Feitosa é seu nome de guerra. A primeira vez que o vi, achei-o um
sujeito diferente. Fugia do padrão. Destoava. Era, sem nenhuma dúvida,
uma pessoa incomum.
Conheci-o num seminário de tributaristas. De repente, levantou-se
desinibido, foi para a frente da platéia, e deu seu recado de cearense
que estava chegando no pedaço, sua opinião técnica
de tributarista seguro e estudioso.
Repito: achei estranho aquele sujeito baixinho, quase gordo, cabeça-chata,
linguagem original e sotaque de matuto que não se contaminara com
os modismos vazios da cidade grande. Com toda franqueza, na hora em que
apareceu, tive uma surpresa ante a interferência ousada daquele personagem
incomum. Franzi a testa, olhei desconfiado, mas logo comecei a gostar do
sujeito.
Seu linguajar de matuto bateu certinho com algo que havia dentro de mim.
Eram raízes comuns, trajetórias semelhantes de menino pobre
que foge para a cidade grande, sem nunca esquecer a cultura e a alma de
seu povo, sem se desligar - e sem se envergonhar - de sua origem sertaneja.
Aí soma uma cultura à outra e torna-se mais rico por causa
da transitividade que tem em universos diferentes. É isso que Soares
Feitosa é: o resultado da super- posição de duas culturas:
a cultura simples do interior e a cultura erudita das bibliotecas !
Dos sertões de Monsenhor Tabosa, Nova-Russas e Santa Quitéria
(micro-região de Crateús, Ceará), ele trouxe a cadência
e toda a musicalidade que tornam seus poemas gostosíssimos de ler.
De lá, trouxe também o vocabulário e, mais que tudo
isso, trouxe um linguajar próprio das plagas sertanejas, daquele
mundão sem fim, que somados à erudição resultaram
numa plasticidade linguística original e de rara beleza.
O que mais admiro nos poemas de Soares Feitosa é a capacidade de
harmonizar o regional com o universal. Ele viaja, sem dificuldades, por
universos bem diferentes. Quem faz uma análise superficial de seus
poemas corre o risco de pensar que nada bate com nada. Ledo engano. Os
gênios têm a capacidade de sair de um mundo e, de repente,
entrar noutros completamente diferentes, buscando e mostrando um nexo,
resgatando o que há em comum entre os lugares, as pessoas e os fatos,
o que normalmente fica escondido aos olhos das pessoas comuns.
Percebo que os poemas de Soares Feitosa têm a mesma estatura. Todos
nasceram grandes. Não há uma evolução entre
o primeiro que escreveu (SIARAH) e o último que me trouxe quentinho
(FORMAT CÊ DOIS PONTOS). Também não se repetem. Tudo
é novo.
Pode até um dia se tornar repetitivo. Acredito que não. Poeta
que não tem fôlego cansa logo, não vai muito distante.
Soares Feitosa foi longe. É criativo, fecundo, seus poemas brotam
com naturalidade e neles há profundidade e síntese nas idéias,
um permanente confronto de culturas, valores e crenças.
Embora saiba que omnis comparatio claudicat, posso dizer que Soares Feitosa,
conversando, lembra Zé da Luz. Escrevendo é um erudito. Apesar
de partícipe da cultura do silêncio a que Paulo Freire se
refere, consegue fazer um elo de ligação com a cultura dos
homens letrados da cidade grande.
Mostra, sem intenção e sem pedantismo, que não há
uma distância abissal entre as duas culturas, entre os dois mundos.
O mundo dos que obtiveram o grau acadêmico e o mundo dos que aprenderam
lições de sabedoria em sintonia com a alma do povo.
Lendo seus poemas, fica claro que tudo tem uma relação íntima,
que há um ponto comum no Universo, porque a Realidade é uma
só e o contato com ela é a Verdade. Em outras palavras, Soares
Feitosa me fez entender que a Realidade não tem princípio
nem fim. É isso mesmo, a Realidade é uma só; são
diversas, porém, as formas como ela se manifesta no Universo.
Em FORMAT CÊ DOIS PONTOS, utilizando uma terminologia cibernética,
o poeta percorre o KOSMOS, o ANQRWPOS e acaba chegando ao
QEOS Universal. (Cosmos, Homem e Deus) Enfim, os seus poemas mostram que
o todo está em tudo e tudo está no todo !
O poeta, quando criança, aprendeu muito bem as lições
de sabedoria do Padre-Mestre. Imagino que o Padre-Mestre era um homem que
ensinava os meninos, não com palavras, mas com atitudes. Ensinava
que a espiritualidade não é uma aquisição,
mas uma evolução e que é próprio da divindade
querer humanizar-se, para que o homem possa divinizar-se.
Há pessoas que vivem exclusivamente nas periferias, ignorando o
centro; há outras que, fechadas no centro, abandonam periferias.
Imagino que o Padre-Mestre conseguia viver na periferia e no centro, ao
mesmo tempo.
Em Compadre-Primo e outras combinações da rara beleza, revela
a singeleza da estesia lógica, bem comum no linguajar interiorano.
Soares Feitosa fica me devendo uma coisa: um livro em prosa, não
para pessoas eruditas, mas para gente simples ler. Um livro de memórias
falando do menino que desertou para a cidade grande, deixando um mundo
de sonhos e de ilusões para trás.
Um mundo de gente simples, com a alma plasmada na grandeza do sofrimento
e do silêncio. Aí ele poderia falar novamente nos arreios
de prata, no cavalinho Bacalhau, nos jumentos Moleque e Meia-Noite, nos
gatos Mimoso, Zepelim e Banduco, na gata Xanduca, nos cachorros Rompe-Ferro
e Foguete, na cachorra Biquara; no gibão de capoeiro... nos vaqueiros
que povoaram sua infância, mostrando bravura na pega dos novilhos
ariscos das caatingas, das queimadas e das bocas-de-serras dos seus sertões.
Queria que Soares Feitosa falasse no cheiro da terra molhada, nas manhãs
de inverno, na babugem que nasce com as primeiras chuvas do final das longas
estiagens.
Enfim, em tudo aquilo que os meninos pobres do interior abandonam
para mudar seus destinos nas cidades grandes.
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