneo culto da imagem. Assim pois, de
maneira ainda mais surpreendente, Kant e Kafka se encontram: se
o filósofo inicia a trilha sobre a qual se constituirá a
estetização, pela qual se legitima o culto da imagem, o escritor
abre a possibilidade de retornar-se a criticidade, exaltada por
Kant, que, no caso da literatura, foi cedo sufocada.
Em A
crítica da razão pura, Kant apresenta duas formas de
conhecimento, o empírico, a posteriori; e o puro, ou a
priori. O primeiro deduz-se dos dados fornecidos pela
experiência imediata (por exemplo, “uma mulher atravessa a
rua”); o segundo, por sua vez, não depende de qualquer
experiência sensível e, para Kant, é universal.
Diferentemente do primeiro, o conhecimento empírico, que diz
respeito a uma experiência particular, apreendida a
posteriori, porque fundada na apreensão de acontecimentos
vividos; o segundo é a priori, como no exemplo de que “a
menor distância entre dois pontos é a linha reta”, porque não
depende de vivências ou acontecimentos para ser aceito, razão
pela qual, em tese, vale para todos os viventes; é universal.
Ao propor,
entretanto, um conhecimento a priori, universalmente
oposto às experiências do cotidiano, Kant delineou um campo de
transcendência de abstratas e matemáticas propriedades; campo
que precede e constitui a base argumentativa para a relação
sintética entre estética e criticidade, desenvolvida em
Crítica da Faculdade de Julgar, gancho teórico para Costa
Lima relacionar Kafka a Kant, sob o argumento de que aquele, ao
produzir uma literatura em que a estética e a crítica são
convergentes, dialoga com este e, por consequência, com os
primeiros românticos.
Considero,
por sua vez, no que diz respeito a essa relação entre estética e
criticidade, que Costa Lima realizou uma sutil performance
retórica, pois Kant, tendo o princípio do conhecimento puro como
referência fundante, produziu um pensamento de base científica,
mas eurocêntrico e inscrito no campo das ciência naturais, no
qual e através do qual o mundo sensível é instrumentalizado e
submetido, sob o signo do esclarecimento, tal como definido por
Adorno e Horkeheimer:
No
sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento
tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e
de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente
esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal.
O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua
meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo
saber.
O
argumento de um conhecimento puro e a priori, de Kant,
tal como a axiomática de Aristóteles, igualmente fundada na
crença de um conhecimento anterior a qualquer demonstração, está
investido de posição senhorial, de modo que, o que nele se
constitui como experiência, nada tem a ver com a experiência
comum, dos viventes, posto que constitui simplesmente uma
experimentação ou um dar-se à prova a partir de uma percepção
senhorial em que a técnica se sobrepõe e manipula o objeto, como
a um corpo a dissecar.
Sob esse
ponto de vista, a relação entre estética e criticidade só faz
sentido, em Kant, tendo em vista a primazia do conhecimento
puro, marca abstrata de um tribunal de transcendências
transcendentes, paroxismo que assim designo porque se trata de
uma transcendência inspirada num evidente preconceito
epistemológico, por ter a matemática e a física como saberes
hierarquicamente inspiradores, desconsiderando uma infinidade de
outros saberes e outras epistemologias, não eurocêntricas,
marcadas por uma profusão de possibilidades, fora da matemática
e da física e mesmo fora do imperialismo epistemológico que tem
colonizado e adestrado os saberes no sistema-mundo moderno.
Essa
digressão foi necessária porque Kafka realizou o inverso da
proposta de Kant: sua literatura parte do campo de imanência,
cuja base é uma complexa infraestrutura que tem uma constelação
de particulares como aglomerado ficcional, razão pela qual o
conhecimento a posteriori, empírico, é constituinte de
sua narrativa de ficção, como premissa da insubstancialidade da
Lei, que assim o é, assim como a literatura de Kafka, porque
nela não existe o a priori universal.
É, assim,
nesse plano do mundo do aqui e agora imanentes que Kafka
realiza, em sua literatura, essa outra aporia, a da relação
entre estética e criticidade, motivo pelo qual julgo mais
procedente aproximar Kafka de Marx, este pensador da máquina
imanente do capitalismo, cuja criticidade teórica procura
mostrar como isto que parece uma Verdade transcendente, e
profundamente estetizada, o capitalismo, inscreve-se no plano da
imanência das relações de produção e, portanto, das relações de
poder.
Talvez não
seja circunstancial que Costa Lima tenha afirmado que apenas o
Quixote Josef K. seja o tributário, como personagem de O
Processo, da desregulagem de territorialidades estáveis.
Nada mais equivocado, porque, como literatura de a posteriori,
de constelação de particulares universais, todo o romance O
Processo, na verdade, tem a lei como insubstancial,
desancorada de qualquer regulagem territorial, de qualquer
metafísica da Verdade.
A questão
aqui, nesse sentido, é de foco: Costa Lima acerta em pensar a
literatura de Kafka como insubstancial, tecida e entretecida por
desregulagens territoriais, mas erra ao inscrevê-la como uma
espécie de terceira via do primeiro romantismo alemão, através
de Kant, pela simples razão de que a desregulagem territorial da
literatura de Kafka se dá no plano de imanência de agregados de
acontecimentos, de passados e de presentes, mas sempre
imediatos, particulares, ou universalmente particulares, para me
valer de mais uma aporia.
É
igualmente em nome da insubstancialidade da Lei que Costa Lima
afirma que Kafka antecipa a atual sociedade da entronização
eletrônica da imagem, na suposição de que esta última é
insubstancial, razão pela qual afirma:
Poderá
então ser que a obra maior de Kafka indique menos um fim do que
um outro começo. Podemos saber de que é o fim. (…) A questão
consiste em saber se este jogo ainda tem regras. Mas, enquanto
houver sociedade humana, poderá ele deixar de tê-lo? Assim a
crítica devastadora da entronização eletrônica da imagem poderá
ser cega a uma possibilidade positiva: a de que ela, mesmo por
corroer a velha crença metafísica na Verdade, abra caminho para
uma ideia de verdade menos majestática, menos imponente,
histórica e culturalmente cambiante, impotentes para o controle
dos discursos “não verdadeiros”.
Assim como
não é apenas o protagonista Josef K. que desregula
territorialidades estáveis, fundadas em Verdades transcendentes,
mas todo o romance O Processo, também não é possível
compartilhar com o princípio de esperança expresso no fragmento
acima de Costa Lima, de uma possibilidade positiva a corroer a
crença metafísica da Verdade, na pressuposição de que Kafka, com
O Processo, tenha antecipado o fim dessa metafísica.
Não existe
no romance O Processo, assim o interpreto, uma
ruptura de época e o indício que seja de outro começo. Kafka não
é um escritor evolucionista. Só sob o ponto de vista de uma
epistemologia positivista-evolucionista, logo transcendental, é
possível afirmar ou sustentar o argumento de antecipação, na
suposição de que vivíamos antes da sociedade da entronização
eletrônica da imagem, num mundo de substancialidade da Lei,
como sugere Costa Lima.
Não existe
e nunca existiu um mundo de substancialidade da Lei, da
metafísica da Verdade, assim como, para acrescentar mais outra
aporia entre as demais, o mundo das grandes civilizações,
inclusive a nossa, da entronização eletrônica da imagem, nunca
deixou de ser o da Metafísica da Verdade ou da substancialidade
da Lei.
O par
substancialidade e insubstancialidade da Lei constitui,
portanto, uma aporia estratégica do estado de exceção, que é
igualmente regra geral. Para explicar essa aporia, retomo um
trecho já citado de Guy Debord:
A
aparência fetichista de pura objetividade nas relações
espetaculares esconde o seu caráter de relação entre homens e
entre classes: parece que uma segunda natureza domina, com leis
fatais, o meio em que vivemos.
Embora
obviamente se refira à sociedade do espetáculo,
aproprio-me do fragmento citado, a fim de destacar que a segunda
natureza humana, traduzida para o contexto da tradição do
oprimido, é a da substancialidade da Lei como fundamento
metafísico de aparência fetichista capaz de esconder o
caráter de relação entre homens e classes, logo, apto a
escamotear a particularidade, igualmente a posteriori, do
estado de exceção, cuja universalidade o é apenas sob o ponto de
vista da substancialidade de sua própria Lei, imposta, em última
instância, à força, visto que a lei é sempre insubstancial.
É nesse
sentido que Kafka constitui um escritor imbuído de criticidade,
por apresentar o estado de exceção da modernidade e na
modernidade como uma estetização mundana e imanente,
insubstancial, na qual o único propósito das formações
despóticas do tribunal, a que podemos chamar de impostora
substancialidade da Lei, como um processo generalizado contra o
devir povo, contra K., constitui o de “ocultar a ausência de fim
e de sentido de sua soberania com o fim orgânico da sua
criação”.
Insisto,
portanto, que todo o romance O Processo é imanente e,
assim sendo, tudo nele é imanente, o indefinido “alguém” e o
personagem Josef K., como devir povo. O que se coloca, no
romance, é o que opto em chamar de transcendência imanente, na
dimensão mesma do indefinido “alguém”, e essa é mais uma sutil
ironia de O Processo, considerando que designo como
transcendente imanência o fato simples de que o indefinido
“alguém” apenas estrategicamente se apresenta como
transcendente, por ser o lugar que, para existir como regra
geral do estado de exceção, deve ocultar a ausência de sentido
da substancialidade da Lei.
Assim,
tendo em vista que O Processo constitui um romance em que
a imanência sim é regra geral, tudo, em seu enredo, soa absurdo
e ao mesmo tempo risível e debochado, sobretudo se lemos a
narrativa sob o ponto de vista do que aqui chamo de antiprocesso,
em O Processo, ou de o processo irônico-imanente do devir
povo Josef. K. contra o indefinido-imanente “alguém, e inclusive
a própria morte matada deste último, Josef K. no último capitulo
da narrativa, constitui mais um momento hilário desse absurdo
mundo de estado de exceção em que vivemos, cujo fim é o começo e
cujo começo é o fim, como círculo vicioso que não leva senão a
seu próprio absurdo, como segunda fatal natureza, como se, ao
ser caluniado, Josef K. não pudesse ter outro destino senão o da
morte assassinada, por um indefinido “alguém”; e tudo como
estado de exceção que se impõe como regra geral.
É como se
o romance, O Processo, em cada momento de
sua produção absurda de sentidos, o próprio desenrolar da
narrativa, nos mostrasse o quanto, na tradição do oprimido, toda
produção de sentido é absurda; é segunda natureza de farsesca
imanente transcendência, de vez que o estado de exceção só
consegue sê-lo através de um conjunto de estratégias e táticas
de efeitos de verdades, que se tornam tanto mais efeitos de
poderes quanto mais conseguem se apresentar como efeitos de
transcendência, motivo pelo qual o princípio de esperança de
Costa Lima, de uma sociedade não fundada na metafísica da
Verdade, embora marcada pela entronização de imagens
eletrônicas, não procede, tendo em vista mesmo o romance O
Processo, cujo devir ficcional é este em que o sentido é
sempre transcendentemente imanente, na tradição do oprimido,
posto que é sempre um sentido fundado no estado de exceção, que
é regra geral, seja no regime das velhas Verdades metafísicas,
seja no regime das minúsculas e provisórias verdades fugazes
produzidas no interior da sociedade do espetáculo.
Pouco
importa, assim, se o pintor Titorelli pareça não ter conhecido
as vanguardas artísticas do final do século XIX e do início do
século XX, demonstrando, desse modo, ser tão insciente. Pouco
importa se soe anacrônico reproduzindo, na época da fotografia,
rostos de juízes e obras artísticas da antiguidade clássica. Se
tudo é imanência, se o tribunal está em todo lugar, é uma
exceção que é regra geral, talvez o que menos importe seja o
pintor Titorelli, de vez que toda obra O Processo
é uma sucessão de quadros-mundo, tal que o ateliê de Titorelli é
seu quarto, que é um cortiço; tal que K., ao perguntar a uma
menina corcunda se sabia onde morava Titorelli e dito a ela que
o procurava para que este pintasse um retrato seu, de K., a
corcunda menina tenha achado estranho que um pintor pudesse
pintar, pela simples razão de que essa menina, assim como as
demais que acompanhavam, em algazarra, a K. até o quarto de
cortiço de Titorelli, não são As Meninas de Velásquez,
nem mesmo as de Titorelli, de vez que o tribunal está por todo
lado, de sorte que tudo, no cortiço onde mora Titorelli, seu
ateliê, se constitui como um aglomerado de quadros, um cortiço
de estado de exceção, pintado indefinidamente por um indefinido
“alguém”, razão pela qual a arte é insciente, quando acredita,
como arte, na autonomia da substancialidade da Lei arte, na
metafísica da Verdade da arte, sendo incapaz, assim, de
perceber, como em tudo, que a arte também é insubstancial; é
artificioso processo de construção de sentido, razão pela qual,
na tradição do oprimido, a arte pela arte, a arte enquanto
autonomia, acreditando em si, cumprindo bem a sua função, serve
apenas a um cliente, como o pintor Titorelli, a saber: o estado
de exceção como um despiste insciente ou inconsciente de que a
arte é todo o mundo, em processo.
O jogo de
espelhos do quadro pintado por Diego Velásquez, mais que apontar
para uma época que tem consciência de que tudo é representação,
como sugere Foucault em As palavras e as coisas,
se tem alguma potência, é a de mostrar que tudo é espelho de
tudo; que tudo é arte de tudo. Daí essa intertextualidade
debochada, para não dizer paródica, no romance O Processo;
essa paródia do quadro As Meninas, de Velásquez, a
mostrar que a arte está fora da arte, pois as meninas não estão
em quadro-espelho algum, refletindo nada.
Kafka
debocha de Velásquez, mostrando-nos que o tribunal é dentro e é
fora e que joga com efeitos de dentro, como o efeito de uma obra
de arte, como um processo de construção de sentidos de dentro, o
dentro arte, o dentro pintor, o dentro romance, o dentro
advogado, como a dizer-nos que os efeitos de dentro são efeitos
de estado de exceção; assim como joga também com os efeitos de
fora, como se a simples razão de existir o dentro indiciasse
também a existência de um fora a justificá-lo enquanto dentro em
relação a um fora, razão pela qual, no romance, tudo pareça ser
promíscuo, tudo é processo de significação, signos resvalando em
signos, formando esse processo geral, como estado de exceção,
nos diversos quadros-mundo do romance, os quais, em última
instância, continuam sendo quadros, porque dentro do romance
O Processo; dentro, assim, deste absurdo romance ou absurdo
mundo de substancialidades de Leis insubstanciais.
1.4 A
FUNÇÃO ARTE NO CONTEXTO DO ESTADO DE EXCEÇÃO E SEUS EFEITOS DE
DENTRO E DE FORA
| Tendo a arte como referência, entendida como artifício apto a
inscrever a insubstancialidade de tudo quanto existe, a
literatura de Kafka se vale de dois recursos opostos e
complementares, a saber: 1) Um primeiro que é o de levar a arte
para vida, destronando-a enquanto identidade fixa, como no caso
de Titorelli, em que o que menos importa, repito, é a sua arte
enquanto tal; 2) Um segundo procedimento em que, ao invés de a
arte ir para a vida, esta vai para a arte.
De comum,
no entanto, as duas técnicas têm o tribunal como onipresentes e
servem para indiciá-lo como produtor de artifícios, por criar
efeitos de fora e de dentro, de tal maneira a esboçar um sistema
de aparências em que a regra geral do tribunal de exceção
irrompa como verdade imutável, transcendental.
Exemplar,
sob o ponto de vista do segundo procedimento artificioso, o que
produz efeitos de dentro, constitui a cena em que o personagem
K., de O Castelo, ao entrar na choupana de uma
família de camponeses, identifica, no fundo, uma mulher
amamentando, os olhos fixos no teto, como se fora ela mesma um
quadro encarnado.
Eis o
fragmento em questão:
(…) e a
mulher da poltrona parecia inerte, os olhos fixos no teto, sem
mesmo olhar de relance a criança que tinha ao peito. Ela
compunha um quadro bonito, triste, fixo, e K. olhou-a, segundo
lhe pareceu, durante muito tempo, depois deve ter caído no sono,
pois, quando uma voz alta o acordou, percebeu que a sua cabeça
estava deitada sobre o ombro do velho. (…) Um lenço de seda
transparente descia até o meio de sua testa. A criança estava
dormindo sobre seu peito. – Quem é a senhora? – perguntou K.
Desdenhosamente, ela respondeu – Uma mulher do Castelo.
Assim, se
o primeiro procedimento imprime movimento à arte, espalhando-a
pelo cotidiano, como no caso das meninas do cortiço de Titorelli;
o segundo, em diálogo com o fragmento acima, faz o contrário:
leva a vida para arte, tornando-a fixa e inerte. Arrisco a
hipótese, a propósito, de que, como romances complementares,
igualmente aporéticos, O Processo e O Castelo
utilizam respectivamente o primeiro e o segundo
procedimentos, aos quais chamarei de efeitos de arte, como
efeitos de dentro e de fora.
Sob esse
ponto de vista, O Processo inscreve-se, como
técnica narrativa, usando, como procedimento, efeitos de fora,
como se um a priori arte se transformasse num a
posteriori vida; como se a fixidez da arte, sob uma moldura,
se flexibilizasse a fim de expressar todo o fora, que também é
arte; é artifício. Por outro lado, no caso de O Castelo,
a técnica utilizada por Kafka é a do efeito de dentro, da arte,
tal que uma mulher amamentando, estando no mundo, constitui, no
entanto, um quadro fixo de uma cena do mundo, embora não de
qualquer mundo, mas do mundo do estado de exceção como
artificioso processo de inscrição de sua limitada regra geral,
constituída pelo jogo de exceções entre um castelo do qual se
fala, pelo qual se vive e através do qual toda uma vila é
marcada por uma espécie absurda e não declarada de toque de
recolher.
Por outro
lado, como o tribunal é onipresente, é dentro e é fora, os
efeitos arte de dentro e de fora constituem duas formas de
expressá-lo. De qualquer forma, o que fica patente, nos dois
procedimentos, é o aqui e o agora do tribunal, como imanência,
porque ambos apontam para a cotidianidade do castelo /ou do
tribunal. O primeiro, como efeito de fora, levando o tribunal
e/ou castelo para a rua e, o segundo, por sua vez, como efeito
de dentro, empurrando o mundo para os moldados quadros dos
espaços fechados: as instituições, os campos disciplinares, os
valores, as identidades, de tal sorte que o tribunal (ou o
Castelo) se faz como regra geral porque sua distância é apenas
um efeito de ilusão, efeito que se expressa no dentro e no fora,
na rua e na casa, no público e no privado, pelos viventes do
estado de exceção.
A técnica
de O Processo consiste em espalhar a transcendência de um
suposto fixo dentro, como identidade estanque do tribunal, para
o cotidiano, demonstrando que o tribunal está no fora, na vida,
enquanto vida realmente vivida, embora como vida de exceção, da
tradição do oprimido, donde seria possível dizer, como
contraponto, “enquanto vida realmente não vivida”. Já o
procedimento de O Castelo, como complementar ao primeiro,
procura mostrar que a vivida (não) vida, só o é, na tradição do
oprimido, porque está a serviço de um – ou vários –
dentro-transcendência, que, aqui, equivale ao dentro castelo,
razão pela qual a mãe amamentando a filha constitui um
verdadeiro quadro do castelo e/ou do tribunal, por serem, estes
últimos, igualmente alimentados pelo cotidiano: leite diário de
todo dentro transcendental.
É nesse
sentido que é possível dizer que os pedidos de quadro, feitos
pelo tribunal ao pintor Titorelli, constituem bem mais que uma
demanda para quadros enquanto tais, como efeitos de um dentro
arte, porque o próprio Titorelli é parte da demanda, como
artista, um fora da pintura por ele pintado, razão pela qual
Titorelli foi indicado como aquele que conhece o tribunal,
porque tem o tribunal dentro e fora de si: dentro, como aquele
que pinta o tribunal e; fora, porque é também aquele que pinta o
tribunal por trazê-lo em si, fora de sua pintura como resultado
de uma arte castelã, de transcendências, posto que ele mesmo,
fisicamente, constitui-se como a pintura andante do tribunal,
como um Quixote às avessas.
Eis aí,
portanto, o jogo entre o dentro e o fora; jogo que nos diz (é a
constatação de K., o povo) “que Titorelli é insciente”, e o é
porque não consegue realizar sua pintura fora do tribunal, por
ser ele mesmo, como pintor do tribunal, um efeito de fora deste
último, mas não um fora de fato, uma vez que, no estado de
exceção, tudo é dentro do tribunal, seja o fora Titorelli, por
trazer dentro de si a reificação do tribunal, pintado dentro
dele; seja o dentro arte que Titorelli produz, considerando a
pintura que realmente realiza, por constituir-se como pintura do
próprio rosto do tribunal, retratista de juízes que é.
De
qualquer forma, apenas sob o ponto de vista da existência do
processo contra K. (de um povo caluniado) é que é possível a
existência paradoxal de um, digamos, pintor pintado, por ser ele
mesmo um quadro carnal do tribunal. Assim, considerando a
tradição do oprimido, como regra geral, tudo é estado de
exceção; tudo deve produzir um efeito de dentro, que produz um
efeito de fora, e vice-versa, de tal sorte que o papel da função
arte, na perspectiva do estado de exceção, constitui o de
produzir efeitos de dentro e de fora, generalizando o tribunal,
embora, como desprocesso, a função arte possa constituir-se como
estratégia artificiosa de K., o povo; como agenciamento coletivo
de enunciação, razão pela qual, ao invés de produzir efeitos de
dentro e de fora, pode realizar o contrário: desfazer os efeitos
de dentro e de fora do tribunal, na medida mesmo em que
escreve/descreve/desescreve o tribunal, momento em que se torna,
mais que função arte, uma desfunção arte.
Eis,
nesse sentido, a melhor maneira de adquirir a confiança do
tribunal: produzir uma função arte insciente, serviçal, a
receber encomendas, logo disposta a, platonicamente,
resgatar/pintar efeitos de fora, como se fossem realmente um
fora, sendo, na verdade, todo um sistema de crenças, a que
podemos chamar de o grande dentro do Supremo Tribunal Ocidental,
constituído por crenças jurídicas, ao pintar o rosto de juízes,
a expressividade evidente dos signos despóticos; por crenças
míticas, de aristocráticas origens, quando, por exemplo,
Titorelli pinta, sempre por encomenda, a deusa da Vitória e da
Justiça juntas, fazendo emergir essa monstruosa híbrida aporia,
a da vitória da justiça e/ou da justiça da vitória; por crença,
enfim, no regime de verdade de seu entorno histórico-cultural,
acreditando que o embuste seja o próprio quadro platônico do
talento de uma arte que pinta a si mesma, que pinta a
jurisprudência de um sistema de colonização marcado pela tripla
aliança de uma ditadura epistemológica, inscrita no jogo ideal
entre o saber, o poder e o ser de uma História, a do Ocidente,
que primeiro foi teológica, isto é, que primeiro preparou seu
berço com a mistura alquímica de um saber, um poder e um ser
teológicos [1], o pai, o filho e o Espírito Santo da
substancialidade da Lei herdada do dentro das sociedades
teocráticas, como a grega, a romana e a medieval; e que depois
se tornou um saber, um poder e um ser filosóficos, cuja retórica
é também insciente; para em seguida fechar o soneto com a chave
de ouro de um saber, um poder e um ser científicos, que hoje é
também um ser, um poder e um saber icônico-midiáticos, como
entronização eletrônica da sociedade do espetáculo planetária;
como função arte, ou função e cultura, empresa globalizada, no
contexto da qual tudo é apropriado; tudo é retomado, reescrito e
reiluminado: o patriarcal, o violento, o estúpido, o sujo
cortiço, como novas velhas ficcionalidades, como um só dentro,
imanentes transcendências, e vice-versa, de um castelo que é a
sua vila.
NOTA
[1] Walter
Mignolo, a partir de uma proposta descolonizadora, pinta, para
ficar no mesmo campo semântico, o quadro platônico da história
da formação dos padrões epistemológicos do Ocidente.Para Mignolo,
a colonização ocidental do planenta não pode ser pensanda fora
dessa tripla aliança, a do saber, do poder e do ser, que
primeiro foi teológico-medieval, depois foi filosófica e em
seguida foi científica, de tal sorte que a religião esteve
sempre presente, a aueolar o perfil jurisdicional típico do
mundo ocidental, cujo ser, sendo teológico, filosófico e
científico, o é tendo com base um saber igualmente teológico,
filosófico e científico, sempre marcado e demarcado por essa
tripla aliança, a grande língua da colonização ocidental, a que
chamamos de universal, isto é, bem entendido, o único verso
possível de um só e mesmo dentro, pintado com o ouro sequestrado,
o ouro de sua propria arrogância epistemológica. Cf.
Os esplendores e as misérias da ciência: colonialidade,
geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica.
In: SANTOS, Boaventura de Sousa. Conhecimento prudente para
uma vida decente: um discurso sobre as Ciências revisitado
(2004).
|
Luis
Eustáquio Soares (Brasil, 1966). Poeta, escritor e
ensaísta. Publicou Paradoxias (1999), Cor
Vadia (2003), José Lezama Lima, anacronia,
barroco e utopia (2008), El evangelio según
Satanás (2010). Contato:
artevicio@hotmail.com. Página
ilustrada com obras de Luciano Bonuccelli (Itália),
artista convidado desta edição de ARC.
|

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