Jornal de Poesia, editor Soares Feitosa

 

Paulo Roberto Pires

x

Nelson de Oliveira

 

CRÍTICA  (Folha de São Paulo, 7.8.2011)

A bússola e a biruta

O norte nem sempre claro das antologias

RESUMO
Apontar caminhos está entre os objetivos críticos das antologias de literatura contemporânea, que no entanto falham caso seus organizadores não mencionem referências centrais e critérios claros que balizam suas preferências. Seletas de autores brasileiros e hispânicos mostram êxitos e impasses do gênero.


PAULO ROBERTO PIRES

LUTA LITERÁRIA

Eu é que presto
Francisco Alvim

CONVIDADO A PUBLICAR na popular série "Os Melhores Poemas de", Hélio Pellegrino (1924-88) recusou-se com uma lógica irretocável e pândega: se topasse, os que ficassem de fora seriam "os piores poemas de Hélio Pellegrino".

Para bom psicanalista, meio chiste basta: estava dito o que parece se passar na cabeça das hordas de escritores excluídos de antologias que pretendem representar o melhor do tempo: não estando entre os melhores, formariam o bloco dos piores?

Avaliar exclusões e inclusões é, além de atividade clubística, a forma mais estéril de discutir duas antologias que, publicadas quase simultaneamente, têm, pelo menos em teoria, a mesma disposição em mapear o presente.

"Geração Zero Zero" [Língua Geral, 408 págs., R$ 45] é a terceira organizada por Nelson de Oliveira, que desta vez usa o enigmático subtítulo "fricções em rede", para oferecer um apanhado não dos melhores contos, mas "dos melhores autores" dentro do recorte que propõe.

"Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol" [Alfaguara, 372 págs., R$ 43,90] quer repetir, na versão hispânica da "Granta", o que a revista britânica já fez por seus compatriotas e por americanos -e, como se anunciou na Flip deste ano, o fará em 2012 pelos brasileiros.

Ambas têm a marca de uma época que, como lembra o crítico de arte Boris Groys, abomina generalizações, à exceção de uma delas, grosseira: a "diversidade" da produção. "Tudo é vário", poderia ser o adágio de uma vida literária cacete. Por isso, mais vale discutir os critérios que cada uma delas utiliza para olhar em volta.

Nem Nelson de Oliveira, nem a dupla Valerie Miles e Aurelio Major, os editores da "Granta" em espanhol, prestam nenhum tipo de vassalagem teórica. O que de imediato nos poupa de páginas e páginas para dizer que do presente não se pode dizer nada. A discussão do que é "o contemporâneo" é hoje uma infestação teórica como o blá-blá-blá sobre o futuro do livro, um e outro pujantes subgêneros acadêmicos dedicados a afirmar que o que importa está alhures.

O trabalho desses antologistas é, portanto, de natureza mais física do que metafísica. Nelson de Oliveira diz que, para chegar aos 21 nomes, penou três anos entre mais de 150 autores que passaram pelo crivo de ter estreado em livro na primeira década do século 21 e publicado até o momento dois ou mais títulos.

Valerie Miles e Aurelio Major formaram um júri com quatro escritores e contam que, depois de atravessarem mais de 300 obras de diversos países, chegaram a 22 escritores -todos nascidos depois de 1975 e tendo pelo menos um livro publicado.

 

INTERNET

A "Granta" usa o principal critério geracional, o ano de nascimento, para flagrar o que pensa ser a produção relevante da segunda língua mais falada no mundo; Oliveira anuncia um recorte geracional, mas o baliza pela data de publicação, sendo desimportante para ele a idade dos autores. Ambos fazem protocolares ressalvas sobre a diversidade de vozes, a arbitrariedade de seus próprios critérios e choram pitangas pela incontrolável multiplicação de textos na internet.

Para Nelson, "a maçaroca líquida da web" afeta a geração "apenas superficialmente"; para a dupla de editores, há uma explosão de informação que se traduz "nas mil formas de promoção autista que, como fogos de artifício, nos distraem da concentração mínima para uma leitura ponderada".

Assim, "Zero Zero" e a "Granta" procuram botar-se à parte da rede com uma profissão de fé nas formas tradicionais de publicação e circulação. Embora ressaltem que a maioria dos autores atua no universo virtual, os editores da revista advertem para a multiplicação de "epifenômenos" e explicam que não fariam uma "apologia da internet" por lhes bastarem "os entusiasmos do futurismo de um século atrás".

O brasileiro recorre a outro porto seguro crítico, lembrando o lugar-comum de que "O Jogo da Amarelinha" de Cortázar dá "de dez a zero em qualquer experiência on-line". Afirma-se assim a precedência do livro e, principalmente, de um circuito convencional de produção, difusão e consagração num momento de convivência entre as duas lógicas -a da vida literária tal como a conhecíamos e de outra, conectada, acelerada, precária e muito interessante.

 

REFERÊNCIAS

Mesmo assim, antologias do presente cumprem papel importante, especialmente num momento em que boa parte da crítica se contorce para evitar a assertividade. E esse papel é tanto mais importante na medida em que seus organizadores consigam determinar parâmetros para compreender melhor o momento literário. É precisamente aí que abre-se um abismo entre o resultado da "Granta" e da "Zero Zero".

Os jovens escritores em espanhol lidam com uma questão central: a angústia de influência transcontinental, vinda por um lado do "boom", Gabriel García Márquez à frente, e, por outro, da opressiva catedral imaginativa de Jorge Luis Borges. Hoje, lembram Valerie e Major, a dualidade foi quebrada pela energia libertadora de Roberto Bolaño mas também pelo novo animal da floresta hispânica, o espanhol Carlos Ruiz Zafón, narrador que aparece como alternativa comercial inteligente ao "déjà-vu" de uma Isabel Allende. Ou ainda pelo extraordinário rigor de Javier Marías e o antídoto irônico de Enrique Vila-Matas.

Os escritores de 30 e poucos anos manobram com liberdade as associações entre literatura e política que pareciam exigências nas gerações anteriores e veem a língua em que escrevem romper barreiras num mercado internacional dominado pelo inglês, mas sensivelmente mais aberto. Com essa bússola em punho, fica mais fácil guiar-se entre autores tão diferentes quanto o mexicano Alejandro Zambra e a argentina Samanta Schweblin.

"Geração Zero Zero", ao contrário, pouco propõe. Como contextualização geral, Nelson de Oliveira cita, na pág. 16, Lula, Obama, genoma, aquecimento global, papel digital. No que chama de "era do clique", "o universo nunca foi tão conturbado, tão humano e desumano". No Brasil, informa, são publicados anualmente quase 20 mil livros, dados da Câmara Brasileira do Livro que pouco dizem se não forem interpretados além da observação "é livro demais" (na mesma pág. 16).

Nas três páginas seguintes (uma delas dedicada a agradecimentos), frustra-se quem busca as "fricções críticas". Para o autor, a crítica ou a atividade do antologista consiste no "reconhecimento de padrões", "procedimento que faz vista grossa para as diferenças e amplia consideravelmente as semelhanças" -o que é desmentido à larga pelo esforço interpretativo dos organizadores da "Granta".

 

INTERPRETAÇÃO

Quando propõe interpretação, Oliveira o faz rápida e confusamente: afirma que o "ponto de contato" entre os autores da geração que nomeia é "o bizarro". O antologista refere-se, citando um texto que publicou em 2008, a uma "atmosfera bizarra" que, "tendo em vista apenas a estrutura formal" das obras, manifesta-se em diversas formas: "ora em linha reta, ora em zigue-zague, ora fragmentada, ora pulverizada e misturada, mas sem jamais perder a consistência bizarra".

"Bizarro" pressupõe, claro, excentricidade e, obrigatoriamente, uma referência central que a configure como desvio ou distorção. É essa referência que não fica clara, assim como "Geração 90 - Os Trangressores", a antologia de 2003, não esclarecia o que aqueles escritores transgrediam nem como o faziam.

As duas têm em comum a ideia de que a qualidade literária está identificada com uma "margem" e que o criador é sempre desviante. Noção que, por ser vaga, pouco ajuda a compreender o momento literário -pois, convenhamos, toda antologia é uma tentativa de interpretação.

 

BANDEIRA

"O princípio editorial de toda antologia é a consagração", afirma Oliveira, citando como exemplo a laboriosa atividade de antologista de um Manuel Bandeira. Se recorresse ao próprio poeta, constataria que a questão é infinitamente mais complexa. Em carta endereçada a Antonio Candido em 1946, Bandeira discutia as restrições que o jovem crítico fizera à sua "Apresentação da Poesia Brasileira". "Uma antologia, ainda adotando de saída um critério único e rígido, resulta sempre imperfeita", escreve o poeta, afastando o entendimento de que uma seleta seja sinônimo de um panteão.

E argumentava ainda que cada autor deve ser contemplado com seus textos mais representativos, mesmo que já sejam conhecidos, o que parece lógico e é ignorado quando "Geração Zero Zero" reúne textos inéditos "dos melhores autores" -critério que, na prática, faz com que pelo menos três reconhecidos talentos sejam representados por contos que não lhes fazem justiça. Voltando a esta carta que é uma declaração de princípios em favor do contemporâneo, é bom lembrar a crença de Bandeira em uma pluralidade de antologias. "Organizadas por sujeitos de gosto diverso", ressalva ele.
 


A versão hispânica da "Granta" e a antologia "Geração Zero Zero" têm a marca de uma época que abomina generalizações, à exceção de uma: a "diversidade"

Os jovens escritores em espanhol lidam com a angústia de influência transcontinental, com García Márquez de um lado e a opressiva catedral imaginativa de Borges de outro

Quando propõe interpretação, o autor de "Zero Zero" o faz rápida e confusamente: afirma que o "ponto de contato" entre os autores da geração que nomeia é "o bizarro"

 

RÉPLICA (Folha de São Paulo, 14.8.2011)

A bússola biruta

Ninguém quer causar confusão, incomodar

RESUMO
O organizador da antologia "Geração Zero Zero" responde às críticas feitas por Paulo Roberto Pires na última edição da Ilustríssima (leia em folha.com/ilustrissima); reivindica os méritos de seu trabalho e questiona os atributos que Pires valoriza numa boa antologia: referências literárias centrais e critérios claros.


NELSON DE OLIVEIRA
 

O ARTIGO DE Paulo Roberto Pires na Ilustríssima de 7/8, "A bússola e a biruta", é uma curiosa "coleção de metáforas, metonímias e antropomorfismos" (como diria Nietzsche) a respeito de um abismo imaginário. Porém, quando até mesmo a bússola é uma ilusão, como escapar da miragem?

Apesar disso, é muito bom saber que a antologia "Geração Zero Zero: Fricções em Rede" [Língua Geral, 408 págs., R$ 45] recolocou em pauta o tema das antologias geracionais. Fazia tempo que um trabalho desse gênero não ganhava tanta atenção. Publicada bem antes da antologia de jovens escritores brasileiros anunciada pelos editores da revista "Granta", "Geração Zero Zero" estimula um debate que beneficiará bastante a muito bem-vinda "concorrente".

Os dois grandes méritos de minha antologia são a iniciativa e a precedência. Ela é a primeira a apontar os autores significativos em meio a uma infinidade de livros publicados na década passada. Assim, a antologia da geração zero zero funciona como outra maneira de legitimar esses ficcionistas, fora do mecanismo complexo de prêmios, escolha dos editores e resenhas. Enfim, a antologia joga luz sobre autores com pouca rodagem, quase sempre esquecidos pelo radar do mecanismo oficial de validação. Quando Pires faz sua lista discutível de problemas, além de pecar por inventar defeitos, peca por ignorar esses méritos.

Gosto de pensar que as antologias geracionais são um poderoso exercício de crítica literária. Por isso tão poucas têm sido organizadas ultimamente. Elas incomodam tanto quanto um longo artigo jornalístico ou um ensaio acadêmico sobre o assunto. Porém, ninguém escreve mais ensaios sobre o cenário contemporâneo, sobre a prosa e a poesia de hoje, dando nome aos bois, aos patos etc. Parece que a plaquinha na parede diz: "Não perturbe".

 

DOR DE CABEÇA

Se um poeta publicasse hoje um balanço da nova poesia brasileira, apontando os melhores nomes da nova geração, a gritaria seria insuportável. É por isso que escritores e críticos não fazem mais balanços geracionais. Dá muita dor de cabeça. Ninguém quer incomodar, ninguém quer confusão. Ao menos o artigo de Pires deixou isso claro, ao aceitar que as antologias geracionais são um exercício de crítica.

Mas Pires cometeu pelo menos três erros. O primeiro foi comparar alhos com bugalhos. O bom-senso pede que a antologia da geração zero zero seja comparada com a antologia de jovens escritores brasileiros da revista "Granta". Como essa ainda está sendo produzida, foi comparada com "Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol" [Alfaguara, 372 págs., R$ 43,90]. Escolha atrapalhada, no mínimo. Motivada, talvez, pelo proverbial complexo de vira-lata de que falava Nelson Rodrigues: para o brasileiro, tudo o que é estrangeiro é muito melhor.

O segundo erro foi acreditar nos parâmetros apresentados por Valerie Miles e Aurelio Major, editores de "Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol", sem verificar sua validade. Pires recebeu um cheque sem fundos, em euros, e tentou passar adiante. Estou para escutar mistificação maior do que essa: "Os jovens escritores em espanhol lidam com uma questão central: a angústia de influência transcontinental, vinda por um lado do boom, Gabriel García Márquez à frente, e, por outro, da opressiva catedral imaginativa de Jorge Luis Borges".

Para não se perder numa miragem confortável, Pires deveria ter conversado com os jovens escritores, antes de aceitar pacificamente a bússola imaginária oferecida pela dupla Miles e Major. Se conhecesse bem a nova ficção argentina, chilena, mexicana e espanhola, por exemplo, veria que Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Juan Rulfo e Gabriel García Márquez não provocam angústia nem taquicardia há mais de 20 anos. Essa "questão central" de que falam é um clichê da teoria. É uma miragem mais da crítica do que da prática literária.

 

ANÁLISE RESTRITA

 O terceiro erro foi ignorar ela mesma, a prática literária, ficando apenas com a teoria. Das 1.300 palavras usadas por Pires em seu artigo, nenhuma foi destinada ao mais importante: a análise dos contos reunidos. Todo o seu discurso girou em torno dos dois textos de apresentação, que não ocupam mais do que 10% das duas antologias. Nada foi dito sobre os outros 90%

Sinceramente, gostaria que me explicassem por que os ficcionistas e as ficções foram deixados de fora.

Concordo que uma antologia como a da geração zero zero é um grande problema para um resenhista apressado. Para avaliá-la com profundidade, é preciso ler não apenas os contos reunidos mas toda a obra dos autores reunidos. Deixar esse trabalho de lado e se concentrar apenas no texto de apresentação é uma forma preguiçosa e irresponsável de se livrar do encargo.

O abismo de que fala o artigo de Pires é imaginário, mas existe outro, bastante real. Enquanto o debate literário clama por mais e melhores antologias, Pires pede "referências centrais e critérios claros" na organização de uma antologia geracional. A feliz união desses dois apelos seria uma antologia de novos escritores brasileiros organizada por Paulo Roberto Pires. Sua posição numa grande editora e seu interesse pelo tema já representam meio caminho andado. Cuidado, apenas, com as bússolas mágicas ofertadas pelos gringos.

"Geração Zero Zero" legitima autores fora do mecanismo de prêmios, escolhas dos editores e resenhas"

"Se um poeta publicasse hoje um balanço da nova poesia brasileira, a gritaria seria insuportável"

"Para avaliar uma antologia, é preciso ler não apenas os contos mas toda a obra dos autores reunidos"

 

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Quem disse que Pires acatou? Hoje, 21.8.2011, desce a lenha em Oliveira. Ó! Sem pena. Não se sabe o que Oliveira rebaterá. O Jornal de Poesia abre espaço à tréplica de Pires, deixando o mesmo espaço, em branco, à resposta de Oliveira. Chumbo grosso? Com certeza! E, por favor, não diga o leitor que incitamos a violência. Pelo contrário, com esses desabafos, dissipamos a violência. Saúde!

Vale a pena ilustrar o embate, não mais com esses bichos ferozes (os galos assassinos) do 1º round, mas com a foto da luta-suprema, Clay, Cassius Marcellus Clay (Muhammad Ali) x Sonny Liston.

                                                                                                                                     Soares Feitosa, pacifista

 

 

 

TRÉPLICA

A crítica e o vale-tudo (Folha, 21.8.2011)

RESUMO
Paulo Roberto Pires responde a Nelson de Oliveira, que teve os critérios de sua antologia questionados na Ilustríssima de 7/8 e replicou em 14/8. Oliveira não teria sabido explicar seus parâmetros com clareza e procurou desqualificar as objeções que lhe foram feitas valendo-se de truculência e obviedades.


PAULO ROBERTO PIRES

NELSON DE OLIVEIRA diz que gastei 1.300 palavras para "inventar defeitos" da antologia "Geração Zero Zero" [Língua Geral, 408 págs., R$ 45] e que o óbvio desnível intelectual que apontei entre sua avaliação dos autores que escolheu e a da "Granta" dedicada aos "Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol" [Alfaguara, 372 págs., R$ 43,90] constitui um "abismo imaginário". Na mesma batida, me chama de preguiçoso, irresponsável, apressado, colonizado.
Não contei quantas palavras como essas ele usou em sua "réplica", mas é certo que nenhuma delas forma uma resposta efetiva às minhas críticas. Sua opção, truculenta e óbvia, é me desqualificar como interlocutor e evitar que se discuta a frouxidão de seus critérios como antologista, o único objeto de meu texto.

AUTOCENTRADO

Diz Oliveira que o Brasil tem alergia ao debate. Ele sabe muito bem do que está falando, pois assume como mérito de sua antologia o simples fato de ela existir ou, em sua formulação, "a iniciativa e a precedência" de seu trabalho. Além de autocentrado, Oliveira é perverso em seu tró-ló-ló "gente que faz": é aquela velha história de que num-país-com-tantas-dificuldades-é-uma-vitória-já-ter-realizado-algo.
Uma lógica que torna a crítica, qualquer crítica, uma ofensa pessoal ou uma falta moral: fazer reparos à sua antologia seria descartá-la completamente e, por tabela, estar contra "a literatura brasileira contemporânea".
O raciocínio do autoelogio é ainda edulcorado pela balela populista de que a "Zero Zero" legitima os autores por ela reunidos "fora do mecanismo complexo de prêmios, escolha dos editores e resenhas". Como não fosse Oliveira parte ativa do tal "mecanismo" na condição de diuturno resenhista dos principais veículos do país, escritor premiado aqui e no exterior, doutor em letras e autor publicado há tempos por editoras que de alternativas não têm nada. E só com a autoridade "legitimada", diga-se, pode ele antologizar à vontade, levando mais água para seu moinho cada vez que aponta um "transgressor" ou um "bizarro".

DEBILIDADE

Afirma Nelson de Oliveira que decidi me concentrar em sua introdução, aquela que expõe a debilidade de seus princípios de antologista, por "preguiça". Como um bom resenhista, ensina ele, deveria eu "ler não apenas os contos reunidos mas toda a obra dos autores reunidos".
Como os 21 autores publicaram pelo menos duas obras cada, uma resenha "profunda" deveria dar conta de mais de 40 títulos. Isso, é claro, além dos contos inéditos sobre os quais não escrevi, mas que li com atenção suficiente para observar que pelo menos três deles não estão à altura do reconhecido talento de seus autores. Tema bom para longo artigo acadêmico e péssimo para as páginas de jornal.
Oliveira, portanto, tergiversa no limite da má-fé porque quer de todo jeito que eu cite autores, "dando nome aos bois, aos patos" com um objetivo muito preciso: "fulanizar" o debate. Esse filme eu já vi: abre-se uma grita imediata de incluídos e excluídos, e o antologista sai de cena discretamente, deixando de lado o ponto fundamental de minha crítica: a fragilidade dos critérios que adotou para escalar a "Geração Zero Zero". Ao contrário do que diz, citei sobejamente o único autor que gostaria de discutir naquele texto: ele, em sua disposição de antologista.

ESTULTICE

O antologista também quer me ensinar a argumentar. Explica ele que uma antologia de brasileiros só pode ser comparada com outra antologia de brasileiros, como se a "Zero Zero" e a "Granta" não fossem iniciativas análogas, buscando identificar talentos conectados de alguma forma em um grupo livremente delimitado por seus organizadores. Mas esta estultice também não é ingênua: ele quer provar que prefiro o estrangeiro pelo estrangeiro, que sofro do complexo de vira-latas rodriguiano, enaltecendo o que "vem de fora".
Nelson de Oliveira sabe muito bem com quem está falando e sabe que a etiqueta de colonizado, além de anacrônica e intelectualmente indefensável nos anos zero-zero que pretende entender, não cola nem nunca colou em mim. Mas finge que não sabe sobre quem escrevi, quem editei e o que já discutimos cordialmente em pelo menos um debate público. E supre esta oportuna amnésia com uma saraivada de desqualificações.
Não é a geografia que faz com que a "Granta" seja mais interessante do que a "Zero Zero": naquela, há elementos concretos para que se arrisquem interpretações dos autores reunidos. É exercício menos espetaculoso e mais inteligente do que lascar um precário denominador comum, o "bizarro", categoria tão invertebrada que não aponta os caminhos dos novatos ali escalados nem acrescenta às leituras dos já bem assentados.
Propus uma conversa, Nelson de Oliveira pediu um vale-tudo. Mas quem nasceu para "Telecatch Montilla" não chega ao UFC. Sugiro então que, bem brasileiro, esforçado, cheio de iniciativas e precedências, profissionalize a carreira de brigão com o codinome Nelsinho Zero Zero. Já sai com lugar garantido em pelo menos duas antologias: a dos antologistas sem bússola nem biruta e a dos antologistas que dizem discutir com Adorno enquanto navegam na Wikipédia.

Nelson de Oliveira tergiversa no limite da má-fé porque quer de todo jeito que eu cite autores, com um objetivo muito preciso: "fulanizar" o debate.

  "QUADRÉPLICA"

Nota do Editor do JP

Confesso que não sei se o nome de um "arranca" em quarto grau seria este mesmo. Bom, tudo origina-se em "plica", pele, latim. Im-plica, isto é, enfia-se por baixo da pele; duplica, uma segunda pele; triplica, a terceira pele, e assim por diante. De "plica" também adveio "pelica", as luvas de; quase sempre de couro… de jacaré, forradas de urtiga e cansanção. No rosto! O fato alvissareiro é que entre mortos e feridos, longos anos a Pires. Longa vida a Nelson. Todos, barzinho da esquina (falo isto sem saber se bebem), felizes para sempre. A seguir, a "re-re-resposta" de Nelson:

Questão de método (Folha 28.8.2011)

NELSON DE OLIVEIRA



Quem falou em vitórias?
Resistir é tudo.

Rilke

 


PRECISEI LER a tréplica de Paulo Roberto Pires, intitulada "A Crítica e o Vale-Tudo", duas vezes. Na primeira leitura, mais descompromissada, confesso que me perdi. A sucessão de analogias com a política, o cinema e o vale-tudo foi muito divertida. Mas não consegui encontrar o argumento sério na saraivada de ofensas e no repeteco de falácias.
Na segunda leitura resolvi ir armado: duas canetas me ajudaram. Com a vermelha assinalei os insultos e com a azul marquei os sofismas reapresentados. Os insultos, apesar de ocuparem mais da metade do texto, não precisam de resposta. Os sofismas repetidos, já denunciados em minha réplica, também não. Nada de ecoar o eco.



MEDALHAS

Decidi responder apenas ao que se aproxima, mesmo vagamente, de um argumento consistente. O problema é que, quase todo sublinhado de vermelho e azul, sobrou muito pouco do texto para ser respondido. Não grifado, há um trechinho constrangedor, em que Pires lustra em público nossas gloriosas medalhas ganhas, oh!, na honrosa guerra a favor da nova ficção brasileira. Deixa pra lá, sem comentário...
O ponto não menos constrangedor, que realmente merece reflexão, diz respeito à metodologia. Pires afirma que um crítico literário não precisa conhecer a fundo seu objeto de análise, se em dada situação -o convite de um jornal- este objeto for maior do que suas forças. Se entendi bem, "tema bom para um longo artigo acadêmico e péssimo para as páginas de jornal" são os objetos complexos, refratários à urgência da imprensa.
Discordo. Ainda sou da opinião que um crítico precisa conhecer a fundo a literatura dos novos ficcionistas daqui e de outros países, se quiser pontificar sobre ela na imprensa ou em qualquer lugar. Se não acompanhou a produção literária da primeira década deste século, no momento mesmo em que ocorria, não adianta apenas passar os olhos pelas lombadas, cheirar as orelhas, insinuar leituras. Sua resenha não amadureceu, foi precipitada.



BLEFE

Afirmar que na antologia da geração zero zero há pelo menos três contos "que não estão à altura do reconhecido talento de seus autores", sem citar os tais contos, parece blefe. A amostragem também é ridícula: três contos, numa coleção de 47? É preciso rever esse método de trabalho.
Também é preciso rever certas palavras-chaves. O que Pires chama de "fulanizar" eu chamo de "justificar". Aprendi isso no terceiro ano do colégio, com um texto de Antonio Candido, intitulado "A Nova Narrativa" (1979), e nunca mais esqueci. Analisando a ficção brasileira da década de 70, Candido cita os autores e as obras. Nunca me ocorreu que, para não fulanizar o debate ou para não ficar mal com a galera, o crítico devesse ter ocultado os nomes.
 


DISCORDAR

Em sua tréplica, Pires se repete bastante. Continua clamando por "elementos concretos e critérios claros" na organização da antologia "Geração Zero Zero: Fricções em Rede", como se não existissem. Os elementos concretos e os critérios claros estão todos lá, citados no texto de apresentação. Discordar deles não significa "inexistência".
Mas discordar deles implicaria discordar também dos critérios apresentados pelos organizadores da antologia "Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol", da revista Granta. Isso Pires não faz e minha réplica já explicou por quê, não preciso me repetir.
Agora noto que, além de aceitar o cheque sem fundos dos gringos -uma miragem anacrônica envolvendo Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez-, Pires sequer discorda do mau uso da palavra "escritores" no título dessa antologia. "Os Melhores Jovens Ficcionistas em Espanhol" seria o correto. Afinal, poetas também são escritores e não estão lá. Quando o ovo é estrangeiro, o caçador de pelos faz vista grossa.
Este meu arrazoado não ficará sem troco, eu sei. Espero apenas menos insultos e repetecos. Não quero gastar à toa a caneta vermelha, menos ainda a azul.

Não adianta apenas passar os olhos pelas lombadas, cheirar as orelhas, insinuar leituras. Sua resenha não amadureceu, foi precipitada.
 

 

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E, finalmente, lado direito: o ponto final!

"QUINQUÉPLICA"

 

Estamos surdos à dissonância (Folha, 28.8.2011)

PAULO ROBERTO PIRES

POR UMA LÓGICA
simples, quase acaciana, a vida literária é espelho fiel do país: sob muitos aspectos, melhorou muito nos últimos dez anos. Mas, de um ponto de vista, vai de mal a pior, como o Brasil: estamos surdos à dissonância. Divergir virou, literalmente, ofensa pessoal. Ou ataque a "grandes causas" entoadas por coros de contentes.
Me propus discutir aqui apenas e tão somente o trabalho de Nelson de Oliveira na antologia "Geração Zero Zero". Se o fiz é porque, obviamente, acho que o livro merece ser considerado. Mas minha opção de análise, que propositalmente não contemplou os autores selecionados para concentrar-se no que o antologista poderia nos dizer deles e não disse, foi considerada por ele um atestado de incompetência intelectual.
Assim como Oliveira, já intervim de diversas formas no debate: escrevendo sobre os autores ou editando-os, na universidade e fora dela. Até então, meus, digamos, "pares" retribuíram o respeito com que os tratei e trato. Mas na primeira divergência séria, divergência intelectual, entra em cena a desqualificação pessoal. E o vale-tudo.

ESTRANHOS TEMPOS Três histórias ajudam, acho, a entender melhor nossos estranhos tempos. A primeira é do Brasil dos anos 1960. Um importante editor reuniu-se com um de nossos mais truculentos ditadores. Reclamava o general que alguns artigos publicados no jornal dirigido por seu interlocutor eram desrespeitosos; contra-argumentava o jornalista que eram apenas críticas, normais num debate. A conversa prosseguiu, difícil, até que o militar não se conteve: "Sabe o que é? Eu gosto mesmo é de elogio".
A segunda é da década seguinte. Em 1976, Heloisa Buarque de Hollanda sofreu críticas violentíssimas pela antologia "26 Poetas Hoje" -a mais pesada delas falava em "lixeratura". Sua resposta foi hilariante: sessão de fotos para uma revista em que, ao lado de Charles, um dos poetas, lavava e passava os poemas "sujos".
A terceira envolve um dos críticos mais importantes do século 20, Edmund Wilson -a quem, é óbvio, não me comparo.

BALANÇO Como se sabe, Wilson foi um militante, que apresentou aos EUA gente como Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Em 1926, publicou, anonimamente, "The All Star Literary Vaudeville", balanço de geração que ilumina o nosso momento literário: "O autor deste artigo é um jornalista cujas atividades profissionais tem dito respeito sobretudo ao movimento literário americano dos últimos 15 anos. O autor escreveu críticas das produções daquele movimento e trabalhou em revistas com ele identificadas; o autor também tem vivido constantemente o clima deste momento. Ele tem um certa simpatia humana por todas as suas manifestações, mesmo por aquelas que, artisticamente, desaprova.
"É para ele profundamente gratificante que a literatura americana tenha sido 'vendida' para o público americano e, pelo menos a princípio, no caso de um ataque externo ele lutaria ao lado do menos inteligente, do menos desinteressado de seus confrades, pois ele próprio serviu naquele exército. Mas recentemente lhe ocorreu que, ao fazer um balanço e ser impecavelmente honesto consigo mesmo, teve que admitir que alimenta um interesse quase nulo pela maioria das mercadorias literárias que pode encontrar num mercado hoje tão vasto; e que este desinteresse chega ao ponto de repugná-lo com a publicidade que se desenvolveu a partir deste mercado.
"Ele deve levar em conta o fato de que hoje é quase impossível separar as resenhas da publicidade: ambas tendem a dar a impressão de que obras-primas estão sendo produzidas tão regularmente quanto novos modelos de carros. [...] Ou os autores se conhecem pessoalmente ou eles alimentam entre si dívidas de gratidão ou se unem por sua lealdade a alguma causa comum que lhes parece estimulante. E quase todos eles esquecem padrões de crítica em sua devoção às grandes causas comuns."
Em resumo, espírito democrático, humor e honestidade intelectual não fazem mal. Ainda mais numa hora dessas.

Estamos surdos à dissonância. Divergir virou ofensa pessoal. Ou ataque a "grandes causas" entoadas por coros de contentes

 

  "SEXTÉPLICA" ??? (A Folha mandou dizer que já chega!)

 

POLÊMICA

Ponto final - (Folha 28.8.2011)

Nelson de Oliveira e Paulo Roberto Pires encerram a discussão sobre antologia

RESUMO
Nelson de Oliveira, organizador da antologia "Geração Zero Zero", e o editor Paulo Roberto Pires, que criticou a edição, publicam seus últimos artigos e assim encerram a polêmica. Oliveira pede que os autores sejam discutidos nominalmente; Pires reivindica o direito à crítica sem ofensas pessoais.


 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28.8.211