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Jorge Luis
Borges: uma estética da inteligência
Bella Jozef
Não
se pode falar de literatura sem citar Jorge Luis Borges. Nem
sempre foi assim. Em sua Autobiografia, Borges conta que, um dia
de 1937, entrou na livraria Viau y Zona que no ano anterior
editara seu livro de ensaios Historia de la eternidad e
perguntou quantos exemplares haviam vendido. A resposta: 34. Sua
reação foi de alívio: podia imaginar 34 leitores.
A
comemoração do centenário de nascimento de Jorge Luis Borges é
ocasião propícia para refletir sobre sua obra em que a prosa
rompe com a tradição retórica do século 19, liberta a narrativa
dos emplastros que a ligavam ao regionalismo tradicional e sobre
a enorme influência que seus poemas exerceram na caracterização
inicial do movimento de vanguarda na Argentina.
Na obra
borgiana, o mundo ficcional, onde a medida de todas as coisas é
um relativismo que outorga validez ao inverossímil e ao absurdo,
não é uma evasão do real: é, antes, um retorno a ele, provando
que existe e que também é um sonho. A realidade concreta dos
contos borgianos é o que o mundo concreto significa para os
místicos: um sistema de símbolos.
Nos sistemas teológicos e proposições metafísicas, Borges vê um
infatigável esforço do espírito humano em compreender e
interpretar o universo.
Negando a
validez da metafísica, aplica-a na literatura, para confirmar o
caráter alucinatório do mundo. Ao confundir o individual com o
genérico, o relativo de uma realidade singular com o absoluto de
uma abstração, Borges amplia o âmbito de seus relatos: ao
dar-lhes simultaneidade e elasticidade, fala-nos dos mundos que
a linguagem pode criar e torna-os fantásticos e irreais.
Este o
jogo predileto de Borges: a interpenetração ficção/realidade.
Numa atitude lúdica, começa reconhecendo que a linguagem é
linguagem, que um conto é uma ficção e que escrever é uma
atitude imaginária. Quando escreve, assume a literatura como
criação, a linguagem como invenção e a ficção como jogo, jogo de
identificação e de oposição, entre o referente imaginário do
texto e o eu do leitor. Além do mais, o lúdico permite à arte
mascarar-se diante do referencial, como instrumento de afirmação
criadora, aberta, diante de uma realidade que pretende anular a
plenitude do ser no mundo. A palavra é o único meio de esconder
e revelar o universo.
A obra
borgiana constitui-se em uma literatura que se constrói sobre a
literatura e se explica a partir de si mesma. Como toda
escritura, apresenta-se, com freqüência, como obra dentro da
obra. Borges realiza a perspectiva infinita de textos que
remetem a outros. No ensaio "Magias parciais do Quixote" indaga:
"Por que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as
mil e uma noites no livro das Mil e uma noites? E responde:
"Creio haver dado com a causa: tais invenções sugerem que os
caracteres de uma ficção podem ser leitores ou espectadores,
nós, seus leitores ou espectadores podemos ser fictícios".
As
dificuldades do processo de criação tematizam-se na produção do
texto, onde realiza uma reflexão sobre a própria criação, que
acentua o papel do leitor. Ao passar a falar de si, a literatura
oferece uma nova visão do mundo, mais rica e mais complexa, para
que o leitor, chamado a participar ativamente, manipule os
elementos da obra, isto é, a leitura passa a ser uma escritura.
Pela tomada de consciência das condições de criação, o leitor é
chamado. Em sua teoria da leitura, Borges torna o receptor
participante ativo do processo criador. Uma literatura, afirma,
não difere pela forma em que é escrita, mas pela forma em que é
lida. O momento da escrita é limitado e fixo no tempo. Em troca,
o tempo da leitura é infinito e será enriquecido pela memória
dos leitores. Somos contemporâneos - como leitores - de toda a
literatura e tornamos contemporâneos todos os autores entre si.
No leitor convivem Shakespeare e Kafka, Platão e Proust. Por
isso, em um leitor, pode resumir-se toda a literatura e toda a
cultura. No prólogo de História universal da infâmia (1935),
escreve: "Ler [...] é uma atividade posterior à de escrever;
mais resignada, mais civil, mais intelectual".
Ao prazer
de ler soma-se o desvelamento do processo da escritura: não é
por casualidade que uma das obras de Borges se intitula O
fazedor (El hacedor). A auto-reflexão reveste-se de várias
modalidades na obra borgiana, que levam o leitor a criar um
mundo ficcional através do imaginário.
Na literatura borgiana o narrador confere uma significação ao
mundo de seus personagens. Um tempo e um espaço se abrem,
interminavelmente, desgarrando-se do real e do histórico,
realizando-se no infinito e regidos por leis próprias.
Cada
escritor, segundo Borges, nada mais faz do que repetir os seus
antecessores, sem nenhuma originalidade, e já Cervantes defendia
essa posição. Anulado o princípio de identidade, Borges nega a
originalidade, nega que algo do muito que foi escrito possa
considerar-se patrimônio individual de um autor. O livro não tem
realidade e só se impõe por sua multiplicação possível. Assim
como cada mito só tem sentido em confronto com os demais, cada
livro só terá significação em relação com outro.
Cada texto
é um campo magnético em que se cruzam os textos que o autor cita
ou a que alude, plagia ou repete e que vêm de uma produção
coletiva como bem sabiam os clássicos e Mallarmé e Valéry
redescobriram.
Na utopia
borgiana gera-se sua anti-utopia: o imaginário e o onírico
evidenciam seu caráter ilusório. O caminho é refeito e a redução
realizada transforma os elementos culturais estabelecendo nova
escrita. A lei de existência da literatura desliza-se pelo canal
temporal imposto pela linguagem. A realidade não coincide com o
imediato como a pátria não consiste em presenças óbvias. Borges
desrealiza a realidade para projetar outra mais essencial;
desmonta o texto numa problematização de nossa relação com o
mundo. Escreve uma obra que ele mesmo refuta e corrige. A dúvida
inspirada pela realidade é instaurada. Esta visão é um modo de
afastar o definitivo e representa também um triunfo sobre a
linguagem no sentido de representar o irrepresentável e dizer o
indizível. Reflete em sua obra o impasse da literatura moderna
ante o "dizer" uma nova realidade.
O texto de
Borges mostra todas as contradições da literatura. Este
procedimento, que chamamos de paródico, é irônica desmitificação
do passado, mas não sua destruição. O narrador deixa de ser o
porta-voz de uma tradição: ele a desconstrói e sob suas ruínas
estabelece com o leitor o sentido final do texto.
Borges,
fingindo-se comentador de livros inexistentes, reduz a tradição
ocidental a fragmentos, comentários, verbetes de uma
enciclopédia. Faz-se passar por glosador e comentarista de
histórias alheias, que espera evitar com a camuflagem da
recensão erudita, a invenção de notas bibliográficas ou a
comunicação científica. Elaborou,assim, comentários de leitor
atento, irônico e erudito. Seu modelo estilístico é o ascetismo
anti- retórico dos ingleses. Alude a uma totalidade que nega e
revela-nos o agnóstico mundo da dúvida. Por trás das citações e
invocações, o diálogo apaixonado com os grandes escritores do
passado. Sua concepção apóia-se sobre a identidade universal de
todas as coisas, sobre a enumeração que acumula a multiplicidade
para descobrir a presença do único e sempre igual.
Tudo o que
escreveu parte do fato estético e de seu modo de conceber a
literatura, isto é, de que a arte é uma convenção governada
pelas leis do gosto. Compreender o mundo como um fenômeno
estético é, de certa forma, um modo de afirmá-lo como uma
criação que, no caso de Borges e de outros escritores
contemporâneos, implica não somente num criador como um número
definido de criadores, que o inventam constantemente. Criou uma
obra de homogeneidade interna, que impede a distinção entre
ensaio e ficção, abandonada pelo próprio Borges com a "escritura
de notas sobre livros imaginários".
O
labiríntico, plural e complexo universo borgiano é o de um
escritor de fértil inteligência, mistérios e saberes,
contraditório manipulador de palavras que faz coexistirem
idéias, fontes heteróclitas submetidas a um tratamento estético,
à ordem do imaginário, em prodigiosa capacidade combinatória.
Sua
crítica confunde, estimula e provoca, numa visão pessoal,
produto de sua própria intuição, em textos classificados por
Foucault de "inquietantes" e convencido da vaidade da crítica
literária, como costuma ser praticada. Considera a crítica -
como os esquemas ilusórios para interpretar o universo - tão
fictícia como a poesia ou os contos.
A obra
borgiana reflete sua cosmovisão. Mas acima da deslumbrante
riqueza da linguagem, além da enorme capacidade inventiva, o
aspecto mais comovente é o tremor da confissão íntima e
discreta, lúcida e mágica, com que Borges nos faz sentir que nos
está abrindo as portas do universo, para revelar-nos os
múltiplos aspectos do ser humano.
Em meu
livro Jorge Luis Borges afirmo que ler Borges é uma das
aventuras mais fascinantes da liberdade criadora. Após uma
entrevista (publicada no JB em 1974 e recolhida em livro),
dei-me conta da poderosa lição de vida e de literatura que havia
acabado de ouvir: que "os livros não são espelho do mundo mas
uma coisa a mais acrescentada ao mundo". Assim pode-se
compreender melhor o lugar de Borges em todos os pequenos
imaginários individuais e na história da cultura ocidental. |