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Soares Feitosa
um
único nome, Ela
Bastou escrever a historinha batraquial,
um dos personagens, o poeta Rodrigo Marques, me apareceu no
escritório com um balaio de cururus debaixo do braço. Despejou-os
aos meus pés, aliás, em cima de um agravo de instrumento, da maior
gravidade, que eu, advogado, concluía.
— Veja, Coronel! [É assim que ele me
chama, Coronel, por conta de Salomão, um livro sem fim, mas nunca
fui militar. Seria, digamos, um coronéu do sertão.]
— ?
— Este aqui, o maior de todos, é para
comemorar o nascimento de uma editora! Edições Cururu. Os menores,
cururus e “cururuas”, são os livros que vamos editar, muitos,
inclusive esse tal Salomão sem fim. Este outro, muito magro, de três
pernas, é para os feitiços de praxe!
— De três pernas?!
— Sim! Ele só tem três pernas, pode
contar!
— Poeta Rodrigo Marques, ninguém acredita
mais em feitiços!
Ele garantiu que desacreditar dos feitiços
não teria a menor importância. Seriam despachados do mesmo jeito,
sobretudo depois que lera, nos rascunhos de Salomão, que o Coronel
apaixonara-se (sem êxito, daí a urgência dos feitiços) por uma jovem
muito magra, do tempo de bancário em Quixadá. Ou, pelo contrário,
seria uma noviça, algo robusta, da época de estudante, em
Nova-Russas, na casa do Padre Leitão. Retruquei que aquilo era
apenas uma ficção muito distante, em Salomão. Ele rebateu que
ninguém nunca sabe. O destino seria mesmo pródigo em pregar peças,
preferencialmente as mais enlouquecidas. Por que não agora, na
senectude?
— Isto mesmo, Coronel, quem garante que
ela não esteja de volta e até já tenha chegado?! A vantagem do
cururu de três pernas é que ele, de andar às tortas, por conta da
perna faltante, faz tantas voltas que não acerta
jamais o caminho de casa! Fica lá, no terreiro dela, feitiçando.
Escreva aqui, Coronel, o nome dela!
— ?
— Isto mesmo, Coronel, o nome dela, neste
papel. É colá-lo na boca do sapo, pelo lado de cima, no palato, e
pronto. Diga de lá, que eu escrevo daqui! Sim, o nome, como é nome
dela?
— Poeta Rodrigo, o nome dela eu jamais o soube. Sempre que ela
tenta-me a ouvi-lo, corro com um tição de brasas e lhe apago os
lábios. Beijo-os, em bálsamo e afagos, para que não os esqueça,
porque é assim que tem que ser. Veja:
Não digas o meu
nome.
Nomear-me
é prostituir o silêncio
e tu estás viva
como um altar profanado
filha de todas as vozes
impossíveis do universo.
Não digas o teu nome.
Vem
na obscura voz do tato.
[Vozes, Jaume Pont, tradução de Casimiro de Brito.] |
— !?
— Claro que ela tem um nome, um nome doce,
mas sempre o repudiei sob infinitos apelidos. De manhã, digo-a
pedra, cinzéis, pincéis. Antes do meio dia, é-me felinos de rua,
seus sons de amar, telhados; também coisas de olhar me apetecem-lhe
como nome da tarde. E, pela noite, chamo-a sob coisas da flora
selvagem, árvores por entre a lua; milhos, vagens, bromélias e as
ardências do sol, um sol da noite; caniços e paciência.
— ?
— Bote nada não, poeta. Aliás, bote.
Apenas isto: Ela!
— Só isto, Ela?
— Sim! Se for gorda, se for esbelta, tanto
faz!
— Como é o nome desse corte, Coronel? Com
que facas?
— É bem no centro do peito. É daqui, ó, que partem
coisas, do centro do peito, nomes, ou melhor, o nome. Veja, poeta, há este
único, o nome dela. Eu sei o dela; ela sabe o meu.
Se ela for cega? Não tem importância. Meus olhos hão de suprir...
que... nos dela espio os meus.
O fato é que o Rodrigo Marques
converteu-se num grande cururuzista, por isto mesmo eu lhe disse:
— Poeta Rodrigo, não é justo permanecerem
intactas as fábulas contra nosso compadre cururu, um bicho tão bom.
E distinto!
Ele danou-se a dar roupagem nova a
antigas historinhas do batráquio. No Jornal de Poesia, o nosso
cururuzista Rodrigo Marques vai com uma page com não sei com quantas
fábulas em que o compadre cururu é muito bem tratado.
Em vez de se esconder na viola de compadre
urubu, como se fosse um malfeitor ou um velhaco que não paga
ingresso, para uma badalada festa no céu; pelo contrário, recebe um
honroso convite a embarcar na viola desse notável “aviador” (e
planador!), o compadre urubu.
No retorno, depois de muitas presepadas na
festa do céu, em vez de jogá-lo lá de cima a se espatifar num
jabuti, quebrando-lhe o casco em muito pedacinhos, compadre urubu é
que quase morreu quando um “air-bus” (pronuncia-se como está
escrito: ai-ri-bus e não erbás) invade-lhe o espaço aéreo e, na
maior brutalidade, quase o tritura, com sapo, viola e tudo, nas
turbinas, de grande barulho.
Na aflição, a viola revirada em pleno ar,
foi só a conta de se despencar de dentro o nosso compadre, o cururu.
Então, o batráquio gritou lá do alto: «Desarreda, comadre pedra!». A
pedra, com medo da pancada, saltou bem acolá, e, no salto, por baixo
do salto, o jorro das águas. Foi só a conta, compadre cururu –
tibungo! –, bem lá dentro!
— Ah, festa! Ah, céus! Viva nosso Senhor
Jesus Cristo! – teria dito o sapo, as mãozinhas para cima, quando
leve e fagueiro já emergia do amplo mergulho naquela água recém. Ao
que o urubu, são e salvo, gritou-lhe bem alto, num rasante:
— Viva, compadre! Mas perdi minha viola na
queda do avião!
Eu disse: Mestre Rodrigo, era nesse poço
do sapo que Ela tomava banho todas as manhãs. Eu, lá de longe,
amoitado por trás dos canapuns... Com uma luneta de fundo de garrafa
e talo de jerimum, contava um a um, todos os sinais...
Um, bem aqui, na perna, lá nela, assim, em cima...!
Rodrigo disse que os meninos, convidados
pelo sapo, se ajuntaram e fizeram viola nova para compadre urubu.
Bom, dessa parte eu não lembrava, mas desconfio que ajudei na viola
do batráquio. Aliás, do urubu. Eram os restos de uma gaiola
quebrada, saída de dentro de um certo livro: Salomão.
Agora, por seu favor, uma pausa ligeira
nos batraquiais para lhe contar, meu caro leitor, a entrevista com
três jovens poetas, de Goiânia, Goiás.

Fortaleza,
Ceará, de noite alta, 16.4.2005
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