Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

Artur Eduardo Benevides

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguma notícia do autor:


 

Poesia:


 

Resenha, ensaio & comentário: 


 

Fortuna:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), L'Innocence

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, Pietá

Artur Eduardo Benevides


Da poesia


1.

A poesia
é um pequenino veio nas colinas
a se espalhar por vésperas e matinas
até encontrar a solidão do mar.
E a solidão somos nós.
O mar:
o pranto o a voz
dos que Jamais puderam regressar.


2.

A poesia
(passacale final na escadaria
de mármore do templo)
é uma vela na noite a iluminar
os mais lívidos rostos, num convento.
Mas também é o momento
de despertar nas cores das manhãs
quando olhamos as aves sobre a paz
de acácias e romãs.


3.

É o apelo da flor na correnteza.
Ou a grandeza de todos os silêncios
sob a lâmina aguda da tristeza.
E é minha mão trêmula, a escrever
nas águas imóveis de um lago
o teu nome tão leve
qual súbito afago.


4.

e do nosso ser fragmentado.
E deve estar sempre ajoelhado
ao pé de seu êxtase e verdade.
Ele é mais do que o vôo de um pássaro
traçando linhas no azul dos céus
onde as tardes ficaram penduradas.
É o suplicar dos olhos das Amadas.
E nele respiramos. Ou cantamos.
E só assim nossa alma ficará
igual às noivas marchando para o altar.
Ou a jograis a narrar as suas coitas
e a relembrar a dor de vãs batalhas
em que morremos ao saltar do amor
as últimas muralhas.


5.

Oh, a poesia
é a tristeza sem fim no olhar de Lia!
É um balir de ovelhas ou um brilhar de estrelas
sobre as rosas nascidas a jusante
de nossa expectação mais verdadeira.
Ou a dolorosa verdade das cousas
que tentaram em vão acontecer.
E nós, que começamos a desaparecer,
semelhantes às nuvens de verão,
chegamos em silêncio
às torres finais da solidão.


6.

A poesia
(clarinete a tocar num minarete)
é minha outonal marinharia.
O madrigal arfante. A companhia
dos que demandam comigo o Santo Graal.
É minha Távola Redonda
(hermosa noche de ronda)
ou minha
mercadoria espiritual.


7.

Todo poema é triste. E sobreexiste
para que plenilúnios banhem os infortúnios
e Dionisos recrie perdidos paraísos
ou o inesperado
não doa qual visão da sombra do enforcado.


8.

Trampolim ou bergantim
a poesia é a palavra andarilha
a criar o soneto e a gentil redondilha.
Depois, em disparada, segue pelos montes
levando, em liberdade, o homem às suas fontes.
(Se tal não for será como o amor que nunca foi amor.)


9.

Ó poesia,
flamboyant que em silêncio pomos
no espaço em que já não existe
nenhum flamboyantl !
Ela é a lágrima da lágrima
como um filete de água
na prenhez inocente das manhãs.
É o gesto de afastarmos as palavras ásperas
para que não ressuscitem no terceiro dia.
É a infantaria
dos diálogos perdidos.
Ou o lavor
da sobrecanção que vem pousar
nas praias, junto ao mar.


10.

Ó êxtase incessante
em que nos escondemos do grito delirante
dos nossos fantasmas!
Ó plasma
das cousas inacontecidas
mas longamente procuradas
em toda a nossa vida!
E há uma secreta verdade no ser prisioneiro
no fundo do espelho.
Ou a geometria
de sentimentos que buscam retornar
ou tentam-me salvar
dos insucessos de vãs Cavalarias.
A poesia é um archote
que se acende nas mãos de Dom Quixote.
É uma borboleta pequenina
sobre o olhar dos cegos, numa esquina.
Por isso é um momento sagrado
ou um recado
escrito talvez em terra transmarina,
quando a pergunta fatal da última esfinge
nos atinge.
E escrevo teu nome, Amada. com meu sangue.
E torno a escrevê-lo até cair exangue.
Então, à beira do sétimo abismo,
ante o demônio da dor pratico o exorcismo
dos violões que afagam o rosto das canções.
E, às vezes, vens. E tens
a leveza das recordações.


11.

Sim, a poesia é a verdade mágica.
É o sonho a emplumar as tardes do real.
Ou alguma cousa que chega-nos, pelágica,
ou uma palavra eterna e pastoral.
A lógica poética é a beleza
a nascer do esplendor do ser em sagração
ou ao grito terrível da tristeza.
E tudo a voar, nas almas, é canção.


12.

Vem, poesia,
cobre a dor de teus pobres jograis,
enquanto os galos erguem, triunfais,
as dádivas do dia!
Ó coágulo do eterno!
Ó rosa a resistir ao implacável inverno!
Ó palavras em vôo nupcial
a salvar os pombos de bruma vesperal!
Com teus verdes segredos e vinhedos
és, poesia, a imaginária via
de andorinhas libertas de rochedos
a levar, na âmbula do olhar,
a lembrança de relvas e avelãs
que se ofertam, felizes, nas manhãs.


13.

A poesia é a festa
dos que não foram dançar.
É o verde solar
em que lembramos toda a nossa gesta.
De suas varandas olhamos comovidos
os nossos passos desaparecidos
em areias movediças, junto ao mar.
E para não chorarmos, ficamos a cantar.


14.

Tudo o que lágrima for
ou transmitir beleza em seu mistério
será um verso iluminando a dor
como, nas noites gregas, um saltério.
E a poesia é a cidadela insubmissa
por cuja ponte levadiça
só passa o Cavaleiro
que não trocou sua alma por dinheiro.


15.

Ela chega, numerosa,
e eu, quase louco, confundo-a com a rosa
que não depositei no colo das Amadas.
Do sono das aves, em horas encantadas,
vem. E tem
o vitral das metáforas ou o ônix das fábulas
e o claro azul andante das parábolas.
E é sagrada e profana.
A um tempo só — angélica e cigana.
As vezes, nave. Outras, a chave
com que abrimos os portões urbanos
ou os frios caminhos insulanos.
E vamos vindimar
com mãos de tecelão sobre o tear.
Ao fim do dia
teremos em nós a palavra perdida
ou a rima desnuda
e ressuscitaremos
para tudo o que amamos e jamais tivemos.
Mas nos livramos, com a canção,
de toda e qualquer maldição.


(do livro Noturnos de Mucuripe & Poemas de Êxtase e Abismo,
Ed. Casa José de Alencar, 1992)
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

 

 

 

 

Soares Feitosa, dez anos

Artur Eduardo Benevides


 

Um rapsodo das montanhas e dos ventos da Grécia

 

Tenho a impressão, ou a quase certeza, de que Soares Feitosa renasceu de si mesmo, através da fonte lustral da Poesia, para desempenhar um munus igual ao dos grandes bardos que viveram entre os celtas e gálios, ou de um vate romano ou de um rapsodo das montanhas e dos ventos da Grécia, narrando, com ímpeto de fogo, sua visão onírica, talássica e telúrica, escondida em seus silêncios de homem durante cinqüenta anos.
E traz, ao longo do Canto, aquele impulso épico, homérico ou rilkiano de celebrar o amor, os seres e os mitos, tendo como leitmotiv a memória ancestral do sertão, ou as dores gregárias do Nordeste, com seus sofridos personagens a caminhar, sob um sol wangoghiano, em procura do destino, deixando sobre a terra abrasada seu suor, seu sangue e suas lágrimas.

O material de que se serve esse jogral ressurecto é tão moderno ou tão eterno quanto a face da própria beleza: é o epos, ou o poema epopéico, sob a fonte da inspiração de arquétipos junguianos e lembranças localistas e universais, sobretudo da infância, com a força do olhar subitamente estendido sobre as estilhas do tempo, para cantar, com a síntese do verso, o fulgor dos temas que não morrem.

Sua chegada à poesia brasileira, saindo dos cafundós heróicos do Ceará, onde outrora soaram os bacamartes de guerra dos Feitosas, Montes e Mourões traz-nos a grande semente de que nasceram um dia a Odisséia e a Ilíada, ou a Eneida e os Lusíadas, como depois Dom Quixote ou as lendas belíssimas do Graal, e, já agora no Brasil o Canto de um Gerardo Mello Mourão, com seus Peãs, ou versos hínicos e flemejantes, de rara transcendência temática ou imagética.

A chegada de Soares Feitosa é um acontecimento de significação marcante.

E quem o ignorar não sabe o que é Poesia.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

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Nelly Novaes Coelho

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Albrecht Dürer, Mãos

Artur Eduardo Benevides


 

Morreste

 

1.
 

Morreste, afinal, ó poeta geral,
ou prossegues, lívido, a cantar
à paz de teu silêncio
e ao verde-azul
do mar?
Se ponho — sim, estás vivendo em mim.
Se digo — não, contemplo-te em canção,
qual fantasma, insone, a vagar
em nossa solidão.
Se morreste, também morreu Ricardo
e Álvaro se foi, partiu Alberto.
Ou todos esses e quantos mais tu foste
— como as máscaras gregas da tragédia —
só viveram no poema, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?
Pode um poeta perder o seu futuro
ou a morte não passa de interlúdio
no resfolgar fatal de seus ginetes?
E o fingimento? E todo o sal do mar
nascido das guitarras marinheiras
na hora de cantar?
Ai, cantar e chorar
são sempre a mesma cousa!
Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa
que vai cobrir o que de essência somos.
E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego,
por que tão perto estás e és cacto com medo
a perecer no meio de um deserto?
Oh, o teu verso tão certo a brilhar
sobre os homens e o mar
português!
Teu verso que se fez
de sono, mito, encantação e olhar.
Mesmo não crendo, creste. E assim criavas
novas formas de fé que alimentavam
a lenta sombra rubra da existência.
E foste na tarde a sobretarde
e no real/irreal a consciência
em fome de verdade.
E cantaste da vida a brevidade
entre o sempre e o jamais, a mágoa
e a História.
E nossa foi
tua vasta visão premonitória.


2.
 

É certo: em brumas sobrevéns
de Alcácer-Quibir.
Foi-te dado com isso pressentir
o mistério do tempo e da memória,
o lá-dentro das cousas e o lá-fora,
a estrada de Delfos e de Ofir.
Então, se tal se deu, nunca morreste.
Estás nos tombadilhos, a boreste,
com capa e pince-nez, a viajar.
E aqui ficamos a te reinventar
como as nuvens inventam sua sombra
de naves fantásticas no mar.
O mar de Camões. O reino das canções.
A concha dos mistérios e navegações.
E aqui te esperamos.
Virás — quem sabe — de qualquer ilhota
(ao lado de Almada e Sá-Carneiro)
no solitário voar das gaivotas.
Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora,
de algum poema teu, à luz de auroras.
Ou talvez desardomeças num soneto
inglês. E todos de uma vez
gritaremos teu nome que não some
e é camerata, e luz, e dor, e ritmo,
ou sagrado logaritmo
nas álgebras
do poema.


3.
 

No tempo te saúdo. Não te enxergo
na morte silenciosa. E só estás mudo.
A tua voz se oculta entre as ramagens
da árvore da vida. A tua voz
ferida. A tua voz
tão perto e tão distante.
Voz, como os perfumes, caminhante,
na curva e contracurva de algum fado.
E aqui estou, igual a ti, parado,
a louvar tua face essencial.
Teu sonho delirante e teu naval
olhar.
Ou o teu guitarreio e suspirar.
Ou o maldizer. Ou o teu saber.
Ou o teu grito crescendo em solidão
no reino de Netuno ou de Plutão.
 

 

 

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alphonsus Guimaranes Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

Artur Eduardo Benevides


Innamorato


I

O som de tua voz
é um ramo a nascer
da árvore da vida.
Com medo de perder-te,
sempre que chegas sinto
o travo da partida.
E quero ficar à tua margem
— Ó rosa e Mar! —
e ver tua leveza de pássaro
a voar.


II

Estar sem ti
é estar em silêncio de montanha
sem existir montanha.
É ficar em desterro,
ou regressar, calado, de um enterro
e tomar lentamente um copo de vinho,
sozinho.


III

Estar contigo
é sempre amanhecer.
É sentir que o sol de repente
toca em mim com a doçura
do que se põe no azul a florescer.


IV
Ai, tecelã da eterna poesia,
um pouco mais de ti em mim
e eu voaria!
Nem me dês teus frutos.
Basta que sorrias.
Não mereço mais. 

 

 

 

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Jorge Medauar

 

 

25/07/2005