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William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Culpa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sandro Botticelli, Saint Augustine, Ognissanti's Church, Firenze

Hildeberto Barbosa Filho

 


 

Fico mui grato e orgulhoso por integrar a lista de “nomes amados na Paraíba” no que tange à produção literária local, a compor, juntamente com Zé Lins, Augusto dos Anjos, Zé Américo, Ariano Suassuna, Paulo Pontes e outros, a fileira inicial de livros da biblioteca do Padre Martinho, figura central do seu romance, Relato de Prócula (São Paulo, Girafa, 2009).

A propósito de biblioteca, enquanto experiência afetiva e intelectual, vibrei com a imagem do seu narrador, Rubens Betancurt, ao colocar na voz do protagonista, em diálogo com Corrinha, estas palavras, na página 165: “(…) Eu cultivava o crescimento da biblioteca como a construção de uma hidrelétrica da inteligência, no sertão árido”. Fique sabendo, pois, que, diferente do seu personagem, continuo a construir minha particular “hidrelétrica da inteligência”, pouco me lixando para a capacidade armazenativa e virtual do Google. Livros, estantes, coleções, sobretudo edições raras resumem meu maior fetiche. Porém, não me considero um bibliófilo, a exemplo de José Mindlin, pois não tenho finanças para tal. Sou, sim, como você, um leitor voraz, obsessivo, onívoro, doentio, patológico…

Aliás, com esta afirmativa/confissão, retomo o tema que me interessa: seu romance, sua literatura. Você, à maneira de um Jorge Luís Borges e de um Rubem Fonseca, principalmente o Rubem do Bufo & Spallanzani, em que pesem as diferenças e semelhanças entre um e outro, é um escritor da leitura, das associações, do debate de idéias, da imaginação erudita, do fôlego informativo, enfim, da capacidade de misturar, na caldeira fervente da intertextualidade, os mais distanciados tópicos da cartografia literária, descortinando, como um malabarista dos motivos estéticos e culturais, o diferente no semelhante e o semelhante no diferente, em puro exercício das mais ousadas abstrações filosóficas.

Este me parece um traço estilístico e ao mesmo tempo estrutural de suas estranhas e impactantes narrativas. Está lá no Israel Rêmora ou o sacrifício das fêmeas, em A batalha de Oliveiros, no Shake-up, na História universal da angústia e, em especial, em A verdadeira estória de Jesus, obra esta que, de certa maneira, se prolonga e se completa com O relato de Prócula. A este traço geral, intrínseco ao seu modus operandi de escritor-leitor, junto um outro que considero essencial. Penso, aqui, na aptidão que você revela em devassar o ficcional no corpo da realidade mas também a pele ou as vísceras do real no corpo da ficção, fazendo da criação literária e também da vida literária espaços da mais legítima e surpreendente fantasmagoria.

No Relato de Prócula há muito dessa fusão, sobretudo quando o narrador (que é você e não é você!) põe, no palco transfigurado do texto literário – tecido labiríntico de pulsões, imaginação e sensibilidade – episódios, paisagens, acontecimentos e pessoas reais. Só que desta feita, submetidos à lógica translógica de uma gramática anti-imperativa, isto é, a gramática estética, avessa, portanto, aos cordames do dogma e às barreiras das determinações.

Dentro desse viés que me agrada muito, pois sou daqueles que acreditam que existe um fio secreto ligando tudo e, ao modo de Nietzsche, adepto do eterno retorno e da transmutação de todos os valores, destaco, no seu novo romance, além do ponto seminal (qual seria o ponto seminal?), a pertinente e formidável associação entre a vida de Jesus e a de Virgulino, o Lamíão. Nesse pormenor, você me lembra o escritor norte-rio-grandense e pernambucano, Carlos Newton Júnior, com Vida de Simão e Quaderna, espécie de romance-tese ou tese-romance de índole armorial, cômico-picaresca, surreal, neobarroca e transfigurativa, em cima de A pedra do reino, de Ariano Suassuna. E lembra não somente por este aspecto pontual.

O plumitivo Astier Basílio, misto de poeta, jornalista, dramaturgo e crítico de todas as linguagens, em matéria publicada no Jornal da Paraíba, ressalta o caráter ensaístico de sua prosa romanesca. É verdade: você realiza, de fato, com este e com outros romances de sua lavra, uma ficção híbrida, uma ficção misto de ensaio-narrativa e de narrativa-ensaio como poucos na literatura brasileira. Talvez um Fernando Monteiro, poeta e escritor recifense, pertencente à Geração 65, possa se aproximar de seu modelo literário.

Mais do que ensaio, no entanto, pesa-me mais a palavra idéias. Há em você algo de Dostoievski, na medida em que seus personagens (veja Martinho, Dr. Atêncio, Seu Horácio, Corrinha e Rubens Betancurt, o narrador, principalmente) me parecem seres atormentados e perseguidos por determinadas idéias. Como no autor russo, o diálogo importa mais que a ação, as múltiplas vozes se entrechocam como se fossem encenações num palco absurdo, e as personas sofrem porque pensam, porque negam ou porque acreditam nos enigmas do mundo e da vida. Martinho, por exemplo, debatendo-se entre as contradições do cristianismo, tenta superar os conflitos da tese e da antítese pela síntese do suicídio como um pequeno Deus pelo avesso. Não lembra as teses de Kirilov, em Os demônios? As idéias, sim, são seus personagens mais concretos!

Outra fonte do ensaísmo que se entranha em suas páginas reside naquilo que, salvo engano, o formalista russo,Victor Chilosvki, denominou de o “desnudamento do processo”. Espécie de making of, de bastidor da cena literária, como se fora um daqueles cadernos de apontamentos que Dostoievski escrevia como roteiros de seus romances, de acordo com Joseph Frank, o mais equipado biógrafo do autor de Crime e castigo, o desnudamento do processo abre caminho para a obsessão mais evidente da literatura moderna e pós-moderna. Refiro-me à reflexão metalingüística, a essa coisa que se tornou como que um modismo de poetas e ficcionistas que, em lugar de dizerem alguma coisa nova sobre a realidade, de construírem um universo que dê conta dos limites e deslimites da realidade, falam narcisicamente do processo de criação. Seu Rubens Betancurt entra um pouco nessa, mas sabe se conter, operando, qual um teórico barthesiano, lúcidas e brilhantes reflexões acerca do alcance da palavra ficcional. Dou um exemplo para comprovar. Em diálogo com o Dr. Atêncio, à página 16, afirma o narrador: “ – Acho que tenho uma imagem melhor para a ficção (…) Para mim, ela é como a miragem de poças que vemos no asfalto, em dias quentes. Falsas… mas refletindo tudo… realisticamente”.

A metalinguagem se acumplicia, como diria o crítico José Mário da Silva, lá de Campina Grande, com a técnica intertextual das citações, alusões, referências etc.. Às vezes este procedimento me parece excessivo (ora, não nego que exista uma poética do excesso! Aliás, quando Padre Martinho diz a Corrinha que a nossa poesia parece “magra e tímida como Drummond”, “seca” feito João Cabral e “mirradinha” como Bandeira, à página 164, não concordo com ele. O Padre esquece, por exemplo, um Jorge de Lima, um Tasso da Silveira, um Augusto dos Anjos, um Nauro Machado, um Alexei Bueno e tantos outros. Excesso, excesso, e nem por isto poetas menores).

Dizia: este procedimento me parece excessivo e não raras vezes fruto deslocado de certa engenhosidade técnica própria de quem domina um vasto mapa de leituras, peculiar a quem usa e abusa de uma competência livresca, pictórica, musical e cinematográfica. Você, permita-me a franqueza, tem neste metier um estilema típico de sua aventura romanesca e poética. Quero crer que o leitor comum (será que existe de fato essa categoria? Wellington Pereira, também ficcionista, lá de Sumé, considera a ambivalência dessa classificação), sem referências, pode ser confundido e achar seu texto uma salada de esnobismos e pedanterias. E, afinal, muitos escritores sustentam, grandes escritores (Zé Lins, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Balzac, Herman Melville, Dostoievski, sempre Doistoievski), que escrevem para o público-leitor, não para seus pares e muito menos para os críticos, esses chatos de galocha, esses artistas frustrados!

No entanto, meu caríssimo Solha, já não consigo concebê-lo escritor sem essa nota especial de seus recursos técnico=literários e estilísticos. Particularmente gosto dos seus porres de erudição quilométrica, das suas citações infinitas, dessa mathesis, ainda para referir Roland Barthes no famoso texto da Aula, de hermético e caleidoscópico conteúdo. A cena (posso falar em cena, uma vez que seus textos possuem a agilidade das imagens cinematográficas) em que Padre Martinho participa do programa de Jô Soares, respondendo tudo sobre cinema com matemática precisão, me parece emblemática. Imaginei comigo: Padre Martinho Libório não perde nem para Ivan Cineminha! Que delícia para um anônimo cinéfilo como eu!

Finalmente, grande Solha, seu romance, tendo tudo isso, é muito mais que isso. Nele também existe o sentido da perscrutação existencial, o primado das grandes e eternas questões, a busca angustiada e vezes delirantemente poética pela verdade das coisas. Se Apolo, como Deus das artes, preside as virtualidades do narrador, a sinuosidade da trama, Dionísio, por sua vez, pulsa na fábula e no sangue que corre nas veias dos seus personagens. Depois de ler Relato de Prócula, devo voltar, desta vez mais armado, ao intenso debate a respeito da vida de Jesus, encenado nas páginas de Ernest Renan, de Giovanni Papini, de Plínio Salgado e de José Saramago. Como você vê: seu livro me devolve ou me leva a outros. Eu que, como Montaigne, “(…) Não viajo sem livros nem na paz nem na guerra”.

Sem mais, por enquanto, um forte abraço.

Hildeberto Barbosa Filho

 

 

 
Conceição Paranhos

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Vera Queiroz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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1.11.2009