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Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Manuel Abreu Adorno

Collage, Floriano Martins

 

Manuel Abreu Adorno (1955-1984): outro modo de ser portorriquenho

José Luis Vega

Conheci Manuel Abreu Adorno apenas através da palavra, que é, afinal, a forma em que conheci a maioria dos escritores que me interessam. É com a palavra, nela e a partir dela, que o escritor constrói sua própria lenda, a forma na qual se quer lembrado, a imagem sua que se projeta no tecido da memória social. Ainda mais no caso de autores cuja biografia constitui a fonte nutrícia de sua escritura. Autores que, como dizia Martí a propósito de seus Versos libres, sarjam-se quando escrevem. Às vezes o ponto negro da morte que sela a vida biológica de um autor abre, paradoxalmente, essa vida terceira e perdurável da fama, da qual falou em suas Coplas Jorge Manrique. A vida então devém parte do fato estético, texto perfeito que vivido com intensidade se encerra com beleza e, relido, cobra novo sentido: o prematuro parece oportuno; o casual, destino; o inoportuno, desígnio; o fugaz, vocação de permanência. Oxalá que assim ocorra com Manuel e sua obra.

Nos poemas, nos contos; mas sobretudo em seu romance póstumo e alguma que outra dispersa entrevista jornalística de Manuel Abreu Adorno alenta uma forte imagem pessoal que hoje o sobrevive e propicia a legibilidade de seu trabalho à luz do que foram suas preocupações cardinais. A saber, o propósito de definir sua identidade porto-riquenha além dos parâmetros insulares; a decisão de resolver, a favor da escritura, a tensão entre o compromisso político e o estético; e o desejo de viver o mais literariamente possível. Desde as fotos de autor, nada casuais, que acompanham às vezes as escassas palavras impressas de Manuel Abreu Adorno até o tom, as ênfases e o conteúdo dessas palavras revelam a decisão, não somente de ser e parecê-lo, mas sim de viver como escritor. Não é pose, porque tal não há se o talento e o trabalho se dão as mãos; é a prova externa da fidelidade a um ideal de vida. assim, portanto, conheço Manuel Abreu Adorno através de suas palavras: escritor porto-riquenho ancorado em Paris, amante das grandes capitais, que propõe, de lá, que para ele também é um aqui, uma resposta; um modo de subverter literariamente o insularismo do espaço porto-riquenho.

Manuel Abreu Adorno se soma, deste modo, aos afãs de um setor de sua geração que procura a fundação de uma pátria literária descolonizada, aberta, porosa, capaz de inserir-se, sem nativismos benignos, no diálogo cultural do mundo. Seu romance póstumo, No todas las suecas son rubias, está animado por este propósito. Com ele se incorpora ao que parece ser já um subgênero do romance latino-americano contemporâneo, espécie de menipéia que narra as aventuras do latino-americano na Europa, onde contam exemplarmente obras como Rayuela de Julio Cortázar e Figuraciones en el mês de marzo de Emilio Díaz Valcárcel.

No todas las suecas son rubias é, entre outras coisas, um romance que propõe uma nova visão da identidade porto-riquenha isenta da tradicional estreiteza que nos impôs a colônia. Tal é o projeto fundamental da escritura de Manuel Abreu Adorno, latente já em sua primeira coleção de contos intitulada Llegaron los hippies. Assim o advertiu Jacques Gilard que, ao resenhar aquele volume, afirmou o seguinte: "Estes doze contos de Manuel Abreu Adorno constituem uma interessante contribuição à literatura porto-riquenha e confirmam que esta há rompido o cerco de sua insularidade… que o mundo penetrou em Porto Rico e que Porto Rico está em todo o mundo". Saúl Yurkievich, conselheiro acadêmico e amigo do escritor, na ocasião de sua morte oferece um testemunho complementar: "Manuel atuou sempre como um porto-riquenho universal, que anda por outros mundos, os experimenta e registra a partir do epicentro nativo, sabendo-se constitutivamente latino-americano…" E nas páginas finais de seu romance póstumo, o protagonista, que tem muito do próprio autor, define-se nos seguintes termos: "Irremediavelmente eu, porto-riquenho, catalão de origem, corso pelo lado de minha mãe, norte-americanizado por minha educação e pela situação política da ilha, latino-americanizado por simpatia e identificação, ocidental e universal por patrimônio adotado, amava Christina desde minha plurívoca unicidade".

Com efeito, o protagonista de No todas las suecas son rubias encarna uma redefinição que chamaria - se me permitem o prefixo tão em moda - pós-insular da porto-riquenhidade. Trata-se de um jornalista boricua, romancista em flor, que a si mesmo se retrata como um trintão meio calvo, alcoólatra, escritor frustrado, abandonado por sua mulher, amante medíocre e demasiado gordo. Esta imagem anti-sedutora, tão distanciada do estereótipo do latin lover, não impede que a fábula do romance gire em torno da complexa relação amorosa que o protagonista mantém com uma bela jovem sueca. Apesar da impiedade irônica com que o personagem se representa a si mesmo, logo descobrimos o outro rosto, não tão oculto, de um porto-riquenho culto, plenamente instalado em Paris, livre de espírito provinciano, conhecedor perspicaz da cidade, que escreve em espanhol e dialoga com o mundo fluidamente em inglês e francês. Esta porto-riquenhidade, com seu ponto de afetação deliberada, desloca-se com naturalidade entre Suécia e França; julga provinciano e simplório o mundo sueco; e sustenta íntimo tratamento com o alemão, o grego, o espanhol, o norte-americano encarnado nos corpos respectivos de sucessivas mulheres. No romance, o corpo feminino torna-se corpo cultural; amar é, com efeito, conhecer, apropriar-se de outro espaço que, por sua vez, se apropria um pouco do espaço cultural porto-riquenho. Christina é Malmö, Estefanía é Tessaloniki, Lili é Bremen, Montse é Barcelona, em um processo de reciclagem amoroso movido por um eros urgido de universalidade. Malmö, a segunda maior cidade da Suécia, torna-se pequena para o boricua transumante que protagoniza o romance.

Na Europa, além do mais, o porto-riquenho entra em diálogo franco com o latino-americano. Alberto, o protagonista, forma parte da diáspora de intelectuais e militantes políticos latino-americanos que vivem no exílio, forçoso ou voluntário, nas grandes capitais européias. A terceira parte do romance é um colóquio, como se fosse uma entrevista, que o jornalista porto-riquenho sustenta com um pintor argentino, um militante chileno e um poeta boliviano. Nesta seção, Manuel Abreu Adorno ocupa-se dos rigores do exílio, ao mesmo tempo em que examina o caráter sueco visto através das apreensões dos três latino-americanos. Aproveita a entrevista, além disto, para adiantar as pretensões estéticas de sua geração que implicam a visão crítica dos processos revolucionários do continente latino-americano e a afirmação da autonomia relativa da arte diante da política.

Uma novela como No todas las suecas son rubias, que propõe uma redefinição aberta e plurívoca da identidade nacional, requis uma estrutura narrativa de múltiplas perspectivas. Para contar sua história, Abreu Adorno valeu-se de uma pluralidade de narradores e formas discursivas. As primeiras duas partes do romance estão narradas respectivamente pela sueca Christina e o boricua Alberto. Cada um conta a versão de seus amores, que acabam sendo uma confrontação verbal e corporal entre a cultura sueca e a porto-riquenha. A terceira parte do romance adota a forma de uma entrevista jornalística. Esta seção é, de certo modo, um colóquio entre identidades culturais onde alternam as vozes do porto-riquenho, do argentino, do chileno e do boliviano. Na quarta parte, um narrador relata, na terceira pessoa, um dia de amor em Paris entre a sueca e o porto-riquenho. A jornada termina com a minuciosa descrição de um coito entre os amantes que representa um gesto eloqüente de reciprocidade e entendimento cultural entre o nórdico e o antilhano. Na quinta e última parte do romance, confrontam-se e se alternam dois tipos de discurso: um informe sociológico, frio e objetivo sobre a vida na Suécia e o relato final autobiográfico, confessional e apaixonado do protagonista. Visto assim, o romance sugere um encontro dialogante de culturas e identidades onde a porto-riquenhidade do protagonista conversa em igualdade de condições com o francês, o sueco e o sul-americano; e, em um plano evocado, com o grego, o alemão, o espanhol e o norte-americano.

A Christina Larsen de Manuel Abreu Adorno não é a pálida jarlesa sonhada por Luis Palés Matos; mas sim uma sueca de carne e osso que foi conhecida plenamente e, por sua vez, conheceu uma versão do porto-riquenho. Em algum lugar de seu romance, Manuel Abreu Adorno, citando Hemingway, afirma que se alguém em sua vida havia amado a algumas mulheres e conhecido bem algumas cidades, então podia morrer tranqüilo. No todas las suecas son rubias é, de certo modo, um romance sobre as mulheres que Manuel Abreu Adorno amou e sobre as cidades que conheceu.

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