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Manoel de Barros

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ricardo Noblat, jornalista político do Brasil

  Página recomendada pelo blog do Noblat

 

Vera Queiroz

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Manoel de Barros


 

Bio-bibliografia


Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá MT, 1916). Publicou seu primeiro livro de poesia, Poemas Concebidos Sem Pecado, em 1937. Formou-se bacharel em Direito no Rio de Janeiro RJ, em 1941. Nas décadas seguintes publicou Face Imóvel (1942), Poesias (1946), Compêndio para Uso dos Pássaros (1961), Gramática Expositiva do Chão (1969), Matéria de Poesia (1974), O Guardador de Águas (1989), Retrato do Artista Quando Coisa (1998), O Fazedor de Amanhecer (2001), entre outros. A partir de 1960 passou trabalhar como fazendeiro e criador de gado em Campo Grande MS. Ao longo das décadas de 1980 e 1990 veio sua consagração como poeta. Em 1990 recebeu o Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro O Guardador de Águas, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Manoel de Barros é um dos principais poetas contemporâneos do Brasil. Em sua obra, segundo a crítica Berta Waldman, "a eleição da pobreza, dos objetos que não têm valor de troca, dos homens desligados da produção (loucos, andarilhos, vagabundos, idiotas de estrada), formam um conjunto residual que é a sobra da sociedade capitalista; o que ela põe de lado, o poeta incorpora, trocando os sinais".


NASCIMENTO

1916 - Cuiabá MT - 19 de dezembro

LOCAIS DE VIDA/VIAGENS

1918 - Corumbá MS
1924/1928c. - Campo Grande MS
1929c./1960c. - Rio de Janeiro RJ
1940c. - Nova York (EUA), Bolívia, Peru, Equador
1945c. - Portugal, Itália e França - Viagem
1960/1993 - Campo Grande MS

VIDA FAMILIAR

Filiação: João Wenceslau Leite de Barros e Alice Pompeu de Barros
1947 - Rio de Janeiro RJ - Casamento com Stella Leite de Barros. Três filhos e sete netos
1949 - Corumbá MS - Morte do pai

FORMAÇÃO

1924/1926 - Campo Grande MS - Curso primário em internato no Colégio Pestalozzi e Colégio Lafayette (internatos)
1929/1934 - Rio de Janeiro RJ - Curso ginasial no Colégio São José, dos padres maristas (internato)
1941 - Rio de Janeiro RJ - Bacharel em Direito

CONTATOS/INFLUÊNCIAS

Influência da poesia de Oswald de Andrade, Rimbaud e de toda a obra do Padre Antonio Vieira, Borges, Guimarães Rosa, Quevedo e Strindberg

ATIVIDADES LITERÁRIAS/CULTURAIS

1937 - Publicação de Poemas Concebidos Sem Pecado, primeiro livro de poesia
1993 - Campo Grande MS - Redação de "um livro de inexplicáveis prosas". Título provável: No Sertão, No Pantanal: Conversamentos com J. Guimarães Rosa
1999 - São Paulo SP - Publicação do livro infanto-juvenil Exercícios de Ser Criança (Ed. Salamandra)

ATIVIDADES SOCIOPOLÍTICAS

1935/19376 - Rio de Janeiro RJ - Membro da Juventude Comunista

OUTRAS ATIVIDADES

1960 - Campo Grande MS - Fazendeiro, criador de gado

HOMENAGENS/TÍTULOS/PRÊMIOS

1940 - Rio de Janeiro RJ - Prêmio Orlando Dantas concedido pela Academia Brasileira de Letras
1969 - Brasília DF - Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal
1990 - São Paulo SP - Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte; Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro O Guardador de Águas, concedido pela Câmara Brasileira do Livro
1997 - Prêmio Nestlé de Literatura/Poesia/Autor Consagrado, pelo Livro sobre Nada

VERSÕES/ADAPTAÇÕES

1989c. - Filme O Inviável Anonimato do Caramujo Flor, de Joel Pizzini, sobre o poeta

MOVIMENTOS LITERÁRIOS

1930/1945 - Modernismo (Segunda Geração)


[Fonte: Itaú Cultural]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sandro Botticelli, Saint Augustine, Ognissanti's Church, Firenze

 

 

 

 

 

Manoel de Barros


 

Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
de "O Guardador de Águas"


I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural

- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.


 

 

 

Eloí Elisabeet Bocheco

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César Leal

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Manoel de Barros


Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho
de "O Guardador de Águas", Ed. Civilização Brasileira.


1
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.

3
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.

7
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.

9
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.

11
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.

12
Seu França não presta pra nada -
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

13
Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos

 

 

 

Dora Ferreira da Silva

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Floriano Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Êxtase de São Francisco

 

 

 

 

 

Manoel de Barros



O Guardador de Águas
de "O Guardador de Águas", Ed. Civilização Brasileira.


I
O aparelho de ser inútil estava jogado no chão, quase
coberto de limos -
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas...
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.

II
Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.
Ele faz encurtamento de águas.
Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros
Até que as águas se ajoelhem
Do tamanho de uma lagarta nos vidros.

No falar com as águas rás o
exercitam.
Tentou encolher o horizonte
No olho de um inseto - e obteve!
Prende o silêncio com fivela.
Até os caranguejos querem ele para chão.
Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso
para dentro de um oco... E deixou.
Essas formigas pensavam em seu olho.
É homem percorrido de existências.
Estão favoráveis a ele os camaleões.
Espraiado na tarde -
Como a foz de um rio - Bernardo se inventa...
Lugarejos cobertos de limo o imitam.
Passarinhos aveludam seus cantos quando o vêem.

V
Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas - e que oram
Devante uma procissão de formigas...
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor
de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os dicionários:

coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra
minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que chora.
Aqui, o luar desova...
Insetos umedecem couros
E sapos batem palmas compridas...
Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.

VIII
Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos de
formigas. Apreciam de ver as formigas correndo de
um canto para o outro, maluquinhas, sem calças, como
crianças. Dizem eles que estão infantilizando as
formigas. Pode ser.

XX
Com 100 anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com 100 anos de escombros um sapo vira árvore e cresce
por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de 100 anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor
as cores tortas.
Com menos de 3 meses mosquitos completam a sua
eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de 100 anos, perde
o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe
que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele
vagando por escórias...
A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,
se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a
fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter - ela espicha os
olhinhos para Deus.
De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem
o rumo das grotas.
Todas estas informações têm uma soberba desimportância
científica - como andar de costas.

 

 

 

 

Cida Sepúlveda

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Carlos Nejar

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

 

 

 

 

Manoel de Barros



Mundo Pequeno
do livro "O Livro das Ignorãças" - ed. Civilização Brasileira.


I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
cigarras." Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

 

 

 

 

Elaine Pauvolid

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Octavio Paz, Nobel

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Manoel de Barros



Uma Didática da Invenção
do "O Livro das Ignorãnças" ed. Civilização Brasileira.


I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
 

 

 

 

Eliane Accyoli Azevedo

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Thiago de Mello

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

Carlos Augusto Viana

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

15.11.2006 - Caderno Cultura

 


 


MANOEL DE BARROS: a poética da reinvenção

O motivo central dessa edição é uma investigação acerca de determinados recursos estilísticos e explorações semânticas que se comportam como elementos recorrentes na escritura do poeta Manuel de Barros, (natural de Corumbá, Mato Grosso - 1916) cuja projeção nacional se deu a partir dos anos 1980, mas que, de há muito, já vinha chamando a atenção dos críticos e dos analistas acadêmicos, especialmente por conta de uma dicção própria, concentrada, de modo mais intenso, na captação das coisas simples do dia-a-dia, mesmo que estas nem sempre comportem a atmosfera do que a tradição acostumou-se a identificar como inerente ao material poético.

Carlos Augusto Viana
Editor

O trabalho de Manoel de Barros, trata-se, portanto, de uma poesia intrigante, desafiadora e, sobretudo, inaugural. Seus livros já antecipam a estranheza poética nos próprios títulos, tais como: ´Poemas concebidos sem pecados´ (1937), ´Face imóvel´ (1942), ´Compêndio
para uso dos pássaros´ (1961), ´Gramática explosiva do chão´ (1969), ´Arranjos para assobio´ (1983), ´livro de pré-coisas´ (1986), ´O guardador de águas´ (1989), ´O livro das ignorãças´ (1993), ´Livro sobre o nada´; (1996), ´Retrato do artista quando coisa´ (1998), dentre outros. Percorrermos, assim, um dos múltiplos caminhos desse poeta lavrador que colhe do chão as palavras.

Se, em João Cabral de Melo Neto, havemos a identificação da palavra com a pedra, isto é, a idéia de uma aprendizagem do poeta no sentido de tirar lições da pedra: com esta podendo aprender a exatidão da forma, a impassibilidade, a resistência à porosidade, sendo, portanto, impermeável a sentimentalismo, sob a severidade das rimas toantes; em Manoel de Barros, se sedimenta a concepção da palavra como um organismo vivo: a palavra-vegetal, a palavra-animal:

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.


ou, quando não, a palavra-mineral - mas esta, ao contrário da palavra-pedra em João Cabral, extática e impassível, anuncia-se portadora de anima:

Adoecer de nós a Natureza:
- botar a aflição nas pedras.

Como se vê, a palavra, enquanto morada do poético, imprime-se como a marca fundamental da criação literária de Manoel de Barros. É daí que resulta a sua poesia, ou seja, do seu próprio cotidiano com as palavras, estabelecendo entre elas novas relações, produzindo efeitos novos, para, assim, poder extrair a forma oculta que se toda forma abriga. Tudo nele é preocupação com a linguagem, ´uma vontade de recuperar a virgindade das palavras. A sua atitude de casar uma palavra já gasta com outra também gasta parece produzir a primeira vez de uma palavra´. (Barbosa, 2003, p.17) Nesse sentido, o poeta busca não apenas simples relações semânticas, pois, mais que isso, aspira às ressonâncias, aos ritmos inefáveis, às inumeráveis sensações:

Mas eram coisas desnobres como intestinos de moscas
que se mexiam por dentro de suas palavras.
Gostava de desnomear:
para falar barranco dizia: lugar onde avestruz
esbarra.
Rede era vasilha de dormir.
Traços de letras
que um dia encontrou nas pedras de
uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.
Penso que fosse um escorço de poeta.


A poética de Manoel de Barros se enquadra na categoria daquelas coisas que, segundo Santo Agostinho, existiam para ser desfrutadas, isto é, prazer em si mesmo. Nesse sentido, o discurso é elaborado a partir de um entrelaçamento de palavras para que desemboquem sempre num jogo de pensamento, do qual se depreende o inesperado ou a estranheza:

Desinventar objetos.
O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.


Eis o universo de Manoel de Barros: a invenção. Ou reinvenção. Há, em toda a sua construção poética, o gosto pelo desvio ou o gozo de palmilhar o não-sabido. Persegue, sobretudo, o nada, pois é daí que espera extrair a essência do que desconhece. Trata-se, a rigor, de uma aprendizagem às avessas: desaprender para, assim, ter condições de que apalpar o invisível; desse modo, ignorando as coisas pode, enfim, reencontrá-las.

A primeira parte do Livro das Ignorãças tem como título ´Uma didática da invenção´, e a epígrafe bem sintetiza os poemas: ´As coisas que não existem são mais bonitas´, isto é, a poesia habita o gênesis, daí a reiteração dos exercícios de metalinguagem, uma vez que a poesia quer conhecer a si mesma, anseia deparar o que havia na imagem antes que esta se revelasse. Memória e aprendizagem se inter-relacionam. Em Manoel de Barros ocorre, exatamente, aquela epifania drummoniana do ´esquecer para lembrar´:

Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que
[ é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.


Nesse excerto, - como em tantos outros - observa-se que as palavras gravitam as altas zonas da linguagem, à semelhança dos pontos privilegiados que a magia discerne e une misteriosamente no mundo: a ´criança´, ao mudar ´a função de um / verbo´, não delira, mas, sim, o próprio ´verbo´, tocado, agora, pela transformação; por isso, o poético reside em ´fazer nascimentos´, em entregar as palavras ao delírio.

Insetos que se arrastam, árvores que voam, arbustos que cantam - tudo isso implica, na poética de Manoel de Barros, o desdobramento de imagens que comunicam a revelação. As palavras se movem no poema, e o leitor nunca se cansa de se surpreender; a poesia concretiza, pela força da imaginação, o pensamento especulativo no próprio âmago do espírito:

Para entender nós temos dois caminhos:
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.


Nesse exercício de metalinguagem, o poeta aborda, com extrema agudeza, a problemática do que a poesia comunica, cuja natureza, como se vê, é, essencialmente, inefável. O estado poético, portanto, comporta a desintegração das coisas, a decomposição da crosta que as envolve: ´Desaprender oito horas por dia ensina os princípios´. Em outras palavras, o estado poético consiste em mergulhar no avesso das coisas, em descascar o que há muito já se encontra cristalizado pela cultura. Ser poeta é inverter. Ser poeta é transgredir:

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
poesia é quando a tarde está competente para
dálias.
É quando
ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
e um sapo engole as auroras.


Das imagens do ´dia (que) dorme antes´; da ´tarde (que) está competente para /Carlos Augusto Viana dálias´; do ´sapo (que) engole as auroras´, brota o estado poético que o autor inscreve em cada um de nós - os leitores. Todos nos tornamos, então, cúmplices dessa música, do encantamento que suscita. Os seres, as coisas, os sentimentos saem, subitamente, de sua existência ordinária em direção ao indefinível - e o que conhecemos muda, magicamente, de valor. Tudo se converte em música. Não uma música qualquer, mas uma outra que percorre todos os nossos sentidos e nos solicita por inteiro:

Insetos cegam meu sol.
Há um azul em abuso de beleza.
Lagarto curimpãpã se agarrou no meu remo.
Os bichos tremem na popa.
Aqui até a cobra eremisa, usa touca, urina na fralda.
Na frente do perigo bugio bebe gemada.
Periquitos conversam baixo.


Eis, em síntese, o discurso literário de Manoel de Barros, de que se evola um universo singularmente harmonioso, uma vez que tal harmonia advém da própria poesia, que nos torna ressonantes e consoantes com ela. Um universo que permanece em nós, exatamente porque não nos é imposto, mas tão-somente sugerido. É o sonho que emana de uma percepção.


Direto para a página de Carlos Augusto Viana

 

 

Raquel Naveira

 

Deise Assumpção

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lau Siqueira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Raphael Barbosa Lima Arruda

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

15.11.2006 - Caderno Cultura

 


 
MANOEL DE BARROS
Aspectos ESTILÍSTICOS E SEMÂNTICOS

Nos poemas de Manuel de Barros, há uma forte carga semântica e estilística, pois o poeta brinca com as palavras, mudando, muitas vezes, o significado real que possuem. Como ilustração, cito o poema VI, integrante da parte inicial de O livro das ignorãças (publicado em 1993), chamado ´Uma didática da invenção´, parte em que o poeta define como é o seu fazer poético:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, Onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.


Notamos, no poema acima, o relato da origem, mostrando que é notório o valor soberano da palavra. Sobretudo, o eu lírico faz lembrar das expressões presentes no livro bíblico
de João 1:1, que ora: ´No começo era o Verbo´ e, anterior ao cristianismo, havia uma visão mítica de que Deus empregou a palavra como forma de expressão e como instrumento de criação de todos os seres.

Está clara a soberania da palavra, pois o verbo no 1º verso é uma metáfora para a linguagem, nos inferindo que o verdadeiro autor de um poema não é nem o poeta nem o escritor, mas sim a linguagem.

Nessa brincadeira poética, o eu lírico manipula a linguagem, introjetando neologismos na incorporação do prefixo des- na palavra ´começo´ , resultando ´descomeço´. Esse termo inaugura um novo paradigma que constrói a transposição do discurso sagrado ao profano. Até mesmo a maiúscula alegorizante do verbo perde-se, por isso, através da inversão estabelecida pela ordem, que há uma transgressão da esfera divina para a profana.

Têm-se dois momentos míticos, são eles: ´No descomeço (1º verso) e o ´começo´ (3º verso). O primeiro nos remete ao tempo inicial marcado pelo ´verbo´;
já o segundo é o posterior e formado pelo ´delírio do verbo´. Notamos a personificação (prosopopéia) do verbo que se torna exaltado, entusiasmado, assim como temos a informação de que depois do ´descomeço´ é o ´começo´.

Os versos nº 4 e 5: ´Onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos´ nos remetem à fala sinestésica da criança, fazendo-nos perceber a mistura de sentidos humanos: audição e visão em ´escuto a cor dos passarinhos´.

Em seguida, mostramos novamente nos últimos versos, o processo de personificação do verbo em ´a criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som´. No entanto, ´caso a criança mude a função do verbo, ele delira´.

Enfim, o verbo é o ser supremo no poema ´Didática de uma invenção´, mostrando-nos, o incrível processo de criação literária do poeta.

O poema ´A arte de infantilizar formigas´ consta no Livro sobre nada, obra editada em 1996, que rendeu a Manoel de Barros o Prêmio Nestlé de Literatura pelo alto
grau do jogo de palavras instaurado para criar uma realidade própria:

Depois de ter entrado para rã, para árvore, para pedra
- meu avô começou a dar germínios
Queria ter filhos com uma árvore.
Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir
vender na cidade.
Meu avô ampliava a solidão.
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do
quintal : Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra
dentro.
Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato.
Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.
Aí a nossa mãe deu entidade pessoal ao dia.
Ela deu ser ao dia,
e Ele envelheceu como um homem envelhece.
Talvez fosse a maneira
Que a mãe encontrou para aumentar
as pessoas daquele lugar
que era lacuna de gente.


É notório no discurso a forte carga emotiva que o ´avô´ possui em relação à natureza, pois são incorporados aos elementos da mãe terra como a rã (animal), a árvore (vegetal) e a pedra (mineral), havendo uma ní
tida integração com esses seres. Desta forma, o avô passa ´a dar germínios´, mostrando a idéia de fertilidade. Tal idéia sobre fertilidade é expressa através da anunciação de seus extravagantes desejos como notamos nos versos nº 3, 4 e 5.

´Queria ter filhos com uma árvore./Sonhava de pegar um casal de lobisomem para ir/vender na cidade.´

Nota-se que além da união mística do avô com a árvore (´queria ter filhos com uma árvore), é empregado o verbo ´sonhava´ que pode ser visto como uma seqüência de eventos psíquicos ocorridos durante o sono, ou como um desejo e aspiração. Essa é uma forma de mostrar os devaneios que perpassavam a mente do avô, quando contemplava a imensurável natureza presente em sua vida.

Quando o avô menciona que ´sonhava de pegar um casal de lobisomem´, nos dá uma idéia alógica, pois a expressão ´lobisomem´ origina-se do latim lupus homo, homem lobo, gênero masculino. Já o termo casal nos remete a idéia da união entre o macho e a
fêmea. De fato, o eu lírico desconstrói a lenda, a fim de que haja procriação.

Na seqüência, quando é dita a finalidade desta ação, ´para ir/ vender a cidade´, nota-se embutida a noção de comércio que remete a toda e qualquer cidade. Dessa forma, o poema estabelece uma forte oposição entre o primitivo (´lobisomem´) e o não primitivo (´cidade´) que o avô deseja romper.

No verso nº 6, ´Meu avô ampliava a solidão´, o avô surge isoladamente, em liberdade, fato em que explica todos os delírios marcados pelo eu lírico. Dessa forma, o avô apesar de ser um membro da família, apresenta-se distinto de um personagem do cotidiano. O avô parece se isolar da família pelas suas capacidades e qualidades, as quais ele quer estender aos outros, por isso quer ter filhos com uma árvore, vender um casal de lobisomem: afinal, cultivar a inútil poesia.

No que apresenta o verso nº 7, tem-se outra indicação temporal ´no fim da tarde´ que remete a uma rotina, conforme expressa o verbo aparecer, núcleo (´aparecia´), núcleo da oração. É interessante ressaltar o aparecimento de ´nossa mãe´ que, ao contrário de ´meu avô´, apresenta-se antecedida pelo pronome possessivo em primeira pessoa do plural. Daí pode-se inferir que o ´avô´ materializa a liberdade do eu lírico, já a ´mãe´, os limites.

No tocante aos versos nº 8 e 9: ´Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem para dentro´, observa-se um processo de personificação do dia (prosopopéia) que dá vida ao dia, além do pleonasmos vicioso ´entrem para dentro´, típico da linguagem coloquial. Nota-se a expressividade do eu lírico por ser fiel em relação à linguagem da mãe, refletindo grande autenticidade dessa situação cotidiana.

Nos versos seguintes temos: ´Um lagarto atravessou meu olho e entrou para o mato / Se diz que o lagarto entrou nas folhas, que folhou.´ Primeiro, quando se diz ´atravessou o olho´ é uma metáfora feita a percepção intelectual do eu lírico (a imaginação poética). E o mato, por sua vez, representa o terreno inculto (a escrita poética). Enfim, notasse no verso nº 11 a ambigüidade no vocábulo ´folha´ , pois tanto pode se referir a uma parte das plantas , como ao papel que serve para à escrita.

O trecho do poema ´Canção do ver´, presente na obra ´Poemas Rupestres´, de Manoel de Barros, relata-nos o forte poder criativo do poeta em gerar uma realidade própria para os fatos mundanos:

1. Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.


Nesse discurso, o eu lírico vive integrado na natureza como se fosse um pássaro. Enxerga como um pássaro, pois para ele as coisas presentes na mãe terra eram iguais, ou seja, viviam em harmonia plena. A arte de criação poética é um recurso utilizado pelo autor para transgredir a esfera da normalidade, ou seja, uma nova realidade é recriada. Enfim, o cerne da poética barrosiana é o cultivo da poesia experimental. Como ilustração, leiamos os versos: ´As palavras eram livres de gramáticas e/Podiam ficar em qualquer posição./Por forma que o menino podia inaugurar./Podia dar as pedras costumes de flor./Podia dar ao canto formato de sol.

Tudo era inominado, pois não havia a austeridade da gramática normativa para nomear os seres como é o caso do substantivo. Notamos, então, a total inversão da ordem natural dos seres, também presente no trecho seguinte:

2. A de muito que na Corruptela onde a gente
Vivia
Não passava ninguém
Nem mascate muleiro
Nem anta batizada
Nem cachorro de bugre.
O dia demorava de uma lesma.
Até uma lacraia ondeante atravessa o dia
Por primeiro do que o sol.
E essa lacraia ainda fazia estação de recreio no circo das crianças
a fim de pular corda.
Lembrava a tartaruga de Creonte
Que quando chegava na outra margem do rio
As águas já tinham até criado cabelo.
Por isso a gente pensava sempre que o dia
de hoje ainda era o ontem.
A gente se acostumou de enxergar antigamentes.


Nos versos nº 3, 4 e 5 temos a figura de repetição ´anáfora´ do advérbio de negação ´nem´, que é relevante para a intensificação dos conteúdos e estruturação do ritmo na poesia.

É notória a nostalgia predominante no ambiente em que o eu lírico vive, pois tudo se reduz ao nada. Há uma metáfora em relação ao tempo que passa vagarosamente em ´O dia demorava de uma lesma´. Ainda menciona as ações de uma lacraia que atravessava o dia, fazendo estações de recreio no circo das crianças, havendo uma relação harmônica desse inseto traiçoeiro com as crianças.

Tamanha era a vagarosidade do dia que o eu lírico fica preso às imagens pertencentes às reminiscências de sua infância. Para mostrar novamente a morbidez do dia e o rico processo criativo do autor, citemos um outro trecho presente no poema Canção do Ver:

3. Pela forma que o dia era parado de poste
Os homens passavam as horas sentados na
Porta da Venda
De Seo Mané Quinhentos Réis
que tinha esse nome porque todas as coisas que vendia
custavam o seu preço e mais quinhentos réis.
Seria qualquer coisa como a Caixa Dois dos Prefeitos.
O mato era atrás da Venda e servia também para a gente desocupar
Nem as emas solteiras que despejavam correndo.
No arruado havia nove ranchos.
Araras cruzavam por cima dos ranchos
conversando em ararês.
Ninguém de nós sabia conversar em ararês.
Os maridos que não ficavam de prosa na porta
da Venda
Iam plantar mandioca
Ou fazer filhos nas patroas
A vida era bem largada.


Observa-se a ociosidade dos homens que só freqüentavam a venda de ´Seu Mané Quinhentos Réis´. Temos presente o desvio ortográfico em ´Seo Mane´, típicos da linguagem coloquial.

É bem claro o comportamento do homem, dos cachorros e das emas no momento de fazerem as necessidades, quando o eu lírico utiliza os verbos ´desocupar´ e ´despejar´ que remetem a um eufemismo para outros verbos que trazem uma conotação mais pejorativa como ´obrar´ ou ´defecar´.

Como ultimo recurso, o autor utiliza o neologismo ´ararês´ que era a língua falada pelas araras que cruzavam por cima dos ranchos.

Por fim, devido à falta de opção, os homens que não se restringiam a freqüentar a venda, ou plantavam mandioca ou faziam filhos nas patroas.

Assim, tem-se como cerne na poética de Barros a completa transposição das palavras, mudando o seu significado próprio, trazendo, pois, a composição de um novo mundo que é habitado por seres presentes da mãe natureza como o pássaro, a rã, a árvore, o cachorro etc. De forma análoga, encontramos a representação de pessoas que servem como elo na desmistificação de seu fazer poético.

 


   
 
 

 

 

 

28/4/2007