Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 

A saga de um predestinado menestrel

 


“Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.”

 

Ao escrever estes versos, em julho de 1843 (em Coimbra, Portugal), parece que o emérito bardo Antônio Gonçalves Dias estava mesmo a receber desígnios transcendentais, envolto em profundos presságios que o impulsionaram, assim, a introduzir esta premonitória sextilha-prece finalizando o seu emblemático poema intitulado Canção do Exílio, que – mitificado através dos tempos – é certamente o texto poético mais cantado e conhecido da nossa literatura, além de ser também o mais parodiado e ter inclusive emprestado alguns versos para o nosso Hino Nacional Brasileiro.

A propósito, se analisarmos por completo a bucólica “Canção do Exílio” do mais ilustre escritor maranhense, notamos claramente que esta derradeira estrofe, destacada acima, foge do contexto dos seus outros dezoito versos anteriores, que tratam de exaltar – com altivez – as belezas naturais da terra brasileira: "Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá. / As aves, que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá. / Nosso céu tem mais estrelas, / Nossas várzeas têm mais flores, / Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores. / Em cismar, sozinho, à noite, / Mais prazer encontro eu lá. / Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá. / Minha terra tem palmeiras, / Que tais não encontro eu cá; / Em cismar – sozinho, à noite - / Mais prazer encontro eu lá. / Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá.” Já a sextilha supracitada, como afirmei anteriormente, muda o rumo psico-contextual do poema, inserindo de inopino um fecho carregado de languidez e pressentimento.

Teria sido este detalhe um simples e natural sopro da inspiração elegíaca que envolvia o saudoso poeta, ou havia algo mais a moldar o chão vatídico destas palavras?

O certo é que, vinte e um anos após insculpir estes versos, por ironia do destino ou não, Gonçalves Dias morreria sem ver concretizado esse seu plangente ‘pedido’ e, portanto, sem poder avistar novamente – como ele havia chegado a imaginar quando poeticamente exilado em terras portuguesas – as suas tão queridas palmeiras da Terra dos Sabiás. Na noite de 3 de novembro de 1864, o predestinado vate seria vítima fatal do naufrágio do navio francês Ville de Boulogne, que o trazia da Europa para o Brasil e afundou, após quase dois meses singrando os mares, ao se chocar com arrecifes nas paragens de Atins, costa do Maranhão, a poucas milhas do final do percurso. A uma pequena distância da terra firme, toda a tripulação conseguiu escapar a nado do desastre, menos o poeta, que – à época com 41 anos de idade e tuberculoso – dormia no porão do brigue e não acordou para perceber a tragédia da qual seria o único morto.

Assim, mergulhando para sempre no neptunino reino, perecia o insigne rapsodo brasileiro, talvez tranqüilo e feliz e sonhando alegremente com o seu pátrio lar, a sua decantada Pindorama (como os indígenas denominavam o Brasil), a sua Terra das Palmeiras, ali tão próxima (e tão distante), encoberta pela negridão da noite.

Assim, sucumbia, em meio aos traiçoeiros parcéis das águas escuras, aquele que foi o grande nome do Romantismo no nosso país e que, além de poeta, diplomata, historiador, etnógrafo e prosador, foi também membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, membro da Real Academia das Ciências de Lisboa, do Instituto Dramático de Coimbra, e da Sociedade dos Antiquários do Norte.

Como um Moisés dos mares, não teve, portanto, o nosso Gonçalves a mesma sina do lusitano Camões, que – certa vez, naufragado nas águas litorais do Camboja – conseguira salvar-se e ainda, nadando a um braço só, salvar o manuscrito d’Os Lusíadas.

Assim, irônica e caprichosamente, não se cumpria a última estrofe da eterna Canção do Exílio: “Não permita Deus que eu morra / Sem que eu volte para lá / (...)”.

Quis o destino que o proceloso acaso interrompesse o curso daquela embarcação. Quis o fado misterioso e inclemente que a súplica gonçalvina fosse em vão.
 

 

Gonçalves Dias

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30/08/2005