Flora
Ferreira
floranita@hotmail.com
do almoço
ouço ruídos na mesa
e a taça de vento que entorna
varre mesas formas fumos
olhos tensos crus e informa:
não vem o que se creu
e o que houvera de ser
não deu tempo de aprontar
menu de almoço em alvoroço
de um ser periódico metódico
incumbido de ser
pronto a voar suar enlouquecer
procriar com a própria mágoa
e adormecer
sem vício ou desperdício
de olhar o quieto acontecer
do calmo e transbordante
feijão na plataforma de um fogão
em panela de pressão
suporte suportando
temperos e tais intempéries
levados aos pratos brancos
de expressão tranqüila
estampados no molho da opressão
empilhados todos na partilha à esmo
de dedos sem fio multiplicados
confusos fracos fraternos
entre garfos e facas infinitos sérios
na invasão sofrida das torneiras
a ordem é
sangrar depois do almoço
as veias injetadas de sinfônica sinfonia
simuladas
em nó e trombo
a ordem é
lavar depois do amor
a alma fértil carcomida
escorregar no lixo o resto a vida
nos mesmos cacos nus
a ordem é
servir depois do almoço
para mastigar partir diluir
sobremesa à degustar [que forra!]
nos dentes quentes em ânimo demente
a própria honra
a ordem é
beber café com muito amargo
e pouca perspectiva
a não ser a sesta o sono a morte
em progressão tranqüila
e nessa evolução cair estender-se e partir
em direção ao" pórtico sumiço"
que há de causar tão breve reboliço
ao ser tão dito imprestável ou previsto
como o próprio impropício almoço.
da casa
do que vai por dentro e por fora
da casa [ intensa teoria ]
por dentro noite vazia
por fora aurora em agonia
e a grande porta emotiva
envolta em capas de tempo
fechou espaços por dentro
abriu vidas por fora
juntou o tema e o enredo
ligando o livre e o cativo
muros confinados e esquecidos
nas sepulturas da noite
sentindo aurora entre os medos
rodopiaram em euforia
arrancando porta e o tempo
escancarando a alegria
intensa nervosa e fria
e veio o mundo em teu leito
possuir-te as rimas internas
e acender sua seiva
em labaredas externas
pressagiando tua sorte
e tuas paredes paradas
brancas virgens sepultadas
sentiram vida primeira
no sopro incrível da morte.
tessitura
feito meu cérebro
novelo de linhas
vai
desenrolando
seus fios feitos de seda
rolando em desenhos/formas
me escorrendo pela testa/rosto
sem máscara
[ suspensa ]
meus olhos travados nessa empresa
no entando espreitam sentem
essa arquitetura de cenas
esses esquadros de primeiros atos
para uma outra peça [ não mais novelo ]
sob um fundo musical
que rítmico acalma
enleia
assim vai esse novelo
desenrolando-se em ritual coragem
não forjando imagens
rolando apenas seus fios
soltos soltos soltos
todos todos todos
até que me cobrem a face
me vedam os olhos
me fazem nó
eu sonatíssima
não recuo:
só tenho agora as mãos e com as mãos
e os fios
teço
um agasalho espesso
para meu avesso
só.
espaço
hoje é dia de passar
todas as coisas a limpo
e a ferro e fogo repassar cicatrizes
na leitura de olhos computados
com as mãos programadas
em garras [unhas esmaltadas de memórias ]
guardar os seios feitos pombas
no sutiã da tarde
e em paz e calma derramar o leite
sobre a costura do tempo
e não chorar pelo gesto inusitado
alçar sem poder
o corpo exausto e num intento raro
vestir sem querer
a latitude de uma estrela
sobre o púbis cerzir todas as noites
até verter o sangue feito vinho
da pele que recua ante as agulhas
dilacerar os pés e os dedos na procura
de um botão que abotoe a vida
e arremate o tecido da angustia
de estar e ser apenas
esse espaço.
grito
sete aranhas penetram
miseravelmente
as garras fluídicas
no lançamento do corpo
tranças transversas
submersas
de pontas e pontos
e eu grito
encontram a carne
porta e porto
no corte em verso esvaido
- liquido branco dos lírios -
retorcidos
me queimam as falas
e checam as chagas
te caminhando- vida
te varam e trazem nos eixos
a dor de desfazer-te
agora sente
no frescor do caule
o grosseiro do solo que te batiza
aprende a tortura
a consciência o descaminho
então prepara teus caminhos
e com a sutileza dos pássaros
revida- vida -
que sete cirandas volteiam
terrivelmente
as sete mortes vencidas
nos sete lances que estancam
teu sopro
e o corpo para.
recesso
aqui do outro lado
não se sabe
de que lado está
apenas uma passo
e novo recesso
o ato moveu a dor
e misturou as setas
no começo da tarde
a dor moveu a boca
e triturou-me a carne
no começo da vida
aqui no campo
não semear
não possuir
é só prover
como se fosse certo
e pressentir
como se fosse perto
e protestar como se fosse ao proximo
somar deuses e juízes
para o inquérito
das pontas
aqui do outro lado
se fecha a porta e inventa
e se governa se habita
em estado de graça
aqui do outro lado
a cor é verde
e não se faz poder mas vida
apenas estrutura e matiza
o corpo na cor
assim a decisão é prosseguir
como se fosse ao longe
fartar deuses
na agudez da morte
eu- a concha -
eternidade em ventre que não se abre
nunca
você - a ponta -
caule em tempo que não verga
nunca
olha a tortura do campo
te espera
não fale ainda de que cor é teu agasalho
de que verde é tua folha
à terra que se entrega a tua busca
não fale nunca:
escuta apenas o rumor da árvore
construida.
magia
com a mágica poção
dos tempos que à mingua
das hora urdidas
nesta garganta profunda
até a ponta da lingua
toco o cio das palavras
nas lambidas fartas
das feridas findas.
apago a luz [acesa?]
das frases postas a mesa
como cartas marcadas em alguns riscos
atrás das portas atrás dos vícios
dos nossos jogos aflitos
entendiando o agora em que me fito
a mão então suspensa
sai por um desvão:
vão da consciência
te alcança ao sol
na ciência de uma minuto exato
andando por ruas invertidas
na contramão dos fatos
-armação dos atos-
solto os cabelos
grampeados por estrelas-guias
ante uma voz bendita
de um domador de astros
que me fareja os passos
retalho ao vento
o sabor da vida
e ascendo a ranhura estética do dia.
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