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Paulo Roberto Pires x Nelson de Oliveira |
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CRÍTICA (Folha de São Paulo,
7.8.2011)
CONVIDADO A PUBLICAR na popular série "Os Melhores Poemas de", Hélio Pellegrino (1924-88) recusou-se com uma lógica irretocável e pândega: se topasse, os que ficassem de fora seriam "os piores poemas de Hélio Pellegrino". Para bom psicanalista, meio chiste basta: estava dito o que parece se passar na cabeça das hordas de escritores excluídos de antologias que pretendem representar o melhor do tempo: não estando entre os melhores, formariam o bloco dos piores? Avaliar exclusões e inclusões é, além de atividade clubística, a forma mais estéril de discutir duas antologias que, publicadas quase simultaneamente, têm, pelo menos em teoria, a mesma disposição em mapear o presente.
"Geração Zero Zero" [Língua
Geral, 408 págs., R$ 45] é a terceira organizada por Nelson
de Oliveira, que desta vez usa o enigmático subtítulo "fricções
em rede", para oferecer um "Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol" [Alfaguara, 372 págs., R$ 43,90] quer repetir, na versão hispânica da "Granta", o que a revista britânica já fez por seus compatriotas e por americanos -e, como se anunciou na Flip deste ano, o fará em 2012 pelos brasileiros. Ambas têm a marca de uma época que, como lembra o crítico de arte Boris Groys, abomina generalizações, à exceção de uma delas, grosseira: a "diversidade" da produção. "Tudo é vário", poderia ser o adágio de uma vida literária cacete. Por isso, mais vale discutir os critérios que cada uma delas utiliza para olhar em volta. Nem Nelson de Oliveira, nem a dupla Valerie Miles e Aurelio Major, os editores da "Granta" em espanhol, prestam nenhum tipo de vassalagem teórica. O que de imediato nos poupa de páginas e páginas para dizer que do presente não se pode dizer nada. A discussão do que é "o contemporâneo" é hoje uma infestação teórica como o blá-blá-blá sobre o futuro do livro, um e outro pujantes subgêneros acadêmicos dedicados a afirmar que o que importa está alhures. O trabalho desses antologistas é, portanto, de natureza mais física do que metafísica. Nelson de Oliveira diz que, para chegar aos 21 nomes, penou três anos entre mais de 150 autores que passaram pelo crivo de ter estreado em livro na primeira década do século 21 e publicado até o momento dois ou mais títulos. Valerie Miles e Aurelio Major formaram um júri com quatro escritores e contam que, depois de atravessarem mais de 300 obras de diversos países, chegaram a 22 escritores -todos nascidos depois de 1975 e tendo pelo menos um livro publicado.
INTERNET A "Granta" usa o principal critério geracional, o ano de nascimento, para flagrar o que pensa ser a produção relevante da segunda língua mais falada no mundo; Oliveira anuncia um recorte geracional, mas o baliza pela data de publicação, sendo desimportante para ele a idade dos autores. Ambos fazem protocolares ressalvas sobre a diversidade de vozes, a arbitrariedade de seus próprios critérios e choram pitangas pela incontrolável multiplicação de textos na internet. Para Nelson, "a maçaroca líquida da web" afeta a geração "apenas superficialmente"; para a dupla de editores, há uma explosão de informação que se traduz "nas mil formas de promoção autista que, como fogos de artifício, nos distraem da concentração mínima para uma leitura ponderada". Assim, "Zero Zero" e a "Granta" procuram botar-se à parte da rede com uma profissão de fé nas formas tradicionais de publicação e circulação. Embora ressaltem que a maioria dos autores atua no universo virtual, os editores da revista advertem para a multiplicação de "epifenômenos" e explicam que não fariam uma "apologia da internet" por lhes bastarem "os entusiasmos do futurismo de um século atrás". O brasileiro recorre a outro porto seguro crítico, lembrando o lugar-comum de que "O Jogo da Amarelinha" de Cortázar dá "de dez a zero em qualquer experiência on-line". Afirma-se assim a precedência do livro e, principalmente, de um circuito convencional de produção, difusão e consagração num momento de convivência entre as duas lógicas -a da vida literária tal como a conhecíamos e de outra, conectada, acelerada, precária e muito interessante.
REFERÊNCIAS Mesmo assim, antologias do presente cumprem papel importante, especialmente num momento em que boa parte da crítica se contorce para evitar a assertividade. E esse papel é tanto mais importante na medida em que seus organizadores consigam determinar parâmetros para compreender melhor o momento literário. É precisamente aí que abre-se um abismo entre o resultado da "Granta" e da "Zero Zero". Os jovens escritores em espanhol lidam com uma questão central: a angústia de influência transcontinental, vinda por um lado do "boom", Gabriel García Márquez à frente, e, por outro, da opressiva catedral imaginativa de Jorge Luis Borges. Hoje, lembram Valerie e Major, a dualidade foi quebrada pela energia libertadora de Roberto Bolaño mas também pelo novo animal da floresta hispânica, o espanhol Carlos Ruiz Zafón, narrador que aparece como alternativa comercial inteligente ao "déjà-vu" de uma Isabel Allende. Ou ainda pelo extraordinário rigor de Javier Marías e o antídoto irônico de Enrique Vila-Matas. Os escritores de 30 e poucos anos manobram com liberdade as associações entre literatura e política que pareciam exigências nas gerações anteriores e veem a língua em que escrevem romper barreiras num mercado internacional dominado pelo inglês, mas sensivelmente mais aberto. Com essa bússola em punho, fica mais fácil guiar-se entre autores tão diferentes quanto o mexicano Alejandro Zambra e a argentina Samanta Schweblin. "Geração Zero Zero", ao contrário, pouco propõe. Como contextualização geral, Nelson de Oliveira cita, na pág. 16, Lula, Obama, genoma, aquecimento global, papel digital. No que chama de "era do clique", "o universo nunca foi tão conturbado, tão humano e desumano". No Brasil, informa, são publicados anualmente quase 20 mil livros, dados da Câmara Brasileira do Livro que pouco dizem se não forem interpretados além da observação "é livro demais" (na mesma pág. 16). Nas três páginas seguintes (uma delas dedicada a agradecimentos), frustra-se quem busca as "fricções críticas". Para o autor, a crítica ou a atividade do antologista consiste no "reconhecimento de padrões", "procedimento que faz vista grossa para as diferenças e amplia consideravelmente as semelhanças" -o que é desmentido à larga pelo esforço interpretativo dos organizadores da "Granta".
INTERPRETAÇÃO Quando propõe interpretação, Oliveira o faz rápida e confusamente: afirma que o "ponto de contato" entre os autores da geração que nomeia é "o bizarro". O antologista refere-se, citando um texto que publicou em 2008, a uma "atmosfera bizarra" que, "tendo em vista apenas a estrutura formal" das obras, manifesta-se em diversas formas: "ora em linha reta, ora em zigue-zague, ora fragmentada, ora pulverizada e misturada, mas sem jamais perder a consistência bizarra". "Bizarro" pressupõe, claro, excentricidade e, obrigatoriamente, uma referência central que a configure como desvio ou distorção. É essa referência que não fica clara, assim como "Geração 90 - Os Trangressores", a antologia de 2003, não esclarecia o que aqueles escritores transgrediam nem como o faziam. As duas têm em comum a ideia de que a qualidade literária está identificada com uma "margem" e que o criador é sempre desviante. Noção que, por ser vaga, pouco ajuda a compreender o momento literário -pois, convenhamos, toda antologia é uma tentativa de interpretação.
BANDEIRA "O princípio editorial de toda antologia é a consagração", afirma Oliveira, citando como exemplo a laboriosa atividade de antologista de um Manuel Bandeira. Se recorresse ao próprio poeta, constataria que a questão é infinitamente mais complexa. Em carta endereçada a Antonio Candido em 1946, Bandeira discutia as restrições que o jovem crítico fizera à sua "Apresentação da Poesia Brasileira". "Uma antologia, ainda adotando de saída um critério único e rígido, resulta sempre imperfeita", escreve o poeta, afastando o entendimento de que uma seleta seja sinônimo de um panteão.
E argumentava ainda que cada autor
deve ser contemplado com seus textos mais representativos, mesmo
que já sejam conhecidos, o que parece lógico e é ignorado quando
"Geração Zero Zero" reúne textos inéditos "dos melhores autores"
-critério que, na prática, faz com que pelo menos três
reconhecidos talentos sejam representados por contos que não
lhes fazem justiça. Voltando a esta carta que é uma declaração
de princípios em favor do contemporâneo, é bom lembrar a crença
de Bandeira em uma pluralidade de antologias. "Organizadas por
sujeitos de gosto diverso", ressalva ele.
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RÉPLICA
(Folha de São Paulo, 14.8.2011) O ARTIGO DE Paulo Roberto Pires na Ilustríssima de 7/8, "A bússola e a biruta", é uma curiosa "coleção de metáforas, metonímias e antropomorfismos" (como diria Nietzsche) a respeito de um abismo imaginário. Porém, quando até mesmo a bússola é uma ilusão, como escapar da miragem? Apesar disso, é muito bom saber que a antologia "Geração Zero Zero: Fricções em Rede" [Língua Geral, 408 págs., R$ 45] recolocou em pauta o tema das antologias geracionais. Fazia tempo que um trabalho desse gênero não ganhava tanta atenção. Publicada bem antes da antologia de jovens escritores brasileiros anunciada pelos editores da revista "Granta", "Geração Zero Zero" estimula um debate que beneficiará bastante a muito bem-vinda "concorrente". Os dois grandes méritos de minha antologia são a iniciativa e a precedência. Ela é a primeira a apontar os autores significativos em meio a uma infinidade de livros publicados na década passada. Assim, a antologia da geração zero zero funciona como outra maneira de legitimar esses ficcionistas, fora do mecanismo complexo de prêmios, escolha dos editores e resenhas. Enfim, a antologia joga luz sobre autores com pouca rodagem, quase sempre esquecidos pelo radar do mecanismo oficial de validação. Quando Pires faz sua lista discutível de problemas, além de pecar por inventar defeitos, peca por ignorar esses méritos.
Gosto de pensar que as antologias
geracionais são um poderoso exercício de crítica literária. Por
isso tão poucas têm sido organizadas ultimamente. Elas
DOR DE CABEÇA Se um poeta publicasse hoje um balanço da nova poesia brasileira, apontando os melhores nomes da nova geração, a gritaria seria insuportável. É por isso que escritores e críticos não fazem mais balanços geracionais. Dá muita dor de cabeça. Ninguém quer incomodar, ninguém quer confusão. Ao menos o artigo de Pires deixou isso claro, ao aceitar que as antologias geracionais são um exercício de crítica.
Mas Pires cometeu pelo menos três
erros. O primeiro foi comparar alhos com bugalhos. O bom-senso
pede que a antologia da geração zero zero seja comparada com a
antologia de jovens escritores brasileiros da revista "Granta".
Como essa O segundo erro foi acreditar nos parâmetros apresentados por Valerie Miles e Aurelio Major, editores de "Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol", sem verificar sua validade. Pires recebeu um cheque sem fundos, em euros, e tentou passar adiante. Estou para escutar mistificação maior do que essa: "Os jovens escritores em espanhol lidam com uma questão central: a angústia de influência transcontinental, vinda por um lado do boom, Gabriel García Márquez à frente, e, por outro, da opressiva catedral imaginativa de Jorge Luis Borges". Para não se perder numa miragem confortável, Pires deveria ter conversado com os jovens escritores, antes de aceitar pacificamente a bússola imaginária oferecida pela dupla Miles e Major. Se conhecesse bem a nova ficção argentina, chilena, mexicana e espanhola, por exemplo, veria que Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Juan Rulfo e Gabriel García Márquez não provocam angústia nem taquicardia há mais de 20 anos. Essa "questão central" de que falam é um clichê da teoria. É uma miragem mais da crítica do que da prática literária.
ANÁLISE RESTRITA O terceiro erro foi ignorar ela mesma, a prática literária, ficando apenas com a teoria. Das 1.300 palavras usadas por Pires em seu artigo, nenhuma foi destinada ao mais importante: a análise dos contos reunidos. Todo o seu discurso girou em torno dos dois textos de apresentação, que não ocupam mais do que 10% das duas antologias. Nada foi dito sobre os outros 90% Sinceramente, gostaria que me explicassem por que os ficcionistas e as ficções foram deixados de fora. Concordo que uma antologia como a da geração zero zero é um grande problema para um resenhista apressado. Para avaliá-la com profundidade, é preciso ler não apenas os contos reunidos mas toda a obra dos autores reunidos. Deixar esse trabalho de lado e se concentrar apenas no texto de apresentação é uma forma preguiçosa e irresponsável de se livrar do encargo.
O abismo de que fala o
artigo de Pires é imaginário, mas existe outro, bastante real.
Enquanto o debate literário clama por mais e melhores
antologias, Pires pede "referências centrais e critérios claros"
na organização de uma antologia geracional. A feliz união desses
dois apelos seria uma antologia de novos escritores brasileiros
organizada por Paulo Roberto Pires. Sua posição numa grande
editora e seu interesse pelo tema já representam meio caminho
andado. Cuidado, apenas, com as bússolas mágicas ofertadas pelos
gringos.
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Quem disse que Pires acatou? Hoje, 21.8.2011, desce a lenha em Oliveira. Ó! Sem pena. Não se sabe o que Oliveira rebaterá. O Jornal de Poesia abre espaço à tréplica de Pires, deixando o mesmo espaço, em branco, à resposta de Oliveira. Chumbo grosso? Com certeza! E, por favor, não diga o leitor que incitamos a violência. Pelo contrário, com esses desabafos, dissipamos a violência. Saúde! Vale a pena ilustrar o embate, não mais com esses bichos ferozes (os galos assassinos) do 1º round, mas com a foto da luta-suprema, Clay, Cassius Marcellus Clay (Muhammad Ali) x Sonny Liston.
Soares Feitosa, pacifista |
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TRÉPLICA
Diz Oliveira que o Brasil tem alergia ao debate. Ele sabe muito bem do que está
falando, pois assume como mérito de sua antologia o simples fato de ela existir
ou, em sua formulação, "a iniciativa e a precedência" de seu trabalho. Além de
autocentrado, Oliveira é perverso em seu tró-ló-ló "gente que faz": é aquela
velha história de que
num-país-com-tantas-dificuldades-é-uma-vitória-já-ter-realizado-algo.
Afirma Nelson de Oliveira que decidi me concentrar em sua introdução, aquela que
expõe a debilidade de seus princípios de antologista, por "preguiça". Como um
bom resenhista, ensina ele, deveria eu "ler não apenas os contos reunidos mas
toda a obra dos autores reunidos".
O antologista também quer me ensinar a argumentar. Explica ele que uma antologia
de brasileiros só pode ser comparada com outra antologia de brasileiros, como se
a "Zero Zero" e a "Granta" não fossem iniciativas análogas, buscando identificar
talentos conectados de alguma forma em um grupo livremente delimitado por seus
organizadores. Mas esta estultice também não é ingênua: ele quer provar que
prefiro o estrangeiro pelo estrangeiro, que sofro do complexo de vira-latas
rodriguiano, enaltecendo o que "vem de fora". |
"QUADRÉPLICA"
Nota do Editor do JP Confesso que não sei se o nome de um "arranca" em quarto grau seria este mesmo. Bom, tudo origina-se em "plica", pele, latim. Im-plica, isto é, enfia-se por baixo da pele; duplica, uma segunda pele; triplica, a terceira pele, e assim por diante. De "plica" também adveio "pelica", as luvas de; quase sempre de couro… de jacaré, forradas de urtiga e cansanção. No rosto! O fato alvissareiro é que entre mortos e feridos, longos anos a Pires. Longa vida a Nelson. Todos, barzinho da esquina (falo isto sem saber se bebem), felizes para sempre. A seguir, a "re-re-resposta" de Nelson: Questão de método (Folha 28.8.2011)
Decidi responder apenas ao que se aproxima, mesmo vagamente,
de um argumento consistente. O problema é que, quase todo
sublinhado de vermelho e azul, sobrou muito pouco do texto para
ser respondido. Não grifado, há um trechinho constrangedor, em
que Pires lustra em público nossas gloriosas medalhas ganhas,
oh!, na honrosa guerra a favor da nova ficção brasileira. Deixa
pra lá, sem comentário...
Afirmar que na antologia da geração zero zero há pelo menos
três contos "que não estão à altura do reconhecido talento de
seus autores", sem citar os tais contos, parece blefe. A
amostragem também é ridícula: três contos, numa coleção de 47? É
preciso rever esse método de trabalho.
Em sua tréplica, Pires se repete bastante. Continua clamando
por "elementos concretos e critérios claros" na organização da
antologia "Geração Zero Zero: Fricções em Rede", como se não
existissem. Os elementos concretos e os critérios claros estão
todos lá, citados no texto de apresentação. Discordar deles não
significa "inexistência". |
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E, finalmente, lado direito: o ponto final!
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"QUINQUÉPLICA"
Estamos surdos à dissonância (Folha, 28.8.2011) |
"SEXTÉPLICA" ???
(A Folha mandou dizer que já chega!)
POLÊMICA
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28.8.211