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NICOLAU SAIÃO |
Três
incursões no escuro da noite e do sol

Organizei
este pequeno ensaio em três entradas num período em que o meu
país saía de uma grave situação que num futuro podia ter caído
em algo irreversível. Um período em que sucessivos esqueletos
saltam dos armários anteriormente construídos por uma
administração pública liderada por aventureiros políticos que
visou – percebemo-lo agora claramente – estabelecer um ambiente
autoritário/cleptocrático de tipo peculiar, ainda que não
original e que George Orwell aflorou, embora com recorrências
imaginativas, numa das suas encenações literárias.
Eu poderia
dizer, parafraseando ironicamente Georges Arnaud, o famoso autor
de “O salário do medo”, que “Esta sociedade, por exemplo, não
existe. Eu sei-o, vivi lá!”.
Como na
obra de Samuel Beckett “Malone está a morrer” é referido a dada
altura, “O que interessa é só prestar atenção aos sobressaltos”.
Ou, para citarmos Jules Morot no seu “O espírito do bem”, “A
casa/ou da vida ou da morte/ costuma sempre ficar um bocadinho
mais ao lado”.
Por outras
palavras menos simbólicas, mais chãs e terra a terra: se estamos
vivos já nem sequer é por acaso, como assinalava algures Jean
Rostand, mas sim porque os senhores do mundo nos consentem, por
altamente lhes convir, que existamos em todos os pontos
cardeais… E o resto é conversa.
As 3
análises seguintes, ainda que se refiram a livros diferentes uns
dos outros de autores de diferentes origens, apontam para algo
que lhes é comum e que, a meu ver, explicam um específico
universo conceitual e societário em que hoje existimos nesta
parte do mundo – a violência camuflada da parte de setores
privados, a “suave brutalidade” de cunho estatal e, por último,
o que num geral mundial se apresenta inquietantemente às
consciências: o relativo desconhecimento da insídia e dos
manejos nefandos de seres criadores/dependentes de um mundo
pervertido pela desrazão que subscrevem.
Não é por
acaso que todos eles têm por cenário ou invólucro a escrita e as
suas diversas faces do eventual conhecimento, de potencial
acesso à sabedoria (ou a sua negação absoluta) e as armadilhas e
perversões que eles podem possibilitar ou esconder.
Dito isto,
comecemos.
***
A mais
bela artimanha do diabo é a de persuadir-nos de que não existe.
Baudelaire
A PROPÓSITO
DE O MESTRE DE ESGRIMA: O SOL NEGRO DE ESPANHA
| A obra epigrafada, de Arturo Pérez-Reverte, é uma parábola
sobre a sabedoria.
Debrucemo-nos sobre este livro iniciático, que, aliás, nos
fornece o exemplo de como progride um texto discretamente
apresentado como um thriller histórico – e o autor fá-lo
com a sutileza que lhe permite ter o necessário impacto, como se
verifica a uma releitura. Este procedimento é usual e
caracteriza, aliás, outras tragédias da literatura policial
como, por exemplo, “Versão original” ou “Um domingo esquecido”,
respectivamente de Bill Ballinger e Fred Kassak. A sequência
novelesca é dada como uma lição prática de esgrima: “Do
assalto”, “Ataque simulado duplo”, etc.
Depois da
introdução, o autor refere como de passagem que é uma
“tragédia”. Tal como sucede com outros detalhes capitais (o nome
de Cazorla, tio de dois dos alunos de Jaime Astarloa, que assim
sabe da existência do mestre de esgrima e das relações que este
tem com o marquês dos Alumbres, o que permite perpetrar-se a
armadilha que o irá aniquilar) isso é dito dissimuladamente,
escapando à atenção dos leitores menos atentos.
Aparentemente, portanto, o livro é uma história de mistério
ambientada num período histórico determinado.
Naquela
Madrid da segunda metade do século dezenove, alheado dos embates
que em volta se verificam (conspirações do general Prim que em
breve iriam levar à queda de Isabel II, a mui católica rainha
duma Espanha herdada de Narvaez, “o Militarão de Loja”, morto
antes do começo da ação) vive um mestre de armas clássicas,
discípulo do famoso esgrimista francês Lucien de Montespan e
imbuído dos princípios de honra e de fidelidade que aprendera a
cultivar na Paris de um quarto de século antes. Estranhos
sucessos começam a desenrolar-se em sua volta depois de ser
visitado por Doña Adela de Otero, fascinante mulher ainda jovem
que dispõe duma extraordinária capacidade como esgrimista.
Aceite
pelo mestre após hesitações iniciais provindas da tradição,
Adela revela-se como uma mulher que tem por trás de si um
segredo (revelado posteriormente). A sua vida é pouco vulgar e
em certos círculos da capital espanhola isso é comentado mais ou
menos discretamente: não trabalha, não é nobre e, todavia vive
com evidentes meios materiais.
Em volta
do maestro agitam-se personagens ora equívocas ora típicas de um
ambiente em que as convulsões sociais eram determinadas pela
decadência da monarquia espanhola e o ascendente republicanismo.
Mas Astarloa, descentrado dum tempo que lhe não pertence uma vez
que é um avatar da era precedente onde pontificavam os seres
honoráveis da sua juventude, toma as coisas pelo seu valor
facial: apaixona-se por Adela e, dada a profunda solidão em que
vive e que enfrenta mediante o apego às recordações, passa a
existir entre a angústia e a expectativa de algo que, no entanto
intui nunca poder alcançar.
O marquês
dos Alumbres, único indivíduo que lhe demonstrava uma verdadeira
estima caldeada de apreço pelas tentativas que o maestro vai
efetuando para escrever o livro sublime sobre a estocada
imparável, morre de forma violenta. Astarloa está agora
definitivamente só, uma vez que Adela também deixou as aulas de
atiradora esgrimista que eram o refrigério de Jaime, votado
agora apenas a ganhar o pão quotidiano.
Depois de
diversas peripécias de índole dramática (luta com assassinos a
soldo, um companheiro torturado de forma bárbara por rufiões, o
assassinato de uma mulher que a polícia toma pela bela
manobradora, etc.) há de noite um último encontro entre uma
Adela afinal viva e um Jaime que começa a entrever algo que, no
entanto não consegue verdadeiramente nortear: não nota que numa
das cartas dum ministro consta um nome afinal seu conhecido,
assim como não repara que em documentos posteriores esse nome
desapareceu. Para cúmulo, a carta que dá sem equívocos a
identidade do perpetrador dos crimes caíra, num momento de
atrapalhação, para debaixo duma papeleira. Astarloa é, pois um
homem que não sabe o concreto, sabendo, contudo e apenas
– o que, aliás, lhe serve bem – que há causas pelas quais vale a
pena viver e morrer: a fidelidade a um passado de decência, de
respeito pelos outros e pelas recordações que lhe acalentam a
honra quotidianamente assumida.
Ao dar-se
conta das teias em que havia caído, sendo ocasional comparsa de
manejos que o ultrapassavam (os negócios escuros do regime, a
traição de correligionários, as aparências tapando as realidades
mais sórdidas…) o maestro recusa as facilidades que o seu
silêncio lhe permitiria. Apesar de amar Adela não pode esquecer
os crimes de que esta foi cúmplice e mesmo autora.
Num
último duelo entre um homem fiel aos seus princípios e uma
mulher que motivada por um drama sentimental se fizera
encarnação maléfica da Espanha “moderna”, argentária e
plutocrata (o canalha seu benfeitor e chefe é banqueiro e homem
de negócios), em condições muito desfavoráveis ele consegue
matar Adela atingindo ao mesmo tempo, num lampejo que a sua arte
e experiência das armas possibilitou, a estocada perfeita, o seu
Graal.
Por
outras palavras e dado que se voga num universo simbólico: a
descoberta da Pedra Filosofal possibilitada pela confrontação
com um amor que morrera.
Ou seja:
no ato de ser morta, Adela faz viver ainda que de forma trágica,
para sempre, a memória de Astarloa como autor de um manual
absoluto. É através desta morte em combate, que Jaime
tragicamente recapitula frente ao espelho (imagem virtual da
vida real), que tudo fica perfeito e completado.
Corpo
morto enquanto demônio, Adela cadáver repousa como uma coisa
reconfigurada e devolvida às origens e que nem mesmo é já
necessário olhar. É um invólucro apenas, presença para além de
todo o bem e todo o mal. Como que vive agora noutra dimensão,
naquilo que Jaime atingiu depois de tantos anos de busca
inglória.
A
despeito de si mesma, afinal forneceu a Astarloa a “ars aurea”
dos triunfadores. Se ela não tivesse existido, mesmo que do lado
negro e infernal, Jaime teria morrido possivelmente num asilo ou
num quarto modesto absolutamente só e desapossado do achamento.
Nesta
perspectiva, sendo uma novela iniciática, de busca da sabedoria,
é também uma novela de esperança e de amor íntegro que nos diz,
como na “Opus Magna”, que as Trevas não prevalecerão sobre os
filhos da Luz.
***
Obrigam-nos a engraxar sapatos e depois alegam que só servem
para engraxadores.
Langston
Hughes
SOBRE
VERSÃO ORIGINAL: ENTRE OS FUMOS DO AMOR E DA MORTE DE BILL
BALLINGER
| Chega-se ao fim desta novela discretamente temerosa, uma das
mais belas e perturbadoras da literatura de mistério, com uma
sensação de perda e de amargura. De relativa surpresa, que,
contudo possui uma indicação norteadora.
Nesta
tragédia poderosamente encenada e magnificamente urdida na sua
progressão enquanto matéria escrita, o acento tônico recai sobre
a questão das realidades e dos enganos que estas podem ter em
si, uma vez que não é dado ao Homem saber o que está além do que
se toma por verdadeiro e afinal contém todo um universo de
falsos indícios, de falsas indicações, de desconhecimento dos
sentimentos que realmente forjam as relações entre os seres. E
que num outro contexto tudo teriam de criativo e de salubre
ultrapassando a fábula dos desencontros.
“Se abro o
bico sem ser com um tipo fixe, estou liquidado. E, além disso,
quem acreditaria em mim?” pergunta-se o protagonista logo na
abertura desta ópera de dois tons em que o discurso pessoal é
contraponteado no itálico dos capítulos que explicitam o que,
para além dele, vai sucedendo no quotidiano que o ultrapassa. “A
coisa não faz sentido. Não faz mesmo nenhum sentido. Tenho
pensado no assunto vezes sem conta, debatido a coisa comigo
mesmo. E no fim só consigo obter vagas imagens” – continua Dan
April (Abril, significativo nome de mês) a questionar-se numa
tentativa de entender os acontecimentos que o rodearam e que se
transformaram num “retrato de fumo” (o título original é esse)
iniciado numa noite do Illinois, nessa Chicago enevoada ou
ardente de sol, “quente e preguiçosa”, essa cidade também
brumosa devastada anos atrás por um incêndio que a História
registrou.
Mas a
breve trecho o leitor suspeita, e acaba por concluir devido ao
seu estatuto, que a coisa de fato faz sentido, ou melhor:
que há um sentido singular, ainda que temível, oculto nesta
novela que por seu turno, ao contrário da primeira que
analisamos, resulta dos próprios limites do conhecimento
ou se debruça, digamo-lo desta maneira, sobre o que se pensa
saber.
É por
assim dizer, simbolicamente, uma representação desse labirinto
ou desse fumo sulfuroso que se depara ao “laborator per ignem”
numa fase em que este caminha para a Segunda Obra e em cujos
meandros tem de enfrentar as figuras enganadoras ou sinistras
dos dragões velhos cuspindo lava ou lamas mefíticas.
“Krassy
Almauniski abriu os olhos e distendeu-se na cama. Ficou quieta
uns momentos antes de se espreguiçar de novo. – Dezessete de
Março… Dia de São Patrick – disse para si mesma com satisfação –
o dia dos meus anos! – Saltou da cama e caminhou sobre o soalho
nu até junto dum pequeno espelho que estava suspenso de um fio
passado num gancho pregado à parede. Desabotoou a camisa de seda
de homem, passajada, que lhe chegava até quase aos pés e
despiu-a.
– A partir
de hoje – disse para si mesma – as coisas vão modificar-se”.
Por
representação, enquanto Dan é a parte de sonho Krassy é a parte
de realidade prática que a novela vai explicitar enquanto
progride.
Citemos
para melhor compreensão, sem irmos demasiado longe – o que
retiraria ao leitor a surpresa da sequência do relato – o texto
de apresentação inserido na contracapa: “Ao percorrer os
arquivos da Agência de Cobranças que comprara no dia anterior,
Danny April encontrou o retrato de uma rapariga.
Mas ele
conhecera aquela rapariga… dez anos antes… Que seria feito dela?
A ideia de
vê-la novamente tornou-se uma obsessão… Finalmente encontra-lhe
a pista. Mas essa pista aonde o conduz? À rapariga de outrora,
que ele sonhava meiga e delicada, ou a uma criminosa que, à
custa dos mais pérfidos ardis, subira, partindo do nada, até a
mais elevada situação financeira e social?
A ação
passa-se em Chicago, a cidade dos mil contrastes, e decorre
durante e após a 2ª guerra mundial”.
Deste
núcleo, à volta dessa busca que o protagonista enceta com
esperança e a pouco e pouco se transforma em encontro e, depois,
em desespero, o autor pinta-nos um afresco sugestivo de
situações, de personagens e de imagens que nos subjugam através
da progressão do relato.
Nem sempre
o que parece é ou, de forma ainda mais cruel (o que é constitui
a verdadeira face do drama, mas noutro espaço e num outro tempo,
daí o itálico em que esses capítulos estão vazados) Dan April é
a figuração clara do mal-amado, do indivíduo cuja existência
nunca poderia, num mundo cuja hostilidade a todo o momento se
manifesta a despeito das aparências, ir dar aos lugares de
felicidade que se lhe antolhava merecer.
Neste
relato, ao contrário do que sucede noutras novelas policiais,
não é o autor que funciona como “deus ex machina” mas sim o
leitor – que assiste a tudo sem nada no entanto poder fazer. O
enigma não se apresenta ante o leitor, mas ante a personagem
masculina, limitada pelos sentimentos que a envolvem.
Personagem trágica, tem sem que o suspeite, do outro lado,
outra trágica personagem que se desconhece enquanto tal, que não
pôde ou não soube guindar-se a um patamar de salutar formulação.
Por outras palavras: Danny, ser vencido de antemão, conserva
contudo a pureza dos que se lançam na vida com toda a carga de
boa-fé, de decência pessoal e de lealdade que confere humanidade
à existência, numa mistura de coração e de razão que
frequentemente acaba mal. A razão de Krassy é contudo outra e é
essa razão, estranhamente – porque não caldeada pelo coração –
que irá provavelmente (digamo-lo desta forma) destruir a ambos
ainda que por vias dessemelhantes.
Fábula
dos desencontros? Mais lhe chamaria fábula sobre a
impossibilidade de, num determinado contexto, a matéria se
unir ao espírito – usando esta metáfora dos antigos
alquimistas. O que é, na verdade, como os nossos tempos mostram
à saciedade e esta novela confere com aprumo, arte e evidente
desembaraço, muito mais vulgar do que as diversas moralidades
procuram estabelecer ou escamotear…
***
Porque vos
ensinam eles a amá-los, se é para vos tratar assim? Porque não
vos deixam eles em paz?
William
Irish
O homem é
perecível; pode ser. Mas pereçamos resistindo – e se ao fim o
que nos reservam é o vazio e o nada, façamos com que isso seja
uma injustiça.
Étienne de
Senancour
A PROPÓSITO
DE EXTERMÍNIO NO 31º ANDAR: A AURORA BOREAL DE PETER
WAHLOO
| Há livros assustadores. Uns pelo espírito, como por exemplo o
“Lázaro” de Andreiev, que nos coloca de chofre e sem
complacências em frente do fato de que uma vida de ressuscitado
seria, afinal, tão angustiante e repugnante como a degustação de
uma refeição apodrecida. Outros pela letra, como o “Drácula” de
Bram Stoker sobre o qual já se disse que só um leitor
completamente destituído de sensibilidade conseguirá ler numa
casa deserta e pelas horas mortas da noite.
Outros,
por seu turno – e é o caso desta “utopia negra” vazada nas luzes
boreais que conformam as sociedades escandinavas – porque o que
nele se encena está a acontecer paulatinamente. E não só
naqueles rincões.
O caso
sucedido há um par de semanas na politicamente correta Noruega,
onde os monstros particulares são produto de uma administração
cuja tenaz cegueira é a prova do seu cinismo suave e
perito em enterrar a cabeça na neve (e já não, como as
avestruzes, na areia do deserto) para sagração de um oportunismo
que finge supor que os cidadãos são um resíduo angélico
para que se não vejam as partes demoníacas do seu poder
governativo, mostra-o sem véus e sem disfarces.
Nesta
obra de entrecho quase linear, duma secura de estilo necessária
para que a sugestão resulte, Per Wahloo (que com sua
mulher Maj Sjowal deu na época a lume um belo punhado de
polars bem inseridos no gênero, mas com um timbre de
novidade que os distinguiu) segue passo a passo os sete dias
duma investigação que um inspetor da polícia efetua para que
naquela sociedade pacífica e onde o Estado mais ou menos
cordial procura que o cidadão viva sem traumas (e onde o único
crime significativo e punido, aliás, sem muita violência
expressa é a embriaguês, que, entretanto se multiplica)
tudo continue a ser sereno.
Nesta
sociedade o controle é exercido pela leitura: leitura de
revistas e de jornais com visão positiva, onde o próprio
fenômeno desportivo (fautor de paixões e frequentemente de
conflitos) não recebe muita atenção a não ser a que possibilita
que se possa epigrafar televisivamente o sucesso das vedetas que
o integram.
O
consórcio que o domina é constituído por gente esclarecida e de
“boa formação” partidária e propugnadora de uma igualdade
social estabelecida de maneira amena e que até quando
despede dos empregos o faz cordatamente: o indivíduo ou
indivídua em causa recebe uma reforma razoável e um diploma por
bons serviços, assinado por altas individualidades. E o além
está muito longe… mesmo quando ao virar da esquina.
Mas há
sempre alguém que, com impetuosidade maldosa, “sem olhar à
felicidade social a que se conseguiu chegar” (sic), resolve
meter um pauzinho na engrenagem. Por puro sadismo (como
se diz neste ocidente cristão, civilizado e culto) ou por
maldoso anarquismo (como há dias disse publicamente um
comandante da polícia metropolitana inglesa, que ao mesmo tempo
solicitou aos cidadãos britânicos que, e cito, denunciassem os
vizinhos que soubessem que perfilhavam ideias anarquistas
– o que quer que isto seja…)? Ou, ainda, por impiedade,
como se diz naqueles países do oriente que têm a dita de existir
em teocracias?
Alguém,
portanto, usando precisamente uma folha anexa não preenchida dum
desses diplomas, (uma vez que o papel é pacificamente
controlado), endereçou às autoridades uma carta inquietante,
sugerindo que inquietantes acontecimentos iriam dar-se. E embora
as forças vivas tenham essa carta por eventual simples
brincadeira, tal como uma outra insistência significante, nunca
fiando – a própria brincadeira indicaria já um escabroso, quiçá
injusto, desvio e Jensen – polícia compenetrado e eficiente
sofrendo, no entanto de um doloroso e crônico desarranjo
gástrico que nem a comida cientificamente confeccionada e posta
à disposição dos cidadãos pelo ministério da saúde que tem a seu
cargo as dietas racionais consegue tranquilizar – mergulha num
universo de entrevistas e de encontros que pouco a pouco lhe
patenteia os meandros do jornalismo, se jornalismo se lhe pode
chamar, e da criação escrita quando a criação escrita é
apenas um simulacro que ora leva ao suicídio dissimulado (ou
assistido) ora à entrega a um ambiente de mundanidade, de
sucesso e de notoriedade bastante semelhantes ao que usa
utilizar-se nesta Europa das pátrias e, suspeito-o com alguns
tremores relativos, nas sociedades alfabetizadas de outros
continentes…
Homem
sério e bom profissional, ético tanto quanto as circunstâncias
peculiares o permitem, nesta viagem iniciática de uma semana nem
sequer negra em que a desesperança do protagonista é irmã colaça
da desesperança sentida pelo leitor enquanto mergulha na
naturalidade do relato, a regra da “detective novel” é
subvertida, ou melhor: invertida. Os chefes que o comandam
preferiam não saber e a demanda de Jensen dirige-se não à
descoberta, mas à ocultação. Nas sociedades
racionalmente policiadas, como por exemplo a sociedade lusa, o
polícia, (que funciona como Nêmeses justiceiro) age
preferencialmente como aquele que camufla o enigma ou,
dizendo ainda mais esclarecedoramente, faz com que o enigma
seja uma camuflagem que garante ou sustenta o “equilíbrio”
entre as classes, para que a paz e o progresso coabitem salutar
e airosamente…
No
entanto, nem nestas mansões quase celestiais as coisas são como
deviam ser (ou se esperava que fossem).
Dizia
Antonio Maria Lisboa, numa frase bem respigada por Cesariny, que
“Todo o ato premeditado ou todo o ato leviano tem a sua
guilhotina própria”.
A mim
sempre me pareceu que ele tinha razão ao cunhar este conceito.
E, se o pudesse ter lido, creio que Jensen – e muito mais os
seus chefes – teriam dolorosamente entendido a verdade que
assistia ao infausto poeta surrealista lusitano.
Às suas
próprias custas – mas isso seria já uma outra estória…
|
Nicolau
Saião (Portugal, 1946). Poeta, artista plástico e
ensaísta. Autor de livros como
Passagem de nível
(1992),
Flauta de Pan
(1998) e
Os olhares perdidos
(2000). Contato:
nicolau19@yahoo.com.
Página ilustrada com obras de Luciano Bonuccelli
(Itália), artista convidado desta edição de ARC. |

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