Orelha Esquerda

 

I. Primeiramente o mais velho:

A estepe e a noite se deitaram juntas
paralelas as asas sobre as asas.
Jorge de Lima, in Invenção de Orfeu
Nada define melhor a sensação de se abrir um Feitosa: a poesia invade! Nosso multinordestino — Ceará / Pernambuco / Bahia — erigiu um novo patamar literário, e a Arte o abençoou. Uniu o mítico e o místico das auroras antigas e o poderio dos recursos gráficos que os modernos computadores proporcionam. Nordeste e Grécia, água e sol, Oriente e Ocidente recheados com as cadências da Ampulheta da Criação.

  

Soares Feitosa descobriu-se poeta aos cinqüent’anos! — e vem inovar e renovar a poética brasileira, entrelaçando a cantiga seca de pó a pó da caatinga com os arredores transbordos do rio Amazonas. Em cantos multicolores, arte-renovação, inconstante e permeável — onde a seca do Nordeste e o Almazona se misturam em dança épica dentro do balde do menino macho e sacolejam até os últimos fios de cabelo das raposas enlouquecidas pela fome. 
Sempre o irrequieto menino, Feitosa também trouxe inspiração para a sua nova linguagem no simbolismo gráfico de caracteres gregos de candelabros e mandacarus. Nunca o ômega, o último, o derradeiro. O penúltimo é o eterno, no coração deste Psi, a penúltima.

  

Mas atenção: partilhar um Feitosa é aventura para os ousados e os puros de espírito. Com rara sensibilidade, que nos deixa perplexos, esse Aprendiz nos faz navegar numa poética de vasto chão, mesmo quando trata de um fato corriqueiro como uma simplória nota de jornal. E não nos assustemos com os ruídos que possam aparecer à medida que acompanhamos esta viagem que ultrapassa a dimensão cartesiana e nos leva à perene cantilena do surpreendente. A magia está aí, reunida neste livro — que traz o cheiro do mato e o sabor de água da moringa.

  

Fica para nós a pergunta: onde se escondeu, em cinqüenta anos de vida, a poética que hoje divide quarto e sala com o poeta e cada vez mais o domina? Talvez se estivesse guardando, juntando forças e esperando o toque de partida do compadre tempo, que conhece bem a hora da colheita...

  

A Noite e a Estepe certamente se deitaram juntas e, sob a proteção de suas asas, por aí deixaram a lírica galopante de Soares Feitosa. Ficaram os novos alqueires, talvez em algum lugar lá pelas terrinhas do Siarah, prontos para o plantio do eterno poemar... Ficaram.

  

Antônio Massa, 19

II. Agora o mais moço:

Meu querido poeta: sua voz e seus versos primorosos acordaram em mim dulcíssimas recordações e meus olhos se turvaram de emoção. Quando voltar ao Pai, deixarei esta jóia preciosa como herança de afeto ao meu filho Francisco Antônio Ribeiro Ramos, poeta sensível, apaixonado por Augusto dos Anjos. 

João Ribeiro Ramos, 91

 

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