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Autoria negada

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe
 

Talvez a mais famosa não-autoria seja a do poema "Instantes", atribuído a Jorge Luís Borges. Mas não é de Borges. Seria de Nadine Stair. Mas não é. Betty Vidigal, em bem fundamenta pesquisa, comprova que não é de nenhum dos dois, Borges ou Nadine.

O "Namorada", de Artur da Távola, é outro que se atribui a Drummond, mas é de Távola.

E mais outro, No caminho com Maiakóvski, que seria de Bertolt Brecht ou Vladimir Maiakóvski ou de um pastor protestante, alemão, da época do nazismo. Parece que o tema teria começado começa com o reverendo alemão, mas o poema é de Eduardo Alves da Costa. 

Vários sonetos de Camões, dizem que ele não os escreveu. Aqui no Ceará temos o Quintino Cunha, poeta e sátiro. Basta surgir uma presepada nova no trecho e a gente descarrega nas costas dele:  É do Quintino! Da mesma forma, na Bahia, Gregório leva a culpa por muita coisa que não fez. É assim mesmo.

 

 

Eis a lista dos principais

  1. No caminho com Maiakóvski, que não é de Maiakóvski, mas seria de Martin Niemöller, um pastor luterano, mas é de Eduardo Alves da Costa

  2. José Nêumanne Pinto comenta o assunto

  3. Betty Vidigal: Pingo no i de Instantes, indevidamente atribuído a Borges... e também a Nadine Stair

  4. Instantes, que não é Borges... nem de Nadine Stair

  5. Marionete, que não é de Garcíia Márquez

  6. Procura-se um amigo, que não é de Vinicius de Moraes

  7. Ter namorado, que não é de Drummond

  8. Orgulhosa, que não é de Castro Alves

  9. Não te amo mais, um poeminha para ser lido de cabeça para cima e de cabeça para baixo, que não é de Clarice Lispector

 

Nota:

Faltam outros. Um texto "de" Jabor, um outro "de" Pessoa. Por favor, mande-mos. Aliás, mande não! Já chega de tanta palhaçada.

 
William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels   William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

 

 
 
 

 

 
 
 
 
 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Da Vinci

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

 

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata

 

 

 

 

Um cronômetro para piscinas

 

 

 

 

 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

 

 

José Nêumanne Pinto


 

AUTORIA NEGADA

 

Instantes, o mais popular “poema de Borges” – que induziu Roberto Campos e Moacyr Scliar a erro, é profusamente citado em epígrafes de livros de poesia, está impresso em pôsteres e mobiliza multidões de leitores escrevendo para os articulistas que o reproduzem – nunca foi escrito por Jorge Luís Borges. Mas continua navegando na Internet com sua grife falsa, em meio a alertas sobre os perigos do Aspartame, correntes que prometem alimentar crianças pobres com um simples toque na tecla e promessas de cheques em dólares em troca de informações sobre novos procedimentos na rede.

E fez escola. Agora, também já circula outro, seu assemelhado, Marionete, também falsamente atribuído a um autor famoso, Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura. Antes que esse poema quase prosaico, piegas e cafona, como o citado acima, torne o autor seu refém, mais famoso por ele do que pela autoria garantida do genial Cem Anos de Solidão, chegou a hora de desmascarar os falsários literários da Internet.
Marionete

Do segundo, ainda não se conhece exatamente a origem, muito embora já se saiba que partiu de Barcelona, onde fica o escritório da agente literária de García Márquez, Carmen Balcells. A respeito do texto, ela foi categórica, mandando dizer por fax: “Não reconheço uma só palavra como pertencente a Gabriel García Márquez”. O jornalista cubano Carlos Alberto Montaner disse não crer que “Gabo tenha escrito algo tão ruim”. A escritora brasileira Nélida Piñon, Prêmio Juan Rulfo, ironizou: “O poema é tão ruim que, se fosse meu, eu negaria. Aliás, eu lhe negaria até um cumprimento”.

O jornalista e escritor Eric Nepomuceno, tradutor de García Márquez, reconheceu que o colombiano escrevera textos de qualidade duvidosa na adolescência, mas afastou a possibilidade da autoria desse por causa das citações do poeta uruguaio Mário Benedetti e do cantor e compositor catalão Joan Manoel Serrat, dos quais o Prêmio Nobel só tomou conhecimento já quando famoso.
Instantes

Instantes, o “Borges” que Borges nunca escreveu, foi usado pelo deputado federal Luiz Antônio Medeiros num cartão de Natal, reproduzido em pôsteres pelo dono do jornal carioca O Dia, Ary de Carvalho, citado como epígrafe no livro de poesia de Granadeiro Guimarães e encaminhado na semana passada ao jornalista paraibano Carlos Aranha, que o reproduziu em sua coluna diária no jornal Correio da Paraíba, de João Pessoa. Citado uma vez num artigo por Roberto Campos, provocou uma enxurrada de cartas ao economista.

Isabel Vieira e Laura Müller deram, em reportagem publicada pela revista Cláudia em dezembro de 1997, uma explicação plausível para o sucesso do poema: “seus versos falam de uma segunda chance na vida que todo mundo gostaria de ter”. Deram também uma pista para a origem da confusão com Borges: a verdadeira autora, a americana Nadine Stair, como ele, tinha 85 anos e estava à beira da morte. O poema, originalmente sob o título de Momentos, era uma espécie de testamento dela.

A viúva do escritor, Maria Kodama, contou, por telefone de Buenos Aires, que teve o cuidado de ir à Justiça deixar registrado que o texto não era da lavra de Borges e que ela, como sua herdeira, não receberá – nem quer receber – direitos autorais dele advindos. Fê-lo para evitar que sua verdadeira autora, a norte-americana Nadine Stair, venha a reclamar da falsa atribuição de autoria do texto a Borges.

Segundo Kodama, “o poema foi publicado originalmente numa antologia editada pela Bantam Books, traduzido para o castelhano e incluído, em 1987, numa revista de New Age chamada Uno Mismo, ao lado de uma caricatura e uma legenda de Jorge Luis Borges. Um locutor de rádio leu a revista, imaginou que o poema fosse de Borges, então já morto, e, assim, o divulgou”.

O escritor gaúcho Moacyr Scliar sente-se parcialmente responsável por sua divulgação no Brasil, por ter encontrado o texto em Buenos Aires e o publicado em português, em Porto Alegre. Mas, depois, fez questão de reproduzir o esclarecimento de Maria Kodama no jornal. Só que isso até agora de pouco adiantou. O texto continua circulando impresso ou na telinha do computador, como se fosse uma espécie de pecado literário borgiano. Má-fé ou engano?

Mesmo havendo indicações de que tudo pode não ter passado de um engano em cadeia, Maria Kodama não afasta a possibilidade de haver uma dose de má-fé na insistente atribuição do poema, que, segundo ela, “é péssimo”, ao gênio portenho.

A hipótese do engano é reforçada pelo que ocorreu com um trecho do poema No Caminho com Maiakóvsky, de autoria do brasileiro Eduardo Alves da Costa, muito citado como se fosse do alemão Bertolt Brecht, por ter sido incluído num pôster ao lado de um poema do autor de Turandot, ou do gênio russo, certamente por este haver sido citado no título. O problema é que, ao contrário desse caso, em que o poema é de boa qualidade literária, os textos falsos são de má feitura.

De Madri, onde mora, pela mesma Internet que dissemina esses equívocos, o jornalista dissidente cubano Carlos Alberto Montaner contou a saga de um chileno chamado Undurraga. Segundo ele, “o tipo misturava versos de Pablo Neruda com editoriais do jornal cubano Granma, compondo poemas falsos que conseguia publicar em publicações especializadas ou inscrevê-los em concursos literários, que vencia por atribuí-los sempre ao grande poeta chileno”.

O que mais intriga, no caso do falso poema em prosa, de autor desconhecido e atribuído a García Márquez, é ele se assemelhar muito ao falso poema atribuído a Borges, mas de autoria conhecida. É mais um mistério na Internet. 



 

Instantes

De Nadine Stair?
 Atribuído a Jorge Luís Borges

 

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido; 
na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
tomaria mais sorvete e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu 
sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. 
Claro que tive momentos de alegria. 
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos. 
Porque, se não sabem, disso é feito a vida: 
só de momentos - não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma 
sem um termômetro, uma bolsa de água quente, 
um guarda-chuva e um pára-quedas; 
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, 
começaria a andar descalço no começo da primavera 
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres 
e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos 
e sei que estou morrendo.

 

 Nota do Editor:

Veja matéria a matéria de  Betty Vidigal. Ela demonstra outra origem ao ao poema de não-Borges. Clique: Betty Vidigal: Pingo no i de Instantes, indevidamente atribuído a Borges... e também a Nadine Stair

 

 

 



 

 

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Um esboço de Da Vinci

 

 

Ter ou não ter namorado,

eis a questão


Ter ou não ter namorado, eis a questão

 

Atribuído a Carlos Drummond de Andrade,
mas é de Artur da Távola

 

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. 

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

 

 

Fonte, comprovando que é de Távola:

 

 

To: Feitosa

Sent: Saturday, July 20, 2002 1:10 AM

Subject: Re: Artur da Távola

Eis os dados sobre o livro do Artur da Távola:

Título do livro: Amor a sim mesmo (Não digitei errado; o trocadilho está mesmo no título.) A edição é uma coletânea das crônicas de Távola.

Editora: Círculo do Livro, por cortesia da Editora Nova Fronteira S.A.

Ano da edição: Como a edição foi realizada pelo Círculo do Livro, e não pela Nova Fronteira, não há o ano . A única data no livro é a do copyright - © 1.984 Paulo Alberto M. Monteiro de Barros (nome real de Artur da Távola)

 

Remetido por Brasileiro, Andre Dutra
[ANDRE.BRASILEIRO@bra.xerox.com]

 

 

 

 

 




 
 


 

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Poesia Temática
Autoria negada
Marionete
De autor anônimo – Atribuído a García Márquez

Se por um instante Deus se esquecesse 
de que sou uma marionete de trapo, 
e me presenteasse um pedaço de vida, 
possivelmente não diria tudo o que penso, 
mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, 
senão pelo que significam. 
Dormiria pouco e sonharia mais, 
entendo que por cada minuto que fechamos os  olhos, 
perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm, 
despertaria quando os demais dormem, 
escutaria enquanto os demais falan, e como 
desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida, 
me vestiria com simplicidade, 
me atiraria de bruços ao sol, 
deixando descoberto, não somente meu corpo, 
mas também minha alma. 

Deus meu, se eu tivesse um coração.... 
Escriveria meu ódio sobre o gelo, 
e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com un sonho de Van Gogh 
sobre as estrelas um poema de Benedetti,
e uma canção de Serrat seria a serenata 
que ofereceria à lua. 

Regaria con minhas lágrimas as rosas, 
para sentir a  dor de seus espinhos, 
e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... 
Não deixaria passar um só dia 
sem dizer à gente que quero, que a quiero. 
Convenceria a cada mulher e homem 
de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar 
que deixam de enamorar-se quando envelhecem, 
sem saber que envelhecem 
quando deixam de se enamorar. 

A uma criança daria asas, mas deixaria 
que ela aprendesse a voar sozinha. 
Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte 
não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens....
Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha, 
sem saber que a verdadeira felicidade está 
na forma de subir a escarpa. 

Aprendi que quando um recém-nascido 
aperta com seu pequeno polegar pela primeira 
vez o dedo de seu pai, 
o tem amarrado para sempre.

Aprendido que um homem unicamente tem direito de olhar 
outro hombre de cima para baixo, 
quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês, 
mas finalmente de muito não haverão de servir 
porque quando me guardem dentro desta maleta, 
infelizmente estaria morrendo... 
 

 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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e equipe

 

 

 

 

Página do editor Soares Feitosa

 

Betty Vidigal

vh1066@terra.com.br


Textos Apócrifos na Internet

I

Pingo no I de Instantes, indevidamente atribuído  a Borges... e também a “Nadine Stair”

 

Difícil decidir o que é pior para um escritor: ter um texto seu atribuído a outrem ou a divulgação,  como sendo de sua autoria, de algo que não escreveu.

Sempre houve enganos desse tipo. Um exemplo pré-internet é o do poema de Eduardo Alves da Costa, No Caminho, com Maiakovski, freqüentemente citado como obra de Brecht ou do próprio Maiacovski. O poema é longo. Os versos divulgados popularmente estão na segunda estrofe: “Tu sabes, / conheces melhor do que eu / a velha história. / Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor / do nosso jardim. / E não dizemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem: / pisam as flores, / matam nosso cão, / e não dizemos nada. / Até que um dia / o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa, / rouba-nos a luz, e, / conhecendo nosso medo, / arranca-nos a voz da garganta. / E já não podemos dizer nada.”

Na internet, não encontrei este texto como sendo de Brecht nem de Maiacovsky, mas encontrei-o sem qualquer referência a autor, acompanhado da preocupante mensagem “envie este texto a um amigo” – como soe acontecer. Digo “preocupante” porque é essa ordem, à qual carneiros de toda espécie obedecem sem hesitação, que faz com que nossas caixas de correio superlotem-se. Está num blog, o “Blogger do Lendário Rody”, http://rody.weblogger.com.br/weblog_200203.htm[1]. Encontrei-o, ainda, também sem crédito ao autor e com o título modificado para “Pisam nas Flores”, no site http://geocities.yahoo.com.br/ditaduracivil/flores.html, voltado – imaginem! – à defesa dos direitos civis.

Assim é que alguns textos tornam-se, aos poucos, de “domínio público’. 

O caso mais conhecido de autoria espuriamente atribuída é o daquela pérola de auto-ajuda divulgada como sendo de Jorge Luis Borges e chamada, em português e em espanhol, “Instantes”. Talvez nenhum i tenha sido mais pingado que esse, por pessoas esclarecidas que previnem os que deglutem informação falsa.

Apesar desse esforço conjunto, há 505 sites em português atribuindo-o a Borges. Em espanhol, 697. Em inglês, 512. Em italiano, 97. Em alemão, 33. Como interromper o processo de disseminação desse engano? Mais: como ensinar um jovem a distinguir o bom do ruim, em literatura, quando está convencido de que um autor sobre cuja grandeza há consenso escreveu aquela patacoada?

Estranhamente, não encontrei um único site com uma versão em francês de “Instantes”, embora Benjamin Rossen, que pesquisou exaustivamente as origens do texto[2], afirme que há traduções para “o espanhol, o francês, o finlandês, o sueco, o norueguês e o português”. Não sou versada em línguas escandinavas, e não pude checar essas versões, mas agradeço o envio de referências em francês, se alguém as tiver.

Diz José Nêumanne Pinto, em artigo que se pode ler no Jornal de Poesia, http://www.secrel.com.br/jpoesia/autoria.html#instantes, que “o escritor gaúcho Moacyr Scliar sente-se parcialmente responsável por sua divulgação no Brasil, por ter encontrado o texto em Buenos Aires e o publicado em português, em Porto Alegre.”

Na Folha de São Paulo, em 17 de dezembro de 1995, Moacir Scliar conta que conheceu o texto na Argentina, em 1987, atribuído a Borges. Ao retornar ao Brasil, transcreveu-o no jornal Zero Hora. “A repercussão foi extraordinária. ... ... imediatamente surgiram cópias que eu encontrava afixadas em lugares os mais variados: casas de amigos, restaurantes, repartições públicas. Ao mesmo tempo, pessoas me escreveram de Buenos Aires, contestando a autoria de INSTANTES.” E mais adiante: “INSTANTES não foi escrito por Borges e sim por uma norte-americana chamada Nadine Stair, foi publicado numa antologia da Bantam, e divulgado por Leo Buscaglia, autor de muitos livros de auto-ajuda. Em 1986 o texto apareceu em Buenos Aires numa revista tipo New Age, intitulada “Uno Mismo”. Daí chegou aos rádios, aos jornais e ao xerox...” [3]

Conta-nos Pascoalino S. Azords, no artigo Um Borges do Paraguai: “Quando esses versos já tinham chegado aos quatro cantos do mundo, só restou a Maria Kodama[4] apelar à justiça argentina para que os direitos autorais do texto apócrifo não fossem depositados na sua conta.” E continua o artigo com uma suposição: “A iniciativa da viúva de procurar a suprema corte argentina talvez tenha menos de escrúpulos do que de prudência. Caso amanhã apareça um herdeiro do verdadeiro autor de “Instantes”, Maria Kodama não estará lhe devendo nem um mísero ‘muchas gracias’.” (http://www.uol.com.br/debate/1098/colunas/colunas02.htm) .

No Caderno 2 do Estadão, em 13 de abril,  em artigo sobre texto indevidamente atribuído a Neruda, Haroldo Ceravolo Sereza cita o poeta e tradutor Ivo Barroso, que diz acreditar que a predominância, aqui, de atribuições a escritores latino-americanos se deva à semelhança entre as duas línguas: o espanhol seria mais fácil de imitar. Haroldo Ceravolo cita também Eric Nepomucemo: "é mais fácil detectar se um texto foi traduzido do inglês (pela estrutura da língua) do que se foi traduzido do espanhol" e “talvez a imagem ‘exótica’ dos latino-americanos favoreça a aceitação desses apócrifos. Somos, acima de tudo, desconhecidos e desprotegidos."

Certo. Só que este texto não foi originalmente publicado em espanhol, mas em inglês, com o título de Daisies (margaridas). A versão mais divulgada pelos que se preocupam em livrar desta pieguice a cara de Borges é que quem perpetrou o poemeto foi uma americana de Louisville, no estado de Kentucky: Nadine Stair.

Instantes e Daisies

É o que está, por exemplo, no Jornal de Poesia, num artigo de José Nêumanne Pinto, e também em http://www.umacoisaeoutra.com.br/literatura/falsos.htm, onde se comenta[5] o artigo do Nêumanne.

Aqui vai o texto objeto destas considerações, na forma como geralmente circula, em inglês:

DAISIES: If I had my life to live over again, I'd try to make more mistakes next time. I would relax. I would limber up. I would be sillier than I have been this trip. I know of very few things I would take seriously. / I would be crazier. I would be less hygienic. I would take more chances. I would take more trips. I would climb more mountains, swim more rivers, and watch more sunsets. / I would burn more gasoline. I would eat more ice cream and fewer beans. I would have more actual problems and fewer imaginary ones. / You see, I am one of those people who live prophylactically and sensibly and sanely. Hour after hour. Day by Day. / Oh, I have had my moments, and if I had it to do over again, I'd have more of them. In fact, I'd having nothing else. Just moments, one right after another instead of living so many years ahead of each day. / I have been one of those people who never go anywhere without a thermometer, a hot water bottle, a gargle, a rain coat, and a parachute. / If I had it to do over again, I would go places and do things and travel lighter than I have. If I had my life to live over, I would start barefoot earlier in the spring and stay that way later in the fall. / I would play hockey more often. I would ride more merry-go-rounds. I'd pick more daisies.

Note-se que é exatamente o correspondente em inglês à versão divulgada em espanhol como sendo de Borges  (exceto pela divisão em maior número de ”versos” na segunda). Entretanto, ainda não é a versão original em inglês. Pesquisadores dedicados concluíram que Nadine, ou quem quer que seja responsável pela versão acima, em inglês, cometeu plágio.

Assim como os supracitados, em minha cruzada na defesa de autores que reviram em suas covas e na pressa de salvar Borges dessa fogueira, eu mesma cheguei a pedir a titulares de sites de poemas que trocassem o nome de  Borges pelo de Nadine, no que fui atendida. (Entretanto, os responsáveis por estes sites passaram a receber cartas indignadas corrigindo-os e exigindo que se desse a “Borges o que é de Borges”, na equivocada opinião dos missivistas.)

Vejamos (argh!) a versão em espanhol. Não sei por que as mesmas frases soam muito mais derramadas, muito mais derretidas e piegas em espanhol ou em português que em inglês. Em inglês fica “quase” palatável. Em espanhol, é isto aqui:

Instantes: Si pudiera vivir nuevamente mi vida, / En la próxima trataría de cometer más errores. / No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más. / Sería más tonto de lo que he sido, / de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad. / Sería menos higiénico. // Correría más riesgos, / haría más viajes, / contemplaría más atardeceres, / subiría más montañas, / nadaría más ríos. // Iría a más lugares adonde nunca he ido, / comería más helados y menos habas, / tendría más problemas reales y menos imaginarios. // Yo fui una de esas personas que vivió sensata / y prolíficamente cada minuto de su vida; / claro que tuve momentos de alegría. // Pero si pudiera volver atrás trataría / de tener solamente buenos momentos. / Por si no lo saben, de eso está hecha la vida, / sólo de momentos; no te pierdas el ahora. // Yo era uno de esos que nunca / iban a ninguna parte sin un termómetro, / una bolsa de agua caliente, / un paraguas y un paracaídas; / si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano. // Si pudiera volver a vivir / comenzaría a andar descalzo a principios / de la primavera / y seguiría descalzo hasta concluir el otoño. // Daría más vueltas en calesita, / contemplaría más amaneceres, / y jugaría con más niños, / si tuviera otra vez vida por delante. // Pero ya ven, tengo 85 años y sé que me estoy muriendo.

Tradução[6] (na forma como circula na net): Se eu pudesse viver novamente a minha vida, / na próxima trataria de cometer mais erros. / Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais./ Seria mais tolo ainda do que tenho sido; / na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. / Seria menos higiênico. Correria mais riscos, / viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, / subiria mais montanhas, nadaria mais rios. / Iria a mais lugares onde nunca fui, / tomaria mais sorvete e menos lentilha, / teria mais problemas reais e menos imaginários. / Eu fui uma dessas pessoas que viveu / sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. / Claro que tive momentos de alegria. / Mas, se pudesse voltar a viver, / trataria de ter somente bons momentos. / Porque, se não sabem, disso é feito a vida: / só de momentos - não percas o agora. / Eu era um desses que nunca ia a parte alguma / sem um termômetro, uma bolsa de água quente, / um guarda-chuva e um pára-quedas; / se voltasse a viver, viajaria mais leve./ Se eu pudesse voltar a viver, / começaria a andar descalço no começo da primavera / e continuaria assim até o fim do outono. / Daria mais voltas na minha rua, / contemplaria mais amanheceres / e brincaria com mais crianças, / se tivesse outra vez uma vida pela frente. / Mas, já viram, tenho 85 anos / e sei que estou morrendo.

 

Terrível, hein? Mas, exceto pelas duas frases finais, a versão atribuída a Borges é tradução praticamente ao pé da letra do texto em inglês. O que nos leva a concluir que não procedem as lamúrias de que somos mais plagiáveis, nós, os latinos, por serem “exóticas” as nossas línguas. Talvez, ao contrário, quanto mais difundida uma língua, mais plagiadores terão acesso a ela.

Vejamos como Borges se expressa, quando dá o título de Instantes a um poema:

EL INSTANTE: ¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño / de espadas que los tártaros soñaron, / dónde los fuertes muros que allanaron, / dónde el Árbol de Adán y el otro Leño? / El presente está solo. La memória / erige el tiempo. Sucesión y engaño / es la rutina del reloj. El año / no es menos vano que la vana historia. / Entre el alba y la noche hay un abismo / de agonías, de luces, de cuidados; / el rostro que se mira en los gastados / espejos de la noche no es el mismo. / El hoy fugaz es tenue y es eterno; / otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.

Isto é Poesia. Isto é Jorge Luis Borges. Grandes autores não produzem baboseiras. (Note-se que o poema não deixa de ser fortemente religioso: a citação ao “outro Lenho”, com maiúscula, é certamente uma referência à cruz das religiões cristãs, assim como “não esperes outro Céu, nem outro Inferno” revela o Borges místico.)

Nadine

Mas estávamos falando em Nadine Stair – e quem foi ela, afinal? Uma escritora? Quem?

Ivan Junqueira, no site http://www.hum.au.dk/romansk/borges/bsol/iainst.htm, (vejam só, um site dinamarquês!) relata que a jornalista Joannie Liesenfelt[7], especializada na busca de pessoas desaparecidas, ficou intrigada com uma “antología de mujeres poetas” publicada pela Papier Mache Press[8], que tem como título um trecho deste “poema”, e viajou ao Kentucky para tentar descobrir a autora. Concluiu que Nadine não pertence a nenhuma das quatro famílias Stair do Kentucky. Entretanto, uma das pessoas com quem conversou, Laura Stair, contou que, por causa das muitas cartas que recebeu pedindo dados sobre Nadine, tinha realizado sua própria pesquisa, que a levou a uma Nadine Strain, já falecida, mas com quem conversou por telefone.

Por indicação de Laura, Joannie chegou a Byron Crawford[9], colunista do Louisville Courier-Journal, que descobriu uma sobrinha de Nadine Strain, segundo a qual sua tia não deixou outros escritos: a Música é que era sua paixão. Cega na velhice (como Borges), e vivendo em um asilo, Nadine pedia para ser levada ao piano todos os dias e tocava enquanto os outros faziam suas refeições.

Sabemos, pois, que Nadine Strain existiu: nasceu em 20 de novembro de 1892, morreu em 20 de novembro de 1988 e deixou seu corpo para a Escola de Medicina da Universidade de Lousiville. Em contrapartida, nada se sabe de Nadine Stair, a não ser que ninguém no Kentucky tinha esse nome, naquela época.

O autor

A mais antiga publicação comprovada deste texto está nas Seleções do Reader's Digest, de outubro de 1953, e seu autor é Don Herold (1889-1966), escritor e humorista, autor de cerca de uma dúzia de livros. Começa com a frase “Of course, you can't unfry an egg, but there is no law against thinking about it.” (É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei que proíba pensar nisso). Só então ele começa a desfiar as considerações sobre viver a vida outra vez, tirando-lhes, com essa introdução, o tom lamurioso. E a fatídica frase final não está lá – nem em nenhuma outra versão em inglês, exceto as que foram retraduzidas do espanhol. Estas, é claro, dão ao Borges a autoria – e seu conteúdo é ligeiramente diferente da versão original em inglês, como inevitavelmente acontece, ao se reverter qualquer coisa à língua original a partir de uma tradução.

Mas como foi que isto – acrescido da pungente frase final – passou a ser pespegado na lapela do terno de Jorge Luiz Borges, como uma tarja da web? Quem é o culpado? Quem foi o primeiro a associar grande autor e texto medíocre, numa lorota tão pegajosa que dificilmente se conseguirão recolher, algum dia, todas as suas penas?

Respostas no próximo palpitante capítulo.


Betty Vidigal é poeta, autora de Posto de Observação, entre outros livros.

 O retrato que ilustra esta matéria é de Ionaldo Cavalcanti, pintor e artista gráfico, falecido no dia 6 de maio deste ano. Ionaldo trabalhou na Última Hora e na Editora Abril, onde foi chefe de arte de várias revistas. Escreveu Esses Incríveis Heróis de Papel, sobre personagens de HQ.

Chamada: Difícil decidir o que é pior para um escritor: ter um texto seu atribuído a outrem ou a divulgação,  como sendo de sua autoria, de algo que não escreveu.

Olho 1: “Quando esses versos já tinham chegado aos quatro cantos do mundo, só restou a Maria Kodama apelar à justiça argentina para que os direitos autorais do texto apócrifo não fossem depositados na sua conta.”

Olho 2: A mais antiga publicação comprovada deste texto está nas Seleções do Reader's Digest, de outubro de 1953, e seu autor é Don Herold, escritor e humorista.



[1] Um blog é um diário pessoal, divulgado pela internet. Os blogs são geralmente escritos por adolescentes que gostam de expor seus cotidianos, acompanhados de poemetos e citações. A palavra vem de “weblog”,

[2] Benjamin Rossen, (2000) "Who Would Pick More Daisies; A study of Plagiarism and Foolery on the

 Internet." (“Quem Colheria Mais Margaridas, Um Estudo de Plágio e Embromação na Internet” (http://www.benjaminrossen.com/index_frameset_daisies.htm)

[3] Moacyr Scliar - VERSOS INFAMES: A FRAGILIDADE DA FALSIFICAÇÃO – Folha de São Paulo, 17/12/95, e http://www.geocities.com/Athens/Agora/3382/textos.htm#text1

[4] Viúva de Borges, depois de 50 dias de casamento.

[5] E onde, além disso, se pode ler a íntegra do poema No Caminho, com Maiakovski.

[6] Como consta no Jornal de Poesia; há variações em uma ou outra palavra nas muitas versões que circulam em português.

[7] Artigo de Joannie Liesenfelt,  citado integralmente por Benjamin Rossen: http://www.benjaminrossen.com/DAISIES/html/letters/Liesenfelt.htm

[8] "If I Had My Life to Live Over I Would Pick More Daisies", Papier Mache Press, 1992.

[9] Byron Crawford tem uma coluna no http://www.courier-journal.com/cjextra/columns/crawford/crawford.html


O FIM DO MISTÉRIO

Betty Vidigal

 

“A solução do mistério é sempre inferior ao mistério” (Dunraven)

 

Enquanto pratos de porcelana decorados com o texto “Instantes”, apocrifamente atribuído a Jorge Luiz Borges, eram vendidos no Mercado da Praça de San Telmo, em Buenos Aires, o mal feito não era grande. Como diz Pascoalino C. Azords, no artigo “Um Borges do Paraguai”[1], “a coisa só pegou mesmo quando caiu na Internet. Através do computador o texto pode chegar aos lugares mais distantes, e o que é pior, inteiro, já que uma mensagem eletrônica não se quebra fácil como um prato.”

Maria Kodama, viúva do poeta e editora das suas obras, diz, no prefácio do volume “Borges en la Revista Multicolor” [2], um livro improvisado que inclui textos de Borges e outros a ele atribuidos: “O mais incrível é que as mesmas pessoas que não aprovam a publicação de três obras inéditas de Jorge Luiz Borges {“El Tamaño de mi Esperanza”, “El Idioma de los Argentinos” e “Inquisiciones”], nada fizeram, diante do poema “Instantes”, da escritora norte-americana Nadine Stair[3], atribuido falsamente – creio que por ignorância – a ele. Essas pessoas, repito, nada disseram sobre o estilo ou o conteúdo desses versos, apesar da linguagem infantil que neles é empregada e apesar do conteúdo que desdiz totalmente todos os princípios que Borges sustentou até o fim da sua vida. Chegou-se ao horror de ler e estudar, em instituições oficiais, esse poema sem nenhum valor literário, atribuindo-se-o a Borges.”

No livro “Borges-Bioy”, Rodolfo Braceli inclui o seguinte diálogo:

– Si volviera a vivir?     

– Bueno... volvería a hacer las cosas que hice. Porque uno es  como es ¿no?[4]

Mas isto, naturalmente, não emociona até as lágrimas os que desejariam ver um Borges arrependido de ter sido quem sempre foi. Querem-no dizendo, em vez disso, que “se pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.”

Ivan Almeida[5] observa: “Queremos que [Borges] continue sendo Borges, mas que (...) em vez de poemas crípticos, diga o que gostaríamos de ouvir e que só as revistas que desprezamos dizem. Num mundo perfeito, um livro de Roberta Menchú seria assinado por Wittgenstein, “A Imitação de Cristo” seria de Joyce e a canção “We Are the World” teria sido composta por Mallarmé. Queremos poder dizer que nosso poema favorito é aquele de Borges.”

Quando “Instantes” apareceu no livro “Nightglow: Borges Poetics of Blindness”[6], da professora Florence Yudin, da Universidade Internacional da Flórida, o Centro Borges de Estudos e Documentação[7] pediu-lhe um esclarecimento quanto à fonte do texto. Ela indicou o número 212 da revista mexicana “Plural”, uma das mais influentes na vida cultural da América Latina, fundada por Octavio Paz em 1971 e dirigida por ele até 1976. O poema aparecia numa nota assinada por Mauricio Ciechanower, intitulada  “Un poema a pocos pasos de la muerte”, nas páginas 4 e 5 do número de maio de 1989.

Talvez a primeira dúvida quanto à autoria tenha sido despertada pelo décimo-segundo “verso”: “Yo fui una de esas personas que vivió sensata y prolíficamente”. O espanhol deselegante dessa frase, totalmente atípico, foi o que motivou a consulta do Centro Borges à professora.

Mauricio Ciechanower, por sua vez, tinha utilizado como fonte o livro “Todo México”, de Elena Poniatowska, onde há um capítulo de 45 páginas com uma entrevista que ela alega ter feito em 1976 com Jorge Luis Borges (o livro é de 1990). Na página 144 do primeiro volume desse livro, em meio a uma conversa sobre “Shaw e Conrad, Tolstoi e Dostoievski e Balzac e Proust”, a jornalista diz ter declamado a Borges dois poemas dele. O primeiro foi “Instantes”. O segundo, “El Remordimiento” (O Remorso). Ela descreve sua reação: “Borges escuta com incredulidade, com atenção, com seriedade. (...) Sorri: – Que me importa ter sido infeliz ou ditoso? Isto se passou há tanto tempo... Estes poemas são muito autobiográficos, são remorsos.” 

Em 1976, Borges tinha 77 anos. Por que razão diria “faz tanto tempo”, referindo-se a um poema “escrito” aos 85?[8] Ou, admitindo-se que exerceu aí o papel de um poeta fingidor – como somos, todos os poetas – e escreveu um poema na primeira pessoa, mas “sobre” alguém que teria os 85 anos que ele não tinha, por que teria dito o que disse à jornalista?

A entrevista foi publicada, dividida em quatro partes, no jornal mexicano Novedades, nos dias 9 a 12 de dezembro de 1973 – e não de 1976. Não haveria nada de errado em incluí-la no livro: é usual jornalistas reunirem suas melhores entrevistas para publicação num formato mais duradouro. Mas o professor Rafael Olea Franco, na “Gaceta del Fondo de Cultura Económica”[9], por coincidência em um número que continha também matéria de Elena Poniatowska,  observa que a data em que foi feita a entrevista é na verdade anterior à que consta no livro.

O poema “El Remordimiento”, que é comprovadamente de Borges, foi publicado pela primeira vez em 21 de setembro de 1975, no jornal argentino La Nación, e portanto é impossível que tenha sido citado por quem quer que seja em 1973. Isso justificaria, então, o fato de a autora ter deslocado a data da entrevista, situando-a em 1976,  depois de “El Remordimiento” ter sido publicado.

A entrevista se realizou, sim, em 1973, como comprovam diversos dados: o Prêmio Afonso Reis concedido a Elena Poniatowska nesse ano; a preocupação externada por Borges com a saúde de sua mãe; o nome de sua acompanhante na época (Claudine Hornos de Acevedo). Mas, examinando-se a publicação original da entrevista, verifica-se que nela não estão as passagens em que Poniatowska teria comentado com Borges os autores Conrad, Tolstoy e Dostoyevsky, entre outros, nem aquela em que teria declamado poemas a ele.

Elena Poniatowska teria sido, então, a responsável pela atribuição de “Instantes” a Jorge Luis Borges? Ou realmente acreditava ser dele o texto e, embora tendo fabricado ou alterado alguns dados na publicação da entrevista, não foi a responsável direta por esse engano específico?

Sabemos hoje da existência do texto do humorista americano Don Herold, intitulado “I‘d Pick More Daisies” e publicado no Reader’s Digest de outubro de 1953. Pelo simples fato de começar com a bem humorada frase “Of course, you can't unfry an egg, but there is no law against thinking about it”[10], o restante suaviza-se, torna-se quase uma piada de humor negro:. “If I had my life to live over again, I would try to make more mistakes”, etc.” E, é claro, lá não está a melancólica frase final, que talvez tenha sido a real contribuição de Nadine Strain (e não Stair) ao texto.

Portanto, aparentemente, as dezenas de versões que circulam, em diversas línguas, são todas plágio de um único autor, e um autor com copyright, ou seja, Don Herold.

Ivan Almeida nos consola, sábio: “Não há motivos para indignação. Não nos esqueçamos de que, apesar de tudo, há pessoas que ‘por causa’ desse texto passaram a ler e amar o verdadeiro Borges. Ele escreveu um texto célebre, chamado “Borges e eu”. Não sabemos com qual dos dois está história toda está acontecendo, mas podemos ter certeza de que o ‘outro’ Borges está se divertindo imensamente.”

Nota: toda a investigação sobre a inexistência de Nadine Stair está no artigo anterior, “Pingo no I de Instantes”.

Betty Vidigal é poeta, autora de “Eu e a Vela”, entre outros livros.

 

 

Chamada:

Conclusão da investigação sobre o texto “Instantes” popular e erroneamente atribuido a Jorge Luiz Borges

Olho: Talvez a primeira dúvida quanto à autoria tenha sido despertada pelo espanhol deselegante do décimo-segundo “verso”.

 



[1] http://www.uol.com.br/debate/1098/colunas/colunas02.htm

[2] Kodama, María. Prólogo. Borges em Revista Multicolor. Obras, reseñas e traducciones inéditas de Jorge Luis Borges. Diario Crítica: Revista Multicolor de los Sábados 1933-1934. Buenos Aires: Atlántida, 1995.

[3] O artigo anterior, Pingo no I de “Instantes”, já demonstrou que o texto não é originalmente de Nadine Stair.

[4] Braceli, Rodolfo. Borges-Bioy. Confesiones, confesiones. Buenos Aires: Sudamericana, 1997.

[5] Ivan Almeida. "Jorge Luis Borges, autor del poema 'Instantes". Borges Studies on Line. On line. J. L. Borges Center for Studies & Documentation. Internet: 17/06/01 http://www.hum.au.dk/romansk/borges/bsol/iainst.htm)

[6] Yudin, Florence L. Nightglow: “Borges’ Poetics of Blindness” (O Brilho da Escuridão: A Poética da Cegueira, em Borges). Salamanca: Universidad Pontificia de Salamanca, 1997.

[7]  J. L. Borges Center for Studies & Documentation, Universidade de Aarhus, Dinamarca

[8] “Mas tenho 85 anos e sei que estou morrendo” é a frase final do texto popular.

[9] Olea Franco, Rafael. “Borges: los riesgos de la fama (poética)”. La Gaceta do Fondo de Cultura Económica. Nueva Época 346 (outubro, 1999).

[10] ‘É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei que proíba pensar nisso.”

 

 

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