Nauro Machado

O Heroísmo na Poesia de Soares Feitosa
 
 
            A gesta do sertão brasileiro encontrou-se com Soares Feitosa, um dos espelhos vocálicos de seu extremado canto. Seu livro de estréia, PSI, a Penúltima, é um poema de circularidade épica, dilatado por uma visionária inteligência computadorizada, capaz de reacender em nossos olhos a transparência eidética dos princípios. Trazendo uma Grécia transplantada ao nordeste seco e heróico, de um país que, por destino, é o nosso; os tempos nele se unem a abranger a heroicidade do gueto de Varsóvia à resistência heróica de La Moneda. A poética de Soares Feitosa não se estanca assim no epos geográfico de uma história sertaneja: extrapolando dos condicionamentos narrativos que lhe diminuiriam a abrangência ecumênica do texto, sua visão incide - esclarecidamente racional e culta - sobre a natureza humana de um patrimônio universal. Sua técnica, como estrutura amealhadora de peças anônimas e autônomas, não lhe estereliza em nenhum momento a emoção. O computador, no seu caso, permitiu a abertura para o espraiamento de um novo espaço sobre o qual o tempo, na parábola do homem enquanto História, retroage consagüineamente às primícias da visão homérica. Certos trechos desses poemas são co-irmãos do inferno sousandradino, na atomização vocabular do raconto, e do simultaneísmo apollinaireano, naqueles acordes em que o músico de St. Remy vai encantando os personagens na circularidade da história. Seu poema é, destarte, voz secularizada pelo trabalho oral de toda uma região. Poeta extremamente culto, tão necessário nestes tempos de poetas apenas alfabetizados, Soares Feitosa segue os caminhos desbravados entre nós, com ressonâncias planetárias, pelo bardo Gerardo Mello Mourão, autor de Os Peãs, este poema ímpar no contexto da verdadeira história cultural brasileira.  
 
 
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