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BETTY MILAN |
Jean-Claude Carrière:
o roteirista e o budismo

Seria
necessário apresentar Jean-Claude Carrière, nascido na França em
1931? Fora a sua colaboração, como roteirista, com alguns dos
principais cineastas do século, fez, entre outros, Esse
obscuro objeto do desejo, O charme discreto da burguesia e
Bela da tarde com Buñuel, com o qual trabalhou durante 19
anos; escreveu Viva Maria para Louis Malle; foi indicado
para o Oscar de Melhor Roteiro ao adaptar A insustentável
leveza do ser, de Milan Kundera, filmado por Philip Kaufman;
e trabalhou com diretores como Milos Forman, Jean-Luc Godard,
Carlos Saura, Andrzej Wajda, Jacques Tati e Hector Babenco, que
o trouxe ao Brasil quando das filmagens de Brincando nos
campos do senhor. Ele fez a adaptação para o teatro, com
enorme sucesso, do poema épico indiano, Mahabharata,
dirigido por Peter Brook, com quem trabalha desde 1973.
Roteirista, ator, romancista e ensaísta, Carrière também preside
a Federação Europeia dos Ofícios da Imagem e do Som, a Fémis
(nova denominação do IDHEC a partir de 1985).
I. O
ROTEIRISTA |
Por ser diretor de um ateliê de formação de roteiristas na Fémis,
Jean-Claude Carrière escreveu com Pascal Bonitzer
Exercice
de scénario (“Exercício de roteiro”), para ensinar a “captar
e manter a atenção do espectador”, ou seja, a regra básica,
porque vale para todas as histórias concebíveis e mesmo para as
não-histórias, como as do nouveau roman.
Trata-se
de um livro absolutamente cativante, fruto de trinta anos de
experiência, simples, mas profundo, que tanto focaliza
Dom
Quixote e Tom Jones quanto As mil e uma noites
e nos introduz nas tradições ocidentais e orientais da arte de
contar.
Jean-Claude Carrière, aliás, se diz um contador árabe e nos
explica por que é tão necessário contar, escrevendo: “Contar e
matar, contar e morrer frequentemente parecem ligados. Por que
Xerazade, com os seus mil e um contos, afasta de si a morte?
Pela equivalência existente entre a história e a vida, mas
sobretudo porque contar é matar e vencer a morte. Matar aquele
que deve te matar quando a história já não o agradar. Matar a
criança estéril, impaciente, a jogadora – a má jogadora –, a que
quer saber tudo logo e, assim, não aguenta o tempo. Matar, em
suma, a criança que o narrador foi e, contando – porque contar
implica certa sabedoria –, deixou de ser”.
Para
ouvi-lo falar de
O exercício do roteiro, fui ao bairro mítico de Pigalle, à
sua residência, onde cada sala evoca um cenário e a deusa
indiana do amor, um centauro feminino, surpreende quem entra.
BM
Será que
você poderia falar sobre a relação entre o roteirista de cinema
e o contador de histórias, que você, aliás, estabelece no seu
livro?
J-CC
O roteirista é o contador dos nossos dias. Retomou, com os
recursos de hoje, uma função muito antiga, a de contar
histórias. Isso porque ele diz o que nem a poesia diz, nem a
filosofia e nem o romance. Graças ao cinema, a função de contar
passou a atingir muito mais gente, mas isso significa que o
contador do século XX, o roteirista, deve conhecer a arte do
cinema. O contador tradicional era o autor e o intérprete do
conto, ele mesmo criava e transmitia. Bastava que conhecesse a
arte da palavra e eventualmente a da música, que o acompanhava
numa praça pública. Hoje, o que o roteirista escreve vai se
transformar num outro produto e ser transmitido pelos atores, de
sorte que precisa conhecer as técnicas cinematográficas para
saber como o que ele escreve vai mudar de suporte. Trata-se,
aliás, da operação mais misteriosa, a alquimia pela qual a gente
transforma o chumbo em ouro, passa do papel para a película.
BM
Gostaria
que você falasse da diferença entre a escrita do roteirista e a
do romancista.
J-CC
São
radicalmente diferentes. O cinema é uma arte objetiva.
Contrariamente à frase de Proust, que é uma frase longa e
introspectiva, construída para penetrar em todos os meandros da
alma humana, a frase do roteirista não comporta a introspecção.
Não se pode, por exemplo, escrever: “Jean-Pierre pensa que” ou
“sente que”. O roteirista só pode escrever o que pode ser
mostrado numa tela: “Jean-Pierre parece preocupado” ou “ele anda
rapidamente em direção à porta”. Por outro lado, a escrita do
romance termina com o romance, enquanto a do roteiro dá início à
verdadeira aventura cinematográfica. À diferença do romance, o
roteiro é uma forma efêmera, provisória, que vai desaparecer
para se tornar um filme ou uma peça de teatro, ele deve
comportar todos os elementos necessários ao filme, como a larva,
que não voa, mas tem tudo o que é preciso para que dela surja
uma borboleta.
BM
Em O
exercício do roteiro você diz que a imaginação é um músculo
e precisa ser treinada. Como foi que você treinou a sua
imaginação?
J-CC
Tive a
sorte de trabalhar com pessoas mais velhas do que eu,
verdadeiros mestres que muito me ensinaram. Jacques Tati, o
primeiro com quem trabalhei, me ensinou a relação com a
realidade, a olhar, por exemplo, a rua, como se tudo
que nela se passasse estivesse
destinado a se tornar um filme cômico. A gente se sentava no
terraço de um café, olhava as pessoas que passavam e se
perguntava o que poderia ter acontecido de engraçado com elas,
como se o mundo inteiro existisse para dar origem a um filme.
Mas existe outro tipo de trabalho, que aprendi com Buñuel, e era
o de se isolar do mundo, de ir para um lugar calmo e se deixar
invadir pelas imagens.
BM
É por
causa do treino que você consegue escrever tanto?
J-CC
Olha, eu
não escrevo muito e bem menos do que Balzac ou Victor Hugo, para
citar grandes exemplos. Balzac morreu com 51 anos e havia
escrito três vezes mais do que eu escrevi até hoje. Diderot
escreveu uma peça de três atos num fim de semana. Balzac e
Diderot certamente sabiam se isolar melhor do que nós hoje em
dia. Voltaire era prodigioso, escrevia todas as manhãs uma
centena de cartas que ditava para três ou quatro secretárias, o
que implica um treinamento incrível. Victor Hugo, nos últimos
quarenta anos da sua vida, escreveu em média cem cartas por dia.
Balzac deixou cerca de 40 mil cartas e artigos. Todos eles
certamente escreviam com grande rapidez, mesmo porque quanto
mais a gente escreve, mais rápido se torna.
BM
O que é a
Fémis e como é que você treina os candidatos ao seu
ofício?
J-CC
A Fémis é
uma escola feita para dar à tecnica toda a sua dignidade. Surgiu
com a recusa da ideia de que o cinema é uma coisa fácil e,
sobretudo, para transmitir os conhecimentos mais sofisticados no
domínio da técnica. Por isso, temos sete departamentos, que
cobrem tudo na área do cinema e da televisão. Ou seja: direção,
roteiro, imagem, som, montagem, cenário e produção. Somos
contrários à ideologia de 68, segundo a qual cabe aos estudantes
decidir o que vão aprender – uma ideologia que deixou duas
gerações inteiramente despreparadas na França. Nós inauguramos a
Fémis com o propósito de que o ensino fosse rigoroso. Chegamos a
mandar embora um aluno por falta não-justificada. Trata-se de
uma escola que custa muito caro ao governo – cerca de 4 mil
dólares por aluno/mês.
BM
E o seu
ensino na Fémis, o seu ateliê?
J-CC
O que a
gente pode ensinar a um roteirista numa escola é como se faz um
filme, e isso nós ensinamos, fazendo-o fazer filmes. O
roteirista da escola aprende, no primeiro ano, todas as
técnicas, para que tenha uma ideia do que o roteiro vai se
tornar depois que ele tiver escrito. O meu ateliê dura quinze
dias e diz respeito ao trabalho conjunto do roteirista e do
diretor, de como se desenvolve uma ideia. Nós partimos da
prática. Peço aos alunos que encontrem uma situação em que haja
um personagem que tenha um desejo e uma série de obstáculos tão
fortes quanto o desejo. A partir daí, começamos a trabalhar.
BM
Qual a
diferença entre a formação do roteirista na Europa e nos Estados
Unidos?
J-CC
Não há
muita diferença. O princípio do trabalho é o mesmo. Aqui na
França, a relação entre o roteirista e o diretor tende a se
aprofundar mais do que nos Estados Unidos, onde cada um trabalha
sozinho e se procede por etapas. O produtor tem uma ideia, faz o
roteirista trabalhar. O resultado é depois entregue a um
diretor, e o filme é tirado das mãos deste para ser entregue a
um montador.
BM
Glauber
Rocha fez um cinema de grande repercussão com “uma ideia na
cabeça e uma câmera na mão”, como ele gostava de dizer. Isso
ainda é possível hoje em dia?
J-CC
Glauber
foi meu amigo e ele reunia um grupo de pessoas que revolucionou
o cinema brasileiro, lhe dando nova vida. Isso tornou Glauber
conhecido no mundo inteiro. A expressão “uma ideia na cabeça e
uma câmera na mão” é, na verdade, uma expressão muito profunda,
porque só com uma ideia ou só com a câmera a gente não faz
absolutamente nada.
BM
Mas você
acha ou não que hoje se pode fazer um filme como ele fazia?
J-CC
Os
cineastas brasileiros que eu conheço me dizem que, na situação
atual, fazer um filme é uma empresa heroica. Seria preciso
reunir de novo um grupo de jovens cineastas decididos a fazer
cinema e a encontrar o seu público. Será que entre os milhões de
habitantes brasileiros não existe um público? Tenho certeza de
que existe para um cinema voltado para o Brasil, um país que
vive situações absolutamente extraordinárias. Nem um só filme
que fale delas! Se eu pudesse dar um conselho aos jovens
brasileiros, diria que é preciso juntar forças e formar de novo
um grupo, como foi o caso da Nouvelle Vague, do Cinema
Novo, do Surrealismo, dos românticos ou dos poetas elisabetanos.
Inútil tentar uma experiência solitária – ela será imediatamente
atacada pelo commercial empire, o império comercial
americano. O Brasil faz cinema desde 1908, portanto, há muito
tempo; é um país competente na área do documentário, da ficção,
e que teve um movimento como o Cinema Novo. Em 1992, só
conseguiu realizar um filme, porque se deixou colonizar pela
produção americana. No mesmo ano, fui ao Equador, ao Peru, à
Argentina. Em todas as salas de cinema só havia filmes
americanos, à exceção de Cyrano de Bergerac. Aqui na
Europa, nós nos servimos frequentemente do exemplo da América do
Sul para nos defender.
BM
O que você
pensa do teatro brasileiro?
J-CC
Com o
teatro brasileiro acontece a mesma coisa que no mundo inteiro.
Há 25 anos, anunciou-se a morte do teatro. O que aconteceu foi o
contrário. De todas as formas de expressão, no Brasil como em
outros lugares, o teatro é a mais viva de todas. Existem pelo
menos quatro ou cinco grupos de teatro fascinantes no Brasil.
Cada vez que vou lá, vejo pelo menos uma ou duas peças.
BM
O Carnaval
brasileiro é uma ópera de rua, que o povo prepara durante o ano
inteiro, é um evento dotado de um enredo significativo,
ilustrado com alegorias e fantasias excepcionais e que é filmado
como uma sucessão desconectada de imagens. Como é que você
filmaria o evento?
J-CC
Acho que,
se eu tivesse de filmá-lo, faria o contrário do que atualmente
se faz, essas reportagens curtas, que selecionam as imagens em
função do que há nelas de sexy ou de barroco. Para fazer alguma
coisa interessante sobre o Carnaval, seria necessário seguir uma
ou duas pessoas o ano inteiro, filmá-las rapidamente no dia do
desfile e depois reencontrá-las brevemente no dia seguinte. Só
assim seria possível dar uma ideia verdadeira de toda a
metafísica secreta do Carnaval, dessa ópera de rua que também é
uma grande alegoria da vida.
II. O
BUDISMO |
Depois
de ter estudado longamente o hinduísmo para adaptar o
Mahabharata, Jean-Claude Carrière foi à Índia em 1994 para
encontrar o principal representante do budismo, o Dalai Lama. Do
encontro, resultou A força do budismo,
livro que o Dalai Lama assina com Jean-Claude Carrière
e que no Brasil ganhou como subtítulo “uma conversa sobre como
viver melhor no mundo de hoje”. E lá fui eu de novo
entrevistá-lo na casa de Pigalle.
BM
Na introdução do livro, você diz que tanto procurou evitar na
relação com o Dalai Lama um respeito paralisante quanto um
desrespeito inútil. Será que você poderia falar sobre o seu modo
de proceder?
J-CC
Trata-se
de uma atitude que aprendi no meu campo profissional. Sempre que
abordamos um tema de outra cultura, como o Mahabharata,
por exemplo, devemos evitar tanto a veneração quanto a
irreverência extrema. Se eu tivesse ficado de joelhos diante do
Mahabharata, não teria transmitido nada. Quando quis
abordar o budismo, eu me disse que podia ter diante dele a mesma
atitude que tive diante da epopeia indiana. Queria encontrar um
personagem verdadeiramente representativo do budismo. Ninguém
mais do que o Dalai Lama. Primeiro nos vimos e ele depois me
pediu que eu lhe escrevesse explicando exatamente o que desejava
discutir e a maneira como o faríamos. Acredito que ele tenha se
decidido a fazer o livro por causa das cartas que lhe enviei e
também porque sou mais idoso do que ele. Interessava ao Dalai
Lama falar com um representante do Ocidente, alguém que
estivesse disposto a viajar para a Índia e conhecesse a tradição
indiana. Nós, inicialmente, definimos os temas. Claro que
estávamos preparados para as surpresas, os desvios.
BM
Como ao
escrevermos um romance, por exemplo.
J-CC
Sim, ou
quando adaptamos um romance para o cinema. É preciso estar
sempre pronto para a surpresa.
BM
Você
preparou longamente a entrevista.
J-CC
O
encontro.
BM
Sim, você
o preparou e depois enviou os temas ao Dalai Lama. Quando o
livro estava acabado, submeteu-o novamente a ele… Por que esse
procedimento?
J-CC
Como o
livro seria assinado por nós dois, era preciso que ele lesse.
Ele leu algumas partes e outras foram lidas pelos seus
assistentes. O texto francês foi lido por um tibetano que mora
aqui em Paris e conhece bem o francês. Depois, foi traduzido
para o inglês pelo mesmo tibetano, em colaboração com outros
assistentes do Dalai Lama. Um livro assinado pelo maior
representante vivo do budismo não pode ser criticado do ponto de
vista budista, e eu não sou uma autoridade. Terminei de escrever
o livro no mês de junho, e ele só foi publicado em janeiro, por
causa da revisão. Reencontrei o Dalai Lama duas vezes em Paris.
Nós nos tornamos muito amigos. A propósito do método de
trabalho, eu gostaria de dizer duas coisas. Para o budismo, a
questão do nível é fundamental. O Dalai Lama diz sempre que,
para uma questão sábia, a resposta deve ser sábia e para uma
questão infantil, a resposta deve ser infantil. Se eu der a uma
questão sábia uma resposta infantil, eu me torno ridículo. Se a
uma questão infantil eu der uma resposta sábia, será inútil.
Portanto, encontrar o nível em que nós íamos falar era muito
importante, porque a nossa conversa estava destinada a se tornar
pública. Tanto o Dalai Lama quanto eu tínhamos em vista a
transmissão. Na Índia, esta se faz frequentemente por meio de um
guru, da linguagem oral – um guru que em geral só fala para uma
ou duas pessoas. Era preciso achar outra forma. Para encontrar o
nível, levamos mais ou menos uma hora.
BM
Foi
rápido.
J-CC
Era como
se, durante aquela hora, nós estivéssemos ajustando os
ponteiros. A segunda coisa que quero dizer é que no budismo tudo
se liga. Se eu fizesse uma pergunta sobre o meio ambiente, ele
deveria considerar o budismo inteiro para responder. Assim, eu
logo me dei conta de que não podia deixar de tratar do budismo
propriamente dito no livro. Não podia me contentar com a ideia
de só trocar ideias com o Dalai Lama sobre o mundo de hoje.
Portanto, eu propus a ele o seguinte: “Temos de abordar no livro
as questões de doutrina, questões que o senhor conhece muito
bem, eu um pouco, e o leitor simplesmente desconhece. Mas, para
ganhar tempo (só tínhamos três semanas), proponho que eu não o
interrogue sobre essas questões e colha as informações
necessárias nos livros anteriormente publicados pelo senhor”.
Ele topou imeditamente, o que me permitiu ganhar tempo e também
implicou imenso trabalho de escrita, porque eu trabalhava com
quarenta livros à minha volta, livros que guardei, sobretudo os
que foram escritos por ele. A técnica de trabalho foi essa.
BM
Você foi à
Índia para saber o que o budismo pode nos ensinar. O budismo
obviamente só pode ensinar o que formos capazes de aprender com
ele. Gostaria que você dissesse o que nós, ocidentais,
desconhecendo as práticas budistas de meditação, podemos
aprender.
J-CC
Existem
muitas atitudes possíveis em relação ao budismo. Primeiro, a
adesão total. Se você decidir que vai pertencer a uma comunidade
budista, deve mudar de vida e entrar na universidade, onde
ficará doze anos. Deve inicialmente aprender três línguas – o
sânscrito, o páli (as duas línguas em que os textos antigos
foram escritos) e o tibetano. São muitos anos para aprender
essas três línguas, além da parte que o budismo chama de
“especulação” e corresponde a tudo que não é revelação, ou seja,
o que o Buda disse. A especulação é a penetração em domínios do
saber que a revelação não abordou. Por exemplo, a percepção, a
memória, a vontade, que não são tratados pelo Buda. Na
universidade, há departamentos para estudar cada um desses
elementos. Só para estudar a percepção na tradição budista a
gente pode levar a vida inteira.
BM
Um campo
do saber equivalente à psicologia da percepção…
J-CC
Sim,
digamos que é um manual de filosofia enorme, no qual se
encontram as operações do espírito. Decidimos não tratar da
especulação no livro. O budismo distingue centenas de milhares
de operações do espírito, e mesmo um grande sábio como o Dalai
Lama não conhece todos.
BM
Os
conhecimentos estão todos escritos?
J-CC
Claro,
desde a Idade Média. Os budistas estão a par da psicanálise, da
fenomenologia… Mas, voltando à sua questão, você tanto pode
decidir mudar de vida e entrar na comunidade budista quanto se
perguntar o que há de interessante no budismo para você e ficar
só com o que lhe interessa.
BM
Você
pessoalmente se interessa pelo budismo por quê?
J-CC
O
hinduísmo me interessa há 22 anos. Como você sabe, o hinduísmo é
o tronco, é, por assim dizer, a mão, e o budismo é um dedo, que
sai do hinduísmo e indica o caminho. Quando fui à India
encontrar o Dalai Lama, fui para escrever um livro; minha
preocupação era estritamente profissional. Não queria deixar
nada na sombra, queria compreender e transmitir bem.
BM
Você
poderia falar sobre os conceitos fundamentais do budismo?
J-CC
Há um
certo número de ideias inventadas pelo budismo que só pertencem
ao budismo, como, por exemplo, o carma – o peso dos nossos atos
–, o nirvana, a reencarnação… O Dalai Lama, o budismo atual,
privilegia algumas ideias por considerar que podem nos ajudar.
Posso citá-las, se você quiser…
BM
Por favor,
diga.
J-CC
Há quatro
ideias. Duas que são clássicas e duas que são modernas. Entre as
clássicas, existe a impermanência, a ideia de que tudo
passa, nada permanece e nem mesmo o budismo. Se a gente se
perguntar por que eles insistem tanto nessa noção, a gente
percebe que é porque ela permite se opor ao integrismo, ao
fundamentalismo. A impermanência é uma arma oferecida pelo
budismo.
BM
Uma arma
contra o dogmatismo. O antidogmatismo do Dalai Lama é, aliás,
surpreendente. Ele diz que, se a ciência mostrar que há um erro
nas Escrituras, é preciso mudar as Escrituras.
J-CC
Sim.
BM
E a
segunda ideia qual é?
J-CC
A segunda
ideia que o budismo privilegia é a da interdependência, o
fato de que é impossível separar as coisas, de que não se pode
separar o dedo da mão, a mão do corpo, o corpo do mundo etc. Se
nós nos perguntarmos a que isso nos leva, pensaremos de imediato
no meio ambiente, no perigo que ameaça o planeta, precisamente
porque a espécie humana se considera superior às outras. O
budismo considera que somos um dos dentes da engrenagem, um
dente particularmente perigoso, porque ameaça destruir a
engrenagem e, com isso, se destruir. A interdependência é uma
noção propícia à ciência moderna, para a qual o observador
transforma a coisa que observa. Por causa da noção da
interdependência, o espírito budista estava mais preparado para
acolher as descobertas da mecânica quântica. Além das duas
noções clássicas, a impermanência e a interdependência,
existe a noção da não-conversão. Não converter o próximo
é uma noção fundamental do budismo. Quando as pessoas perguntam
ao Dalai Lama se devem ou não se converter ao budismo, ele
responde: “Não, fique como você está. A sua tradição deve ser
uma coisa boa, do contrário não seria uma tradição”. A quarta
noção é uma nova noção de pátria. O Dalai Lama, como você sabe,
teve de deixar o Tibete, exilou-se na Índia, mas, aí chegando, a
primeira preocupação dele não foi criar um exército para
reconquistar o seu país, mas, sim, abrir uma escola. Ele queria
sobretudo que a língua tibetana não se perdesse, nem a poesia,
nem a música, que se perpetuaram graças a ele. O Dalai Lama foi
o primeiro homem de Estado que situou a cultura como arma de
sobrevivência, uma arma incomparável. Comprendeu que a cultura é
uma arma mais forte do que o exército – coisa que muitos países
ignoram. Existe um povo que comprendeu a importância da cultura:
o povo judeu, que só subsistiu na diáspora graças a ela. Há hoje
formas mais sutis de fazer desaparecer um país do que a invasão
armada. Invadir com ideias alienígenas, por exemplo. O fato é
que, por ter perdido a pátria da sua infância, o Dalai Lama
imaginou uma nova forma de pátria se fazendo por intermédio da
cultura. Ele hoje se pergunta se não é possível colocar um pouco
do Tibete em cada um de nós através do pensamento e da atitude
budista.
BM
O Dalai
Lama considera que nós hoje vivemos uma época de virtude, de
ajuda mútua – em suma, um período melhor. Uma das razões desse
otimismo é o fim da guerra fria, outra é que a ideologia da
não-violência tem marcado alguns pontos. Ele é muito otimista,
não acha?
J-CC
Muito,
não. Ele pertence a uma tradição otimista. Como você sabe, a
base do budismo é o otimismo. Ele parte da revelação de que a
condição humana é sinônimo de sofrimento, de que o homem é
frustração, doença, envelhecimento, morte, porém afirma que há
uma maneira de escapar ao sofrimento e a questão é saber
encontrar essa maneira. No caso do Dalai Lama, o otimismo é
contrabalançado pela lucidez do personagem.
BM
Uma das
características do budismo é a maleabilidade. Quando nós
pensamos em certas culturas da Europa ocidental, como, por
exemplo, a alemã e mesmo a francesa, dizemos para nós mesmos que
elas são avessas ao budismo. O que você pensa disso?
J-CC
O que você
chama de tradição francesa?
BM
Para mim,
existem fundamentalmente duas: a rabelaisiana e a proustiana…
J-CC
Se você
estivesse se referindo ao catolicismo, eu diria que você tem
razão. Mas é difícil afirmar que a maioria dos franceses segue
João Paulo II. Também existe aqui, na França, uma tradição
racionalista, voltairiana…
BM
Mas você
acha que essa tradição racionalista favorece a maleabilidade?
J-CC
Mais do
que a outra.
BM
A cultura
francesa funciona inteiramente segundo o princípio da
não-contradição, do terceiro excluído. No Brasil, há uma
religião e uma cultura que não funcionam dessa maneira. O santo
católico é cultuado junto com o santo africano. Não existe uma
relação de exclusão. O Carnaval, que segundo um dos nossos
grandes escritores, Oswald de Andrade, é a religião nacional,
tanto exibe cinderelas negras quanto gueixas loiras.
J-CC
Na Índia, a cultura também não é inteiramente regida pelo
princípio da não-contradição.
BM
O budismo
preconiza a rejeição do desejo e se vale para isso de uma série
de recursos, entre os quais a meditação. Ora, nós ocidentais
fomos e somos formados para insistir no desejo. Os surrealistas
falavam na onipotência do desejo. A psicanálise ensina a
conhecer o próprio desejo e a perseguir a sua realização. Como
explicar a moda do budismo no Ocidente?
J-CC
Não se
pode dizer que o budismo rejeite totalmente o desejo. O desejo
de ser agradável a você, por exemplo, ou o desejo que alguém tem
de auxiliar alguém é um verdadeiro desejo para o budismo, que
não é propriamente uma teoria da renúncia. O budismo valoriza a
ação, ele nos leva a auxiliar os outros. Não digo que eu o faça,
mas com este livro, fiz.
BM
Como?
J-CC
A maioria
dos direitos autorais vão para o Tibete.
BM
Voltando à
questão do desejo…
J-CC
Tudo
depende do sentido em que a palavra “desejo” é utilizada. Quando
se trata do desejo de consumir, que a publicidade procura
despertar, o Dalai Lama diz que é o mal do Ocidente, porque é um
desejo insaciável, leva à frustração e à destruição do planeta.
Já a noção de desejo, tal como foi utilizada pelos surrealistas,
não é contrária ao budismo. O desejo surrealista é, por um lado,
um desejo de conhecer uma realidade surreal, e, por outro, de
estar à escuta do mundo e de transformá-lo. Os surrealistas
foram, aliás, os primeiros no Ocidente a denunciar o consumo. No
que diz respeito ao desejo no sentido sexual, a questão é tão
problemática no budismo quanto nas outras religiões. Não cheguei
a falar muito sobre isso com o Dalai Lama. Existe uma confusão
entre o amor e o sexo que nunca foi resolvida. Felizmente,
aliás, do contrário eu não teria trabalho. As histórias de amor
são essenciais à produção cinematográfica.
BM
Você diz
no livro que o século XX terá sido o do exílio. Seria possível
falar sobre isso?
J-CC
Nenhum
outro século viu tantas pessoas deslocadas voluntária ou
involuntariamente.
BM
O século
XX terá sido também o dos mestiços…
J-CC
E eu me
pergunto se a América Latina, que há mais de duzentos anos
produz obras belíssimas sobre a questão da identidade, não virá
a ser um continente muito importante. O que foi considerado a
fraqueza do continente – a mestiçagem – talvez venha a ser a sua
força. O mundo de amanhã será necessariamente mestiço, e é
possível que, para isso, o continente latino-americano esteja
mais preparado do que a Europa. Na América Latina, só se falam
duas línguas. Todos os sistemas de produção e de coprodução
podem ser facilitados. Quando Menem falou na televisão
brasileira, sequer houve tradução. A barreira da língua não
existe. São as mesmas origens culturais. O mestiço, na história
do mundo, foi considerado durante muito tempo um personagem
inferior – Es un mestizo. Em francês se diz métèque
para alguém que não é de raça pura. Ora, nós sabemos que as
raças misturadas são mais resistentes do que as outras e que os
filhos dos mestiços tomam o que há de melhor em cada um dos
pais. Ademais, é possível que o mestiço seja mais tolerante.
BM
A
propósito do continente latino-americano, você ouviu falar de um
autor chamado Paulo Coelho?
J-CC
Ouvi, mas
não li o livro dele.
BM
Vendeu 300
mil exemplares aqui na França, apesar da crítica, que o
caracterizou como um autor decidido a se inscrever no registro
do comércio e da Imaculada Conceição. Pena que você não tenha
lido, pois eu gostaria que você me explicasse a razão do sucesso
dele num país cuja tradição é cartesiana.
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Betty
Milan (Brasil, 1944). Romancista, ensaísta e dramaturga.
Colaborou nos principais jornais brasileiros e
atualmente é colunista da revista Veja. Sua
bibliografia inclui títulos como O
papagaio e o doutor (1991),
Paris não acaba nunca (1996),
Fale com ela (2007),
e Quem ama escuta (2011). Esta
entrevista integra o livro A força da palavra.
Reúne os artigos “A voz do guru Dalai Lama”. Folha de
S. Paulo, 3/09/1995, e “Carrière diz que roteirista
é o narrador do século 20”, Folha de S. Paulo,
30/05/1993.
Contato: bettymilan@free.fr.
Página ilustrada com obras de Luciano Bonuccelli
(Itália), artista convidado desta edição de ARC. |

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