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Rubênio Marcelo


 

Fragmentos de mim


Tarde brumosa sem crepúsculo,
Sem encantamento no infinito...
Tal qual esse contido grito
Que há tanto tempo acumulo.
Navalhas cortam o meu músculo,
Dilacerando um peito aflito.
Na minha cabeça, um monolito
Esmaga um corpo sem estímulo.
... E a tarde morre, lentamente,
Ao som de um sino condolente
Em badaladas de cilício...
E eu, em cisalhas de tormentos,
Tento juntar meus fragmentos
E adiar o meu suplício!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Rubênio Marcelo


 

"Húmus sapiens"


Eu venho tecendo o soez desatino
Das lânguidas almas vilipendiadas.
Fatidica(mente), venho de jornadas,
Pisando as pedras de fogo do destino;
Eu trago retinas assaz maceradas
E, nas minhas mãos, essas nódoas mundanas...
No peito, agruras, geenas tiranas,
Soluços arfantes em fráguas danadas.
Tateando a esmo, em trilha brumal,
Com riso irreal que ninguém mais engana,
Sou vã criatura liliputiana;
Sou da tez insana o núncio feral,
Haurindo meu húmus irracional
Na senda letal desta espécie humana...

 

 

 

Ticiano, Magdalena

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Efer Cilas dos Santos Jr

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Rubênio Marcelo


 

O tempo e o templo


Tecendo as têmporas
temerárias do temporal
e as temporárias
têmperas terçãs,
temporizei as tristes
tênebras temporãs,
tranqüilizando-me nesse
templo tabernal...
E teleguiando,
telepaticamente, meus
translúcidos talismãs,
entre térebras terríveis e
telúricos tobogãs,
tentando não tiritar nessa
tenda de telhas-vãs,
tracejei, em transe, minha
terna trilha
transcendental!

 

 

 

Psi, a penúltima

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Renata Palottini

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Rubênio Marcelo


 

Soneto aos meus filhos


Não há no mundo seres mais singelos
Nem mais formosos que meus pequeninos.
Não há no prado aroma igual ao deles,
Nem, no universo, astros mais divinos!
Suas faces douram os rios cristalinos;
E falenas giram, festivas, ao vê-los...
Os seus sorrisos são doces anelos
Que desabrocham sonhos repentinos.
Quão linda a imagem desses dois meninos,
Quando me abraçam com ternura assaz,
Irradiando mil prelúdios de paz!...
Somente eles, nos meus desatinos,
Afastam as incertezas do meu ser
E trazem alento para o meu viver!

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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João Batista Oliveira Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rebecca at the Well

 

 

 

 

 

Rubênio Marcelo


 

Soneto da libertação


Jamais se desapegue da esperança
Que alenta seu espírito e seduz;
Mantenha sempre viva a confiança
E a fé na grã vitória com Jesus!
Se cada um carrega a sua cruz,
Depois da tormenta vem a bonança;
Por trás da nuvem negra brota a luz
Pra aquele que persiste e não se cansa.
Por isso, nunca pense em fraquejar!
E se abismos, acaso, vislumbrar,
Não tema, confie na libertação!
Pois todos que esperam no Senhor
Renovarão suas forças, ante a dor,
E, com asas, como águias subirão...

 

 

 

Crepúsculo, William Bouguereau (French, 1825-1905)

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Marco Aqueiva

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Rubênio Marcelo


 

Soneto fraternal


Da vida mundana não se leva nada!
É... Nada se leva da lida insana;
Somente os frutos da amizade lhana
É que dão sentido à nossa jornada.
Leais amizades são como estrelas
Que projetam brilho com eficiência.
Todos são cientes da sua existência,
Mesmo algumas vezes não podendo vê-las.
Real amizade é semente-avatar
Que a Mãe Natureza gera, diligente!
Por isso afirmo, conscientemente:
Todo bom amigo tem brilho estelar!
Amigo é prelúdio para se gravar
No lado esquerdo do peito da gente!

 

 

 

Leonardo da Vinci,  Study of hands

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José Carlos A. Brito

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

Rubênio Marcelo


 

Visões estelares
(Ou “Um Soneto Para Duas Estrelas”)


No negro infinito, oh bela estrela!...
Oh linda aquarela que faz recordar
De outra estrela, radiante, tão bela...
Garbosa donzela: estrela-do-mar!
Formosa ninfeta. Perfeita donzela,
Oh! leda gazela, magia estelar!
Olhar que fazia meu mar sem procela;
Só ela era a guia do meu estradar.
Ah! Estela do mar, que um dia em segredo
Jurou-me – sem medo, com brilho ardente –
Ser minha somente, até em degredo!
Mas hoje, tão longe, consciente/mente,
Rebrilha ausente com lume sem fim,
Qual estrela celeste distante de mim...

 

 

 

Henry J. Hudson, Neaera Reading a Letter From Catallus

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Leontino Filho

 

 

31/08/2005