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José Mármol: breve roteiro para compreensão da poesia dominicana

(entrevista conduzida por Floriano Martins)

 

FM - Diz José Rafael Lantigua que em tua poesia paixão e desejo conduzem “a uma reflexão sobre a presença e o gozo, uma reflexão sobre a matéria da fortuna, sobre o caminho demarcado e sobre as linhas de fundo da realidade cotidiana”. Esta seria a tua obsessão poética, a fundação de um espaço de diálogo a partir da paixão e do desejo?

JM - Essa forma com que José Rafael Lantigua tece algumas considerações sobre minha poesia, centrando-a sobre os eixos da paixão e do desejo, tendo, ainda, como marco referencial o cotidiano, me parece bastante acertada. Escreve-se sempre, seja em prosa ficcional ou em versos, sobre a paixão, o desejo e a nostalgia. O interessante na observação que citas de Lantigua, um crítico que merece minha consideração e respeito, sobretudo, porque não admite dissimulações, e porque seu maior compromisso é sempre com a qualidade da obra que estuda, é que se afasta do descrédito dirigido à minha poesia pela maioria dos críticos dominicanos, como arquétipo ou clichê, que reduz minha escritura poética a um vínculo profundo com a filosofia. Segundo essa crítica, minha poesia é eminentemente filosófica. Entretanto Lantigua adverte sua dimensão cotidiana, familiar, por vezes coloquial, quero dizer, sua dimensão humana, antes de qualquer tratamento poético de categorias filosóficas ou doutrinárias. Soledad Alvarez, poeta e crítica de admirável obra, também enfatiza em minha escritura aspectos que transbordam a reiterada preocupação pelo tema filosófico. Ela destaca o passional, o erótico, o humanamente confessional e o cotidiano, tratados sempre, isso sim, como objetos de linguagem. O que admito e creio que minha própria escritura é capaz de revelar, sem sequer minha ajuda explicativa, é a íntima relação entre o pensamento e a palavra; quer dizer, a fundamentação gnoseológica e lingüística do fenômeno poético, fato este que transcende os limites de uma disciplina como é a filosofia.

Na hipótese de que tenha sido uma falta grave para a tradição poética dominicana a aproximação dos atos de poetizar e pensar, talvez deva admitir alguma culpabilidade em haver impulsionado os últimos decênios, junto a precedentes e grandes poetas dominicanos como Franklin Mieses Burgos (1907-1976) e Manuel del Cabral (1907-1999), a quem considero mestres, veredas do pensamento dentro da expressão poética. Não podemos confundir a poesia de pensamento com o que se conheceu desde inícios do século XX em nosso país como poesia metafísica, de que são representantes Ricardo Pérez Alfonseca (1892-1950), com seu poema “Oda de um yo”, e o postumista Domingo Moreno Jiménes (1894-1986), com seu “Poema de la hija reintegrada”.

Sempre mostrei-me propenso, e o fundamentei em meus ensaios, a uma poética do pensar, que por sorte fizeram sua outros jovens poetas e estudiosos literários de meu país. A República Dominicana teve dois grandes poetas pensadores no século XIX e inícios do século XX. Trata-se de Salomé Ureña de Henriquez (1850-1897), mãe do grande humanista da América Hispânica, Pedro Henrique Ureña e dos excelsos investigadores e escritores Max e Camila, que fora, também, proveitosa discípula do mestre positivista porto-riquenho Eugenio María de Hostos; além de Gastón Fernando Deligne (1861-1913), célebre poeta e pensador. Minhas reflexões teóricas e minhas práticas poéticas evocam, de algum modo, o legado daqueles mestres.

De forma que o conceito crítico de José Rafael Lantigua, que insere minha poesia pensada no marco da vida real e mais além do livresco e do estritamente disciplinar em termos de saber, corresponde também com tua afirmação segundo a qual minha poesia é um espaço de diálogo entre a paixão, o desejo e o pensamento, claro está, porém todos depurados pela preeminência da linguagem no próprio fato poético. Para mim, o problema fundamental na escritura criativa é a linguagem. O universo de um texto poético nasce e se expande infinitamente em função de sua qualidade simbólica e estética. Esta condição, sine qua non para a obra literária, não pode ser amenizada por nenhuma referência real nem pelo mundo e a vida concreta. Estes devem ser sugeridos pelo poder simbólico, pela força criativa da própria linguagem poética.

FM - Na edição de Lengua de paraíso y otros poemas (1997) os textos que incluis de um livro anterior, Deus ex machina (1994) são comprometidos em sua estrutura original, pois já não se apresentam como poemas em prosa. O que há de consciência estética nessa tua abordagem do poema em prosa?

JM - O poema em prosa (seja produto da prosa poética ou da poesia em prosa) tem de ser visto como um estágio evolutivo superior do versolivrismo na poesia hispano-americana, expressão esta que na República Dominicana, e de acordo com as afirmações do crítico e investigador contemporâneo Manuel Mora Serrano, deu-se desde a primeira década do século XX. Certamente que a maior influência recebida na poesia em prosa de língua hispânica estaria situada em Charles Baudelaire  e no simbolismo francês, e no impacto que este movimento produzirá nas vanguardas européias e latino-americanas da primeira e segunda décadas do século XX, desde o futurismo de Marinetti, o expressionismo de Dvork e Fretzer, o primeiro cubismo de Apollinaire e Reverdy, o dadaísmo de Tzara e Picabia, o surrealismo de Breton, o creacionismo de Vicente Huidobro, até o Postumismo dos dominicanos Moreno Jiménes, Andrés Avelino (1900-1974) e Rafael Augusto Zorrilla (1892-1937), surgido no início dos anos 20 e o posterior movimento da “Poesía Sorprendida”, até inícios dos anos 40.

Em uma perspectiva pessoal, e seguindo os parâmetros de tua pergunta, tenho que confessar que o descobrimento, ao final dos anos 80, das técnicas da escritura automática surrealista, assim como a entrada em contato com textos e autores como Nadja, de Breton, y Vlía do poeta sorprendido dominicano Freddy Gatón Arce, ao mesmo tempo que,  Os paraísos artificiais, de Baudelaire , e a poesia do venezuelano José Antonio Ramos  Sucre e do peruano Martín Adán, entre outros, me despertou uma inquietude em torno da escritura poética em prosa, que não estava refletida em meu primeiro livro El ojo del arúspice, que data de 1984, mas sim posteriormente, já que ainda estudava a possível evolução. Como assinalas muito bem, não será senão até a publicação de textos como La invención del día (1989) e Encuentro com las mismas otredades II (1989), que já havia concluído por volta de 1987, quando a elaboração teórica já tinha forma de poemas concretos, ou melhor, havia se tornado poética em si mesma e para si mesma. Nestes dois volumes, além do mais, aparece uma concepção diferente da semantização de alguns sinais de pontuação, na regra gramatical, e de leitura do verso, na ordem preceptiva. Por exemplo, o ponto deixa de funcionar como final de oração (o verso) para converter-se em indicador semiológico de corte ou pausa. Foi trabalhoso entender, a princípio, estas apostas, mas logo foram assimiladas e aceitas.

Meu livro Deus ex machina (1994) foi concebido como poesia de estrutura prosada, ou poesia em bloco, desde sua própria gênese. Com ele persegui, em termos de estratégia poética e discursiva, contribuir para a aspiração estética geral de eliminar as fronteiras imaginárias entre a prosa e o verso; porém, sem inclinar-me ao chamado prosaísmo, ou melhor, afastando a estrutura orgânica do próprio verso e imprimindo-lhe propriedades consideradas convencionalmente prosistas, ou exclusivas da prosa, como a riqueza de detalhes, orações entrecortadas que formam uma sintaxe coloquial, entre outras. Se notastes alguma mudança estrutural na arquitetura dos poemas deste livro que se constituem, portanto, na antologia pessoal Lengua de paraíso y otros poemas (1997), não há tal coisa, apenas simplesmente, uma variação acidental, quer dizer, não intencional na disposição tipográfica das linhas dos poemas. Não obstante, as propriedades e características estéticas próprias da estratégia discursiva original do texto em questão estão mantidas, seu ritmo organizacional e tensional, em termos de sentido, também, e nunca foi minha intenção insinuar ou planejar expressamente alguma mudança ou abandono desses recursos.

FM - Disse René Char que “a poesia incorpora-se ao tempo e o absorve”, ao passo que Paul Éluard defendia a impossibilidade de equívoco da imaginação e René Crevel tinha pela realidade o mesmo apreço que por um biombo. Como o poeta é um construtor de pontes entre a imaginação e a realidade, te indago: a imaginação é mãe ou filha da realidade?

JM - Dependendo da estratégia discursiva de um texto ou um autor determinados, a realidade pode converter-se em mãe ou filha da imaginação, proposição esta, com a qual estou dando uma volta na intencionalidade de tua pergunta e sua ordem lógica. Tem havido na história da arte e literatura, desde a mais remota antigüidade até nossos dias, correntes estéticas que argumentam, por um lado, a superioridade da natureza (Aristóteles, por exemplo) e por outro lado, da realidade (Plejanov e Lunacharsky, nesta ordem) sobre a imaginação e a linguagem. A acepção de René Char a que te referes, me parece interessante por ser a poesia, enquanto dimensão imaginária e do imaginário, que tem, desde sua perspectiva, o poder de absorção do tempo e, consequentemente, do espaço, vale dizer, da natureza e da realidade.

Na relação imaginação-realidade, para mim, e quando se trata de feitos artísticos, o protagonista é a linguagem e, portanto, a imaginação. O objetivo ulterior de uma obra literária em sua relação com o mundo real há de ser o de, como dizia Georges Bataille, superá-lo verbalmente. Entendo que a imaginação, no âmbito criativo, é mãe da realidade, jamais filha ou reflexo, como se pensou algumas vezes. A linguagem poética enfrenta o desafio de enriquecer a realidade, ao ponto de estar em condições de produzir uma realidade nova, distinta. No processo de superação verbal do mundo a arte é capaz de vislumbrar um mundo novo. Ao que a imaginação produz cabe o adjetivo imaginável, e este, se a obra de arte alcança qualidade estética, poder de evocação simbólica e intuição alegórica, há de apresentar-se ao espectador ou leitor como epifania dos confins utópicos da criação, da poiesis, da invenção. Na arte, se a realidade tivesse que se bastar, teria que fazê-lo por meio da fantasia, quer dizer, da imaginação. A arte é um meio de conhecer e transformar o mundo, pouco faria ao simplesmente refleti-lo.

FM - Estive relendo este largo volume La poesía dominicana en el siglo XX, de Alberto Baeza Flores, onde narra detalhadamente seus encontros com inúmeros poetas dominicanos. Em termos de América Latina, o que me espanta ali é identificar o pleno conhecimento que os poetas dominicanos tinham da poesia realizada no restante do continente, ao mesmo tempo em que eram desconhecidos fora de seu país. E penso aí em poetas essenciais, como Domingo Moreno Jiménes, Manuel del Cabral e Freddy Gatón Arce. O que demarcava esse isolamento da poesia dominicana em sua relação continental?

JM - O isolamento da poesia dominicana é um fato que também sempre me causou muita estranheza. Sobretudo porque, apesar de nossa condição de insulares (e sobretudo insulares ao meio, já que dividimos a ilha com outra nação, com cultura e língua diferentes, o Haiti), desde meados do século passado nossa sociedade está aberta ao contato com correntes vivas do pensamento na Europa, América e outras ilhas do Caribe. Houve um processo migratório que favoreceu o ambiente cultural dominicano, e este fato não pode ser alterado sequer pelas férreas ditaduras de Ulisses Heureaux (Lilís), que culminou tragicamente com o século XIX, e Rafael Leonidas Trujillo Molina , quem mais tarde governou sanguinária, brutal e caprichosamente o país por 31 anos, tendo sido abatido em 30 de maio de 1961, justamente o dia em que eu fazia um ano e um mês de idade.

Apesar de sua relativa pobreza, a República Dominicana levou a cabo intercâmbios comerciais prematuros com nações avançadas do velho continente, e certamente com os Estados Unidos. O comércio de mercadorias possibilitou o comércio das idéias, das correntes artísticas e do pensamento. Causaram impacto com bastante solidez no país, embora relativamente tarde, correntes de pensamento como o positivismo e o arielismo, cujas estruturas conceituais e de princípios doutrinários e filosóficos implicavam para a América Latina uma depuração prévia do pensamento germinado nas nações mais desenvolvidas. Ainda que com menor incidência, já na segunda década do século XX havia pensadores e criadores dominicanos inscritos em correntes muito em voga, como o niilismo nietzscheano e o bolchevismo; basta pensar em Vicente Sánchez Lustrino e C. Adalberto Chapuseaux, com obras que datam do início do século 20 como Pro-Psiquis, do primeiro, assim como El por qué del bolcheviquismo e Revolución y evolución, do segundo. Na literatura, quando vivia Rubén Darío, a República Dominicana já contava com um seleto grupo de poetas modernistas, que chegou a fazer amizade com o genial nicaragüense, além de poetas de talho romancista.

Todavia, não deixa de resultar paradoxal que nossos escritores e pensadores não tenham, ainda hoje,  ultrapassado suficientemente, os limites espirituais da insularidade. Tua pergunta situa casos como o de Domingo Moreno Jiménes, figura mais destacada do Postumismo, um movimento cujo manifesto foi publicado em 1921, sob a autoria do filósofo Andrés Avelino, e que, no próprio quadro da primeira ocupação norte-americana de nosso país (1916-1924), proclamava pela exaltação dos valores autóctones. Mesmo que se discuta, todavia, a tese de que fora ou não um movimento, ou se existiu com uma postura vanguardista fértil e original, seria conveniente citar a oposição do chamado Vedrinismo, de Vigil Díaz (1880-1961), a quem se considera, em discussão viva frente ao próprio Moreno Jiménes, o primeiro vanguardista de nossa poesia, com suas obras Góndolas (1912) e Galeras de Pafos (1920), esta último com a qual se supõe inaugurar o versolivrismo e o poema em prosa em nossas letras, entre outras obras.

Te referes também a um poeta de dimensão continental mais ou menos confirmada, como é Manuel del Cabral (1907-1999), cujo primeiro livro importante, Compadre Mon, data de 1940, e que teve que dar a conhecer por si mesmo sua produção literária nos países do cone Sul hispano- americano, quando bem poderia estar traduzido para vários idiomas. Mencionas, também, Freddy Gatón Arce (1920-1994), uma das mais altas vozes, junto a Franklin Mieses Burgos (1907-1976), do mais rico dos movimentos literários dominicanos, o da Poesía Sorprendida, que aconteceu no início dos anos 40, apelando para uma poesia com o homem universal, em oposição ao localismo acusado no manifesto dos postumistas. Revisar a revista da Poesía Sorprendida (1943-1947) oferece a possibilidade de perceber o quanto atualizados estavam nossos poetas com respeito ao que acontecia além-mar.

É, portanto, tremendamente paradoxal, o fato de que mesmo permanecendo abertos e em contato com seletas figuras da intelectualidade da América e da Europa, e de que as obras dos mais elevados autores ibero-americanos e de outras culturas e línguas foram lidas, traduzidas e divulgadas em nosso país, a difusão de nossos criadores e escritores não se produzira simultaneamente, apesar da inquestionável qualidade de muitas de suas obras.

Todavia, hoje, insisto, precisamos de uma divulgação sistemática dos valores literários dominicanos no exterior, mesmo que prosistas como Juan Bosch (1909) e Marcio Veloz Maggiolo (1936) tenham sido recentemente traduzidos para o francês (o que deveria ter ocorrido muito antes para sua difusão, ao menos, no Caribe francófono), e que outros autores nossos estejam sendo traduzidos para o inglês e estudados em academias norte-americanas. Também, em múltiplas ocasiões têm-se publicado números monográficos de revistas de certo prestígio, tanto em espanhol como em outras línguas, com mostras de poesia e conto dominicanos. Porém, a sistematização é imprescindível para que esta tarefa logre eficácia, não sendo possível sem três fatores importantes: 1) a participação do estado através de sua infra-estrutura diplomática; 2) a criação de um mercado editorial com poder de penetração internacional; 3) o interesse do mundo acadêmico pelo estudo e valorização da literatura do Caribe hispânico e, em particular, a dominicana, já que Porto Rico e Cuba têm tido melhor sorte.

Por sorte, algumas editoras espanholas estão se interessando em publicar literatura dominicana. Poderia citar-lhe casos como o de Andrés L. Mateo (1946), poeta, romancista e ensaísta  destacado da Promoção do Pós-guerra (1965), de quem em 1999 a Alianza Editorial publicou uma reedição do romance La balada de Alfonsina Bairán. O do crítico José Rafael Lantigua, cuja obra historiográfica La conjura del tiempo será brevemente reeditada em Porto Rico. A prestigiosa Coleção Popular do Fondo de Cultura Económica, do México, publicou em 1999 uma Breve historia contemporánea de la República Dominicana, de autoria de Frank Moya Pons. Uma editora espanhola publicará brevemente uma obra poética de Alexis Gómez-Rosa (1950), a quem, também, a divulgação atual da poesia dominicana no exterior deve bastante, por seus denodados esforços neste sentido. E ainda no ano 2000 a Bartleby Editores, de Madri, fará uma reedição de meu livro de poemas La invención del dia. A conhecida revista italiana L’immaginazione dedicou seu número de novembro de 1999 a contistas e poetas dominicanos contemporâneos, em uma outra iniciativa do professor Danilo Manera. Também o próprio Manera publicará pela editora Feltrinelli uma antologia de conto dominicano, pela primeira vez traduzido para o italiano, sob o título de El cactus no teme al viento, e se aguarda outra de poesia contemporânea, em língua francesa, a qual será lançada na III Feira Internacional do Livro (Santo Domingo, 2000). Há outros casos de autores dominicanos, que têm sido chamados por importantes editoras, em vias de publicar suas obras. Isto é um claro sinal de que já não estamos apenas abertos a receber do exterior, mas também que começamos a levar o nosso a praias literárias estrangeiras.

FM - Mesmo que hoje poetas como Manuel del Cabral ou Pedro Mir se encontrem em algumas antologias da poesia hispano-americana (José Olivio Jiménez, Julio Ortega), raramente encontramos uma avaliação crítica de suas obras. Recorro aqui a dois exemplos: tanto as edições da Biblioteca Ayacucho (Venezuela) como a coleção Archivos (UNESCO) não incluem em seu acervo as obras de nenhum poeta dominicano, embora Pedro Henríquez Ureña seja um ensaísta respeitado internacionalmente. O que segue demarcando esse isolamento? O que hoje isto teria a ver com essa corrente de pensamento que se conhece por “pessimismo dominicano”?

JM - Não creio que o fato que marginalizou internacionalmente a produção literária dominicana, sobretudo na ordem poética, se deva a uma seqüela de enraizamento da corrente do pessimismo dominicano em nossa cultura. Saliento a marginalização na ordem poética, pois, como assinalas muito bem, a ensaística e a obra didática e investigativa de nosso grande humanista Pedro Henríquez Ureña (1884-1946) têm sido respeitadas e valorizadas internacionalmente. De igual maneira, a obra contística de Juan Bosch tem sido modelo para gerações de escritores latino-americanos, já que ele é considerado, merecidamente, um mestre de todos os tempos da narração curta de fala hispânica.

O chamado gran pesimismo dominicano é o pensamento gerado por intelectuais do início do século XX que haviam sido, discípulos uns, colaboradores outros, do mestre Eugenio María de Hostos (1839-1903), transformador em 1880 de nosso sistema de educação. Ademais, esses intelectuais foram forjados com o amparo da influência tardia do Iluminismo europeu e sua visão despótica do exercício político. Estes recursos espirituais os fizeram ver o atraso e a pobreza dos dominicanos do início do século XX, um fato derivado de um sentimento de subvalorização própria, em termos ontológicos e culturais, e de inviabilidade política da nação e do Estado, em termos políticos, cujas causas incidiam aspectos étnicos (demasiado sangue africano) e de alimentação, entre outros relacionados com supostos costumes inferiores do povo dominicano e barreiras de caráter ecológico. Daí pensarem na imigração européia como única fonte para impulsionar o crescimento econômico, cultural e social do país, apesar de que alguns se opuseram à primeira ocupação norte-americana de nosso solo. Antes de ingratidão, alienação ou falta de amor pela pátria, o que mexia com o pensamento destes homens era o apego à cientificidade de sua análise frente a uma nação extremamente pobre, quase analfabeta e com um grau extremo de imaturidade ou inexistência de instituições jurídico-políticas. Entre estes pensadores destacam-se os discípulos diretos de Hostos, como Américo Lugo (1870-1952), Emiliano Tejera (1841-1923), José Ramón López (1866-1922) e Francisco José Peynado (1861-1933). A estes se somam outros intelectuais pessimistas como Francisco Gregorio Billini (1844-1898) e Federico García Godoy (1857-1924), entre outros.

Tanto Manuel del Cabral como Pedro Mir são, para mim, poetas muito representativos da qualidade estética e profundidade de pensamento de nossa poesia, e é muito bom que sejam antologados, apesar de que existem outros poetas de igual valia que têm sido sistematicamente ignorados. Insisto, não obstante, em acreditar que o fato de não se haver incluído poetas dominicanos fundamentais em antologias representativas da poesia hispano-americana contemporânea, a do século XX, é um erro crasso e muito lamentável por parte dos antologistas, gerado, na maioria das vezes, por falta de informação, às vezes por desinteresse e outras tantas por simples ignorância. Não se poderia jamais antologar apropriada e objetivamente a poesia latino-americana excluindo a poesia do Caribe hispânico; e este último ficaria incompleto se só se pensasse em Cuba e Porto Rico, quando a República Dominicana é parte integrante desta grande literatura escrita ao largo de vários séculos nas três maiores das Antilhas caribenhas.

FM - A propósito de tudo isto, gostaria que falasses sobre o que me parece uma profunda falta de auto-estima, possivelmente a característica deflagradora do perfil dominicano. Penso no caso de Vigil Díaz e suas jitanjáforas escritas antes que Mariano Brull, embora caiba aqui lembrar outras circunstâncias. O venezuelano Simón Rodríguez, o equatoriano Hugo Mayo e o panamenho Rogelio Sinán, por exemplo, anteciparam trunfos estéticos sem que jamais tenham sido reconhecidos. Não basta descobrir a terra, há que registrá-la em cartório.

JM - Na verdade, a meu ver, não se trata de falta de auto-estima, como assinalas. Não. trata-se, mais, de uma falta de visão projetista e prospectiva, que em termos ontológicos e geográficos, antes mesmo que epistemológicos ou psicológicos, tem a ver com nossa condição de ilha, com nossa insularidade geográfica que, às vezes, se equipara a uma insularidade mental. Nosso excelso músico, investigador e poeta Manuel Rueda (1921-1999), criador do vanguardista movimento Pluralista, em 1975, sustenta em seu ensaio introdutório à obra Dos siglos de literatura dominicana, poesia (Vol. I, 1996) que, com efeito, anteriormente ao cubano Mariano Brull, o dominicano Vigil Díaz (1880-1961), fundador da postura estética do Vedrinismo, havia já ensaiado amplamente as técnicas das jitanjáforas, chamadas assim pelo grande humanista mexicano Alfonso Reyes.

Deste modo, Max Henríquez Ureña (1895-1968), por outro lado, deixou provas da precedência dos aponemas, baseadas em variações idiomáticas porém mais abstratos, próprios do único discípulo tardio de Vigil Díaz, o também dominicano Zacarías Espinal (1901-1933). Estes autores criaram prematura consciência em nosso pais de que o problema central da escritura poética é a linguagem, pelo que haveria de se procurar uma cada vez maior liberdade verbal na criação e um vivo contato com as correntes literárias universais. Alguns investigadores, entre eles Rueda, atribuem a Vigil Díaz a introdução do versolivrismo na tradição poética dominicana, sobretudo com sua obra de 1921, Galeras de Pafos. Porém, outros autores, como por exemplo, Manuel Mora Serrano (1933), defendem a preeminência do Postumismo, cujo manifesto literário foi publicado em 1921, sobre o Vedrinismo, atribuindo ainda, ao postumista por excelência, Domingo Moreno Jiménes (1894-1979), a introdução do verso livre na poesia dominicana, agarrando-se a um localismo extremo e renunciando a herança da tradição literária ocidental. Este tipo de gigantomaquia poética, esta luta conceitual entre vendrinistas e postumistas, que começou nos anos 20, fundamentará as bases da bifurcação da poesia dominicana posterior, remarcando a oposição entre vanguardismo e tradicionalismo, entre poesia preocupada com a linguagem e poesia preocupada com os conteúdos ideológicos desta. Tal peleja estética aconteceu em momentos em que a poesia da América Latina apresentava uma efervescência similar. Logo, não estávamos fora de contexto ou defasados. O que faltou foi traçar uma visão arqueológica, ou melhor, uma noção de perspectiva que permita ver nossa evolução poética no contexto da literatura de língua hispânica, mas além das fronteiras geográficas da metade da ilha e da mesma região do Caribe hispânico. Este necessário processo de contextualização de nossa produção literária já começa a germinar, e espero que brevemente possamos ver seus frutos. Não se trata, portanto, de falta de auto-estima, e sim de uma cegueira de prognose, que descansa em nossa crítica literária e, como dizia Ortega y Gasset, uma ausência de sentido de futuração.

FM - Li uma entrevista com Alexis Gómez-Rosa, em que diz que os escritores dominicanos atuais perderam “a necessária curiosidade pelo que se passa do outro lado do charco”. Achei interessante que seu comentário viesse seguido de exemplificações: “o que se produz aqui na ilha está muito longe da sensibilidade que move Néstor Perlongher, Osvaldo Lamborghini e Arturo Carrera” e então cita outros nomes: David Huerta, Gerardo Deniz, Coral Bracho, Mirko Lauer, Enrique Verástegui, Paulo Leminski, Andrés Sánchez Robayna, até concluir: “sempre acreditei que os escritores dominicanos são o inimigo número um da literatura dominicana”. Me estendo porque entendo parcialmente o que diz Gómez-Rosa, ou seja, só discordo dele quando cita uma lista caótica, uma mescla de gerações e qualidades. Proponho deixarmos de fora o catalão Robayna e o brasileiro Leminski, restringindo-nos ao universo hispano-americano. Se pensarmos no barroquismo desgastado de uma corrente equívoca denominada por Néstor Perlongher como “neobarroso”, na verdade uma obsessão por uma escritura dificultosa, o que não a relaciona com a complexidade estrutural natural do barroco apreendido por um Lezama Lima , espécie de beco sem saída onde foram dar poetas como os peruanos Lauer e Verástegui, de toda essa lista de Gómez-Rosa não veria poesia consistente senão na obra da Gerardo Deniz. E me parece que o encanto de Gómez-Rosa é o mesmo que encontro em várias partes, ou seja, parte de uma obsessão pelo novo a qualquer custo. O que pensas a respeito de tudo isto?

JM - Partilho, em geral, com teu critério. A tendência “neobarrosa”, de notável ascendência na poesia da fala hispânica nos Estados Unidos durante os últimos decênios, foi reduzida, muitas vezes, a uma forma de idioleto, de personalíssima experiência de linguagem que inflaciona as feições léxicas da língua, até converter-se em uma obsessiva erudição de dicionário, um aranzel com certa chave lexical. A untuosidade de seu barro não chega ao barroquismo. É uma poesia sem poesia, sem alento verbal.

Com Alexis Gómez-Rosa (1950), uma das mais representativas figuras do que se conhece na República Dominicana como Poesia de pós-guerra, isto é, de logo após a guerra civil de 1965, ocorre um fenômeno muito interessante. Em um momento geral em que a poesia de nosso país assume o compromisso ideológico-político e seu conseqüente empobrecimento estético e idiomático, entre 1960 e 1980, Gómez-Rosa constituiu-se uma exceção, devido a que, embora circunscrito aos cânones da literatura de compromisso social, sobressaía em sua praxe poética, seu interesse pela linguagem, por encontrar novas variações formais, para explorar a dimensão física da palavra (concretismo), entre outras preocupações formais. De fato, ele e Luis Manuel Ledesma são os únicos jovens poetas que se vinculam, ainda que de maneira efêmera, ao Pluralismo de Manuel Rueda, que em 1975 estabeleceu uma poesia de escritura e leitura múltiplas, apoiado pela perspectiva concretista do Grupo Noigrandes de Brasil, surgido no início dos anos 50, e a pessoal introdução do pentagrama musical na escritura de bloco, entre outros recursos visuais. Esta atitude estética de Gómez-Rosa irá se garantindo conforme cresce e evolui sua própria obra poética, que abarca numerosos e reconhecidos títulos. A isto agrega-se sua particular experiência de homem que vive viajando constantemente da metade da ilha a Nova York e vice-versa. Ele é o protótipo do emigrante em curso.

Com tudo isso e mais seu profundo interesse pela poesia atual de fala hispânica em qualquer lugar do mundo, não estranho, portanto, que Gómez-Rosa favoreça, de certa forma, a concepção e a escritura poéticas do “neobarroso”, mesmo que exalte, com abundante razão, que compartilho, as obras de autores como David Huerta, Gerardo Deniz, Coral Bracho, Octavio Armand e Mirko Lauer, entre outros. Todavia, rejeito a idéia de que a tendência neobarrosa, no sentido estrito, possa modelar algo interessante para a tradição poética dominicana, inclusive para sua poesia atual, que tem estado em contato com o pulso e a sensibilidade dos movimentos de vanguarda e com o mais notável do que ocorre além-mares, tanto da América como da Europa e até do Oriente. O próprio Alexis Gómez-Rosa, com obras como High Q (1985), primeira em que trabalha a fórmula oriental do hai-kai em nossa poesia, entre outras, tem deixado uma marca de particular vanguardismo na poesia dominicana, sem dever nada a outras vanguardas latino-americanas. Em contrapartida, um jovem poeta dominicano radicado em Nova York, León Félix Batista (1964), com obras como Negro eterno (1996) e Vicio (1999), poderia estar mais perto do neobarroso do que alguns dos demais poetas hispânicos que ali se assumem segundo essas premissas vanguardistas. Espero, muito pessoalmente, que Batista já tenha esgotado seu interesse por este magma poético do barro, cujas probabilidades de esgotamento efêmero nos umbrais léxicos do castelhano são mais previsíveis que suas perspectivas de diversificação e desenvolvimento.

Concordo, contigo, Floriano, que no neobarroso, ao menos, o que tenho percebido, é que há apenas uma obsessão pelo novo, como bem sublinhas, "a qualquer custo", incluindo o da própria poesia.

FM - Em teu Ética del poeta (1997) dizes que “A Poesía Sorprendida e os chamados Independientes dos anos 40 constituem a mais variada e decisiva contribuição ao processo de enriquecimento de nossa tradição poética”. Gostaria de saber a base em que se constitui esta tua afirmação. Talvez pudesses falar aqui, até por contraste, dessa “manía ideológica” da poesia dominicana.

JM - O início dos anos 40 foi, para mim, a etapa mais rica e fértil da produção poética dominicana. Teria que recorrer, para ser explícito, à minha hipótese de trabalho sobre a bifurcação tendenciosa das estéticas maiores da poesia dominicana no século 20. Em primeiro lugar, teríamos a postura vedrinista, que com Vigil Díaz aposta em uma escritura centrada na problemática da linguagem, no experimentalismo verbal, no poema como jogo lingüístico e estético. Em segundo lugar, teríamos a postura postumista, com Domingo Moreno Jiménes como principal poeta, e Andrés Avelino como figura pensante. A obra de Vigil Díaz frutificou desde a primeira e segunda décadas do século 20; os postumistas lançaram seu manifesto em 1921, marco da primeira ocupação norte-americana de nosso país que durou de 1916 a 1924. Os postumistas apostam em uma poética que exalte os valores nacionais, em rejeição a posturas universalistas, e seu manejo da linguagem apela menos ao experimentalismo verbal ou à estética. Daí a dupla vertente na poesia posterior dominicana. Nos anos 40, com os poetas independentes, quer dizer, não agrupados sob escola ou manifesto, e com o movimento da Poesía Sorprendida, se dá a conjugação da mais profunda e importante poesia social dominicana (que resgata, portanto, embora sem inscrever-se em seu manifesto, traços essenciais do postumismo) com a mais revolucionária, em termos de abertura da linguagem poética, concepção e práxis da poesia (que implica em uma ruptura que se reinsere, também em grandes riscos, na postura vedrinista ou manierista, se assim quisermos).

Entre os poetas independentes dos anos 40 figuram vozes como as de Héctor Incháustegui Cabral (1912-1979), Manuel del Cabral (1907-1999), Tomás Hernández Franco (1904-1952) e Pedro Mir (1913), entre outros. Entre as mais excepcionais vozes da Poesía Sorprendida figuram Rafael Américo Henríquez (1899-1968), Franklin Mieses Burgos (1907-1976), Freddy Gatón Arce (1920-1994), Antonio Fernández Spencer (1922-1995), Aída Cartagena Portalatín (1918-1994), Mariano Lebrón Saviñón (1922) e Manuel Rueda (1921-1999), só para citar alguns. Recordemos que as primeiras obras destes autores e a confirmação de suas propostas estéticas têm lugar sob a chamada “era de Trujillo”, sanguinária e espantosa ditadura que se estendeu desde 1930 até 1961. Concomitantemente com o apogeu da Poesía Sorprendida e dos Independentes de 40 na República Dominicana acontecia a fértil explosão do grupo Orígenes em Cuba.

A este grande grupo de poetas seguiram gerações como a de 48, que viveu as atrocidades da decadência do “trujillato”, a de 60 e a Poesia do pós-guerra (confrontação cívico-militar de abril de 1965), cujos representantes, devido às conjunturas econômico-políticas e jurídicas por que atravessava o país, se sentiram inclinados ao exercício de uma escritura de compromisso, mais que social, ideológico e partidário. O fenômeno que defines como “mania ideológica” se daria, embora não para todos os autores, melhor neste período. Será, então, a geração dos anos 80 a que romperá com a tendência sociologizante e com as estreitezas ideológico-partidárias da poesia dominicana, assumindo, nas estruturas da linguagem e na conceituação estética, atitudes de radical ruptura no tocante à tradição vulgarizante, em face do que, consequentemente, mostrará um interesse maior pelos mestres da Poesía Sorprendida e pelo Pluralismo de Manuel Rueda, entre outras posturas vanguardistas crioulas e universais, do que pela poesia de conteúdo social e ideológico e a herança postumista.

De qualquer forma, e para concluir, com esta revisão ainda que superficial da história da poesia dominicana do século 20, deixaria claríssimo que seu período mais fértil se deu antes e durante o decênio de 40.

 

__________ 

JOSÉ MÁRMOL
(República Dominicana, 1960)

 

Obra poética

El ojo del arúspice. Colección Luna Cabeza Caliente. Santo Domingo. 1984.
Encuentro con las mismas otredades I. Colección Egro de Poesía Dominicana Contemporánea. Santo Domingo. 1985.
Encuentro con las mismas otredades II. Editora Amigo del Hogar. 1989.
La invención del día. Ediciones Intec. Santo Domingo. 1989.
Poema 24 al Ozama. Madrid. 1990.
Rufino de Mingo (monografía), en colaboración con José David Miranda. Arte Español Contemporáneo, Madrid. 1991.
Lengua de paraíso. Ediciones UNPHU. Santo Domingo. 1992.
Deus ex machina. Casa de Teatro. Editora Taller. Santo Domingo. 1994.
Lengua de paraíso y otros poemas. Editora Amigo del Hogar. Santo Domingo. 1997.

[Entrevista realizada em abril de 1999. Traduzida por Vania Lacerda]

 

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