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Henrique Marques Samyn
Na mansão do Estácio
I.
Lacera a carne a cúpida chibata
e asperge a pele o jorro rubro e intenso.
De quatro – eqüina – geme a ofensa amada:
a máscara na cara oculta o extático
arroubo que na boca se anuncia.
Em volta, os Arlequins apaixonados
à cena assistem. Na mansão do Estácio,
o amor se esquiva à estranha luz do dia.
II.
No corpo a Colombina aceita o corte
que a faca do Arlequim, precisa, traça,
com a graça de um perverso carnaval.
Retorce o dorso. Geme. Assim, devassa,
em meio aos foliões, oferta o seio.
Perdida em meio às pânicas paixões,
faz-se em berço de Baco, apaixonada
não por alguém, mas pelo inato enleio.
III.
Lá fora da mansão, na noite fria
do Estácio, asceta, em sestra solidão,
triste, o Pierrô lamenta a negra sorte.
Na branca veste, fere-o, feito açoite,
a rósea marca – o beijo: a Colombina
ali deixou-o. Ouvindo sua consorte
fremir nas trevas, o Pierrô vacila:
não quer mais vê-la. Ansia, antes, a morte.
[de “Poemário do desterro”]
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