Pedro Nunes Filho

O Cosmo, o Homem e Deus
 
 
            Feitosa é seu nome de guerra. A primeira vez que o vi, achei-o um sujeito diferente. Fugia do padrão. Destoava. Era, sem nenhuma dúvida, uma pessoa incomum.
 
            Conheci-o num seminário de tributaristas. De repente, levantou-se desinibido, foi para a frente da platéia, e deu seu recado de cearense que estava chegando no pedaço, sua opinião técnica de tributarista seguro e estudioso.
             
            Repito: achei estranho aquele sujeito baixinho, quase gordo, cabeça-chata, linguagem original e sotaque de matuto que não se contaminara com os modismos vazios da cidade grande. Com toda franqueza, na hora em que apareceu, tive uma surpresa ante a interferência ousada daquele personagem incomum. Franzi a testa, olhei desconfiado, mas logo comecei a gostar do sujeito. 

            Seu linguajar de matuto bateu certinho com algo que havia dentro de mim. Eram raízes comuns, trajetórias semelhantes de menino pobre que foge para a cidade grande, sem nunca esquecer a cultura e a alma de seu povo, sem se desligar - e sem se envergonhar - de sua origem sertaneja.
 
            Aí soma uma cultura à outra e torna-se mais rico por causa da transitividade que tem em universos diferentes. É isso que Soares Feitosa é: o resultado da super- posição de duas culturas: a cultura simples do interior e a cultura erudita das bibliotecas ! 
Dos sertões de Monsenhor Tabosa, Nova-Russas e Santa Quitéria (micro-região de Crateús, Ceará), ele trouxe a cadência e toda a musicalidade que tornam seus poemas gostosíssimos de ler. De lá, trouxe também o vocabulário e, mais que tudo isso, trouxe um linguajar próprio das plagas sertanejas, daquele mundão sem fim, que somados à erudição resultaram numa plasticidade linguística original e de rara beleza.
 
            O que mais admiro nos poemas de Soares Feitosa é a capacidade de harmonizar o regional com o universal. Ele viaja, sem dificuldades, por universos bem diferentes. Quem faz uma análise superficial de seus poemas corre o risco de pensar que nada bate com nada. Ledo engano. Os gênios têm a capacidade de sair de um mundo e, de repente, entrar noutros completamente diferentes, buscando e mostrando um nexo, resgatando o que há em comum entre os lugares, as pessoas e os fatos, o que normalmente fica escondido aos olhos das pessoas comuns.
             
            Percebo que os poemas de Soares Feitosa têm a mesma estatura. Todos nasceram grandes. Não há uma evolução entre o primeiro que escreveu (SIARAH) e o último que me trouxe quentinho (FORMAT CÊ DOIS PONTOS). Também não se repetem. Tudo é novo. 

            Pode até um dia se tornar repetitivo. Acredito que não. Poeta que não tem fôlego cansa logo, não vai muito distante. Soares Feitosa foi longe. É criativo, fecundo, seus poemas brotam com naturalidade e neles há profundidade e síntese nas idéias, um permanente confronto de culturas, valores e crenças.
 
            Embora saiba que omnis comparatio claudicat, posso dizer que Soares Feitosa, conversando, lembra Zé da Luz. Escrevendo é um erudito. Apesar de partícipe da cultura do silêncio a que Paulo Freire se refere, consegue fazer um elo de ligação com a cultura dos homens letrados da cidade grande.
 
            Mostra, sem intenção e sem pedantismo, que não há uma distância abissal entre as duas culturas, entre os dois mundos. O mundo dos que obtiveram o grau acadêmico e o mundo dos que aprenderam lições de sabedoria em sintonia com a alma do povo.
 
            Lendo seus poemas, fica claro que tudo tem uma relação íntima, que há um ponto comum no Universo, porque a Realidade é uma só e o contato com ela é a Verdade. Em outras palavras, Soares Feitosa me fez entender que a Realidade não tem princípio nem fim. É isso mesmo, a Realidade é uma só; são diversas, porém, as formas como ela se manifesta no Universo.
 
            Em FORMAT CÊ DOIS PONTOS, utilizando uma terminologia cibernética, o poeta percorre o KOSMOS, o ANQRWPOS e acaba chegando ao QEOS Universal. (Cosmos, Homem e Deus) Enfim, os seus poemas mostram que o todo está em tudo e tudo está no todo !
 
            O poeta, quando criança, aprendeu muito bem as lições de sabedoria do Padre-Mestre. Imagino que o Padre-Mestre era um homem que ensinava os meninos, não com palavras, mas com atitudes. Ensinava que a espiritualidade não é uma aquisição, mas uma evolução e que é próprio da divindade querer humanizar-se, para que o homem possa divinizar-se.
 
            Há pessoas que vivem exclusivamente nas periferias, ignorando o centro; há outras que, fechadas no centro, abandonam periferias. Imagino que o Padre-Mestre conseguia viver na periferia e no centro, ao mesmo tempo.
             
            Em Compadre-Primo e outras combinações da rara beleza, revela a singeleza da estesia lógica, bem comum no linguajar interiorano. 

            Soares Feitosa fica me devendo uma coisa: um livro em prosa, não para pessoas eruditas, mas para gente simples ler. Um livro de memórias falando do menino que desertou para a cidade grande, deixando um mundo de sonhos e de ilusões para trás.
 
            Um mundo de gente simples, com a alma plasmada na grandeza do sofrimento e do silêncio. Aí ele poderia falar novamente nos arreios de prata, no cavalinho Bacalhau, nos jumentos Moleque e Meia-Noite, nos gatos Mimoso, Zepelim e Banduco, na gata Xanduca, nos cachorros Rompe-Ferro e Foguete, na cachorra Biquara; no gibão de capoeiro... nos vaqueiros que povoaram sua infância, mostrando bravura na pega dos novilhos ariscos das caatingas, das queimadas e das bocas-de-serras dos seus sertões.
 
            Queria que Soares Feitosa falasse no cheiro da terra molhada, nas manhãs de inverno, na babugem que nasce com as primeiras chuvas do final das longas estiagens. 
Enfim, em tudo aquilo que os meninos pobres do interior abandonam para mudar seus destinos nas cidades grandes.
 

 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *