Jornal de Poesia

Psi, a Penúltima


Ecos da crítica e da generosidade

 
Adelaide Lessa: Psi, a penúltima: aprendeste muito com Jó e Luther King. Lambeste os pés dos Migrantes de Portinari e vieste a mim num pau-de-arara. Limpaste a minha casa. Ajudaste a lavar e a vestir minha mãe velhinha, cega e paralítica. Somos amigas de longa data e de antes desta vida na terra. Raposinha querida, nordestina, cearense, de Acaraú ou de Jericoacoara, ciosa de teu brasão de Dignidade e Honra, somos iguais, duas irmãs, filhas de DeusMãe. Minha gratidão ao poeta. Muito emocionada para continuar com esta carta, grata demais.

  

Adriana Lustosa: Como te dizer?!

  

                Rio-me
                se passas...
                                Tomo-te
                                com os olhos (d’água)
                                e viras fonte.
                Tomo-te
                com os braços
                e viras lago.   
                                Tomo-te
                                a te soltar por dentro
                                e fico inerte...
À primeira vez que li Soares Feitosa (Thiago), senti vontade de morrer, queria uma chance de nascer de novo: a poesia me comoveu no mais profundo das águas e me fez poeira de tudo o que eu sabia. Preciso de Thiago e das fontes de Thiago; preciso da poesia como da vida que me vive. Onde encontrar? No Siarah? No Almazona? Na solidão das águas ou no umbigo da terra? ‘Stamos em pleno mar, foi bom avisar: é possivel navegar.

  

Alceu Brito Correa: Nom Nova, Sed Nove 
                                                Muitos disseram sobre o amor
                                                imortal chama sempre acesa
                                                mas nada com tanto ardor
                                                e com essa sincera Femina
                                                que novamente nos comove
                                                entusiasma e reanima:
                                                ainda o amor ao mundo move!
Álvaro Pacheco: O Femina é um poema antológico!

  

Ariadne Quintella: Palavras, vazios, sinais, signos, simbolismos, idéias: elementos presentes na poesia de Soares Feitosa, que em diferentes momentos se desloca no espaço e se aproxima do romanceiro, que moldou a expressão poética ocidental. Foi aos 50 anos que esse autor despertou para a litera-tura, através da poesia. Nela, o cruzamento de imagens que, após passar por um demorado processo de maceração, brotaram de repente sem que o autor se apercebesse. Não importa buscar qualificacões para a composição poética de Soares Feitosa. Oportuno mesmo é descobrir o que se esconde lá dentro, numa miscigenação de idéias, quase sempre carregada de simbolismo e que revela os seus valores.

  

Belchior Joaquim da Silva Neto, Dom: Escreveu o bispo de Afogados da Ingazeira que a obra de Soares Feitosa "é poesia de criar escola". Eu vou mais longe: sua obra poética vem abrir a cortina de uma nova literatura. Se Fernando Pessoa despertou, em Portugal, a loucura camoniana de um novo espírito literário; se aqui no Brasil, no campo da prosa, surgiu um Guimarães Rosa revolucionando a nossa literatura, Feitosa destemperou de vez o formalismo literário do passado e abriu caminhos novos na inspiração explosiva de poemas fortes, como Siarah, com seus 14 cantos, que mexem com a alma do leitor; como Psi, a Penúltima, a espadanar cultura e sensibilidade nos seus 9 cantos; e no Compadre-Primo, com seus 9 cantos também, a exalar cheiro de mato, o gostoso cheiro do sertão, com suas rezas e paçoquinha.

  

Benedicto Ferri de Barros: O que autentica o poema verdadeiro, a linguagem, o estado poético, é que ele não pode ser parafraseado. Isto porque quando algo é verdadeiramente poético, é tão caleidoscópico em seu significado, que 1001 versões possíveis em prosa deixam, ainda assim, de captar tudo o que ele pode exprimir. A boa poesia não está no que ela diz, mas no que permite a cada um entender. Ainda que a linguagem apropriada da poesia seja o verso, e seu produto excelso o poema, o sentido poético permeia tudo, inclusive a boa prosa. Foi o que fui sentindo ao acompanhar sua leitura de “Os Poemas da Besta”. Também aí existe um efeito caleidoscópico que deva se reproduzir de forma diversa em cada leitor, e a paráfrase do que você tenha dito nunca será idêntica nem esgotará o que ali se pode ler.
Lembrou-me por outro lado, seu trabalho, o tipo de leitura de poesia que vi em um belo livro de 1976, “Professing Poetry”, de John Wain, que foi há vinte anos Professor de Poesia de Oxford. Ali também ele fazia a “crítica” do poema mostrando como havia entendido seu significado, normalmente oculto para o leitor pouco familiarizado com os secretos encantos dos poemas. Mas a diferença da sua leitura está que ela é uma leitura legitimamente poética, sendo a dele eminentemente acadêmica.
Agora, veja só: aí está que sua prosa contém uma carga poética muito superior a que hoje se encontra em pretensos poemas, que, se escritos em forma de prosa corrente não mostrariam diferença alguma por serem apresentados em linhas quebradas, que fingem ser versos. Dizia eu a uma amiga, recentemente, que isto é a melhor maneira de se apurar se um poema é mesmo de poesia ou simplesmente má prosa, pois embora tudo que apareça em linhas quebradas possa passar por poesia escrita em versos, a prosa nua é uma das coisas mais raras que existe. Que se dirá da boa poesia?
Percebo que por baixo da primeira leitura que fiz do seu trabalho ainda restam muitas camadas subterrâneas e estratosféricas a serem exploradas, mas... Feitosa: a grande tragédia do homem contemporâneo é que ele perdeu o comando de seu tempo, isto é, perdeu sua própria vida. E nada pode realmente ser mais trágico do que um vivo morto.
A sua dedicatória é elíptica, insinua um convite que não foi formulado. Deve ser coisa da sutileza baiana...
Ainda não entrei na Internet, estou me preparando, mas já estou mergulhado até ao pescoço no estudo da Revolução Informática, suas aplicações e suar, conseqüências econômicas, políticas e sociais, com um razoável número de estudos definitivos e outros meramente rascunhados em meu computador.
Esteja certo de que foi algo provocante esse ar veio da Bahia. Aliás, este foi o mês baiano em minha correspondência, com Oldegar e o belo livro sobre Bashô de Verçosa. 

Carlos Felipe Moisés: Atrai-me no seu texto, sobretudo, a mescla entre o sublime e o pedestre, que é, desde a grande revolução romântica, o caminho predileto da melhor poesia.

  

Carlos Nóbrega: E a visagem à frente 
                        dá-se em catarata
                        como se fervesse
                        o que de fato ferve.

                                Pois
                                o que cantar
                                de avara lira
                                de musa tão magra
                                de tão pó as rosas?

                                        Perguntem ao Feitosa
                                        que retira lírios
                                        dos olhos das cobras.
César Coelho: A poesia de Soares Feitosa é forte, bela, autêntica e encantadora. Fico empolgado quando passo a ler e reler seus magníficos poemas. De repente, luz; entro no mais elevado clima espiritual. A sua poesia vem do êxtase mais profundo. O poeta é iluminado e mágico em todos os temas da vida. Penetrando agora nos segredos e mistérios desta poesia, vejo com maior clareza porque Gerardo Mourão ficou tão intensamente encantado com o fantástico autor de pérolas poéticas como Convite à Saudade, Panos Passados e Convite à Flor.

  

Cida Japper: Como não me deitar delicadamente no Rio Macacos e deixar-me levar morosamente ou tombar nas árvores ou entregar-me quando das corredeiras, alegrar-me com o dia claro, assustar-me ou entrar em paz na escuridão? Como não aprender (e muito!) com os Poemas da Besta, uma verdadeira tese? Aprender e apreender com cabeça e coração? Como não desesperançar com Uma Canção Distante e, ao mesmo tempo, como não continuar a esperar? Ah! Como queria eu ter escrito o Femina! Como, meu Deus, como!!! Se todos os fiscais do imposto de renda tivessem o dom de cobrar de nós esse tributo maior que é a emoção! Muito, muito, muito obrigada!

  

Cussy de Almeida: Chamou-me, sobretudo, a atenção a ousadia da forma e o ritmo, pleno de musicalidade — retirado talvez do particular lirismo dos aboios e acalantos que provavelmente povoaram a infância do poeta. Ou, quem sabe ain-da, inspirado em mestres como Verlaine, ao afirmar que a fórmula ut musica poesis deve ocupar não só a mente, mas o coração de todo poeta. "... música, antes de tudo", dizia o soberbo escritor francês. 

Dalila Teles Veras: Aceito de bom grado o sdeu convite e mergulho em Rio Macacos e outros poemas, dicção solta e arrebatada herdada de Castro Alves e lusos rapsodos, desenbocando nessa pequena jóia de ensauio Os Poemas da Besta, apocalíptica visão dantefeitosa do aqui e agora. Sabia de seus feitos via Internet (via minhas assessoras (filhas) que são afeitas a essas viagens e que, a meu mando e pedido, navegam comigo em mares unicamente lúdicos, como seu Juorna;l de Poesia). Li o artigo de Marcelo Coelho e os caminhos como Rio Macacos de toda aldeia, vão se cruzando antes do mar, o grande mar salgado, cujas lágrimas hoje não são mais de Portugal, mas de toda a humanidade. 
Agorinha mesmo, ainda impressionada com o poema Pantomina, de Cajazeiras Ramos de, quem, infelizmente, nunca ouvir falar, e de sua análise tão arrebatadora do mesmo, recebo, via correio, um convite para o lançamento de Fiat Breu, em São Paulo. Caminhos novamente cruzados e uma vontade enorme de cruzar a Via Anchieta na noite de amanhã para ir ao encontro dessa poesia tão festejada. 

Dimas Macedo: Soares Feitosa está no mundo. Tem o mundo seguro nas mãos. Faz o sertão brilhar diante de uma tela e aí também canta a tela e o conteúdo e a forma da tela. Um autêntico milagre no universo da poesia. Eliot, Pound, Kavafis, Lorca e Mello Mourão estão encarnados nele.

  

Diná Sampaio Faria Gasparini: A alma de Soares Feitosa extravasou e o fez poeta. Se a água secar, há que buscá-la de novo, custe o que custar! Não só de água física vive o homem: nem aquele que escreve, nem aquele que lê. Eu não teria coragem de citar Exupéry se o poeta, ele mesmo, não o tivesse feito. Mas, aquela frase..."Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas", dita até pela Comadre, sinto ter que dizê-la. Não lhe será mais permitido ser o velho Feitosa. Todos os "cativos" lhe cobrarão. Inclusive eu.

  

Dora Ferreira da Silva: Este livro carrega no seu bojo imantado a vida, o amor, a tristeza, a alegria, a ternura. Além-literatura, transliteratura, criatura de Deus! É uma arca ao abismo deste limiar. Pronto, atravessa-se o mar e chega-se ao milênio. Por que não se reparte o pão aqui na Terra mesmo? Falta o dom, o gesto de repartir antes do céu. Mas virá! Pode acontecer, e as mesas terão mãos que repartem! Feitosa é poeta-sacerdote atravessando a noite dos deuses, como disse Hölderlin, e o disseram maluco. Dionisos pastoreando o desnorteado rebanho. Abraço esse poeta de um novo Começo. Amém.

  

Emílio Burlamaqui: Como o Millôr, também fiquei pasmo com essa reinvenção da poesia. Seria reinvenção, ou seria a própria Poesia "en traje de luces"? Poeta e Poesia — enigma do qual não ouso me acercar. Trazer a amplitude infinita do sonho para o parco código das palavras e lançá-las em ação por meio da poesia, eis a arte que só os iniciados, poucos, dominam. Feitosa é um deles!

  

Fernando Py: O mínimo que se pode falar acerca desse poeta é que é grandemente criativo. Parece exsudar sua poesia naturalmente, como um rio brota do olho d’água minúsculo no seio da terra. E, como a água do rio, cresce e se avoluma, não raro se encorpando com outras águas que se lhe ajuntam. O poeta igualmente faz crescer sua poesia, torna-a caudalosa, com a incorporação de textos outros, com o desenvolvimento do seu estro, semeado de sua erudição, tudo concorrendo para um conjunto maciço, onde a criatividade gráfica vai de par com a criação poética propriamente dita. Sua veia caudalosa, verdadeiro cântico, exige um discurso substancioso; seu canto não se limita, é muitas vezes incontido, sem quaisquer peias, solto na página, solto na imaginação, de natureza totalizante; um poema que busca na terra, nas raízes de sua gente, telúrico e social, os motivos mais lídimos de sua expressão. Caudaloso e popular, erudito e atualizado quanto às conquistas da informática, sua poesia bem merece o epíteto de poesia épica, já que é um canto geral de cultura e civilização. Vem, neste fim de século, lançar uma luz de esperança na poesia brasileira do próximo milênio. Vale.

  

Francisco Austregésilo de Mesquita, Dom: Lamento que só agora a poesia haja explodido em Feitosa, com tanto ritmo e beleza, tanta simplicidade e erudição. Porém, mais vale tarde do que nunca. E valeu e vale. Sua poesia é bonita e original. Bela na forma e na idéia. Arrojada nas imagens e de alto sentido social. Em favor da vida para todos e contra a fome e a miséria. Regional, marcada pelo Nordeste, especialmente pelo nosso Ceará, e universal, com raízes na história e na literatura dos povos. É poesia de criar escola.

  

Francisco Brennand
                                Quando Soares Feitosa
                                desvendou o mistério da prematura
                                morte dos jovens
                                        (só eles sabem morrer com dignidade)
                                sua voz distanciou-se
                                no prado metálico
                                da velocidade, com
                                a mesma pressa das parábolas
                                do Cristo  — na interpretação
                                Mateus & Pasolini.

                                Não tinham tempo a perder.
                                Não havia pausa  
                                nem Piedade:
                       antes configurava-se o Eterno!
Francisco Carvalho: Confesso que, ao me defrontar com o poeta pela pri-meira vez, fiquei um pouco desconcertado com a sua os-tensiva empolgação de noviço na arte literária. Mas, ao percorrer os densos volumes de sua obra poética, não me foi difícil compreender que aquela empolgação se fun-da-mentava na convicção de quem acabou de decifrar os enig-mas cruciais de um destino talhado para as peripécias da poesia. De outro modo, não se compreende que um ho-mem dedicado às atividades comerciais, envolvido com todas as implicações inerentes a essa forma de vida, pas-sasse, de repente, a produzir uma interminável constelação de poemas, como que tomado de um furor poético e como se os tivesse guardado, durante todo esse tempo, nos subterrâneos da alma e do coração.

  

Geraldo Oliveira Lima: Seus poemas têm duas conchas: uma universal, outra local. A amplidão cósmica, sem retirar os pés da terrinha, cantando a gesta da gleba cearense numa linguagem cifrada pela pujança, a força e a sedução de um barroco redivivo.

  

Giselda Medeiros
                        Mas, escuta, Poeta:     hás que saltar sobre o abismo, 
                                                para alcançar o vale,
                        e irrefutáveis serão a insônia, a fagulha, o incêndio.
                        No entanto, Poeta, 
                        o importante é que sempre 
                        haverá um amanhã.
                                E nele repousarás teu olho agônico, 
                                porta e ferrolho,
                                enclausurado o eterno!
João Bosco da Encarnação: Em Feitosa, a religiosidade (até em sentido amplo) faz bem. É um pulsar do Universo captado por esse Universo interior. É harmonia, é paz. Numa palavra russa, é "mir"! Mas, uma coisa intriga: a vertente nordestina. Essa literariedade da vida do Nordeste, tão bem demonstrada em No Céu tem Prozac e em O que digo entre as flores?! Precisaríamos — os não nordestinos — de muita capacidade para alcançá-los. O autor tem essa consciência, ao se voltar e homenagear justamente suas raízes, como o faz em Thiago. É verdade mesmo que só começou a escrever aos 50 anos? É de assombrar!

  

Joel Marques de Souza: É a glória do artífice exibindo hoje seus apetrechos, há tanto tempo, mais de quarenta, tão zelosamente guardados? Ou, diriam os seguidores de Freud, é a criança refletindo-se no adulto, à vida inteira? Ou, no dizer frio e intelectualizado dos sociólogos, é o meio produzindo o homem? Até que poderia ser qualquer uma dessas hipóteses ou as três juntas. Entretanto, há em Compadre-Primo acenos a coisas muito mais valiosas, impossíveis de isolar em laboratório, em conceitos racionalistas. Ali sentem-se, ouvem-se e vêem-se imagens e sons universais: nas peripécias da infância — quem não as teve? — nos vôos dos beijas, do casaca-de-couro, do compadre sibite, no tropel das montarias em aventuras, no cio dos animais, tudo apresentado com um ritmo perfeito, um encanto, uma beleza e um vigor que se sente o cheiro da terra, respira-se poesia. Dá vontade de voltar! E quem disse que eu não voltei? Larguei, por uns dias, a cidade grande, e, em companhia de um primo, meu compadre, revisitamos a velha fazendola, nos sertões paraibanos, que fora de meus pais. A fazendola, vendida a estranhos, está em boas mãos de nossos parentes outra vez. Fomos recebidos com aquela hospitalidade tão característica de nós, as pessoas do campo. Revisitamos toda a casa-grande, quarto por quarto; abrimos as mesmas porteiras, vimos as mesmas cercas, os mesmos animais..., a mesma Seca, tão nossa conhecida... Compadre-Primo, decididamente, é um monumento de amor, a única e possível máquina-do-tempo, by Soares Feitosa, globalizando aquelas sesmarias de nossa iinfância com acelerações de raríssima sensibilidade.

  

Jomard Muniz de Britto
                        Navegar é co-possível   
                        Cópulas de recriação
                        Entre vertentes e mares
                        quem o segura?

                                Soares, errante navegante
                                A quem prestam contas os galos?
                                Numa manhã de abril
                                Cópulas de circunavegação

                                        Auroras: nudez dos teus olhos
                                        Navegar é sempre possível
                                        Cúmplices da poeticidade
                                        Numa noite de março

                Abismos. Abismos.
Jorge Tufic: Eu daria um bocado de versos de minha lavoura por este simples relâmpago de azulados e carnais reflexos, nos confins desta tarde e deste sol que nos banha, redime e fortifica:

  

                                Não lavei as mãos
                                pois tinham os sons
                                do teu corpo.
                                        — in Femina —
José Hélder de Souza: Psi, a penúltima — Soares Feitosa trata o tema com erudição, sem cair no eruditismo hermético; lembra traços da cultura ou da lenda helênica: Piros esturricando o sertão raposa-Ceará, no bochornal do seu chão. 
Juarez Leitão: Pois Chico José reedita agora, na poesia, com grande esti-lo, aqueles dons do feiticeiro adolescente: ele enfeitiça as palavras, tece e cose sentimentos, e, qualidade maior, sabe retirar do vazio como é aquela notícia de jornal sobre as raposas doentes e famintas — uma prosaica e ino-cente nota de saúde pública — e assentou sobre tão insig-nificante material uma verdadeira catedral, um templo grego, gótico e moderno a um só tempo!

  

Juscelino Vieira Mendes: Rapaz, essa "Besta" é demais... É Poema! Tão grande que até desconfio que o seu autor (Soares Feitosa) não descobriu que escreveu uma obra-prima da literatura brasileira. "O nome esvaído nos desvãos da memória sofrida." Isto é filosófico e lindo! Assombroso! Passa em qualquer teste (cenas finais de Psi, a penúltima): Adolfo Lutz, normal!

  

Leila Micolis: Como fascina a poesia de Soares Feitosa! Repleta de referências que fazem viajar em um fabuloso túnel do tempo, ou em um mágico tapete voador sobre outras eras, culturas e literaturas. Pois Psi, a penúltima representa por excelência sua obra, pela genialidade de unir o candelabro (tão místico) ao mandacaru (tão terra), através de uma única letra grega, em suas grafias maiúscula e minúscula. A partir dessas alegorias, Feitosa se debruça, hábil, sobre a alma humana, e, através de uma notícia de imprensa, embrenha-se pelos intrincados arquétipos do inconsciente coletivo, criando uma inteligentíssima saga a favor dos oprimidos, da legítima resistência e da justiça, em oposição à impiedade. Psi, a penúltima é um brado contra a lei do mais forte.

  

Lucas Moreira Neves, Cardeal: (dirigindo-se ao poeta): — Agradece de coração a remessa de seus poemas e, mais ainda, o encantamento que proporcionou a sua leitura.

  

Luís Antônio Cajazeira Ramos: O Evangelho segundo Soares Feitosa: 1. Uma passada d'olhos no pretérito passado, veremos que os gregos acreditavam na divindade dos Deuses, na semidivindade do Semideuses, no heroísmo dos Heróis — personagens de suas epopéias. Se hoje essas obras são poesia no sentido secular, para os gregos não o eram, mas poesia sacra, a saga de seu povo — íntimo dos Deuses —, seu Livro. 2. Uma passada d'olhos no pretérito presente, veremos que se tem acreditado na cristandade do Cristo, na santidade dos Santos, no profetismo dos Profetas — personagens bíblicos. Talvez o século XXI (não antes de Soares Feitosa) venha a descobrir a boa-nova: o Livro dos Livros é poesia, da mais alta qualidade — para o poeta, a melhor ad sæculum sæculorum. 3. Uma passada d'olhos no pretérito futuro, veremos à nossa volta uma confusão de crenças e credos, do risível ao incrível, do honorífico ao horrorífico, e a boa-nova corolária: o povo não sabe mas lê (e gosta de) poesia. 4. Que nos resta? dessacralizar os Sacros (ou sacralizar a Poesia?)? Antes que blasfememos, leiamos Psi, a penúltima, caldeirão febril sobre uma trempe cultural — grecirromana, judicristã e mundinordestina —, de onde sai cozida a palavra justa, e mais: o abismo.

  

Luís da Silva Araújo: Que maravilha essa negação de Femina. Essa negação a que chamo falsa, mentirosa, porque o poeta disse não quando dizia sim. E o sim não foi porque o dissesse, que, na verdade, ele não está explícito, mas pela idéia positiva que arrancou a cada "não", quando foi capaz de materializar toda a sua ânsia, todo o seu desejo e toda essa agonia por essa mulher que parece fugir, talvez queira fugir, ou esteja deveras fugindo, e que o poeta a conserva na essência daquela abstração que, agora, se torna toda a matéria para a sua vida. E o "modo mulher" — a meu ver — não é outra coisa senão uma armadilha, como o néctar, como o pólen e como o doce de que se revestem as plantas carnívoras, só para agarrar as carnes que elas precisam comer... E, finalmente, quando o poeta diz que lavou a alma, aí é que ele não lavou nada..., porque se aqueceu em todos os calores, se envolveu com todos os sons, se perdeu em todos os rastros e se benzeu na profanação duns olhos. Aí é que ele não lavou nada, perdido que estava no túnel dos espelhos, na miríade das imagens que se encaixam, infinitamente, uma dentro da outra, na superfície do vidro, como fora uma areia movediça que engole um corpo para não devolvê-lo nunca mais... e não podia lavar nada... Pra mim, Femina, uma jóia, e não sei dizer mais que isto. 
Luiz Bello: 1. Penúltimo canto, trajetória entre uma pergunta inquieta e a revelação final do perigo de saber... Um poema que flui, baila e galopa ao longo de marcos miliários distribuídos por Pound, Sócrates, pensadores bíblicos e até o anônimo redator de um sábio manuscrito do Mar Morto. Tem alpiste suficiente para alimentar todo um viveiro de pássaros intimidados. E substância bastante para aspergir, sobre o meio em que brotou, a água benta amigável de uma mensagem decodificada. Cal, virgem, quando ferve na água e no verso de um artista sensível, convida à reflexão. 2. Psi, a penúltima, um poema que provavelmente todos apontarão como a obra-prima de Soares Feitosa. Para qualquer crítico, de qualquer escola ou tendência literária, esse poema dá o que pensar, porque une um passado remoto — Esopo, Fedro, La Fontaine — e a intimidada "Comadre", destinada a acrescentar ao perfil de Vulpes um novo traço: o da fúria atemorizante. 
Luiz Nogueira Barros: Jamais havia lido poetas, pelo menos os sociais, que procurassem o que de comum, ou mesmo de tão distante, existisse entre eles e os outros poetas. Thiago é um épico extraordinário, que começa em águas rasas, as de Soares Feitosa, escassas, absorvidas pela terra que por vezes se faz em poeira à menor brisa. E segue. E anda. E desconfia que o mundaréu de águas de Thiago de Mello não é apenas feito de chuvas. Não poderia esquecer dos poetas que ele vai falando ao longo do poema, sejam Euclides da Cunha, Gerardo Mello Mourão, Nertan Macedo e Humberto Teixeira, que todos os poetas são parentes na medida em que são universais em seus cantos de dor, de angústia, de solidão. E também porque só os poetas sabem o que significam Infinito e Eternidade!

  

Manoel Ambrósio de Queiroz Neto
                                        O poeta viu o quadro:
                                        E se fez Sinfonia!
Vara de Domador é arco de violino (ou de cello), também batuta de Maestro!
Onde os músicos?
Os ventos, as árvores, os pássaros, as formiguinhas,  as joaninhas,
os caracóis e os silêncios!                     
        O Domador é maestro,  apurem-se os ouvidos aos sons da mata densa!
        O cão não morde:  leve sacudidela. 
        Vamos, meu Maestro, afinaram-se os instrumentos.
        Erga a batuta:
                        —— TAN - TAN - TAN - TANNNN!
        É  Ele, via Beethoven!
        A Quinta, d‘Ele!!!
Marco Lucchesi: A poesia de Soares Feitosa é fascinante, de uma energia, de um vigor e de uma renovação bastante rara em nosso tempo de brevidades e tolices. Passo à qualidade de leitor e admirador de seus trabalhos.

  

Maria José Giglio:Seu livro veio confirmar a indelével impressão que conservo da Bahia. Uma palavra só a expressa: demasiado. 
Para minha pele clara, meu regime vegetariano, minha saúde de porcelana, meu olfato ultra-sensível que um dioríssimo agride; o sol,, ocalor, a exuberância das frutas, dos odores, das iguarias baianas, é demasiado. 
Agora seu livro com sua capa ensolarada onde floresce um mandacaru grego, suas duzentas e cinquentae três páginas com fotos, cartas, epígrafes, prólogo, apêndices, bíblia, jornal, manifesto, odes e réquiem, formula-um e prozac, pecados capitais e internet — é demasiado. 
Preciso que você me dê um tempo. Para mim a Bahia oprecisa ser em conta-gotas. Por enquanto estpou sob o impacto da imburana-de-cheiro. 
Êta idéia singular esta de grudar um envelope com pó-perfume num livro de poesia! Rapé, diz você? Pois, meu caro, é a over-dose exata para o meu suicídio. 
E previno-o, anmtes que você consiga me enviar as abelhas que dessa vez lhe fugiram — sou alérgica a picada de insetos. 
Precisei caminhar quarenta anos pelas trilhas sinuosas da poesia, para topar com você, Soares Feitosa, navegando na Internet com uma arca-de-noé. 
Assim é impossível não lhe querer bem.

  

Mário Pontes: Basicamente, um aedo, um bardo, um cantor telúrico (eu disse isso antes de ter lido a palavra na capa do volume), apesar dos ares citadinos, espontâneo apesar dos sinais exteriores de erudição. Gosto mais de poetas "largados" do que desses minimalistas que tentam invadir nossas estantes com a palidez da constipação pós-moderna. 
Marta Gonçalves: A porosidade do homem está no texto. O mesmo cheiro de terra, renovação da palavra, outra forma criativa na poesia. Um cromatismo domina os poemas. Percebe-se claramente o interior, a infância crescendo no universal. 
Micheliny Verunschk: Não parece lutar com as palavras, o que é um espanto. Elas fluem, se aninham. Quisera essa tranqüilidade! Ah, ia esquecendo: o livro tem os sons das abelhas, do chocalho da vaca Rainha e da água acordando na cacimba clara. Escutei!

  

Moacir Leão: Vi nos poemas de Soares Feitosa o vigor e a força só presentes nos grandes. Salieri queixava-se a Deus por lhe ter concedido o dom de distinguir a composição genial daquela apenas boa, sem, contudo, lhe ter dado o talento de compor com a mesma genialidade de Mozart. Assim, como leitor de poesia, minha vocação vai um pouco acima da média. Sim, não me engano: Feitosa é Poeta!

  

Nauro Machado: Sua técnica, como estrutura amealhadora de peças anônimas e autônomas, não lhe esteriliza em nenhum momento a emoção. O computador, no seu caso, permitiu a abertura para o espraiamento de um novo espaço sobre o qual o tempo, na parábola do homem enquanto História, retroage consagüineamente às primícias da visão homérica.

  

Neide Archanjo: Receita de Poeta 
                Ternura, menos cruel que a paixão
                Bondade, tão bela quanto a manhã
                Consideração, aquela de que São Bernardo fala
                Desvelo, de pai, amigo, amante, irmão
                Palavra, instrumento que lapida história, estórias, faz versos e reversos
                Navegação, no céu brilhante do computador e também no branco
                                                                                                da página em branco
                Soares Feitosa, Ulisses no sertão!
Nelly Novaes Coelho: Hóme, tu tá demais da conta!!! Entre a volumosíssima correspondência de sempre, o teu opúsculo. Emerjo à superfície do oceano de escrita em que estou mergulhada e leio Rio Macacos... e releio Os Poemas da Besta... Estás realmente de tirar o fôlego a Hércules! Que bom! Que enorme alegria descobrir neste mundo tresloucado de punks, danceterias, epidemias de "bundites" ou nudezas descaradas (ou totalmente alienadas?), de vulgaridades e grosserias, encontrar alguém que viva com tal intensidade a vida que outrora foi vivida por outros em dimensões geniais. Viva o POETA! Se você não existisse, precisava ser inventado. Os poetas devem estar fazendo festa na Eternidade por serem assim "curtidos"!!!

  

Paulo Bomfim: Trago, no cântaro das mãos, 
                        a nuvem de seus poemas.
                        Você tira da cartola da noite 
                        estrelas e ritmo apunhalados de surpresa!
                        Em tamanho garimpar, 
                        o veio é veia de um sangue cósmico.
                        Um abraço do irmão em Poesia e 
                        patrício no País dos Mourões.
Pedro Nunes Filho: Dos sertões de Monsenhor Tabosa, Nova-Russas e Santa Quitéria (micro-região de Crateús, Ceará), Soares Feitosa trouxe a cadência e toda a musicalidade que tornam seus poemas gostosíssimos de ler. De lá, trouxe também o vo-cabulário e, mais que tudo isso, trouxe um linguajar pró-prio das plagas sertanejas, daquele mundão sem fim, que somados à erudição resultaram numa plasticidade lingüística original e de rara beleza. O que mais admiro nos poemas de Soares Feitosa é a capacidade de harmonizar o regional com o univer-sal. Ele viaja, sem dificuldades, por universos bem diferen-tes. Quem faz uma análise superficial de seus poe-mas corre o risco de pensar que nada bate com nada. Ledo en-gano. Os gênios têm a capacidade de sair de um mundo e, de repente, entrar noutros completamente dife-rentes, bus-cando e mostrando um nexo, resgatando o que há em comum entre os lugares, as pessoas e os fatos, o que nor-malmente fica escondido aos olhos das pessoas comuns.

  

Rubens Ricupero: Confesso que não havia lido a notícia sobre o menino Francisco, cuja memória e sacrifício ficaram perpetuados no poema de Soares Feitosa. Também faço minhas incursões pelo mundo inesgotável da poesia e tive a impressão de encontrar na sua composição extremamente original a capacidade de dar sopro poético não só ao trágico cotidiano mas ao fluxo de imagens e frases e alusões às vezes eruditas, um pouco como em Ezra Pound (a ponto de necessitar de notas, por exemplo). No céu tem, mais que Prozac, muita poesia.

  

Sebastião Uchoa Leite: Sua dicção é programaticamente enfática, como por exemplo em Psi, a Penúltima. Parece uma espécie de Pound bárbaro misturado com a antropofagia cultural, não a de Osvald, corrosiva, e sim a de Raul Bopp, mais humorística. Um curioso humor "bárbaro" (no sentido da busca das raízes da fala nordestina, exibindo-se enfaticamente — mostro o pau e mostro a cobra — e criando um back-ground lingüístico) misturado a referências cultas. E as notas? Literariamente, inserem-se numa tradição, a de Eliot, do The Waste Land, mas sem as pretensões "filosóficas" dele. Sua poesia, uma coisa não é: nem é acadêmica — com o preciosismo que ainda hoje subsiste em alguns tolos que se julgam "neoclássicos" — nem anêmica, nem conformista. Algo em comum tem com Cabral: gosta de "falar de coisas", e isso é mais do que interessante.

  

Sébastien Joachim: Os poemas de Soares Feitosa são eventos que desconstroem a maior parte do ensinamento da Poesia divulgado em todos os nossos manuais de Teoria da Literatura. Quem o vê/ouve declamando seus poemas se convence logo de que ele é uma encarnação poética, que carrega dentro de si e irradia poeticidade em estado puro. Essa experiência premiou-me, há algum tempo, um banho de frescor sem igual. Confesso que, no momento, ignoro de onde jorra a fonte e em que mar ela vai parar. O certo é: eu que saí de lá (Canadá) estou recebendo aqui nos trópicos esse choque agradável, como alguém que foi quase empurrado de Sertão a dentro pela violência poética de Soares Feitosa. Sua poesia trabalha entidades maravilhosas: auroras inéditas, esplendor da infância, fauna e flora da região das Secas, epopéias insuspeitadas de misteriosos itinerantes e — em contraste — a petulância do capitalismo selvagem. Ressoam em mim as modulações dessa voz, ou melhor, desse coro, aqui allegro andante, ali mezzo voce, cá no modo menor, lá no modo maior. É elegia, é epopéia, é drama, é verso, é versículo, é prosa narrativa, é História, é fábula, é teatro. Impossível enquadrar Soares Feitosa num gênero de discurso preestabelecido; daí estar decididamente à margem de qualquer classificação. Todavia, emerge uma propensão à Cantata, uma Cantata-Poema ou um Poema-Cantata, de múltiplas vozes, regulado por uma alternância rítmica onde se enfiam de forma espiralada historinhas que puxam historinhas e digressões que se tornam temas fundamentais do Ser e do Existir. Um dialogismo que não acaba, um processo diruptivo no seio de uma profunda continuidade. O novelo da escrita se desenrola, sempre se desenrola, de par com a mesma força impulsionadora, isto é, sempre sertanejando, no entanto sempre diferente pelo tom musical, pelo aprofundamento dos incidentes regionais, conduzindo-nos vertiginosamente para a residência da Vida e dos Valores imperecíveis. Sem dúvida uma poeticidade forte circula nessas páginas, onde consegue fazer a abertura máxima no acidente mínimo, seja esse acidente de geografia ou de eventos. Palpita a presença de Dioniso e Apolo, a sensibilidade de um homem que fala para todos os Homens, todas as idades, todas as eras.

  

Sinésio Cabral: Feitosa evidencia coisas e fatos ocorridos, por exemplo, em sesmarias, sem enveredar-se pelo gênero narrativo ficção, mas dentro da epopéia mesclada do sopro lírico. Mergulha na antigüidade clássica, com a divisão em Cantos, à Camões, verdadeiro escafandrista, para revitalizá-la nos seus poemas, alguns sob a forma dialogada, à guisa de écloga (ou égloga), dentro do bucolismo, de sabor arcádico. Sentimos ao longo da obra resquícios de estéticas tradicionais, características formais e ideológicas de diferentes estilos de época, em versos livres feitos de modernidade.

  

Sonia Ramagem: Réquiem em Sol da Tarde: um livro que mais parece saído dos tempos medievais, onde o homem, na solidão de quatro paredes, sentava-se frente a uma folha de pergaminho, tomava da pena e escrevia, ou mais ainda: produzia a obra de arte completa, das idéias aos desenhos-arte, completa. Escrevia ao mesmo tempo em que desenhava, diagramava e coloria. Lindo! Fiquei, produto que sou da cultura imediatista, emocionada com a dedicação do escriba que lida com o tempo em múltiplas facetas: poeta, desenhista, pintor, diagramador, encadernador, ecólogo e historiador/estoriador.

  
Weydson Barros Leal: Psi, a penúltima é um belo poema, e, seja pela carga dramática, seja pela utilização de elementos regionais (nome de pessoas, lugares, expressões locais), ou ainda pela aparição de termos em grego e em latim no percurso do poema, o resultado é uma pequena peça que poderia ser declamada com os tempos e as impostações teatrais.

 

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