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Mirian, aliás, Susana; Ajunt-Hotel; Ayrton e outros e outros e outros
são eventos que desconstroem a maior parte do ensinamento da Poesia
divulgado em todos os nossos manuais de Teoria da Literatura. Quem o vê/ouve
declamando seus poemas se convence logo de que ele é uma encarnação
poética, que carrega dentro de si e irradia poeticidade em estado
puro. Essa experiência premiou-me, há algum tempo, um banho
de frescor sem igual. Confesso, que no momento, ignoro de onde jorra a
fonte, e em que mar ela vai parar.
O certo é: eu que saí de lá (Canadá) estou
recebendo aqui nos trópicos esse choque agradável como alguém
que foi quase empurrado de Sertão a dentro pela violência
poética de Soares Feitosa. Sua poesia trabalha entidades maravilhosas:
auroras inéditas, esplendor da infância, fauna e flora da
região das Secas, epopéias insuspeitadas de misteriosos itinerantes,
e - em contraste - a petulância do capitalismo selvagem.
Todavia, emerge uma propensão à Cantata, uma Cantata-Poema ou um Poema-Cantata, de múltiplas vozes, regulado por uma alternância rítmica onde se enfiam de forma espiralada historinhas que puxam historinhas e digressões que se tornam temas fundamentais do Ser e do Existir. Um dialogismo que não acaba, um processo diruptivo no seio de uma profunda continuidade. O novelo da escrita se desenrola, sempre se desenrola, de par com a mesma força impulsionadora, isto é, sempre sertenejando, no entanto sempre diferente pelo tom musical, pelo aprofundamento dos incidentes regionais, conduzindo-nos vertiginosamente para a residência da Vida e dos Valores imperecíveis.
Sem dúvida uma poeticidade forte circula nessas páginas onde
consegue fazer a abertura máxima no acidente mínimo, seja
esse acidente de geografia ou de eventos. Palpita a presença de
Dioniso e Apolo, a sensibilidade de um homem que fala para todos os Homens,
todas as idades, todas as eras.
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Os poemas da Besta
Soares Feitosa é um fenômeno neste final de milênio. Surpreendeu, há 2, 3 anos atrás, com uma emergência repentina de poeta cinqüentão; agora nos últimos dozes meses, Feitosa perturba a ordem poética vigente empurrando os escritores da página-papel para a página-tela. Antes, contentava-se em construir poemas multidimensionados, com incremento de tonalidade gráfica e cromática. Agora incursiona, verdadeiro Steven Spielberg da arte literária, no terreno exótico da crítica, do ensaio. É claro que não se deve esperar aqui uma leitura te(le)ológica, reforçada de princípios teóricos postos à prova, e de notas eruditas de pé de página. Soares Feitosa ressuscita — como se ela jamais tivesse sumido da história literária! — essa imperdível crítica dos criadores em que se ilustram para nosso prazer quase todos os melhores poetas, ficcionistas e dramaturgos do hemisfério ocidental. A fórmula a qual Feitosa veio a se filiar é a de Anatole France, dando o crítico um flâneur, narrando a aventura de sua alma por entre as obras primas do Universo.
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