Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 



Prefácio do livro O Reino Encantado do Cordel

 


 

 

Foi com muita honra que aceitei a difícil incumbência de apresentar ao público sul-mato-grossense este novo livro do premiadíssimo escritor e exímio poeta/cordelista, meu conterrâneo cearense, além do mais acadêmico e músico/compositor RUBENIO MARCELO (ao mencionar essas qualidades do ilustre autor, comparo-o com os heterônimos do poeta português Fernando Pessoa).

Com este seu livro, O REINO ENCANTADO DO CORDEL – A CULTURA POPULAR NA EDUCAÇÃO, o eclético RUBENIO MARCELO contribuirá para a maior divulgação e conhecimento de um relevante aspecto da Cultura Popular do nosso país – que predomina sobretudo no Nordeste do Brasil, tendo raízes vetustas na Espanha e em Portugal – para que seja utilizada como coadjuvante na educação das novas gerações, a fim de que estas possam ser orientadas no sentido de cultivar e valorizar o que é autenticamente brasileiro, passando a se posicionar de maneira independente ante a atual submersão na onda dos estrangeirismos que avassala a mídia eletrônica de nossa pátria.

Em tudo e por tudo válido o propósito de RUBENIO MARCELO, ao utilizar-se de sua maestria também na poesia popular, com a intenção de fazer com que ela interaja na Educação. Enfim, objetiva também atingir um universo maior de conhecedores do nosso folclore, que tem sido estudado – com afinco – por grandes e destacados pesquisadores como Luís da Câmara Cascudo (autor nordestino, do estado do Rio Grande do Norte, o qual publicou um notável dicionário sobre o assunto) e, no Ceará, Leonardo Mota, que escreveu vários livros sobre os poetas/cantadores/repentistas (por exemplo: Sertão Alegre, Cantadores, Violeiros do Norte). Disse dele Luís da Câmara Cascudo: – “Ouvi-lo era ver o sertão inteiro, tradicional e eterno, paisagem horizontal dos tabuleiros, candelabros de mandacarus, vulto imóvel das serras misteriosas, ondulação do panasco na babugem das primeiras águas; vozes, cantos, benditos, aboios, feiras, cangaceiros, cantadores, assombrações, chefes políticos, analfabetos imortais, populares, soldados, comboieiros, luares, entardecer...”. Foi também chamado de “garimpeiro do folclore, faiscador em primeira mão de tanto tesouro perdido na ganga bruta da alma popular”.

Portanto, o que RUBENIO MARCELO pretende fazer é proporcionar a um diversificado público – de forma espontânea, fácil e descontraída (em belos versos, na límpida estrutura da literatura de cordel, agradáveis de ler e até de memorizar, devido à forma, à métrica, à rima e à cadência de seus poemas) – valiosas mensagens educativas, ao tempo em que também enriquecerá os conhecimentos dos leitores com os fundamentos dessa importantíssima manifestação da folkcomunicação.

O livro divide-se em duas partes e a primeira parte subdivide-se em vários capítulos que a seguir enumero: A Cultura Popular, Gêneros da Poesia Popular, A Nossa Música Popular Brasileira, Patativa do Assaré – Grande Expressão da Cultura Popular, e Causos Folclóricos da Cantoria e do Cordel. A segunda parte é constituída de um valioso elenco de cordéis/poemas instrutivos, de autoria do poeta RUBENIO MARCELO, sobre os mais variados assuntos.

No primeiro capítulo da primeira parte do livro, após uma magistral Introdução, o autor eleva-se ao revelar o seu profundo conhecimento da Cultura Popular desde os seus primórdios, quando salienta as suas origens, as manifestações iniciais com os portugueses, na época da poesia trovadoresca (como Paio Soares de Taveirós, tido como o primeiro poeta de nossa língua, com a Cantiga de Amor de 1198, conforme tratam do assunto vários escritores, entre os quais Massaud Moisés, em sua “A Literatura Portuguesa”; o rei D. Dinis, o chamado rei trovador; Gil Vicente; e houve um Bernardes que já usava as palavras dos cordelistas - repente, mote e glosa).

Esta parte da obra de RUBENIO é um verdadeiro tratado erudito sobre o cordelismo e termina, magnificamente, em versos cadenciados, como um sumário do que o escritor apresentou no capítulo.

No capítulo sobre os Gêneros da Poesia Popular (Principais Estilos de Cantoria e Cordel) temos uma cabal e sapiente explanação sobre o assunto para deixar qualquer um embasbacado. Admirável e didático, sobretudo pelo fato de que a maioria dos exemplos referentes a cada gênero explicado é de autoria do próprio poeta e escritor RUBENIO MARCELO.

No terceiro capítulo da primeira parte temos o músico/compositor RUBENIO MARCELO ministrando-nos uma aula fantástica sobre as origens da Música Popular Brasileira (MPB) e seus movimentos. Depois da pertinente apresentação do musicógrafo, cabe ao poeta finalizar este capítulo com versos cordelizados e ainda com uma informação histórico-erudita sobre o surgimento da pauta constante das partituras e do nome das notas musicais.

E, assim como nós temos vários instrumentos trazidos de outras plagas e utilizados pelos nossos músicos, existem, noutros lugares, também instrumentos diferentes como a balalaika russa.

O quarto capítulo desta parte inicial do livro é a exposição de um importante perfil biobibliográfico do célebre poeta/cantador nordestino Patativa do Assaré (grande expressão da cultura popular brasileira), com quem o autor conviveu artisticamente. Em seguida – homenageando o saudoso menestrel cearense, com o magnífico folheto/cordel “A Chegada de Patativa do Assaré ao Paraíso” – o bardo RUBENIO MARCELO arremata brilhantemente em versos este tópico iniciado em prosa.

Finalizando esta primeira parte da obra, RUBENIO brinda-nos com uma providencial ODE AOS CANTADORES. Confirma, com uma amostragem de “casos folclóricos da cantoria e do cordel”, a essência do espírito criativo e irreverente dos poetas-cantadores-repentistas. Os “causos” são, pois, muito divertidos e demonstram o seu hilariante modo de ser.

SEGUNDA PARTE
 

A segunda parte do REINO ENCANTADO DO CORDEL – A CULTURA POPULAR NA EDUCAÇÃO constitui-se de melodiosos poemas/cordéis de Rubenio Marcelo, belos versos insculpindo fecundas mensagens pedagógicas sobre os mais variados assuntos. E eu aqui tecerei apenas breves comentários sobre alguns deles.

Inicia-se com uma notável poesia alusiva à revolução de 64 e à edição do AI-5. Em seguida, uma outra sobre a paixão nacional pelo futebol: sentimento este que faz com que a gente brasileira sinta-se muito feliz quando a nossa seleção ganha os jogos que disputa. Então cessam as manifestações de descontentamento contra os problemas do cotidiano e as reclamações sobre as dificuldades da vida.

AS FACES SECRETAS DAS PALAVRAS é uma bem-elaborada poesia didática que ensina, em versos, as classes gramaticais e seus respectivos significados. Certamente será bem trabalhada e aplicada em salas de aula.

O autor demonstra o seu profundo conhecimento da língua portuguesa e a sua cultura pode ser classificada de onímoda e enciclopédica.

CANT´ELEGIA PARA CADA UM DOS TRIPULANTES DA COLUMBIA – Poema merecidamente premiado em concurso internacional.

FRÍGIDA EFÍGIE – Outro texto de RUBENIO MARCELO também vencedor de festival (campeão da XVII Noite Nacional da Poesia - maio/2004).

MADRIGAIS – Primoroso poema em versos decassílabos, no qual o autor mostra seu lirismo e seu romantismo.

GALOP(E)LEGIA – Outra composição muito interessante, com uma manifestação de sentimento nostálgico de um tempo passado. Tocante e belo.

OUTUBRO VERMELHO – Um esplêndido cordel-livre-poético que aborda forte mensagem em nove estrofes eivadas de sonoridade e cadência.

POETA CANTADOR – É outra poesia curiosa, pelo que revela de cultura erudita e de citações históricas de sua terra natal, onde ressuma e se percebe a sua alma de poeta.

Há, entre os diversos poemas, alguns cuja tônica é a expressão da aspereza do cotidiano e certa dosagem de amargura existencial.

RUBENIO MARCELO é um poeta e escritor de inspiração permanente. Seus versos brotam de seu cérebro e também de seu coração e de sua alma como as águas de uma cachoeira, impetuosamente, catadupa de palavras, numa caudal sem fim, onde aborda, ora temas históricos, ora temas contemporâneos, ora temas mitológicos, ora temas astronômicos. Numa versatilidade extraordinária, verseja também sobre o seu passado e o presente, percorrendo – com altivez e denodo – sua peregrinação harmônica pelo tempo e pelo espaço, na senda iluminada desta arte admirável que é a Poesia.
 


Zorrillo de Almeida Sobrinho
(Da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras)

 

 

 

 

31/08/2005