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Thiago de Mello

thiago.de.mello@uol.com.br

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia :


Ensaio, crítica, resenha & comentário:


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Fortuna crítica:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan Banks, USA, Hanna

 

Albrecht Dürer, Head of an apostle looking upward

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

Thiago de Mello



Biografia

 

Thiago de Mello é o nome literário de Amadeu Thiago de Mello, nascido a 30 de março de 1926, na pequenina cidade  de Barreirinha, fincada à margem direita do Paraná do Ramos, braço mais comprido do Rio Amazonas, no meio do pedaço mais verde do planeta: a Amazônia.
 

O poeta, ainda criança, mudou-se para capital, Manaus, onde iniciou seus primeiros estudos no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e o segundo grau no então Gyminásio Pedro II.
 

Concluído os estudos preliminares mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade Nacional de Medicina. Por lídima vocação, ou por tara compulsiva, como ele prefere, abraçou o ofício de poeta abandonando o curso de medicina para se entregar, por inteiro, ao difícil e duvidoso (em termos profissionais) caminho da arte poética.
 

Vivia-se o glamour dos anos 50, num Rio de Janeiro capital do país, ditando para todo Brasil não só as questões de cunho político, mas sobretudo, os eventos artísticos e acontecimentos da produção literária. Hegemonia mantida até hoje mas compartilhada com a cidade de São Paulo e seu efervescente ambiente cultural. 


Em 1951, com o livro Silêncio e Palavra, irrompe vigorosamente no cenário cultural brasileiro e de pronto recebe a melhor acolhida da crítica. 


Álvaro Lins, Tristão de Ataíde, Manuel Bandeira, Sérgio Milliet e José Lins do Rego, para citar alguns nomes ilustres, viram nele e em sua obra poética duas presenças que, substanciosas e duradouras, enriqueceram a literatura nacional. 


"... Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer", escreveu Sérgio Milliet.
 

O correr dos anos só fez confirmar suas qualidades e justificar os elogios com que fora recebido pela intelligentsia brasileira. O amadurecimento permitiu ao poeta mergulhar profundamente as raízes da sensibilidade e da consciência crítica na rica seiva humana de um povo ao mesmo tempo tão explorado, tão sofrido e tão generoso como o nosso, e sua poesia, sem perder o sóbrio lirismo que a inflamava, ganhou densidade e concentração, pondo-se por inteiro a serviço de relevantes causas sociais.
 

Faz Escuro, mas eu Canto; A Canção do Amor Armado; Horóscopo para os que estão vivos, Poesia Comprometida com a minha e a tua Vida; Mormaço na Floresta; Num Campo de Margaridas realizam, por isso, a bela síntese do poeta e do homem que jamais se deixou ficar indeciso em cima do muro de confortável neutralidade. O poeta e o partisan eram uma só pessoa, dedicada sem medir esforços ou riscos à luta pela emancipação do homem, tanto dos grilhões que injustas estruturas do poder econômico-político  lhe impõem quanto das limitações com que individualismo, ignorância ou timidez lhe tolhem os passos.
 

A biografia de um poeta assim concebido e a tanto cometido não poderia jamais desenvolver-se num plano de tranqüila rotina. A de Thiago de Mello teve, por isso mesmo, suas fases sombrias e borrascosas, realçada por arbitrária prisão e longo e doloroso exílio da pátria a que tanto ama e serve.
 

Essas provações, que enfrentou com a serena firmeza de quem as sabe inevitáveis e delas não foge, enriqueceram-no ainda mais como poeta e ser humano. Alargando sua weltanschauung, permitiram-lhe comprovar o acerto de sua intuição de que o geral passa pelo particular e de que, como dizia seu grande colega Fernando Pessoa, tudo vale a pena/ se a alma não é pequena.
 

No livro mais recentemente publicado, De Uma Vez Por Todas, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazônia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.


Endereço postal:


Rua da Frente, s/n
69.000-000 - Barreirinha - AM, Brasil


Remetente: Aníbal Beça

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba,

Thiago de Mello



Bibliografia


 

(O poeta Thiago de Mello e o webmaster do Jornal de Poesia, jornalista Soares Feitosa, 25.11.2000, chegando às margens do Encontro das Águas, 1º Encontro Amazônico de Poesia Latino-Americana. Em seguida, sobre os Rios encontrantes os poetas também encontrantes recitaram e confraternizaram à latinidade. (22 a 26.11.2000) Veja mais notícias em encontro de Manaus



Livros de Poemas de Thiago de Melo:

  • Silêncio e Palavra, Edições Hipocampo, Rio de Janeiro, 1951.
    Narciso Cego, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1952.

  • A Lenda da Rosa, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1956.

  • Vento Geral(reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa Acqua e Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório), Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1960.

  • Faz Escuro mas eu Canto, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1965. 14a edição, 1993.

  • A Canção do Amor Armado, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1966. 7a edição, 1993.

  • Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1975. 7a edição, 1991.

  • Os Estatutos do Homem(com desenhos de Aldemir Martins), Editora Martins Fontes, São Paulo, 1977. 6a edição, 1991.

  • Horóscopo para os que estão Vivos, Edição de luxo, ilustrada e editada por Ciro Fernandes, Rio de Janeiro, 1982.

  • Mormaço na Floresta, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1984. 3a edição, 1993.

  • Vento Geral, Poesia 1951-1981, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1981. 3a edição, 1990.

  • Num Campo de Margaridas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1986.

  • De uma vez por todas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1996.

Prosa:

  • Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao Rio Amazonas e seus barrancos, Ministério da Educação, 1957. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989.

  • A Estrela da Manhã, Estudo de um poema de Manuel Bandeira, Ministério da Educação, Rio de Janeiro, 1968.

  • Arte e Ciência de Empinar Papagaio, BEA, Manaus, 1984, edição de luxo. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1985.

  • Manaus, Amor e Memória, Suframa, Manaus, 1984, edição de luxo. 2a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 4a edição, 1989.

  • Amazonas, Pátria das Águas, Edição de luxo, bilingue (português e inglês), com fotografias de Luiz Cláudio Marigo. Sverner-Bocatto, São Paulo, 1991.

  • Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1992.

  • O Povo Sabe o Que Diz, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2a edição, 1993.

  • Borges na Luz de Borges, Pontes Editores, São Paulo, 1993.

No Exterior:

  • Madrugada Campesina, Arco CEB, Santiago do Chile, Tradução de Armando Uribe, 1962.

  • Poemas, Tradução de Pablo Neruda, ilustração de Eduardo Vilches, edição de luxo, fora do comércio, 1962.

  • Horóscopo, Edição Mario Toral, Santiago do Chile, 1964.

  • Os Estatutos do Homem, Edições ITAU, Lisboa, 1968.

  • Los Estatutos del Hombre, Club de Grabado, Montevideo, 1970.

  • What Counts is Life, Geo Pflaum Publisher, USA, 1970. 2a edição, 1972.

  • Canto de Amor Armado, Ediciones Crisis, Buenos Aires, 1973.

  • Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, Moraes Editora, Lisboa, 1975.

  • A Canção do Amor Armado, Moraes Editora, Lisboa, 1975.

  • Dio Statuten des Menschen, Peter Hammer Verlag, Wuprttal RFA, 1976.

  • Gesang der Bewffneteten Lieben, Peter Hammer Verlag, Wuperttal, RFA, 1984.

  • Os Estatutos do Homem, divulgação do Correio da Unesco, tradução para mais de trinta idiomas, 1982.

  • Poesia de Thiago de Mello, Casa de Las Américas, La Habana, Cuba, 1977.

  • Chant de l'amour Armé, Cerf, Paris, 1979.

  • Amazonas, Land of Water, Tradução de Charles Cutler, In The Massachusets Review, USA, 1986.

  • Statutes of Man, Selected Poems, Tradução de Richard Chappel, Spenser Books, London, England, 1994.

Traduções:

  • Antologia Poética de Pablo Neruda, Letras e Artes, Rio de Janeiro, 1963.

  • A Terra Devastada e os Homens Ocos, de T.S. Eliot, edição bilingue, fora de comércio, Santiago do Chile, 1964.

  • Salmos, de Ernesto Cardenal, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1983.

  • Poesia Completa de Cesar Vallejo, Philobiblion, Rio de Janeiro, 1985.

  • Sóngoro Cosongos e outros poemas, de Nicolás Guillén, Philobiblion, Rio de Janeiro, 1986.

  • Debaixo dos Astros, Poesia de Eliseo Diego, Hucitec, São Paulo, 1994.

  • Versos do Capitão, de Pablo Neruda, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2a edição, 1994.

  • Cântico Cósmico, de Ernesto Cardenal, Hucitec, São Paulo, 1996.

Discos:

  • Poesias de Thiago de Mello, Discos Festa, Rio de Janeiro, 1963.

  • Die Statuten des Menschhen, Cantata para orquestra e coro, música de Peters Jansen, RFA, 1976.

  • Thiago de Mello, Palabra de esta América, Casa de las Américas, La Habana, 1985.

  • Mormaço na Floresta, locução do autor, Som Livre, Rio de Janeiro, 1986.

  • Os Estatutos do Homem e Poemas Inéditos, Edições Paulinas, Rio de Janeiro, 1992.


Remetente: Aníbal Beça


 

   

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Slave market

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Sânzio de Azevedo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

Thiago de Mello


 

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony



Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964


 

   

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Grief of the Pasha

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Anderson Braga Horta

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

Thiago de Mello



O animal da floresta


De madeira lilás (ninguém me crê)
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.


 

   

 

Sophie Anderson, Portrait Of Young Girl

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José Louzeiro

 

 

11/05/2006