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1977
- Conversa com Jorge Luis Borges
Alvaro
Miranda
Para
um autor que nasceu com o século e leva mais de cinqüenta anos
dedicados à literatura, um escritor controvertido, já louvado, já
repudiado, sempre discutido, aplaudido por uns, rechaçado por
outros, um escritor mimado, mitificado, consagrado como um dos
maiores escritores de fala hispânica - para muitos, o maior -,
que foi censurado por suas declarações, criticado por seus
detratores e exaltado por seus apologistas, admirado e venerado
como mestre indiscutível em universidades e salas de conferência,
e tudo isto, muitas vezes, sem um cabal conhecimento de sua obra,
sem uma consciência exata de seu estrito valor literário,
conceder outra entrevista podia ser uma forma de alimentar essa
fogueira. No entanto, Jorge Luis Borges parece estar além de
todas as críticas e de todos os aplausos. Sabe que sua obra fala
por ele.
Entrevistar
Borges? O que não se disse ainda? O que o próprio Borges já não
disse sobre si mesmo? Difícil tarefa que representa, acima de
tudo, um desafio. É impossível enumerar a lista de entrevistas
que concedeu, concede e concederá com generosidade não isenta de
complacência. Mesmo quando tudo parece dito, a particularidade de
Borges consiste em extrair de uma conversa - especialmente se está
centrada na literatura - um apontamento, um detalhe erudito, uma
glosa, um esboço ou um curioso gracejo. Borges aparece então
quase tão inabarcável como os imaginários universos que constrói
com sua lucidez de artífice. Por isso cada entrevista não esgota
sua personalidade, sua escritura, pelo contrário, as enriquece e
projeta para novos horizontes de aplicação significativa.
[AM]
AM
- Por ocasião de
uma entrevista realizada na França, você manifestou que, em sua
opinião, as teorias literárias não tinham importância…
JLB
- Eu creio que não. Creio que o importante é o exercício da
literatura.
AM
- Mas
a teoria advém como ente organizador da confusão da obra.
JLB
- Creio que a teoria pode ser um estímulo em muitos casos. Por
exemplo, descreio da democracia mas se Walt Whitman tivesse
descrido da democracia não teria podido nos dar sua obra
extraordinária. Descreio enfaticamente do comunismo, mas se
Neruda houvesse descrido do comunismo teria seguido sendo um medíocre
poeta romântico. Se Carlyle não houvesse tido a visão de que a
História é a história dos heróis não teria deixado sua obra
extraordinária. Creio que as teorias são estímulos para cada
escritor. Pessoalmente, admiro o Império Britânico e lamento que
tenha declinado; a fé no Império Britânico foi uma das causas
de Kipling, que lhe permitiu realizar uma obra esplêndida e isso
não se pode negar.
É
absurdo julgar um autor por suas opiniões; as opiniões de um
autor são importantes para ele porque podem ser estímulos, podem
ser impulsos para sua obra, mas não têm por que importar aos
demais. Seria absurdo, por exemplo, que eu negasse o valor poético
de Neruda dizendo que descreio do comunismo. Perfeitamente,
descreio do comunismo, mas ele não descria e pôde executar sua
obra.
AM
- Levemos essa ordenação
do caos para um exemplo prático: em um de seus contos, “La
outra muerte”, Pedro Damián poderia ter sido discípulo de
Galvano Della Volpe, enquanto sua projeção eidética permite a
harmonização do curso das duas histórias paralelas. conseqüentemente,
a plasmação da fórmula volpiana: o eidos,
ente coordenador do caos…
JLB
- Tudo isso saiu de uma afirmação lida em algum livro de
Teologia, dizendo que Deus não pode modificar o passado. Pensei:
“mas se o passado pudesse modificar-se…” e encontrei, na Divina Comédia, um teólogo, Pier Damiani, que acredita que o
passado pode modificar-se. A partir daí, criei meu gaucho Pedro Damián. Um pouco como Lord Jim,
de Conrad, um indivíduo que foi covarde e que, de algum modo, tem
que resgatar-se, tem necessidade de ser valente, chega a ser
valente, modifica o passado, sem dar-se conta do que está
executando. Quando ele morre, dez anos depois, em um povoado de
Entre Ríos, também morreu na batalha de Masoller. Entende-se que
não é um homem intelectual, é um gaucho, vive só, se endurece, sabe que não executou nenhuma
proeza, que não se bateu com ninguém, chega a ser o homem
valente que deveria ter sido em Masoller e que não o foi por
outra parte. É um conto mágico, desde já.
AM
- Você
considera que seu renome internacional deve-se, em maior parte, à
sua narrativa e não à sua poética e ensaística. Não existe
nisso um menosprezo do trabalho poético?
JLB
- A mim pessoalmente me agradam meus versos. Mas, em geral, meus
amigos acreditam que sou um prosista intruso na poesia. Ao contrário,
creio ter escrito bons contos, mas esses contos estão mais longe
de mim do que minhas poesias, mesmo nas milongas, por exemplo.
AM
- Por
que se declara incapaz de escrever um romance?
JLB
- Não sou escritor de romances porque não sou leitor de
romances. Li muito pouco romances. Há para mim um romancista…
seria o romancista:
Joseph Conrad, é o polaco que enriqueceu a literatura inglesa, é
o romancista e o contista. Sei que ao dizer isto estou um pouco distante do que
geralmente se pensa. Depois pensaria também em Stevenson. Sobre
Stevenson escreveu muito elogiosamente André Gide, com frases que
teriam agradado demais a Stevenson:
Se
a vida o embriaga
como
um champanhe bem leviano, bem ligeiro…
que
lindo, não? E como teria agradado a Stevenson a imagem do
champanhe, ele que gostava tanto de champanhe.
AM
- Conheço
a atração que exercem sobre você as literaturas anglo-saxãs.
Especificamente a respeito da literatura alemã, que juízo faria
sobre o Romantismo e quais as figuras que, dentro deste movimento,
lhe impressionam mais profundamente?
JLB
- O Romantismo surge na Escócia, por volta de 1750, com o Ossián,
de Macpherson, que foi traduzido por Goethe e cuja única passagem
facilmente legível encontra-se em “Die Leiden des jungen
Werthers”, onde diz: “Ossián superou Homero… etc.”. Eu
pensava em escrever um trabalho sobre Macpherson. Sempre foi
acusado de ter sido um falsário e não creio que fosse um falsário.
Creio que ele tomou fragmentos de antigos textos celtas e fez um
poema, mas foi um grande poeta, um poeta que se sacrificou por sua
pátria, preferia que as pessoas acreditassem que a Escócia havia
escrito um grande poema e não que ele o havia escrito, é muito
raro um homem que faz isso, não? Você sabia que nos despachos de
Napoleão encontraram frases da versão italiana do Ossián,
de Macpherson? De qualquer maneira, é extraordinário que o
Romantismo surja no século XVIII.
AM
- Por
que?
JLB
- Porque é visto como o século da Razão. Creio que há outro
livro que deve ter sido muito importante no movimento romântico e
que não se menciona nunca: é a versão que na primeira década
do século XVIII faz de As
mil e uma noites Antoine Galland. Imagine você, esse livro
lido por gente que estava no ambiente de regulamentações, de
proibições, de Boileau e que irrompa um livro como As
mil e uma noites nesse mundo ordenado da França. Deve ter
sido extraordinário.
AM
- Para
Borges, Ossián superou Homero?
JLB
- Homero é inquestionavelmente um grande poeta, isso não se pode
negar. Mas, devo cair aqui em uma heresia: para mim, a Odisséia
é muito superior à Ilíada.
A Ilíada tem algo de ignóbil, o tema de cantar a ira de um homem.
Podemos salvar Homero supondo que se preferimos Heitor é porque
ele também preferia Heitor. Creio que visto assim… por que todo
mundo sente simpatia por Tróia e por Heitor e ninguém sente
simpatia pelos gregos? É porque são melhor mostrados os
troianos. Podemos supor que Homero, mesmo sendo grego, estava
intimamente de lado dos troianos. Se todo mundo leu a Ilíada do ponto de vista de Tróia é porque o autor também a
escreveu do ponto de vista de Tróia. Não creio que se
equivocasse. Todos queriam descender dos troianos e ninguém quis
descender de Aquiles. Posso lhe dar um dado bastante curioso:
estava lendo a História dos reis da Noruega, de Snorri Sturluson, e há uma referência
a Thor, o deus do trovão, e este homem escreve no século XIII,
na Islândia, e diz que Thor era, sem dúvida alguma, proveniente
de Héc-Thor. Todos queriam ser troianos, mesmo esse homem, ali no
distante norte, queria que seus deuses fossem troianos. E depois,
sempre que se fala de Odin se diz que veio de Tróia. Todos
sentiam atração por Tróia. Não lhes ocorria dizer que eram
parentes de Aquiles ou de Agamenon.
AM
- Em
um de seus livros, você cita as palavras de Coleridge: “todos
os homens nascem aristotélicos ou platônicos”. Se isto é
assim, a qual grupo se consideraria pertencente?
JLB
- Essa era a opinião de Coleridge: todo homem nasce aristotélico
ou platônico e diz que seria muito difícil encontrar uma
terceira categoria. Eu diria que sou aristotélico, sou incapaz de
idéias gerais, sou capaz de conceitos concretos, incapaz de uma
teoria da estética…
AM
- No
entanto, grande parte de sua obra é sumamente platônica,
idealista.
JLB
- Ah, é que sou idealista em Filosofia, também. Sim, desde já,
creio que ninguém é absolutamente aristotélico ou platônico,
sequer Platão ou Aristóteles, que devem ter-se entendido por
outro lado.
AM
- Borges,
a respeito da literatura contemporânea…
JLB
- Não conheço a literatura contemporânea. Perdi a vista em
1955. Dediquei-me a estudar o anglo-saxão, depois a estudar o
escandinavo, mas não conheço a literatura contemporânea.
AM
- Contudo, visitou Montale
na Itália; que opinião lhe merece sua obra?
JLB
- Esse tipo de poesia tão delicada me agrada, parece corresponder
a uma cultura refinada, com leves traços quase orientais, não no
sentido uruguaio mas sim no outro sentido, não?
AM
- Que
figuras destacaria na literatura uruguaia?
JLB
- Há um poeta uruguaio que admiro muito, não sempre, mas dentro
do que ele quis escrever creio que o fez muito bem: Pedro Leandro
Ipuche e creio que foi esquecido. Em geral, me parece superior a
Silva Valdés, que aplicou a retórica ultraísta aos velhos temas
criollos. Os modernistas uruguaios não me agradam, Herrera y
Reissig
é uma espécie de sub-Lugones, não? Quais outros havia? Pérez
Petit…
AM
- Retornando
à literatura alemã, que autor expressionista considera que
influiu com maior profundidade em sua obra?
JLB
- Do Expressionismo alemão, você disse? Não sei se me
influenciaram. Meyrink não é exatamente expressionista,
contudo… para mim, de todos os “ismos”, o Cubismo, o
Imagismo de Ezra Pound, o Futurismo de Marinetti,
o movimento mais importante foi o Expressionismo alemão. Se você
pensa no Cubismo, era puramente formal; ao contrário, o
Expressionismo tinha um lado místico, um lado social, produziu
muitos homens de gênio, por exemplo, Johannes Becher, grandes
escritores. Eu aprendi alemão para ler O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer; eu o havia
lido em inglês e decidi lê-lo no original. Adquiri Lieder, de Heine e um dicionário alemão-inglês; me pus a estudar
e, em pouco tempo, li as poesias de Heine diretamente.
AM
- Borges:
revivamos uma antiga polêmica? O que é literatura: um ente autotélico
ou um ente ancilar?
JLB
- Ancilar não, desde já. A literatura é um fim em si, é um
meio. Se vivo para a literatura, se minha vida é uma vida
essencialmente literária, se vejo tudo em função da
literatura… não me importa ter sido desventurado porque essa
desventura também tem sua dor literária… em meu caso, escrever
é um destino.
AM
- Há
autores sobre os quais você costuma abundar em reflexões.
Gostaria agora de escutar sua opinião sobre alguns autores clássicos
espanhóis. Por exemplo, você manifestou em uma entrevista que a
literatura espanhola começa com o Romanceiro.
JLB
- Creio que sim. O Poema del
Cid me parece muito carregado. É um começo muito
desventurado. Agora, é uma lástima que a épica tenha
desaparecido. A épica era narrativa e era poética. Vamos aceitar
o conceito tradicional de Homero como fonte da literatura grega;
pois Homero não somente é pai de toda a poesia que se fez
depois, como também do romance que se fez depois. O que é a Odisséia
senão um romance de aventuras? E agora o que resta? Alguns filmes
do faroeste que são épicos, um livro como Sete
pilares da sabedoria, de Lawrence… não sei até onde é um
livro épico, creio que é demasiado reflexivo para ser épico;
Lawrence é demasiado inteligente para ser um grande poeta épico,
não? Creio que Kipling era épico.
AM
- Em
Kipling havia possivelmente um espírito épico.
JLB
- Tinha um espírito épico, sim… Há algo que se encontra na
literatura portuguesa e que falta totalmente na espanhola e que é
o sentido do mar, não?, é toda literatura mediterrânea, em Dom Quixote não se sente o mar, Fray Luis
fala do mar…é uma lástima que tenha faltado o mar na
literatura espanhola, mas é natural, um país mediterrâneo…
que interessante, estava lendo uma história sobre o fracasso da
Armada Invencível, parecia que poderia triunfar e não triunfou
por um detalhe que foi muito importante: em lugar de eleger a
marinha galega e a portuguesa, elegeu a marinha catalã, que
estava acostumada com o Mediterrâneo, e quando tiveram que se ver
com os mares do norte naturalmente fracassaram, porque tinham que
enfrentar os ingleses, acostumados a esses mares. Com esse detalhe
poder-se-ia ter modificado toda a História. Que interessante
pensar que se houvessem elegido outra marinha poderiam ter
triunfado, não?
AM
- No entanto, há autores
onde aparece claramente esse sentido do mar que você disse
ausente da literatura espanhola. Assim,
em Garcilaso: “la mar en medio y tierras he dejado…”
JLB
- Garcilaso é Petrarca.
Creio que o grande poeta espanhol segue sendo Fray Luis de León.
Mas veja você, toma um poema bastante medíocre de Horácio e o
que faz é uma maravilha:
¡Qué
descansada vida
la
del que huye el mundanal ruido,
y
sigue la escondida
senda
por donde han ido
los
pocos que en el mundo han sido!
Veja
que maravilha que extrai de uns medíocres versos latinos. Esses
versos latinos são o menos admirável de Horácio. O que se passa
com Fray Luis de León é que nos dá essa perfeição, essa
serenidade, mas como nossa época está interessada em
experimentos literários, o experimento dele foi tão feliz que já
não é experimento, de modo que nos interessam mais poetas
inferiores a ele, como Góngora e Quevedo.
AM
- Considera
Quevedo inferior a Fray Luis de León?
JLB
- Sem nenhuma dúvida. Quevedo é glacial, não se pode fazer
poesia sem emoção e em Quevedo a única emoção que há é a
emoção verbal, é a emoção da linguagem. O poeta deve estar
arrebatado pelo tema. Há grandes escritores: Joyce, Mallarmé,
Góngora, Quevedo, Lugones, a quem lhes interessa sobretudo a
linguagem. Se estamos emocionados, essa emoção dá sentido às
palavras.
AM
- Isso
é muito de Wordsworth.
JLB
- Sim, claro. Wordsworth foi um grande poeta. Como poeta foi muito
superior a Coleridge. Porque Coleridge, o que tem? Tem Ancient
Mariner, Kubla Khan, Christabel e Aids
to reflection e pare de contar; o resto de sua obra
corresponde ao menos inspirado do século XVIII. Coleridge era um
homem de gênio, mas tenho a impressão de que Coleridge esteve
mais em sua conversa do que em sua obra escrita.
AM
- Talvez
um pouco como Macedonio.
JLB
- Como Macedonio Fernández, exatamente. Creio que Macedonio era
homem de gênio. Há amigos meus, por exemplo Bioy Casares, que não
o conheceram pessoalmente e não podem lê-lo. Eu, para lê-lo,
tenho que resgatar a voz de Macedonio, tenho que imaginá-lo.
AM
- Com respeito ao gênero
dramático, Lope de Vega…
JLB
- Não me agrada. Em troca, me parece que tem sonetos admiráveis.
O teatro dele corresponde ao que é uma obra policial em nosso
tempo: um jogo engenhoso, nada mais.
AM
- Benedetto Croce
estabelecia uma necessária distinção entre poeta, o que cria
obras originais, e literato,
o que faz obras úteis mas repetitivas…
JLB
- A palavra gramático
diz exatamente o mesmo. Só que gramático
está em grego e literato
em latim, mas é a mesma idéia de letra. Quando se fala de Saxo
Grammaticus não se quer dizer que esse historiador dinamarquês
foi um gramático, quer dizer que era um literato, um homem que
havia lido muito.
AM
- Em nosso século, Ezra
Pound e recentemente Ernesto Sábato dotaram a expressão literato
de um matiz pejorativo ao referi-la a um escritor carente de
originalidade.
JLB
- Que interessante, quem sabe, um dos que começaram com isso foi
Verlaine, não? Lembra? “…tout le reste est litterature.”
Ali a palavra literatura
está usada depreciativamente e usada por um grande literato e um
grande poeta como Verlaine, não? Agora se usa literato no sentido
de retórico, no sentido depreciativo.
AM
- E
a originalidade, é possível?
JLB
- Não creio que seja possível. Para começar, todos escrevemos
no contexto de um idioma. De um idioma podemos pensar o que
queremos mas já é uma tradição literária. Se estou no idioma
espanhol estou dentro da literatura espanhola e mais exatamente na
literatura castelhana. Sem dúvida, pesam sobre mim tradições
cujos nomes não ouvi nunca. Todo o passado está pesando sobre
mim. Quem sabe Walt Whitman foi original, mas se pensamos que ele
havia lido os hindus, que ele havia lido os salmos da Bíblia, que
havia lido Emerson, não sei onde está o original, não? Claro
que isso não diz nada, porque todos temos ao nosso alcance os
grandes livros, todos podemos ser grandes escritores e no entanto
não ocorre assim, não?
O
Modernismo foi para mim o movimento literário mais importante da
literatura espanhola e foi muito injusto quando se disse que tudo
o que eles escreveram já estava mais ou menos prefigurado e
talvez ultrapassado em Hugo, em Verlaine. Mas esses livros estavam
ao alcance de todos e no entanto nem todos foram Rubén Darío.
Recordo ter falado cinco ou seis vezes em minha vida com Leopoldo
Lugones, um homem muito desagradável; cada uma dessas vezes ele
desviava a conversa, ele que era um homem tão soberbo, para falar
deliberadamente de “meu amigo e mestre Rubén Darío”; ele
gostava dessa relação filial com Darío e se orgulhava disto.
Talvez um pouco para nos ensinar humildade, nós que íamos vê-lo,
não?
AM
- O
ritmo de desenvolvimento das Artes não costuma ser uniforme e
equilibrado. Há períodos fecundos em uma ou duas expressões artísticas
e ao mesmo tempo lentos e mesmo estáticos em outras formas artísticas…
JLB
- A Inglaterra deu filosofia e deu poesia, mas não deu outras
artes especialmente. Creio que a Inglaterra contribuiu muito
escassamente para a música e a arquitetura. Tenho uma quarta
parte de sangue inglês. Quero pessoalmente a Inglaterra e
orgulha-me ter sangue inglês; no entanto, creio que é uma lástima
que se tenha passado do inglês para o francês, não porque creia
que o idioma francês seja superior ao idioma inglês, mas sim por
este fato que é muito significativo e que ninguém notou até
agora: quando todos estudamos francês o fazemos em função da
cultura francesa, estudava-se francês para ler Montaigne,
Voltaire, Hugo, Verlaine. Ao contrário, agora não se estuda inglês
senão com fins comerciais, é o subalterno inglês dos Estados
Unidos, mas se estuda com fins comerciais, não com fins literários;
o francês era estudado como em uma época se estudava o latim, as
pessoas estudavam latim para ler Horácio, Virgílio, Sêneca, Tácito.
No Uruguai conservavam a cultura francesa mais do que nós, mas
possivelmente agora se está perdendo também.
AM
- Borges,
coloco-lhe uma questão estética: Lange sustentava que o gozo estético
radica no engano consciente de uma pessoa, em um contínuo
auto-engano do leitor que apreende a representação da obra como
realidade.
JLB
- Isso corresponde à opinião de Coleridge. Dizia que a fé poética
é a “suspensão voluntária da incredulidade”. Ou seja, você
está no teatro, sabe que há senhores que estão disfarçados e
simulam ser Macbeth, Banquo, Lady Macbeth,
mas você suspende sua incredulidade e isso lhe permite gozar do
teatro.
AM
- Um rápido panorama da
literatura hispano-americana atual nos permite observar que nossa
escritura é marcadamente mítica. O escritor usa e abusa dos
mitos, lendas, folclore popular, para a elaboração de seus
escritos. Em leque aberto, direto do mito para o hermético ou
para o barroco, a ordem parece ser a “escritura das raízes”,
a recorrência ao autóctone ou ao mitológico universal. São
propagados os “personagens míticos”. O rio-platense é um mythmaker,
um fazedor de mitos?
JLB
- Creio que não. Aqui se fala do mito de Perón, mas não houve
tal mito, porque ninguém acredita realmente nele. Fala-se do mito
do tango, talvez tenhamos outros mitos no país. Creio, como
Vicente Rossi, que o tango deve ser a decadência da milonga.
Recordo o que dizia Lugones do tango: “esse reptil del
lupanar…”.
A origem do tango em uma casa de má vida em Junín e Lavalle, e
depois réptil, algo baixo e ao mesmo tempo algo sinuoso. É uma
frase muito feliz essa de Lugones, não?
AM
- Realmente bem colocada.
JLB
- Esse é o dom que tinha Lugones: a arte verbal, porque raras
vezes se encontra emoção no que ele escreve, não? A emoção
que se encontra ali é emoção verbal, por exemplo:
El
jardín com sus íntimos retiros
dará
a tu alado ensueño fácil jaula
como
linguagem é lindíssimo, quase parece outro idioma: “dará a tu
alado ensueño fácil jaula”, mas logo se vê que não há
nenhuma emoção nos versos que seguem:
donde
la luna te abrirá su aula
y
yo seré tu profesor de suspiros
parece
paródico. No entanto, Lugones era um homem capaz de emoção. Mas
possivelmente a linguagem se interpunha entre ele e o que queria
dizer, não?
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