Jornal de Poesia

Psi, a Penúltima
 
Prólogo

Minhas entranhas! Minhas entranhas!
Devo-me contorcer!
Paredes do meu coração!
Meu coração se perturba em mim!
Não posso calar-me,
pois eu mesmo ouvi o som da trombeta,
o grito da guerra
(Jeremias, profeta, 4, 19)


Este livro é uma escolha algo aleatória de alguns poemas do meu livro Réquiem em Sol da Tarde, 750 páginas, impresso inteiramente no computador, do qual eu mesmo fiz artesanalmente, com estas mãos de meio século, 257 exemplares, que foram distribuídos com os amigos, os parentes e os intelectuais — mais ou menos nesta ordem.

   
Alguns poucos, como meu compadre-primo Luís Souto Teixeira e o primo Juarez Leitão, preencheram plenos os três requisitos: parente, amigo e intelectual de brilho. 

Talvez o Réquiem, como volume completo, jamais venha a ser editado. Os custos altos, as dificuldades, o tamanho massivo — um tijolaço, como se diz. Preferível algum desdobramento, que se inicia com este volume.

   
O título, tirei-o do poema que alguns dizem ser o principal, Psi, a penúltima. Outro poema algo inquietante, também "penúltimo", A Dúvida, ficará para o próximo volume. Ainda do próximo volume, se houver um próximo volume, será a minha primeira produção, Siarah, inteiramente "construído" entre o apartamento em que morávamos no Recife e a estação rodoviária, numa estarrecida manhã de domingo, 19 de setembro de 1993. Quase aos 50 anos, jamais havia escrito qualquer coisa. E foi chegar da rodoviária e num jato passar para o papel (computador) aquele delírio, Siarah. 

De lá para cá, o daimon, as musas — quem? — me têm estuprado e possuído, como Iahweh o fez a Jeremias (Jer. 20, 7): intensidade! Não obstante a epígrafe de Jeremias, profeta, e outras mais citações ao longo de alguns poemetos, este livro não é um livro de religião. Sequer religioso. A não ser que se diga seja a Poesia uma nova deusa, absoluta no coração dos assombrados.

   
Aproveito esta viagem de primeiro livro para divulgar um ensaio sobre alguns poemas que, no tom de Jeremias, os chamo "da Besta" (Apêndice I), que vão de Fernando Pessoa a uma menina de 8 (oito) anos — aí a surpresa maior, parece.

  
Ainda na mesma viagem, divulgo o Jornal de Poesia, um sítio de língua portuguesa que fundei e mantenho na Internet (Apêndice II). Isto, afinal, é um convite. Também.

   
Cumpre agradecer a generosidade de pessoas que jamais as vi pintadas e que responderam a mensagem de Réquiem com um carinho e entusiasmo jamais esperados. Dora Ferreira da Silva, por exemplo. Roberto Pompeu de Toledo foi outro. José Louzeiro, Dimas Macedo, César Leal, Sebastião Uchoa Leite, Artur Eduardo Benevides, Sébastien Joachim — quem mais? —, ah meu Deus, cometi a imprudência de citar nomes...

O prefácio, desde o primeiro instante, sempre desconfiei que seria mesmo de Gerardo (a quem só conhecia de O País dos Mourões) Mello Mourão, oitent'anos, esse extraordinário poeta a quem dedico este livro. As duas orelhas seriam pingadas com os fragmentos da generosidade dos que me acolheram. Por quem começar? Quem o mais velho, quem o mais moço?

E, como tenho escutado que os mais velhos a rigor são os mais jovens (e vice-versa, ou, como escreveram alhures, "os últimos serão os primeiros"), pois bem, estava o livro semi-pronto, quando me chegou, desconhecida, a carta de um poeta, também uma voz insuspeita que não se sabe de onde veio: um belo livro, Mosaico — 19 anos, o jovem Antônio Massa que me subscreve a primeira orelha. É ele o "mais velho". O "mais moço" é o escritor e humanista João Ribeiro Ramos, do alto dos seus noventa e um/poucos, em plena lucidez... Que Deus o conserve por muitos e muitos anos.

Mas a todos os outros e a muitos outros in pectore eu os tenho e prometo guardá-los.
 O autor.

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