Luiz Nogueira Barros
 
 
Salomão: 
 

           Livro de Soares Feitosa, ainda em edição limitada... Complexa estrutura e conteúdo. Um teatro: as cortinas vão sendo abertas e os personagens vão entrando, libertados dos seus tempos históricos. Uma violação de sepulturas ilustres com fantasmas veneráveis reconvocados para uma temática assombrosa: a escravatura! No fundo, mesmo, também a sua outra face: a liberdade, os oprimidos! 

           A interpenetração recíproca da escravatura e da liberdade, sem limites e fronteiras, uma quase como a decorrer da outra, cria uma sensação de magia dialética dificultando-nos, por vezes,  nos situarmos onde estamos. O poema, épico, vai decorrendo com versos, relatos em prosa, recortes de jornais, fotos, anotações de pensamentos dos grandes personagens da literatura, da filosofia e da história, mostrando que é possível, como fez Homero, na antiguidade grega, ser entendido em prosa e verso - exercício literário tornado possível apenas por Soares Feitosa nas últimas décadas da produção cultural brasileira. 

           Crendices e credos ideológicos desfilam nos poemas: ora nas palavras das figuras veneráveis que ele acorda das sepulturas ilustres, e ora nas palavras dos personagens populares do seu poema: 

           A magia das afirmações fica entre a crendice e a ideologia consumada: à afirmação “Porque os homens caem direto dos homens, / e alguns poucos homens caem direto dos deuses; / e levanta-se uma raça de homens, / e levanta-se uma raça de deuses./  (...) porque os homens-deuses sabem da Aurora ( ...) Só eles tangem / o relâmpago e o corisco / (...) Os que criam são livres! / Os que imitam: escravos! /”, semelhando ideologia consumada, de natureza étnica, de repente, segue-se-lhe o impacto aterrador das palavras de Salomão, também descendente dos deuses, negro feito capitão de escravos,  que comprava e vendia negros, e negrinhas para o deleite do Coronel: “Que a aurora jamais será branca, Coronel, / nem preta / Veja nos céus, Coronel, / boa-noite!”,  desqualificando a etnia e alçando a questão a um plano mitologico, que Soares Feitosa cria mesmo é uma luta de titãs, uma titanomaquia tropicalizada, brasileira, portanto, e aí está o seu ato criador na poética brasileira. Tal proposta criativa, mitológica,  transfere a luta social para o campo das realizações de obras que mereçam certa eternidade, colocando em cheque alguns defensores da raça superior entre os homens, tenham ou não “um bigodinho ridículo de um ditador ariano” , ou a face serena e por vezes cínica de um “democrata” que bem maneja a “violência da paz, da calma”,   mas capaz de consentir num mundo de Caradirus e massacres aos aos deserdados da terra... 

           Soares Feitosa é um saltimbanco no melhor sentido: tece com as suas e as palavras alheias finíssima teia, homóloga do labiritno de Creta, na qual passeia, seguro, e onde os poetas de talento duvidável jamais se arriscariam penetrar, temerosos de julgamentos imprecisos e, muito mais que isso, porque não têm como musa uma Ariadne... 

           Deuses, verdadeiramente, são os produtores de obras eternas e às quais está reservada a posteridade: “só as obras; / os homens não. /”, o que não quer dizer os autores das obras não cheguem aos séculos seguintes rebocados pela generosidade do que produziram... 

           Os Antônios, todos os ilustres, povoam a sua obra. Impossível dissertar sobre todos os momentos da obra “Salomão”, de Soares Feitosa. Mas algo fica muito claro: a tudo o que foi escrito e realizado pelos grandes escritores, heróis e santos, por  todos os tempos históricos, desde Ésquilo, e sobre todos os temas das privilegiadas regiões do mundo, a posteridade há de anexar, ao índice universal, com certeza, a obra de Soares Feitosa sobre a sua terra e a saga do oprimido, como algo que estava faltando. Como algo merecedor do Século Cem, ou de todos os séculos... 


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