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hispânica

Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Julio Herrera y Reissig

(Uruguai, 1875-1910)

Obra poética

Los peregrinos de piedra. O. M. Bertani Editor. Montevideo. 1909.
Ciles alucinada. Imprenta Alsina. San José. 1916.
Los éxtasis de la montaña y otros poemas escogidos. México. 1917.
Los parques abandonados. Ediciones Selectas América. Buenos Aires. 1919.
Opalos. Ediciones Selectas América. Buenos Aires. 1919.
Las pascuas del tiempo. Editorial América. Madrid. 1920.
Las lunas de oro. Editorial Claridad. Buenos Aires. 1924.

Collage, Floriano Martins

 

Em defesa da poesia

Não há que ser, como diz um moderno crítico espanhol, dos que maldizem e proscrevem as formas artísticas que não lhes são de fácil acesso ou que não vão bem com suas propensões e a índole de seus espíritos. A tolerância é uma saudação da inteligência ao desconhecido. Tolerar é amar o que se aproxima, e é aproximar-se do que vem. Ninguém pode ser juiz do que só deve ser julgado pela posteridade, e quem diz posteridade diz relatividade, e quem diz relatividade tropeça sem querer no infinito, no incomensurável. O que é o gosto, senão uma quantidade de alucinação, que entra pelos sentidos, educados por esta ou aquela época, e lacrados por convencionalismos mais ou menos efêmeros que se desmentem entre si a cada passo, invocando o nome da Verdade?
A Verdade artística!… eis aqui uma expressão bem vulgar que a repetem todos os lábios, sem que os cérebros dêem conta do significado que entranha.
A Arte é, como a bela mulher da fábula, um ser biforme que ensina a cada espírito e a cada época uma parte de sua natureza. Assim considerada, não admite axiomas, nem se deixa batizar no cenáculo de nenhuma teoria, por mais brilhante e racional que seja. É como um pássaro que necessita do ar livre para viver e que nem mesmo em uma gaiola de ouro emite um só gorjeio. A Arte ama a liberdade porque é filha dela. Aplicar-lhe parapeitos, é afogá-la. É como a luz que onde encontra uma opacidade só serve para produzir sombra.

Julio Herrera y Reissig

[Trecho de "Conceptos de crítica", 1889.]

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Collage, Floriano Martins

 

Poemas
(traduções de Floriano Martins)

 

A NOITE

A noite na montanha olha com olhos viúvos
de cerva sem amparo que vela ante sua cria;
e como se assumissem um dom de profecia,
em um sonho inspirado falam os campos rudes.

Riscam o panorama, como espectros agudos,
três álamos em êxtase… Um galo alucina,
relógio de meia-noite. A grave lua amplia
as coisas, que se enchem de encantamentos mudos.

O lago azul de sonho, que nem uma sombra empana,
é como a consciência pura da montanha…
Ao pé da água límpida, que encrespa com seu alento,

Albino, o pastor louco, quer beijar a lua.
Vibra uma canção de ninar na horta sonâmbula…
Uivam aos diabos os cães do convento.

 

ILUMINAÇÃO CAMPONESA

Alternando a capricho o candor de suas prosas,
Ruth sugere à cítara tão agustos momentos!
E Fanos, em seu oboé de aveludanças,
clama sob o ocaso de borboletas e ouro…

Ante o gênio enigmático da hora, sedentos
de impossível e quimera, no ar de rosas,
põem largo silêncio sobre os instrumentos,
para então sonharem a eterna música das coisas.

Largas horas, em transe de eucarísticos medos,
amortecem os olhos e se enlaçam os dedos…
"Doce amigo!", ela geme. E Fanos: "Oh minha amada!"

E a noite iminente lambe suas mansidões…
E então, como sob o condão de uma fada,
fogos, por todas as partes, brotam sobre os cumes.

 

AMOR SÁDICO

Já não te amava, sem deixar por isto
de amar a sombra de teu amor distante.
Já não te amava, e no entanto o beijo
da repulsa nos uniu por um instante…

Ácido prazer e bárbaro embelezo
crispou minha face, me desfigurou o semblante.
Já não te amava, e me turvei, não obstante,
como uma virgem em um bosque espesso.

E já perdida para sempre, ao ver-te
anoitecer no eterno luto
- mudo o amor, o coração inerte -,

intratável, atroz, inexorável, hirsuto…
Jamais vivi como naquela morte,
nunca te amei como naquele minuto!

 

A ALMA DO POEMA

Como uma velha estampa se fundia
em avermelhados tons de desenhos
religiosos a gama de amplos luxos
da paisagem espectral detrás do dia.

Tal uma pérola, a cidade surgia
sobre o golfo, ou os cárdenos reflexos,
e um grupo de ciprestes parecia,
sob o capuz, profundos cartuxos.

Piedosos, enclausuramos a leitura…
E acreditamos sentir como uma obscura
voz sobre-humana de inefável encanto,

que entrelaçara, em milagrosos versos,
elegia a elegia e pranto a pranto,
nossos destinos para sempre adversos!

 

AS PRAGAS

Era sua mão uma sentença. E me
arrastei como um verme…

- Aguça a vista, imbecil: brilha o crime nas adagas,
frente a ti;
As emboscadas se encrespam no bosque. Dois chacais,
rosnam com ferocidade no rastro de tua inconsciência febril!
          - Não posso, não.
A noite de teus olhos já caiu sobre mim!…

- Um passo a mais e amanheces, néscio farrapo de argila!
O cume canta tua glória como um branco macaquinho.
Não alentes, fecha as pálpebras! Sob teus pés, o abismo
polariza seu olhar criminoso de Caim.
          - Não posso, não.
A vertigem de teus olhos caiu sobre mim!

- Seduzido, o polo te arrebata. Sobre a branca gangrena,
crava teu passo a insígnia do atavismo viril!
Glória a teu nome: Adiante, cretino, com tua ossamenta!
A aurora boreal coroa tuas audácias de réptil.
          - Não posso, não.
O inverno de teus olhos caiu sobre mim!

- Rema com gênio, insensato! A epilepsia constringente
do oceano te cospe. Irrompe com raiva, infeliz!
A matilha das ondas grita o drama de teu sangue
e na goela de algum monstro logo irás sucumbir!
          - Não posso, não.
A tempestade de teus olhos caiu sobre mim!

- Canceroso de soberba, mordido pela neurose:
ergue ao Céu tuas náuseas. Rende a iracunda cerviz!
Primaveriza, cadáver amável de ilustre crápula!
Deus te concede um minuto cordial para ser feliz.
          - Não posso, não.
A maldição de teus olhos caiu sobre mim!

- Condenado arrepiante, onde vais e onde pisas
a alegria tem fim:
cão escravo de ti mesmo, réprobo infame, liberta-te
de tua infecção luminosa, saboreia a paz, Anjo ruim!
          - Não posso, não.
O inferno de teus olhos caiu sobre mim!

- Quanto sofres, deus leproso do coração; é horrenda
a vigília suicida de tuas chagas, alma vil!
Depõe tua vida, covarde; beija o asco da morte:
entra em minha tumba de esquecimento e deixarás de existir!
          - Não posso, não.
A eternidade de teus olhos caiu sobre mim!

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